Hamlet: drama em cinco actos/Acto quinto/Cena I

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Hamlet: drama em cinco actos por William Shakespeare, traduzido por Luís I de Portugal
Acto quinto, Cena I


PRIMEIRO COVEIRO

Ouve-me ainda; a agua está aqui, o homem está acolá; muito bem, o homem vae encontrar a agua e se afoga; forçosamente morre por seu motu proprio; nota isto bem. Mas se, pelo contrario, é a agua que vem encontrar o homem, e elle se afoga, então já não é elle que procura a morte; ergo, aquelle que não é culpado na sua morte, não poz termo voluntariamente á vida.

SEGUNDO COVEIRO

Mas será lei?

PRIMEIRO COVEIRO

É a lei que preside ao inquerito do magistrado.

SEGUNDO COVEIRO

Queres que te diga o que penso? Se a defunta não fosse senhora de qualidade, de certo não a enterravam em chão sagrado.

PRIMEIRO COVEIRO

É bem verdade o que dizes; é triste que as pessoas de qualidade tenham, a mais dos outros christãos seus iguaes, o direito de se afogarem e de se enforcarem. Vamos sempre cavando! Não ha nobreza mais antiga que a dos jardineiros, lavradores e coveiros; seguem a profissão de Adão!

SEGUNDO COVEIRO

Pois Adão era nobre?

PRIMEIRO COVEIRO

O primeiro que usou armas!

SEGUNDO COVEIRO

Deixa-te d'isso, não consta que as tivesse!

PRIMEIRO COVEIRO

Sempre és um pagão! como comprehendes tu então a escriptura sagrada? A escriptura diz que Adão trabalhava o solo; como poderia elle trabalhar sem pá ou enxada? Essas eram as suas armas. Vou fazer-te outra pergunta, se não me responderes com acerto, não és mais que um....

SEGUNDO COVEIRO
Asno! continúa.
PRIMEIRO COVEIRO

Quem é que construiu mais solidamente que o pedreiro, carpinteiro e constructor de navios?

SEGUNDO COVEIRO

O constructor do cadafalso, porque sobrevive a innumeros hospedes.

PRIMEIRO COVEIRO

Boa resposta, palavra de honra. Cadafalso é bem achado; mas para quem se fez o cadafalso? para os que fazem o mal; ora, tu fizeste mal em dizer que o cadafalso é mais solido que a igreja, logo merecias o cadafalso. Vamos, procura e responde.

SEGUNDO COVEIRO

Agora eu! Quem é que construiu mais solidamente do que o pedreiro, carpinteiro e constructor de navios?

PRIMEIRO COVEIRO

Dize tu primeiro, eu cá já sei.

SEGUNDO COVEIRO

Tambem eu.

PRIMEIRO COVEIRO

Vejamos.

SEGUNDO COVEIRO

Nada, não atino.

HAMLET e HORACIO apparecem ao fundo
PRIMEIRO COVEIRO

Basta de tratos ao teu cerebro; escusas de pensar mais, ficas sempre na mesma. Quando alguma vez te fizerem essa pergunta, responde: «É o coveiro; as moradas que construe duram até ao dia de juizo». Agora vae a casa de Vaughan e traze-me um copo de licor.(O segundo coveiro sáe, cantando.)

Quando eu era mancebo e quando amava
      Tudo era para mim rapido goso,
Sómente noite e dia andava ancioso
      Por o tempo matar que me matava.

HAMLET
Pois este homem não terá consciencia do que está fazendo, cantando assim, quando cava uma sepultura?
HORACIO

O habito tudo póde.

HAMLET

E verdade, a mão pouco afeita ao trabalho tem o tacto mais delicado!

PRIMEIRO COVEIRO (cantando)

Mas a idade chegou, passo furtivo
Nas gastadoras garras me ha tomado,
E assim, mau grado meu, me ha condemnado
A viver entre a morte, morto-vivo. (Desenterra uma caveira.)

HAMLET (apontando para uma caveira)

Houve tempo em que esta cabeça tinha uma lingua e cantava; agora este rustico fal-a rolar pelo solo, como se fosse a mandibula de Caim, o primeiro homicida. O craneo que este imbecil trata com tão pouco respeito, era talvez de algum profundo politico, que se julgava até capaz de impor a sua opinião o proprio Deus, não é verdade?

HORACIO

Tudo póde ser, senhor.

