Hamlet: drama em cinco actos/Acto terceiro/Cena I

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Hamlet: drama em cinco actos por William Shakespeare, traduzido por Luís I de Portugal
Acto terceiro, Cena I


ACTO TERCEIRO


SCENA I


Uma sala no castello de Elsenor


Entram o REI, a RAINHA, POLONIO, OPHELIA, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN
O REI

Então ainda não poderam, nas suas conversas com elle, descobrir a causa da desordem da sua intelligencia; d'aquella perigosa e turbulenta demencia que se apoderou do seu espirito e lhe rouba o descanso?

ROSENCRANTZ

Confessa sentir esvaír-se-lhe a rasão; mas não conseguimos que elle nos revelasse a causa.

GUILDENSTERN

Parece pouco disposto a deixar sondar os seus sentimentos. Na sua loucura não o abandona um resto de sagacidade; conserva-se na defensiva todas as vezes que tentâmos encaminhal-o a uma confissão tocante ao seu estado.

A RAINHA

Recebeu-os bem ao menos?

ROSENCRANTZ
Com toda a affabilidade de um homem bem educado.
GUILDENSTERN

Mas evidentemente constrangido.

ROSENCRANTZ

Perguntando pouco, mas respondendo ás nossas perguntas com a maior naturalidade.

A RAINHA

E experimentaram algum divertimento para o distrahir?

ROSENCRANTZ

O acaso fez-nos encontrar no caminho alguns actores; fallámos-lhe n'elles, esta nova pareceu agradar-lhe. Estão aqui no palacio, e creio já terem recebido ordem para representarem esta noite na sua presença.

POLONIO

É verdade, e pede a vossas magestades que assistam á representação.

O REI

Com o maior prazer; estimo vêl-o assim disposto. Queiram estimulal-o, senhores, e dirigir a actividade do seu espirito para estes divertimentos.

ROSENCRANTZ

Assim o faremos. (Sáe com Guildenstern.)

O REI

Deixa-nos tambem, querida Gertrudes. Mandámos chamar secretamente a Hamlet, para como por acaso o pôr na presença de Ophelia. Seu pae e eu, legitimos espias, collocar-nos-hemos de maneira que, sem sermos vistos, assistamos á entrevista e possamos julgar pelas suas palavras, se é um amor infeliz que assim o faz padecer.

A RAINHA

Obedeço retirando-me. Quanto a ti, Ophelia, desejo ardentemente que os teus encantos sejam a feliz causa da demencia de Hamlet; porque terei então esperança que as tuas virtudes o restituirão, a contento de ambos, ao primitivo estado.

OPHELIA
Quanto o desejo, senhora.
POLONIO

Ophelia, passeia aqui n'esta sala; (ao rei) vamo-nos collocar, senhor; (a Ophelia) lê n'este livro; esta leitura simulada servirá de pretexto á tua solidão. Enganâmo-nos tantas vezes, e quão frequentemente acontece, com uma capa de santidade e attitude reservada conseguirmos fazer um santo do proprio demonio!

O REI

Oh é bem verdade; que pungente dor esta observação inflige á minha consciencia! O rosto da prostituta não é mais asqueroso debaixo da mascara do seu arrebique, do que o é o meu crime debaixo do falso verniz do meu discurso. Oh peso terrivel!

POLONIO

Hamlet approxima-se, retiremo-nos, senhor. (O rei e Polonio occultam-se atrás da cortina.)

Entra HAMLET

Ser ou não ser, eis o problema. Uma alma valorosa, deve ella supportar os golpes pungentes da fortuna adversa, ou armar-se contra um diluvio de dores, ou pôr-lhes fim, combatendo-as? Morrer, dormir, mais nada, e dizer que por esse somno pomos termo aos soffrimentos do coração e ás mil dores legadas pela natureza á nossa carne mortal; e será esse o resultado que mais devamos ambicionar? Morrer, dormir, dormir, sonhar talvez; terrivel perplexidade. Sabemos nós porventura que sonhos teremos, com o somno da morte, depois de expulsarmos de nós uma existencia agitada? E não deverei eu reflectir? É este pensamento que torna tão longa a vida do infeliz! Quem ousaria supportar os flagellos e ultrages do mundo, as injurias do oppressor, as affrontas do orgulhoso, as ancias de um amor desprezado, as lentezas da lei, a insolencia dos imperantes, e o desprezo que o ignorante inflige ao merito paciente, quando basta a ponta de um punhal para alcançar o descanso eterno? Quem se resignaria a supportar gemendo o peso de uma vida importuna, se não fosse o receio de alguma cousa alem da morte, esse ignoto paiz, do qual jámais viajante regressou? Eis o que entibia e perturba a nossa vontade; eis o que nos faz antes supportar as nossas dores presentes do que procurar outros males que não conhecemos. Assim, somos cobardes todos, mas pela consciencia; assim a brilhante côr da resolução se transforma pela reflexão em pallida e livida penumbra, e basta esta consideração para desviar o curso das emprezas mais importantes, e fazer-lhes perder até o nome de acção. Mas silencio, vejo a linda Ophelia. Joven beldade, lembra-te dos meus peccados nas tuas orações.

OPHELIA

Como tem vossa alteza passado estes dias ultimos?

HAMLET

Bem, agradeço-te do coração.

OPHELIA

Senhor, tenho dadivas e lembranças suas que ha muito lhe desejava restituir. Permitta-me que lh'as devolva.

HAMLET

Eu! de certo que não, nunca te dei nada.

