Inocência (Visconde de Taunay)/VIII

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Inocência por Visconde de Taunay
Capítulo VIII: Os hóspedes da meia-noite


Sei, sim, sei que é noite!

Xavier de Maistre, Viagem ao Redor do Meu Quarto

Não tardou muito que os dois noturnos viajantes começassem a ouvir os latidos furiosos dos cães que, no terreiro de Pereira, denunciavam aproximação de gente suspeita junto à casa entregue a sua vigilante guarda.

—Por aqui perto fica algum rancho, Mochu, avisou o camarada; havemos enfim de descansar hoje .. Mas, que gritaria faz a cachorrada!... São capazes de nos engolir antes que venha alguém saber se somos cristãos ou não... Safa! Que canzoada!... Ó Mochu, o sr. deve ir na frente... rompendo a marcha...

— Você, respondeu o alemão, bate neles com cacete...

—Nada, retrucou José com energia, isso não é do ajuste... Quem está montado, caminhe adiante... Ainda por cima agora essa!

Depois de resmonear algum tempo, exclamou:

— Ah! espere, já me lembrei de uma coisa.. . O filho do velho é mitrado...

E, dizendo esta palavra, de um só pulo montou na anca do cargueiro, que, ao sentir aquele inesperado acréscimo de peso, parou por instantes e com surdo ronco procurou lavrar um protesto.

— Juque, observou o alemão sem a menor alteração na voz, assim burro quebra cadeira. Depois morre... e vóce tem de levar as cargas dele às costas...

Quis o camarada encetar nova discussão, mas a esse tempo chegavam ao terreiro, onde o ataque furioso dos cães justificou a medida preventiva de José, o qual entrou, todo encolhido atrás das cargas, a gritar como um possesso:

—Ó de casa! Eh! lá, gentes! Ó amigos!

Aumentou a algazarra da cachorrada por tal modo, que os tropeiros de Cirino, pousados no rancho próximo, acordaram e bradaram juntos:

—Que diabo é isto? Temos matinada de lobisomens?

Abriu-se nesse momento a porta da casa e apareceu Cirino à frente de Pereira, trazendo este uma vela que com a mão aberta amparava da brisa noturna.

—Quem vem lá? clamaram os dois a um tempo.

—Camarada e viajante, respondeu com voz forte e simpática o alemão, achegando-se à luz e tratando de descer da cavalgadura. Quem é o dono desta casa?

—Está aqui ele, respondeu Pereira levantando a vela acima da cabeça para dar mais claridade em torno de si. -Muito bem, replicou o recém-chegado. Desejo agasalho para mim e para o meu criado e peço muitas desculpas por chegar tão tarde.

Aproximara-se também o José, cuidando logo, no meio de muxoxos e pragas, de pôr em terra a carga do burrinho, o qual amarrara pelo cabresto a uma vara fincada no chão.

—Mas, observou Cirino, que faz o sr. por estas horas mortas a viajar? ...

—Deixe o homem entrar, atalhou Pereira, e acomodar-se com o que achar... Pois, meu senhor, desapeie. Bem-vindo seja quem procura teto que é meu.

—Obrigado, obrigado, exclamou com efusão o estrangeiro.

E, apresentando a larga mão, apertou com tal forca as de Cirino e Pereira que lhes fez estalar os dedos.

Em seguida, penetrou na sala e tratou logo de arranjar os objetos que trazia a tiracolo, colocando-os cuidadosa e metodicamente em cima da mesa, no meio dos olhares de espanto trocados por quantos o estavam rodeando.

Na verdade, digna de reparo era aquela figura à luz da bruxuleante vela de sebo; compridas pernas, corpo pequeno, braços muito longos e cabelos quase brancos, de tão louros que eram.

—Será algum bruxo? perguntou a meia voz Cirino a Pereira.

—Qual! respondeu o mineiro com sinceridade, um homem tão bonito, tão bem limpo!

Entrara José com uma canastra ao ombro e, descarregando-a no canto menos escuro do quarto, julgou dever, sem mais demora, declinar a qualidade e importância da pessoa que lhe servia de amo.

—O sr. aqui é doutor, disse ele apontando para o alemão e dirigindo-se para Cirino...

—Doutor?! exclamou este com despeito.

— Sim, mas doutor que não cura doenças. É alamão lá da estranja, e vem desde a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro caçando anicetos e picando borboletas...

— Borboletas? interrompeu com admiração Pereira.

— Acui cui! Por todo o caminho vem apanhando bichinhos. Olhem... aquele saco que ele traz...

—O meu camarada, avisou com toda a tranqüilidade e pausa o naturalista, é muito falador. Os senhores tenham paciência... Ande, Juque, deixe de tagarelar! ...

—Não, protestou Pereira levado de curiosidade, é bom saber com quem se lida... Então o Sr. vem matando anicetos? mas para que, Virgem Santíssima! ...

—Para quê? retrucou o camarada descansando as mãos na cintura. O patrão e eu já temos mandado mais de dez caixões todos cheinhos lá para as terras dele...

—Depois o pais fica sem borboletas, respondeu Cirino, num assomo de despeitado patriotismo.

—Mas, como é que o sr. se chama? perguntou Pereira, voltando-se para o alemão que estava virado para a parede a contemplar um desses grandes e sombrios lepidópteros, da espécie dos esfinges.

—Juque, disse ele sem lhe importar a interpelação e acenando para o camarada, depressa... um alfinete, dos grandes... dos maiores: . .

—Temos história, avisou José, fazendo expressivo sinal a Cirino, o sr. vai ver...