HAMLET

Ou talvez de algum cortezão cujo prestimo unico fosse repetir: «Deus seja comvosco, como está, meu senhor?» É talvez o craneo do sr. fulano, que gabava o cavallo do sr. cicrano, com a idéa que este lh'o désse, não é verdade, Horacio?

HORACIO

Sim, meu senhor!

HAMLET

Deve assim ser! Agora pertence aos vermes; não tem nem pelle, nem sangue, nem carne, e este coveiro fende-o com a sua enxada. Eis uma estranha revolução, assim a comprehendessemos bem. Joga-se a bola com esses ossos, como se nada tivessem custado a formar. Sinto estalar os meus só pensando-o.

PRIMEIRO COVEIRO (cantando)

Uma enxada e uma pá logo em seguida,
Um lençol que amortalha o corpo todo,
Um buraco depois feito no lodo,
Eis ao que se reduz a humana vida. (Desenterra outra caveira.)

HAMLET

Eis um outro craneo; quem sabe se não seria de um jurisconsulto. Agora acabaram as trapaças, as distincções subtis, as causas, as auctoridades legaes e as finuras. Em vida, de certo não consentia sem um processo que este imbecil lhe percutisse o craneo com a enxada. Porque não lhe intenta agora uma acção por vias de facto e sevicias? Quem sabe, talvez fosse um nedio comprador de bens immoveis, com os seus direitos, rendas, privilegios, hypothecas e contratos. Eil-o agora elle mesmo hypothecado, tem o privilegio commum a todos os mortaes, de ver a sua cabeça coberta de pó e terra. Pois que! todas as acquisições tão bem garantidas, não terão outro complemento senão assegurar-lhe um espaço apenas igual á superficie de dois contratos de venda? Todos os seus titulos mal caberiam n'este cofre, e comtudo é hoje a sua unica propriedade. Ah!

HORACIO

Unica, senhor!

HAMLET

Horacio, o pergaminho faz-se de pelles de carneiro, não é verdade?

HORACIO

Tambem de bezerro.

HAMLET

São pois os carneiros e bezerros que fazem fé em taes titulos. Vou interrogar este rustico. A quem pertence essa cova?

PRIMEIRO COVEIRO

A mim!

(Cantando)

Um buraco depois feito no lodo,
Eis ao que se reduz a humana vida.

HAMLET

Effectivamente, creio ser tua, pois que estás dentro d'ella.

PRIMEIRO COVEIRO

O senhor está fóra, logo não é sua; mas apesar d'ella não me ser destinada, é comtudo minha.

HAMLET

Mentes, é para um morto, e não para um vivo.

PRIMEIRO COVEIRO
Eis um desmentido prompto e que não admitte replica.
HAMLET

Para que homem cavas essa cova?

PRIMEIRO COVEIRO

Senhor, não é para um homem!

HAMLET

Para que mulher então?

PRIMEIRO COVEIRO

Nem tão pouco para uma mulher!

HAMLET

Quem será pois depositado n'esta cova?

PRIMEIRO COVEIRO

Uma pessoa que foi mulher, hoje é defunta; Deus se compadeça da sua alma.

HAMLET

Que agudeza no seu positivismo! é preciso fallar-lhe com toda a clareza, para não ser por elle enredado. Por Deus, Horacio, que noto ha tres annos que o mundo se torna retrogrado, e o rustico se approxima tanto do cortezão, que quasi se confundem. Ha quanto tempo és coveiro?

O COVEIRO

Dei-me a este officio desde o dia em que o defunto rei Hamlet venceu a Fortimbraz.

HAMLET

Quanto tempo haverá?

O COVEIRO

Não o sabe? Pois não ha imbecil que lh'o não diga. Foi no mesmo dia em que nasceu o joven Hamlet, aquelle que enlouqueceu, e foi mandado para Inglaterra.

HAMLET

É isso; e porque o mandaram para Inglaterra?

O COVEIRO
Ora, porque? porque estava louco; talvez lá recupere a rasão, e se não a recuperar, tambem não se perde muito.
HAMLET

E porque?

O COVEIRO

Não será visto aqui, e lá todos são tão loucos como elle.

HAMLET

Como enlouqueceu elle?

O COVEIRO

De um modo bem estranho, segundo dizem.

HAMLET

Mas de que modo?

O COVEIRO

É claro, perdendo a rasão.

HAMLET

E qual foi o motivo?

O COVEIRO

Um motivo dinamarquez, um motivo d'este paiz em que sou coveiro desde a infancia, ha trinta annos.

