Frases Galantes

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Frases Galantes
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


Um dos romances de Joaquim Manuel de Macedo tem um personagem, o comendador Sancho, sexagenário, elegante e galanteador, que, antes de qualquer baile, escolhia e decorava, sempre, uma frase para dirigir às senhoras. Como não fosse, porém, de imaginação fértil, procurava uma expressão alheia, empregando-a na primeira oportunidade. Na festa em que o romancista no-lo apresenta, a mania do comendador é dizer a toda moça que lhe dá o braço:

— Vossa Excelência é o sol!

E satisfaz-se com isso, como o personagem do Eça, imitado, na tela, pelo Silvano do "film" "Não troqueis vossos maridos", que se contenta com dizer às mulheres de que se acerca:

— Se eu fosse o Rei, dar-lhe-ia três coisas: o Prazer, a Riqueza e o Amor...

Dessa classe de elegantes sem imaginação, o mais curioso foi, porém, o Manuel Felismino, tornado incomparavelmente célebre pelas suas calinadas de salão.

Manuel Felismino estava, em certa festa familiar, encostado a uma janela, que deitava para o jardim, quando ouviu ao seu lado uma senhora dizer, apontando o céu, a um cavalheiro com quem palestrava:

— Olhe, doutor, aquela estrela... Que luz brilhante; não acha?

E logo, em seguida:

— O doutor não gosta do brilho das estrelas?

O moço, que era um galanteador pertinaz, atalhou, pronto:

— Gosto, sim senhora; mas gosto muito mais do brilho dos olhos de Vossa Excelência!

Manuel Felismino achou bonita a expressão e preparava-se para empregá-la oportunamente, quando anunciaram o jantar. Todos se encaminharam para o salão, e ele com os demais, ocupando automaticamente a primeira cadeira que lhe indicaram.

Começavam os convivas a alegrar-se, conversando alto, quando a dona da casa, que servia, ela própria, os seus convidados, veio ter à cadeira de Felismino, sustentando na mão uma travessa de galinha assada. Ao vê-lo com o prato vazio, a distinta senhora indagou, gentil:

— O senhor gosta de perna de galinha; Sr. Felismino?

O rapaz irradiou alegria, glória, felicidade. Era a hora da frase providencial. E sem perder tempo, voltou-se, rápido, num grande sorriso:

— Oh, minha senhora gosto muito... Mas gosto mais, muito mais, da perna de Vossa Excelência!...

Dois segundos depois Felismino estava na rua, encostado a um poste, limpando com um lenço o "smoking" novo, besuntado de gordura de galinha.