Hymno á Solidão

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Hymno á Solidão
por António Feijó


Ao Padre João Ignacio de Araujo Lima


Vive ut vis, sed cum aegrotabis
Justis lachrymis damnabis
Omnes mundi insulas.
O beata solitudo,
O sola beatitudo,
Piis secessicolis!

Cornelius, Martyr.

Diz-se que a solidão torna a vida um deserto;
Mas quem sabe viver com a sua alma, nunca
Se encontra só; a Alma é um mundo, um mundo aberto
Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca.

Mundo vasto que mil existencias povoam:
Imagens, concepções, formas do sentimento,
— Sonhos puros que nelle em belleza revoam
E ficam a brilhar, soes do seu firmamento.

Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra
Esse fecundo chão onde se esconde e medra
A semente que vae germinar na Palavra,
Cantar no Som, florir na Côr, sorrir na Pedra!

Basta que certa luz de seus raios aqueça
A semente que jaz na sua leiva escondida,
Para que ella, a sorrir, desabroche e floresça,
De perfumes enchendo as estradas da Vida.

Sei que embora essa luz nem para todos tenha
O mesmo brilho, o mesmo impulso creador,
Da Glória, sempre vã, todo o asceta desdenha,
Vivendo como um Deus no seu mundo interior.

E que mundo sublime, esse em que elle se agita!
Mundo que de si mesmo e em si mesmo creou,
E em cuja creação o seu sangue palpita,
Que não ha Deus estranho aos orbes que formou.

Nem luctas, nem paixões: ideaes serenidades
Em que o Tempo se esvae sob o encanto da Hora...
O passado e o porvir são ancias e saudades:
Só no instante que passa a plenitude mora.

Sombra crepuscular, que a Noite não attinge,
Nem a Aurora desfaz: rosiclér e luar,
Meia tinta em que a Alma abre os labios de Esphinge,
E o seu mystério ensina a quem sabe escutar.

Mas então, innundando essa penumbra dôce,
De não sei que sublime esplendor sideral,
Como se a emanação d'um ser divino fôsse,
Deixa no nosso olhar um reflexo immortal.

Na vertigem que a vida exalta e desvaria,
Pára alguem para ouvir um coração que bate?
No seio mais formoso, o olhar que se extasia
Vê o mundo que nelle em ancias se debate?

É só na solidão que a alma se revela,
Como uma flor nocturna as pétalas abrindo,
A uma luz, que é talvez o clarão d'uma estrella,
Talvez o olhar de Deus, d'astro em astro caindo...

E d'essa luz, a flôr sem forma, ha pouco obscura,
Recebe o seu quinhão de graça e de pureza,
Como das mãos do artista, animando a esculptura,
O mármore recebe a sua alma--a Belleza.

Se soffrer é pensar, na paz do isolamento,
Como d'um calix cheio o liquido extravasa,
A Dor, que a Alma empolgou, trasborda em pensamento,
E a pouco e pouco extingue o fogo em que se abrasa.

Como a montanha d'oiro, a Alma, em seu mysterio,
Á superficie nunca o seu teor revela;
Só depois de sondado e fundido o minério
Se conhece a riqueza accumulada nella.

Corações que a Existencia em tumulto arrebata!
Esse oiro só se extrae do minério candente,
No silencio, na paz, na quietação abstracta,
Das estrellas do Ceu sob o olhar indulgente...