Fui por amante ferido

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Queyxa-se de que lhe não valessem finezas para que Antonia o admitisse.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaA Cidade e seus PícarosAntônia
Mote

Fui por amante ferido,
por firme fui maltratado,
por constante desprezado,

e por leal ofendido.


1Quando esperava gozar
favores de uma tirana,
o tempo me desengana,
para dela me queixar:
portanto não quero amar
porque já tenho entendido,
que amar é tempo perdido:
bem o tenho exprimentado,
pois em vez de ser amado,
Fui por amante ferido.

2Mostrei-lhe minha firmeza,
de mostrá-la resultou,
que logo também mostrou
de seu amor a dureza:
se bem disto me não pesa,
nem me sinto magoado,
mas fico bem emendado,
para mostrar-lhe com fé
minha firmeza, porque
Por firme fui maltratado.

3Além de mostrar-me amante,
em constâncias lhe mostrei,
mas bem conheço, que errei,
em mostrar-me tão constante:
não serei mais ignorante,
que o Amor me tem mostrado
os males, que me há causado:
nem constância quero ter,
para que não venha a ser
Por constante desprezado.

4Lealdade sem respeito
nunca teve bom lugar,
porque não soube guardar
a lealdade defeito:
eu me dou por satisfeito,
e aceito por bom partido
ser por amante ferido,
por firme ser maltratado,
por amante desprezado,
E por leal ofendido.