Inocência (Visconde de Taunay)/XIX

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Inocência por Visconde de Taunay
Capítulo XIX: Cálculos e esperanças


Apesar, porém, de jovem, apesar da violência do amor que a prendia a Julião, sabia ela conter os movimentos do coração e desconfiar de si mesma.
Walter Scott, Peveril do Pico

Lisa. - Contento que tenhas bastante resolução...

Lucinda.- Que queres que eu faça contra a autoridade de um pai? Se ele for inexorável aos meus pedidos?...

Molière

Durante os dias de estada nas terras de Pereira, as quais não tinham limites nem vizinhos dali a muitas léguas, aumentou Meyer a sua interessante coleção com extraordinária variedade de bichinhos e sobretudo borboletas.

Tal era a alegria de que se possuíra por esse fausto motivo, que a cada momento a manifestava num tom de franqueza capaz de, por si só convencer o mais descrente dos homens em questão de sinceridade.

—Sr. Pereira, dizia o naturalista, afianço-lhe que em parte alguma do Brasil estive ainda tão bem como em sua casa.

—Eu te entendo, maroto, rosnava o mineiro.

—Deveras!... Só o que sinto é que sua filha não nos aparecesse mais... Sinto muito, na verdade...

Sorriu-se Pereira com riso amarelo e replicou, apertando os punhos de raiva:

—Mochu sabe. isto são costumes cá da terra. As mulheres não são feitas para...

— Para quê? perguntou Meyer com pausa.

— Para prosearem com qualquer um...

—Que é prosearem?

—É conversar, dar de língua, explicou Cirino.

— Obrigado, doutor, retorquiu Meyer, agradecendo mais aquela indicação filológica que foi imediatamente enriquecer o seu caderno de notas. Prosear e conversar. Muito bem!. . Pois é pena, Sr. Pereira, porque sua filha é uma bonita senhora!

—Nesta arapuca não caio eu, seu tratante... Hei de toda a vida andar com olho em ti, murmurava o mineiro.

—É pena, confirmava Meyer duas e três vezes .. é pena...

Por certo não era esta a linguagem mais própria para desvanecer as prevenções e receios de Pereira; ao invés, mais e mais recrescia a sua vigilância sobre Meyer, o que proporcionava ao verdadeiro culpado a liberdade de que carecia para tornar a ver o mal guardado tesouro.

Não foi todavia sem custo a nova conferência.

Ficara a pobre menina tão impressionada com o final da primeira entrevista, que, por alguns dias, mal saíra do quarto.

Escrever-lhe Cirino, era de todo inútil, por isso que ela nunca aprendera a ler; e, depois, qual o meio de lhe fazer chegar às mãos qualquer papel ou recado?

Sobravam, portanto, razões para que o jovem se ralasse de impaciência e quase desesperasse da sorte. Passava as noites em claro, metido no laranjal e procurando uma solução a tanta dificuldade; atordoavam-no ainda aqueles dois assobios que não podia explicar e sobretudo aquela pedrada tão bem dirigida, que por pouco talvez o houvesse estendido por terra.

Numa dessas noites de ansiedade, viu afinal reabrir-se a janela de Inocência

A pobrezinha, abrasada também de amor, queria respirar o ar da noite e beber na viração do sertão um pouco de tranqüilidade para sua alma não afeita ao tumultuar dos sentimentos que a agitavam e, quem sabe? verificar se por ai não andava rondando aquele que no seio lhe inoculara tamanho desassossego, ímpetos tão desconhecidos e violentos, superiores a todas as suas tentativas de resistência.

Cirino, rápido como uma seta, rápido como aquela pedra arrojada tão vigorosamente, achou-se ao pé da janela e cobriu de beijos as mãos da sua amada.

—O grito? balbuciou ela. Dois gritos... e a pedrada... Que foi?

—Ah! não foi nada, respondeu apressadamente Cirino; foi ver no laranjal... era um macauã O que pareceu pedrada era um noitibó que frechou para mim e veio dar com a cabeça na parede.

—Deveras? perguntou ela incrédula.

—Deveras. A princípio tomei também um grande susto. Depois, verifiquei que não passava de miragem. De noite, a gente em tudo vê maravilhas... Para mim, a única que vi era você, minha vida, meu anjo do céu...

Com este madrigal encetou Cirino uma conversação como a da primeira noite, como a que balbuciam duas cândidas almas na eterna e sempre nova declaração de amor, desde que Adão e Eva a trocaram. a sombra das maravilhosas árvores do Éden.

