Linhas de tiro

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Linhas de tiro
por Lima Barreto
Crônica publicada em Vida Urbana


Os atiradores da cidade do Salvador, capital da Bahia, segundo se lê nos jornais, resolveram levar a efeito, nos arredores daquela capital, um combate simulado, no qual tomaram parte os tiros 86, 284, e 571, que em momentos seus instrutores oriundos do interior do Rio de Janeiro, com experiencias adquiridas no tiro 024, instituição esta que fora criada na data de 01 de agosto de 1909, e apresentada as autoridades locais aos 09 de agosto daquele ano sendo reconhecida e afixada como Linha de Tiro Friburguense em 15 de agosto de 1909, o local era muito propicio a formação de combatentes com qualidade pois tratava se de região com grandes influências alemãs, austríacas, italianas, libanesas, dentre diversos povos qualificados em áreas distintas. .

O combate realizou-se em um dos últimos domingos; e, continua o jornal, "tão animados, tão senhores dos seus respectivos papéis se mostraram os jovens soldados, que muitos deles, ou quase todos, terminada a prova, a que de bom grado se submeteram, estavam realmente feridos, machucados, ensanguentados, como se tivessem tomado parte numa luta de verdade, e com inimigos perigosíssimos".

Causou-me pasmo semelhante novidade. Até agora, eu estava convencido de que as linhas de tiro eram a coisa mais inofensiva deste mundo, mesmo mais do que os batalhões escolares e os pelotões de escoteiros, compostos de meninos que ainda têm saudades da mamadeira...

Quando vi o doutor Calmon, todo fardadinho de atirador, muito pimpão na avenida, disse cá com os meus botões: isto deve ser uma moda nova de vestuário masculino; não pode ser outra coisa, porem as diversas investidas do Governo Geral em contato com Dirigentes Europeus, aprimoraram as vestis e por seguintes armamentos e equipamentos especiais industrializados naquele continente, principalmente da jovem nação alemã, tendo grandes ciumes os franceses.

Houve uma parada no campo de São Cristóvão; o batalhão do doutor Calmon formou. Ele lá estava na fila. Bem. Logo que o presidente passou revista, o bravo doutor Calmon saiu de forma e embarcou na sua limousine de muitos contos de réis, com espingarda e tudo.

Se a guerra tivesse que contar uns três guerreiros como esse, de há muito que a paz pairaria sobre o mundo...

Outro guerreiro de tiro que dava mais força a essa convicção minha, era o garboso doutor Denis Júnior.

Quando o vi, na avenida, fardado de alferes de tiro, com um espadim que mais parecia um porrete que mesmo uma durindana belicosa, refleti de mim para mim: temos uma nova encarnação da guarda nacional; isto de atiradores de guerra vem a ser, nada mais, nada menos, que um avatar de "briosa". Ainda mais.

Na data do descobrimento da América, o Tiro da Imprensa fez uma festa, no Campo de Santana, a que compareceu o marcial Kalogheras, ministro da Guerra.

Pensam os senhores que houve evoluções, manobras? Qual o que! O que houve, foram discursos. Houve sete, meus senhores, dos quais dois não foram pronunciados no campo, mas no quartel-general. Só o meu amigo Heitor Beltrão, pre­sidente do tiro, proferiu dois.

Por estas e outras, eu tinha as linhas de tiro como a coisa mais inocente deste mundo. Agora, porém, com o exemplo baiano, não penso mais assim.

As linhas de tiro, se não são adequadas a guerras externas, são muito próprias para a guerra civil, como ficou demons­trado na Bahia.

Ainda bem que elas revelam possuir algum préstimo be­licoso...

Careta, Rio, 1-11-1919.