O naturalista, de posse de um comprido acúleo, fincou-o com segura e adestrada mão bem no meio do inseto, o qual começou a bater convulsamente as asas e girar em torno do centro a que estava preso.

—A pita! A pita! exclamou o patrão. Vamos, Juque,

Satisfez José o pedido, depois de abrir uma malinha, onde ia estavam enfileirados e espetados vinte ou trinta bonitos bichinhos.

— É uma satúrnia .. e não comum, murmurou o alemão fisgando num pedaço de pita o novo espécime, sobre o qual derramou algumas gotas de clorofórmio, de um vidrinho que sacou dum dos muitos bolsos da sobrecasaca.

—O sr. é viajante zoologista, não é? perguntou Cirino, depois que viu terminada a operação.

O interrogado levantou a cabeça com surpresa e respondeu todo risonho:

— Sim, senhor; sim, senhor! Como é que o sr. o soube? Viajante naturalista, sim senhor! Eu vejo que o sr. e muito instruído... Muito bem, muito bem! Muita instrução!

E, abrindo uma carteira de notas, escreveu logo umas linhas tortuosas.

—Ah! este também é doutor, disse Pereira com certo orgulho por hospedar em sua casa sabichão de tal quilate.

—Oh, doutor? doutor!? Muito bem, muito bem. Doutor que curra ?

—Sim, senhor, respondeu com gravidade o próprio Cirino.

— Ah! ... Ah! muito bem.

Pereira, porém, voltara à carga.

—Mas, como é que o sr. se chama?

—Meyer, respondeu o alemão, para o servir.

—Mala ? perguntou o mineiro.

— Não, senhor, Meyer; sou da Saxônia, da Alemanha.

—Isto deve ser o mesmo que Maia na terra dele, observou Pereira, abaixando um pouco a voz.

O camarada José, no entretanto, trouxera para dentro todas as malas e canastras e sem-cerimônia alguma intrometeu-se na conversação.

—Este Mochu, disse, vem de muito longe só por causa destas historias de borboletas, e com o negócio ganha coco grosso... Quanto a mim

— Juque, atalhou Meyer com fleuma, vai bota os animais no pasto.

—Não, disse Pereira, solte-os no terreiro até raiar o dia, roerão o que acharem; há por aí muito resto de milho nos sabugos...

—Pois é o que fiz, declarou o camarada; mas como lhes dizia, sou carioca do Rio de Janeiro, chamo-me José Pinho e venho de bem longe acompanhando este alamão, que é um homem muito de bem.

— É verdade? indagou Pereira, olhando para Meyer.

Este esbugalhou mais os olhos e confirmou tudo com um sinal gutural que ecoou em toda a sala.

—Ele o que tem, continuou José é que é muito teimoso. Eu lhe digo, sempre: Mochu, isto de viajar de noite é uma tolice e uma canseira à-toa... Qual! pensa lá no seu bestunto que assim é melhor. Também a gente anda por estas estradas afora como se fosse alma do outro mundo a penar... algum currupira... ou boitatá ... Cruzes!

—Pois, Sr. Maia, disse Pereira, tome posse desta sala, e faça de conta que é sua... Se quiser uma rede...

—Muito obrigado, muito obrigado! . minha cama é canastra. Não se incomode...

—Amanhã então conversaremos, concluiu Pereira, esfregando as mãos de contente.

Prometia-lhe na verdade a companhia boas ocasiões de dar largas à volubilidade, sobretudo com o tal José Pinho, filho da Corte do Rio de Janeiro e, pelo que parecia, tagarela de grande força.

—Assim, pois, disse Pereira, durmam bem o restante da noite.

E abriu a porta para se retirar.

—Ui! exclamou ele olhando para o céu. Doutor, já passa muito da meia-noite... Com a breca, o Cruzeiro está virando de uma vez...

Cirino, que tornara a deitar-se, com presteza calçou as botas e tomou uns papeizinhos que de antemão preparara e pusera a um canto da mesa.

—Não faz mal, disse, já estou com tudo pronto e em tempo havemos de dar o remédio. Vá o Sr. deitar um pouco de café num pires e acorde sua filha, caso esteja dormindo, como é muito natural depois do suador.

Saiu então Pereira, levando a vela e, acompanhado de Cirino, deu volta à casa para buscar a entrada dos aposentos interiores.

Ficaram, pois, o alemão e seu criado em completa escuridão; ambos, porém, já estirados a fio comprido, um em cima das canastras tendo por travesseiro roliça maleta, outro sobre o ligal aberto e estendido no meio do aposento.

—O Mochu, perguntou José, que mastigava qualquer coisa, está já ferrado?

—Ferrado? replicou Meyer levantando a cabeça. Que é isto agora?

—Pergunto se já pegou no sono?

—Pois, Juque, se eu falo, como é que posso estar dormindo?

—Então não quer petiscar?

—Comer, não é?

—Esta visto.

—Oh! Se tivesse!... Pensava agora nisso...

—Pois eu estou manducando... Quer um bocadinho?

—Que é que voce me dá?

—Rapadura com farinha de milho... Está deveras de patente!... Gostoso como tudo...

—Então, Juque, passe-me um pouco.

Levantou-se o ofertante com toda a boa vontade e às apalpadelas começou a procurar a cama do patrão, o que só conseguiu depois de ter esbarrado na mesa e numas cangalhas velhas atiradas a um canto da sala.

Afinal agarrou num dos pés do naturalista, a quem entregou uma nesga de rapadura e uns restos de farinha embrulhados em papel, pitança mais que sóbria, que foi devorada com satisfação pelo bom do saxônio.