Hymno á Dor

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Hymno á Dor
por António Feijó


Aos Condes de Sabugosa

Sorri com mais doçura a boca de quem soffre,
Embora amargue o fel que os seus lábios beberam;
É mais ardente o olhar, onde como um aljofre,
A Dor se condensou e as lágrimas correram.

Sôa, como se um beijo ou uma caricia fôsse,
A voz que a soluçar na Desgraça aprendeu;
E não ha para nós consolação mais doce,
Que o regaço de quem muito amou e soffreu.

Voz, que jamais vibrou num soluço de mágua,
Ao nosso coração nunca pode chegar...
Mas o pranto, ao caír d'uns olhos razos d'agua,
Torna mais penetrante e mais profundo o olhar.

Lábio, que só bebeu na fonte da Alegria,
É frio, como o olhar de quem nunca chorou;
A Bondade é uma flor que se alimenta e cria
Dos resíduos que a Dor no coração deixou.

Em tudo quanto existe o Soffrimento imprime
Uma augusta expressão... mesmo a Suprema Graça,
Dando aos versos do Poeta esse esmalte sublime
Que torna immorredoira a Inspiração que passa.

É por isso que a Dor, sem trégua nem guarida,
Dor sem resignação, Dor de estoico ou de santo,
Só de a vermos passar no tumulto da Vida
Deixa os olhos da gente ennublados de pranto.