HAMLET

Dize-me, quanto tempo póde um homem estar enterrado, antes de apodrecer?

O COVEIRO

Se não está já podre antes de morrer (porque temos n'esta epocha muito corpo gangrenado, que mal supporta a inhumação), póde conservar-se de oito a nove annos; um surrador conserva-se nove annos.

HAMLET

Porque mais tempo que os outros?

O COVEIRO

O exercicio da sua profissão cortiu-lhe de tal modo a pelle, que fica impermeavel por muito tempo, e de certo sabe que a agua é o mais activo destruidor dos cadaveres. Vê esta caveira? Ficou vinte e tres annos debaixo da terra.

HAMLET
De quem era?
O COVEIRO

De um typo original; ora, quem lhe parece que seria?

HAMLET

Como posso eu sabel-o?

O COVEIRO

Leve-o o diabo. Lembro-me ainda do dia em que me vasou sobre a cabeça um frasco de vinho do Rheno. Esta caveira, senhor, era de Yorick, o bobo do rei.

HAMLET

Este craneo?

O COVEIRO

Sim, este mesmo.

margin:1em 0;

Dá-m'o, deixa-me vel-o. Pobre Yorick! Conheci-o, Horacio, era uma mina inexgotavel de ditos engraçados; tinha uma imaginação viva e fecunda! quantas vezes me levou aos hombros! agora ao pensal-o annuvia-se-me o coração. Aqui estavam os seus labios, em que tantos osculos depuz. Onde estão agora os teus sarcasmos, as tuas replicas, as tuas canções, esses rasgos de alegria, que promoviam a hilaridade de todos os convivas? Que! pois ninguem já póde rir com as tuas facecias? Descarnadas estão as faces. Vae, entra como agora estás, na alcova de alguma beldade da moda; dize-lhe então que arrebique e enfeites nada lhe valem, porque um dia será igual a ti. Fal-a rir, dizendo-lh'o. Dize-me tu, Horacio...

HORACIO

O que, meu senhor?

HAMLET

Julgas tu que Alexandre, depois de enterrado, se parecesse com Yorick?

HORACIO

De certo!

HAMLET

E que tivesse tão mau cheiro? Fóra! (Deita fóra o craneo.)

HORACIO
Sem duvida alguma, senhor.
HAMLET

A que destinos grosseiros é possivel baixarmos, Horacio? Quem sabe se, proseguindo nas suas successivas transformações, as cinzas de Alexandre não estão hoje empregadas em tapar um barril?

HORACIO

Seria entrar n'um exame demasiado minucioso.

HAMLET

Não concordo. Podemos seguir seriamente esse exame, e com probabilidades de obter um resultado. Por exemplo, Alexandre está morto, Alexandre está sepultado, Alexandre tornou-se pó; o pó é terra, da terra tira-se argilla, e quem impede que esta argilla, ultima metamorphose de Alexandre, seja empregada como batoque n'um barril de cerveja? O imperial Cesar, morto, tornou-se pó, e serve talvez para vedar uma fenda e interceptar a passagem do ar; e essa argilla, que espalhava o terror sobre o universo, vae calafetar um muro para impedir que o vento passe. Mas, silencio: afastemo-nos, chega o rei: (Entram processionalmente padres, levando á mão o caixão de Ophelia; segue-se Laerte e o cortejo funebre, mais atrás o rei, a rainha e a côrte) e tambem a rainha! toda a côrte! A quem prestarão os ultimos deveres? De quem será este funeral incompleto? Tudo denuncia um suicidio. Deve porém ser pessoa de categoria! Occultemo-nos e observemos, Horacio. (Afastam-se um pouco Hamlet e Horacio.)

LAERTE

Que ceremonias falta cumprir?

HAMLET

Olha, é Laerte, um nobre mancebo.

LAERTE

Ha mais alguma cousa que fazer?

PRIMEIRO PADRE

Fizemos já para o seu funeral tudo quanto nos era licito fazer; a sua morte tinha um caracter suspeito, e se ordens superiores não tivessem imposto silencio aos canones da Igreja, teria sido sepultada em chão profano, onde teria ficado até que a acordasse o clarim do juizo final. Em vez de orar por ella, teriamos lançado sobre o seu corpo tições, entulho e pedras; e comtudo coroaram-n'a como virgem, e flores cobriram a sua campa, e o tanger do bronze sagrado acompanhou-a á sua ultima morada.

LAERTE

Então nada mais se póde fazer?

