Fidelidade (Humberto de Campos)

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Fidelidade
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


Foi à porta da matriz da Glória que a conheci, pelo Natal. De longe, da escadaria do templo, eu lhe havia visto a figura graciosa emergir, pouco a pouco, da verdura do jardim. Era um maravilhoso tipo de brasileira: estatura mediana, olhos negros, morena, e uma boca petulante, de quem mata os beijos no nascedouro. O colo, forte e harmonioso, denunciava a mulher que conheceu, já, os mistérios do amor sem o suplício da maternidade. E tão suave cadência tinha no andar, que, quando começou a subir a escada, todo eu me embalava, como se ouvisse, com os ouvidos da alma, o ritmo de uma grande orquestra encantada.

Dentro, no templo, consegui examinar-lhe, melhor, os traços delicados da formosura. O nariz, era correto e fino: a tez, sem artifícios, era branda, e cetinosa, sem as queimaduras que as tintas costumam deixar. Possuía lindas mãos de dedos afilados, as quais voltavam, de instante a instante, as páginas claras de um pequeno missal de madrepérola.

À saída, acompanhei-a. Mulher nenhuma havia deixado em mim, até então, uma profunda impressão de honestidade. Sentia ímpetos de beijar-lhe as mãos, de joelhos, como se faz diante dos oratórios.

Tomamos o mesmo bonde, o das Águas Férreas. A paixão que aquela criatura me inspirava era de tal ordem, que eu, informado de que ela era esposa divorciada de um terceiro marido, me propunha, uma semana depois, a ser o seu quarto esposo, embarcando para Montevidéu, onde nos casamos de acordo com as leis do país.

De regresso, eu ia para a cidade, a bonde, quando me encontrei com o comendador Bonates, que, segundo soube pelas explicações da minha esposa, era velho amigo da família. Sem dar-lhe notícias do meu passo, resolvi pedir-lhe informações sobre a minha mulher.

— Ah! a Gerusa, não? Conheço-a muito. Conheço-a desde menina.

— Bom coração?

— Coração admirável!

— Belo espírito?

— Inteligentíssima!

— Leal?

— De uma dedicação sem nome.

— Fiel?

— Um modelo no gênero.

E com entusiasmo:

— Tão fiel, que perdeu o primeiro marido, perdeu o segundo, separou-se do terceiro e está em vésperas de arranjar um quarto, e sempre com o mesmo amante! Os maridos passam, e o amante fica!

E apertou-me as mãos, suado, pronto para descer.