Hymno á Vida

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Hymno á Vida
por António Feijó


A Agostinho de Campos

Tenho-te medo, embora ignoto amor me traga
Preso a ti, como o feto ao seio em que germina...
Foi por ventura o sol, da espuma d'uma vaga,
Ou Deus que te creou d'uma essencia divina?

Que importa? D'onde quer que o teu sorriso veio,
Quem quer que sejas,--flôr d'inefavel deleite,
D'ódio ou de fel,--és sempre o mesmo augusto seio
Em que a Dor e o Prazer bebem o mesmo leite!

Calix do Sacrificio em que os meus labios ponho!
— Trazendo o Amor e a Morte a servir-te d'escolta,--
Deste ao mundo o licôr do seu primeiro sonho,
O vinho e a embriaguez da primeira revolta!

Sobes do prado em flor, desces dos altos cumes,
Na immarcessivel luz que os orbes incendeia;
Passas no largo vento a derramar perfumes,
Choras no vasto oceano a rebentar na areia!

O teu Genio, que o barro amolda e purifica,
Enleva os corações de jubilo e transporte,
Se no Esqueleto exhibe a tunica mais rica,
Se em Belleza sorri na máscara da Morte:

Teu segredo, que em sangue e lagrimas se envolve,
Mais obscuro se faz quanto mais o investigo;
— Sôpro que tudo cria e que tudo dissolve,
Força occulta, mysterio augusto, eu te bemdigo!

Se, ousado, alguem buscando a tua ignota origem,
O abysmo a perscrutar sobre ti se debruça,
Da treva apenas sae, dissipada a vertigem,
Um immenso clamor que blasphema e soluça!

És o raio de sol, a tempestade e o vento;
Vôo d'ave a cantar na floresta orvalhada;
Ancia no coração, lava no pensamento,
O Amor e o Odio, o Bem e o Mal,--és Tudo e és Nada!

Mão potente, que a rocha endurecida escarva,
Tornando-a em fragil pó d'onde rebentam flores;
Fada occulta que tece o casulo da larva
E aos insectos iria as asas de esplendores...

Beijo d'onde a traição como um veneno escorre;
Riso que se desfaz num amargo travor;
Larga estrada sem fim que a Ventura percorre,
Como um cego a cantar pelo braço da Dor!

Quem quer que sejas,--tudo ou nada,--eu te bemdigo!
Pelo esforço immortal da tua heroica belleza,
Que, no revolto chão do soffrimento antigo,
Deixou tantos padrões e tropheus de grandeza!

Se a alguem o teu mysterio a Esphinge revelasse,
Talvez nunca, a rolar dos planaltos risonhos,
A onda humana através da historia se lançasse,
Erguendo cathedraes e accumulando sonhos!

Por isso eu te bemdigo, Alma que enches o Mundo!
Occulto coração, graça, illusão suprema!
Se tudo vem de ti, d'esse enygma profundo,
— A solução que importa? O que é grande é o problema!...