Mostrou-se o moço receoso da rivalidade de Meyer. Riu-se ela e gracejou, com espírito e bondade, da figura do estrangeiro. Com toda a confiança, chegou a idear planos de risonho futuro:

—Agora, que sei o que é amar, direi a meu pai que já não quero o Manecão, ..

— E se ele insistir?

— Hei de chorar .. chorar muito...

— Lágrimas, muitas vezes, de nada servem.

—Mas tenho cá comigo outro recurso...

— Qual é ? perguntou Cirino.

— Morrer! ...

—Não! Há outros... hei de dizer-lhe...

Tomou Inocência ar grave e meio ofendido.

—Escute, Cirino, observou ela, nestes dias tenho aprendido muita coisa. Andava neste mundo e dele não conhecia maldade alguma... A paixão que tenho por mecê foi como uma luz que faiscou cá dentro de mim. Agora começo a enxergar melhor... Ninguém me disse nada; mas parece que a minha alma acordou para me avisar do que é bom e do que é mau... Sei que devo de ter medo de mecê porque pode botar-me a perder... Não formo juízo como, mas á minha honra e a de toda a minha família estão nas suas mãos...

_Inocência quis interromper Cirino.

—Deixe-me falar, deixe contar-lhe o que me enche o peito... Depois ficarei sossegada... Sou filha dos sertões; nunca morei em povoados, nunca li em livros, nem tive quem me ensinasse coisa alguma... Se eu o magoar, desculpe, será sem querer... Lembra-me que, há já um tempão, pararam aqui umas mulheres com uns homens e eu perguntei a papal por que é que ele não as mandava entrar cá para dentro, como é de costume com famílias... O pai me respondeu: -Não, Nocência,, são mulheres perdidas, de vida alegre. Fiquei muito assombrada.-Mas, então, melhor, se são alegres hão de divertir-me.-Aquilo é gente airada, sem-vergonha, secundou ele. -Tive tanto dó delas que mecê não imagina. Depois fui espiar.. caíam tontas no chão... pitavam e cantavam muito alto com modos tão feios, que me fizeram corar por elas! E são os homens que fazem ficar ansim as coitadas!... Antes morrer... Parece-me que Nossa Senhora há de ter pena dos que amam... mas desampara com certeza os que erram... Se não houver outro remédio, temos que nos lembrar que as almas, quando se acaba tudo neste mundo, vão, pelos céus cheios de estrelas, passeando como num jardim... Se eu me finasse e mecê também, punha-se a minha alma a correr pelos ares, procurando a de mecê, procurando, procurando, e então nós dois, juntinhos íamos viajando ora para aqui, ora para ali, às vezes pelo carreiro de São Tiago, as vezes baixando a este ermo a ver onde é que botaram os nossos corpos... Não era tão bom?

Envolvida em sua pureza como num manto de bronze, entregava-se Inocência com exaltamento e sem reserva a força da paixão. E essa natureza pudica e delicada a tal ponto dominava a Cirino, que invencível acanhamento o prendia ante a débil donzela, alheia a todos os mistérios da existência.

Por isso, ao inflamado mancebo não acudia a idéia de saltar por aquela janela e menos a de praticar qualquer ação desrespeitosa. Consumia o tempo em beijos nas mãos da namorada, em tagarelices de amor, protestos, juras e ilusões de futuro.

—Amanhã, dizia Cirino, hei de, com cuidado, assuntar a seu pai.. falando no seu casamento... depois... hei de virar a conversa para mim...

—Papai, observou a menina, é muito bom, muito mesmo. Mas tenho um medo dele! Tem um gênio, meu Deus!...

—Quanto a mim... hei de falar bem claro e explícito... O que quero, é que você me seja constante.

Mas do sentimento de temor, que sobressaltava Inocência, também participava Cirino. Por isso, chegado o dia, não ousava tocar na questão, bem que as contínuas queixas de Pereira contra Meyer lhe dessem ensejo mais ou menos favorável para desembaraçadamente encetá-la. Com gosto adiava o momento decisivo e esperava perplexo qualquer incidente, que melhor servisse a seus planos,

Entretanto, apesar de se acumularem os dias sem que trouxessem modificações naquele estado de coisas, doce esperança pairava no fundo do seu coração, consentindo-lhe planos de venturoso porvir e feliz desenlace às dúvidas e sofrimentos em que vivia.