OPHELIA

O principe sabe perfeitamente que me fez essas dadivas, e as doces palavras que as acompanharam ainda lhes realçaram o valor; agora que perderam todo o seu perfume, tome-as, principe, porque para uma alma nobre, as mais ricas dadivas perdem o seu valor, no momento em que aquelle que nol-as fez só nos mostra indifferença. Receba-as, pois, senhor.

HAMLET

Ah, ah, és virtuosa.

OPHELIA

Meu senhor.

HAMLET

És bella.

OPHELIA

Que diz vossa alteza?

HAMLET

Digo que se és virtuosa e bella, deves evitar toda a communicação entre a tua virtude e a tua belleza.

OPHELIA
Que melhor commercio ha para a belleza que o da virtude?
HAMLET

A influencia da belleza será mais prompta em metamorphosear a virtude em vil cortezã, do que a força da virtude em transformar a belleza á sua imagem. Antigamente seria paradoxo, hoje é um facto provado. Amei-te n'outro tempo, é verdade.

OPHELIA

Vossa alteza bem m'o fez acreditar.

HAMLET

Fizeste mal em acreditar. Porque embora a virtude se inocule na nossa primitiva natureza, sempre nos ficam restos d'ella. Nunca te amei.

OPHELIA

Maior foi o meu engano.

HAMLET

Professa, Ophelia, encerra-te n'um claustro. Para que queres continuar uma raça de peccadores; quanto a mim julgo-me ainda assás honesto; e comtudo podia formular contra mim taes accusações, que melhor teria valido, que minha mãe me não tivesse dado á luz. Sou orgulhoso, vingativo e ambicioso; gero no meu cerebro tantas acções más, que o meu pensamento não basta para as distinguir, nem a minha imaginação para lhes dar uma fórma, e falta-me o tempo para as executar. Que vantagem haverá pois que seres como eu se rojem como reptis entre o céu e a terra? Todos somos infames, não te fies em nenhum homem; vae, recolhe-te a um claustro. Onde está teu pae?

OPHELIA

Em casa, meu senhor.

HAMLET

Que lhe fechem as portas para impedir que represente de louco fóra de casa. Adeus.

OPHELIA

Deus misericordioso, tende piedade de Hamlet.

HAMLET

Se alguma vez te casares, dar-te-hei como dote esta triste verdade. Sê tu fria como o gêlo; se fores pura como a neve a calumnia não te poupará. Entra para um claustro, professa, adeus. Mas se absolutamente precisas um marido, então escolhe um louco, porque os homens assisados sabem em que monstros vós as mulheres os tornaes. Professa, recolhe-te a um convento, mas avia-te. Adeus.

OPHELIA

Poderes celestes, restitui-lhe a rasão!

HAMLET

Tambem ouvi fallar da vossa loquacidade. Deus deu-vos um porte e vós o transformaes por vossa culpa. Saltitaes, requebrae-vos; gestos e affabilidade são artificio, zombaes das creaturas de Deus, e fazeis passar por ignorancia o que é simples e pura affectação. Nem quero pensar em vós, mulheres; foi o que me enlouqueceu. Digo que não teremos mais casamentos, todos que estão casados viverão, excepto um, os outros ficarão como estão. Professa, entra para um convento, vae. Adeus. (Hamlet sáe.)

OPHELIA (só)

Oh que nobre intelligencia está ali desthronada. A perspicacia do homem de côrte, a espada do guerreiro, a palavra do sabio, o futuro d'este reino, o espelho do bom tom, o typo dos modos nobres, o modelo em que todos fictavam os olhos, tudo destruido e destruido sem esperança; e eu, a mais afflicta e infeliz das mulheres, eu que saboreei a inebriante ambrosia dos seus juramentos de amor, estou condemnada a ver essa potente e elevada rasão, similhante ao bronze fendido, não dar senão sons falhos e dissonantes; e tanta belleza e juventude crestadas pelo sôpro da demencia! Oh infeliz, oh desgraçada, que vi o que vi, e vejo o que vejo!!!

Sáem de trás da cortina o REI e POLONIO
O REI

O amor! não é a ella que elle dedica a sua affeição; alem d'isso o seu fallar, aindaque um pouco falto de logica, não tem cunho de loucura. Ha na sua alma alguma dor secreta. Receio algum perigo que nos seja fatal. Para prevenir esse resultado, eis o plano que formei e no qual assentei. Quero que Hamlet parta sem demora para Inglaterra, para reclamar o tributo a que esse paiz se nega e a que é obrigado. Talvez que o mar, a mudança de clima, a vista de objectos novos, lhe restituam a rasão, expulsando do seu coração aquella obstinada preoccupação. Que lhe parece?

POLONIO

Parece-me acertado. Comtudo persisto na minha idéa, que um amor desprezado é a causa unica da sua dor. (A Ophelia) Não precisas referir-nos o que te disse o sr. Hamlet. Tudo ouvimos. (Ao rei) Senhor, faça o que lhe parecer conveniente, mas se me quer dar ouvidos, diga á rainha, que, depois da representação, o chame a sós e inste para conhecer d'elle a causa da sua mágua; porém cumpre que lhe falle severamente: com o vosso assentimento ouvirei escondido toda a conversação. Se a rainha não podér penetrar aquelle espirito rebelde a toda a confidencia, ordene-lhe então a partida, e desterre-o, senhor, para o logar que a prudencia lhe dictar.

O REI

Concordo plenamente comtigo; nos grandes é que a demencia deve ser mais vigiada. (Sáem todos.)