Foi das Onze mil Donzelas

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As festas de cavallo que fez no terreyro estrondosamente Gonçallo Ravasco Cavalcante singular juiz das onze mil virgens com assistencia deste principe. A quem o poeta obsequêa, remoqueando a seu antecessor: como tambem obsequêa a Andre Cavallo, e outras pessoas nomeadas.
por Gregório de Matos

1Foi das Onze mil Donzelas
Juiz o Juiz mais nobre
de quantos no Brasil cobre
o manto azul das estrelas:
nesta festa sem cautelas
gastou com liberal mão,
e para mais devoção
usar de Escrivão não quis,
sendo o primeiro Juiz,
que serviu sem escrivão.

2Bem mostra, que de Bernardo
tem herdado o natural,
além de ser principal
o seu ânimo galhardo:
aplausos grandes aguardo,
e de Camena melhor,
que publiquem seu primor,
que a minha Talia nova
hoje admirações aprova
por mais heróico louvor.

3Seis dias de cavaleiros
houve com bastante graça,
foram bons, e maus à praça
em ginetes, e sendeiros:
também houve aventureiros,
prêmios, e mantenedor,
touros, que foi o melhor,
porém sem ferocidade,
que os touros nesta cidade
não são de muito furor.

4E pois coronista sou
desta grã festividade,
tenho de falar verdade,
e dizer, o que passou:
agaste-se, quem andou
mal, que a mim se me não dá:
sem saber, não foram lá,
e se lhe der isto espanto,
quando eu fizer outro tanto,
também de mim falará.

5Bem sei, que é culpa fatal,
e contra a razão soçobra
dizer mal, de quem bem obra,
e bem, de quem obra mal:
mas nesta festa cabal
com meu fraco entendimento
aos cavaleiros intento
julgar sem ódio nenhum,
aplaudindo a cada um
conforme o merecimento.

6Nestes dias festivais
com suma gala, e grandeza
assistiu toda a nobreza
dos homens mais principais:
Ministros, e Oficiais
de guerra e Damas mui belas,
que em palanques, e janelas
mostravam com arrebol,
que estando ali posto o sol,
bem podiam ser estrelas.

7Posto o sol ali se via
porém com notável gosto,
quando vi, que era o sol posto,
mais o Terreiro luzia:
dois sóis postos na Bahia
vi com diferença atroz,
um Saturno, que se pôs
outro posto na janela,
Sol de luz mais clara, e bela,
que hoje nasce para nós.

8Desterrando sombras mil
de um sol, que causou desmaios,
nasce com benignos raios
este Sol para o Brasil:
oh quem tivera a sutil
de Apolo Lira discreta,
da Fama aguda Trombeta,
para que pudesse ousado
sem temor, nem perturbado
descrever este Planeta.

9Mas é fraco o meu engenho,
para de um Sol sem desmaios
querer ventilar os raios,
quando olhos d'águia não tenho;
e se a tão sublime empenho,
(onde o mais sábio delira)
meu pensamento subira,
logo dessa esfera clara
como Faetonte rodara,
ou como Ícaro caíra.

10Quando o Planeta maior
à vista humana se expõe,
é, que a seus raios se opõe,
atrevido algum vapor:
e se neste sol melhor
nenhuns eclipses se vêem,
não se atreverá ninguém
(sem ter de néscio desmaios)
querer contemplar os raios
esclarecidos, que tem.

11Quando da estéril Mulher
nasceu o maior do mundo,
admirações, e profundo
pasmo veio a gente ter:
e se com João nascer
houve tanta admiração:
à Bahia outro João
sol de claro nascimento
nasce com merecimento
pare a mesma suspensão.

12E como não pasmarei
eu, e este Povo também
de ter por General, quem
cetro merece de Rei?
pois a ventura, e a lei
divina dispôs, Senhor,
o seres Governador,
contudo sabemos nós,
que um foi dos vossos Avós
de Pedro progenitor.

13Daquele em tudo primeiro
João, em nada segundo
sois, e bem conhece o mundo,
descendente verdadeiro:
também da casa de Aveiro
muita nobreza alcançais:
Alencastre vos chamais
de Duarte Inglês potente
claríssimo descendente,
Silva sois, e nada mais.

14Com branca, e encarnada pluma
galã vestido de verde,
que inda a esperança não perde
do neto da clara espuma:
Capitão de graça suma
André Cavalo saiu:
logo o Povo se sentiu,
porque de incidente novo
os olhos levou do Povo,
quando no Terreiro o viu.

15Num branco bruto corria
mais ligeiro do que o vento,
tanto que co pensamento
correr parelhas podia:
veloz desaparecia
das pernas ao leve abalo,
e não podia julgá-lo
o Povo, que ali se achava,
se era vento, que levava
pelos ares o Cavalo.

16Pôs André com bizarria
todas as lanças mui bem,
e inda assim não faltou, quem
murmurasse todavia:
soube ele da zombaria,
que se fez, e persentiu,
quem fora, o que ali se riu,
e no outro dia com brio
um cartel de desafio
pôs, mas ninguém lhe saiu.

17No cartel, que pôs, mostrava,
que a qualquer que julgassem
três lanças, que se tirassem,
mil cruzados ofertava:
o delinqüente aceitava
o desafio esta vez,
porém que sem interês
com gosto perder queria
nesta contenda, e porfia
não só mil cruzados, três.

18Pede licença, ao Senhor,
que no nome a graça traz:
mas ele como sagaz
o aconselha com primor:
diz-lhe, que fora melhor
esta contenda escusar;
porém o Mancebo alvar
fiado em ser cavaleiro,
e fiado em ter dinheiro
não quis o pacto aceitar.