PRIMEIRO PADRE

Mais nada; profanariamos o rito sagrado se entoassemos um requiem, ou se implorassemos para ella o repouso destinado ás almas que voaram ao céu santamente.

LAERTE

Seja pois o seu corpo depositado na campa, e possam d'elle e da sua carne, pura e sem manha, desabrochar violetas! Sou eu que t'o digo, padre sem alma, minha irmã gosará no céu a bemaventurança eterna, emquanto que tu extorcer-te-has no inferno nas convulsões do supplicio dos condemnados.

HAMLET

Que? É pois a bella Ophelia?

margin:1em 0;

Flores para esta joven flor. Adeus! Esperava ver-te esposa do meu Hamlet; contava, encantadora donzella, enfeitar o teu leito nupcial; nunca pensei espargir flores sobre a tua sepultura.

LAERTE

Oh! que uma triplice e dez vezes triplice maldição cáia sobre a cabeça do scelerado que commetteu tão negra acção, e provocou a perda da sua rasão. Esperem que, antes que a terra a cubra, a estreite mais uma vez nos meus braços (salta para dentro da cova). Agora enterrem conjunctamente vivos e mortos, elevem sobre nós uma montanha que exceda em altura o antigo Pélion, ou o azulado Olympo, cujo cimo vem beijar as nuvens.

HAMLET (adiantando-se)
Quem é que na sua dor se exprime com tanta emphase; cuja voz detem os astros no seu giro, attonitos de o ouvirem? Sou Hamlet, o dinamarquez! (Arremessa-se á cova.)
LAERTE (lançando-se a elle)

O inferno se apodere da tua alma!

HAMLET

É um abominavel desejo: larga-me a garganta, retira as mãos, abaixo, aconselho-t'o eu; não sou nem mau, nem arrebatado, mas é perigoso excitar-me, e obrarás assisadamente pensando assim. Abaixo as mãos!

O REI

Separem-os.

A RAINHA

Hamlet! Hamlet!

TODOS

Senhores!

HORACIO

Contenham-se.

HAMLET

Por um tal motivo sinto-me capaz de combater com elle até ao ultimo alento.

A RAINHA

Meu filho, qual é o motivo?

HAMLET

Amava Ophelia, e as affeições juntas de quarenta mil irmãos não poderiam igualar a minha; (a Laerte) e que serias tu capaz de fazer por ella?

O REI

Deixa-o, Laerte, está louco.

A RAINHA

Pelo amor de Deus, não faça caso das suas palavras.

HAMLET

Vamos, dize-me, que tencionas tu fazer? Prantear, combater, jejuar, rasgar tuas proprias carnes, beber o Issel todo, devorar um crocodilo? Tudo farei. Vieste aqui para te lamentar, para me desafiar, precipitando-te dentro da sua cova; enterra-te vivo com ella, outro tanto farei; e já que fallaste em montanhas, accumulem ellas sobre nós tanta terra, que o cume da nossa pyramide tumular toque a zona ardente, e ao pé d'ella o monte Ossa não pareça mais que uma verruga. Pódes encolerisar-te, que não me assustam os teus furores.

A RAINHA

É um accesso de loucura que durará algum tempo; depois, similhante á meiga pomba acalentando os filhinhos, ficará silencioso e immovel.

margin:1em 0;

Dize-me, porque me tratas assim? Sempre fui teu amigo. Mas não importa. Aindaque Hercules se oppozesse, se o gato miasse, o cão havia de ladrar (afasta-se).

O REI

Siga-o, peço-lhe, meu caro Horacio. (Horacio segue Hamlet) (a Laerte) Tem paciencia, lembra-te da nossa conversação de hontem, (Á rainha) Querida Gertrudes, faça com que velem sobre Hamlet; (á parte) é preciso dar como monumento a este tumulo uma victima humana. Cedo estarei descansado; até então, paciencia! (Sáem todos.)


SCENA II
Uma sala no castello
Entram HAMLET e HORACIO
HAMLET

Basta sobre esse assumpto; passemos ao outro, recordas-te bem de todas as circumstancias?

HORACIO

Se me lembro, meu senhor!

HAMLET

Uma especie de lucta apoderára-se do meu coração, vedava-me o somno, sentia-me peior que um facinora acorrentado! Adoptando comtudo uma resolução temeraria, achei na temeridade a minha força; lembremo-nos sempre, Horacio, que a imprudencia é muitas vezes o nosso prestante auxiliar, quando os nossos mais profundos calculos são impotentes, e isto