História do Futuro/II/II/VII

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História do Futuro por Padre Antônio Vieira
Volume II, Livro II, Capítulo VII


Conclui-se que o Reino de Cristo é espiritual e temporal juntamente.

Recolhendo tudo o que tão largamente temos disputado (que foi necessário ser tão largamente) e reduzindo a concórdia quanto pode ser as opiniões de todos os Doutores, posto que alguns pareçam entre si contrários, diremos por última conclusão que o Império de Cristo é juntamente espiritual e temporal, e que, segundo estas duas jurdições, ambas supremas, se compõem; a coroa de Cristo, Sacerdote Supremo, e outra coroa de universal Senhor e Legislador in temporalibus, segundo a qual se chama propriamente Supremo Rei.

Este é o Reino universal que Daniel veio dar ao Filho do Homem (que é Cristo), e este o Reino que Nabucodonosor também tinha visto encher o Mundo, posto que não viu nem lhe foi mostrado a quem se havia de dar. Este é o que viu mais distintamente que todos Zacarias na sua terceira visão; porque Nabucodonosor viu somente o Reino e sua grandeza, Daniel viu o Reino e a pessoa que o havia de dominar, e Zacarias viu o Reino e a pessoa, e o número e distinção das coroas. Torno a repetir o texto e suponho a história, pois fica contada no I Livro

Para maior inteligência desta matéria havemos de supor que, deste tempo da Lei da Natureza, andou sempre o morgado temporal unido com o sacerdócio, e um e outro vinculado aos primogênitos. Estas eram aquelas bênçãos tão celebradas e tão pleiteadas que os Patriarcas davam a seus filhos, como foi a que Abraão deu a seu primogênito Isaac, e a que Isaac quis também dar a seu primogênito Esaú, e por indústria de Rabeca foi dada a Jacob. Conforme a este direito de sucessão, havia de dar também Jacob a seu primogênito Ruben a mesma bênção, mas, em castigo da irreverência que tinha cometido contra o tálamo de seu pai, foi privado dela, como lhe disse o mesmo Jacob: Ruben, primogenitus meus, tu fortitudo mea et principum doloris mei, prior in donis major in imperio, effusus es sicut aqua; non crescas, quia ascendisti cubile patris tui et maculasti stratum ejus.

Desde este tempo se dividiram estas duas dignidades que haviam de estar juntas no morgado ou maioria de um só império (major in império) e o reino e o sacerdócio, que havia de andar encabeçado no primogênito de Ruben, se repartiu em dois filhos do mesmo Jacob, que foram Judá e Levi, ficando em Judá a benção do reino, e em Levi a do sacerdócio, como depois se cumpriu, porque na instituicão do Tabernáculo, que precedeu ao Templo, foi ungido por sumo sacerdote Arão, que era do tribo de Levi, e na instituição do reino, depois de o perder Saul, foi ungido por rei de Israel David, que era do tribo de Judá.

Nestas duas descendências de Arão do tribo de Levi e de David do tribo de Judá, se conservou sempre o reino e sacerdócio, até que a tiara e a coroa, ou estas duas coroas, se uniram outra vez em Cristo, Supremo Sacerdote e Supremo Rei, e de ambos se compõe o império (assim o natural como o figurativo) que Ruben tinha perdido, prior in donis, rnajor in imperio. Daqui se entende maravilhosamente o mistério da ascendência e primogenitores de Cristo, os quais, como consta do I capítulo de S. Mateus e do III de S. Lucas, foram reis e sacerdotes, unindo-se por verdadeira geração no sangue santíssimo de Cristo e sua mãe o tribo real de Judá e o sacerdotal de Levi, como gravemente notou e expressamente disse S. Agostinho no livro II de Consensu Evangelisarum, capítulo II. Cum autem evidenter dicat Apostolus Paulus: ex semine David secundum carnem Christum, ipsam quoque Mariam de stirpe David a liquam consanguinitatem duxisse dubitare utique non debemus. Cujus feminae quoniam nec sacerdotale genus tacotur, insinuante Luca, quod cognata ejus esset Elisabeth, quam dicit de filiabus Aaron. Firmissime tenendum est carnem Christi ex utroque genere propagatam, et regum et sacerdotum, in quibus personis apud illum populum Hebraeorum etiam mystica unctio figurabutur...

De maneira que ordenou a Providência Divina que na geração e ascendência de Cristo se tecesse o tribo sacerdotal de Levi com o tribo real de Judá, e que a tela de que se havia de vestir o Verbo, quando se desposou com a natureza humana, fosse lavada de coroas e de tiaras, para que visse o Mundo que, ainda a título de geração natural, era ele o herdeiro legítimo do reino e do sacerdócio, como direito descendente daqueles sacerdotes e daqueles reis que só eram feitos por Deus; o qual mistério (para maior propriedade e majestade dele) se observou até nos escritores da mesma genealogia de Cristo, porque dos quatro animais do carro de Ezequiel que significam os quatro evangelistas, a S. Mateus, que escreveu a geração real, pertence o homem, que é o rei dos animais; e a S. Lucas, que escreveu a geração sacerdotal, pertence o boi, que é o animal do sacrifício, como, depois de S. Jerônimo e S. Gregório Papa, notam comumente todos os Doutores.

O nome de Cristo e de Messias, com que o mesmo Senhor foi chamado e conhecido, antes e depois de vir ao Mundo, foram duas firmas ou assinados públicos de um e outro império sacerdotal e real, temporal e espiritual, entre si unidos. Porque Messias, que é nome hebreu, e Cristo, que é nome grego, ambos têm a mesma significação, como diz S. João no capítulo I; e referindo as palavras de S. André a S. Pedro: Invenimus Messiam (quod est interpretatum Christus) e esta foi uma das erudições em que a Samaritana se mostrou tão letrada: Scio quia Messias venit, qui dicitur Christus. Um e outro nome, assim o de Cristo como o de Messias, quer dizer ungido, e chama-se Cristo ungido, porque foi ungido por Rei e Sacerdote Supremo.

Três ofícios achamos na Escritura Sagrada, que se davam com a cerimônia da unção: o de rei, como ungido, e chama-se Cristo ungido, porque foi ungido Arão, e o de Profeta, como foi ungido Eliseu, e com todas estas unções foi ungido Cristo. Da unção de profeta já dissemos no capítulo VII do I Livro. A de Rei e a de Sacerdote Supremo, que eram as duas maiores, são aquelas por que Cristo principalmente se chama ungido, não porque fosse ungido com aquela cerimônia exterior com que os reis e sacerdotes eram ungidos por mãos dos homens, senão pela unção interior, com que o mesmo Deus o ungiu na união da divindade com a humanidade, como acima dizíamos.

E agora poremos aqui as autoridades dos Padres, que para este lugar reservamos: S. Agostinho no livro e capítulo pouco antes citado: Firmissime tenendum est carnem Christi ex utroque genere propagatam et regum et sacerdotum, in quibus personis illum populum Hebraeorum etiam mystica unctio figurabutur, id est. chrisma, und e Christi nomen elucet tanto ante etiam illa evidentissima significatione praenuntiatum

Resolve-se quando começou este Império de Cristo e propõe-se acerca dele uma grande dificuldade.