19Porque se não vence não
(dizia o Moço Magnata)
nem por ouro, nem por prata
o seu sangue de Aragão:
e vendo o Senhor D. João,
que se a licença negava,
a André Cavalo ultrajava,
pois podiam presumir,
se ao campo o não vissem ir,
que o dinheiro lhe faltava:

20Lhe disse, que não só três
(se corressem) mil cruzados,
senão que depositados
tinha André Cavalo dez:
mas o moço Aragonês
vendo esta resolução,
por temer a perdição,
a que punha o seu dinheiro,
toma conselho primeiro
co reverendo Frisão.

21O Padre, que sem estudo
as Leis entende civis,
e com manhosos ardis
obra mal, e sabe tudo:
lhe diria mui sisudo
com aspecto venerando,
rindo-se de quando em quando,
que assim seus enganos lavra,
não se lhe dê da palavra,
diga, que estava zombando.

22Assim foi, que o desafio
veio a parar em burrada,
que a palavra não val nada,
se na ocasião falta o brio:
e para que com desvio
não fossem mais inimigos,
evitando alguns perigos
em boa paz os chamou
o General, e tratou,
de que fossem muito amigos.

23Depois das pazes enfim
lhes pediu, que cavalgassem,
e um par de lanças tirassem
cada qual em seu rocim:
ele lhe disse, que sim,
e de improviso avisou
ao Irmão, que não tardou
em trazer-lhe bons arreios,
cavalos, selas, e freios,
e com eles se embarcou.

24Num dia dos derradeiros
ao Terreiro os dous chegaram,
e ambos se separaram,
logo dos mais cavaleiros:
cuidam, que são os primeiros
Fidalgos, que a terra tem,
e néscios não antevêem,
que diz o Povo, e não erra,
se são Fidalgos da terra,
na terra há outros também.

25Empinou-se-lhes a ruça,
e de quatro companheiros
sem mais outros cavaleiros
fizeram a escaramuça:
o General se debruça
para metê-los bem nela
na janela com cautela,
porém usou de revoltas,
porque metendo-os nas voltas,
mandou cerrar a janela.

26A escaramuça acabada
fizeram a cortesia,
e todo o Povo se ria
vendo a janela fechada:
nas voltas não viram nada,
que com notável trabalho
no ay hombre cuerdo a cavalo,
porém depois que acabaram,
e o General não acharam,
ficaram de vinha-d'alhos.

27Cos rostos descoloridos,
desesperados agora
iam por dentro, e por fora
da própria cor dos vestidos:
os que são desvanecidos,
e de néscia presunção
presumem mais, do que são,
emendem seus pensamentos,
que para seus desalentos
e vivo o Senhor D. João.

28Não presumam, porque têm,
que são mais que os pobres nobres,
pois há muitos homens pobres,
mui bem nascidos também:
ao pequeno não convém
por pequeno desprezar,
que se este quiser falar,
achar pode algum defeito
que nenhum há tão perfeito,
em quem se não pode achar.

29Seguia-se um cavaleiro
ao famoso André Cavalo,
que levou sem intervalo
de cada golpe um carneiro:
também foi aventureiro
de um prêmio: mas com defeito
dava ao corpo um grande jeito,
e ficou passado, e absorto,
de que fosse ao prêmio torto,
e o prêmio a outro direito.

30Ao famoso Brás Rabelo
razão é de mestre o apode,
que dar dias santos pode
nesta arte, ao que for mais belo:
e se com louco desvelo,
do que digo, algum se abrasa,
escute a razão, que é rasa,
e verá, se faz espantos,
que dar possa os dias santos,
quem tem Domingos de casa.

31Nas lanças, que pôs mui bem,
teve de prêmios ganança,
e certo, que pela Lança
não o há de vencer ninguém:
dos cavaleiros, que tem
modernos hoje a Bahia,
leva Brás a primazia,
porque não há nesta praça,
quem se ponha com mais graça,
fortaleza, e bizarria.

32Também aquela fatal
emulação de Mavorte,
para os inimigos forte
para os amigos Leal,
aplauso merece igual,
pois nesta cavalaria,
se aos mestres não excedia,
por mais antigos na arte,
aos Modernos desta parte
ele leva a primazia.

33Também no Machado falo,
que e razão por ele acuda,
pois sempre ao cavalo ajuda,
mas não o ajuda o cavalo:
inda assim posso louvá-lo,
dando-lhe vários apodos,
porque conheço em seus modos,
e mui bem posso afirmar,
que nisto de cavalgar
leva vantagens a todos.

34Em mau cavalo corria,
mas um prêmio mereceu;
veja-se, quem o perdeu,
que cavaleiro seria:
aposto, que alguém diria,
vendo, que as carreiras passa
sem fortaleza, nem graça,
que o Moço com seu sendeiro
é nos fumos cavaleiro,
porém não cá para a praça.

35Outro cavaleiro airoso
andou na festividade,
e vi na velocidade,
com que corre, ser Veloso:
por cavaleiro famoso
o Povo o aclamou de novo,
eu só admirando o louvo,
e acho discrição calar,
que é escusado falar,
quando por mim fala o Povo.

36O Ripado valeroso
andou bem, porém sem sorte,
porque tem pouco de forte,
se bem tem muito de airoso:
perdeu pouco venturoso,
mas sem nenhum sentimento,
um prêmio, que Brás atento
ganhou, porque não se atreva
a aquilo, que também leva
com as palavras o vento.