Literatura e Civilização em Portugal/Duas palavras

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Literatura e Civilização em Portugal por Álvares de Azevedo
Duas palavras

Quando estatuímos ao encetar deste opúsculo que a literatura de um povo era influída, como um líquido noutro, em sua civilização, foi-nos alvo ao perpassar daquele exórdio irmo-nos a uma tendência nossa, alentada fundamente de há muito. Quisemos tresmalhar uma olhada asinha sobre o espírito dessas nossas letras pátrias, tão aluziadas dos clarões dos céus espanhóis e enquadrar em moldura engrinaldada esses visos de umas letras tão ricas, dessa praia tão derramada de pérolas e corais pelas marés que aí haviam passado no seu fluxo, das civilizações púnicas, greco-romanas, góticas e arábicas, essas sementeiras de poesia para a qual concorreram - quatro vezes o Oriente e a África, nas navegações fenícias e colônias cartaginesas, na invasão mourisca de 712 e no roçar da civilização peregrinante da raça hebraica - duas vezes a grega, no comércio da Magna Grécia das costas da Sicília e na conquista romana (civilização mais rude e bélica, é verdade, mas sempre dourada das luzes de Atenas ) - e até a barbária das raças das hordas da grande invasão que assinala o anoitecer da antigüidade e a madrugada nevoenta da Idade Média.

Eis pois nosso fim: mostrar, da variedade de fontes, a riqueza de imaginação espanhola, esse metal coríntio fervido no magno cadinho de uma nação meridiana. Desse variegado de matérias deve nascer a originalidade, o caráter às vezes exagerado de uma literatura erguida, como estátua de liga mais pura, de robustez mais provada.

Vamos ordenar algumas idéias por esse ambiente de crenças, reminiscências e as[orações que baseia o gênio espanhol, erguer das orlas, pela síntese dos eventos, o talar que se tresborda pelo vário dessas letras: erguê-lo como(num dizer oriental) o oceano, quando ao arregaçar do seu lençol verde-mar desleixa à vista os vislumbres das cúpulas da antiga cidade de Mahabalipur e ela se ergue com seus pagodes de pedra negra e seus palácios ermos, soterrados na areia...

ESPANHA

Por essas terras iberas, onde a Bética pompeava unas suas campanhas verdejantes ao colear das águas do Belon e do Chryssus e onde ao norte, as velhas montanhas alpestres da Tarraconense se perdiam nas gargantas do Pyrenaei, as raças romanas haviam sentido nesse solo quente o despertar-lhe ao sopé de muitas tradições aí calcadas, como coturno êneo em chão de pedra. Eram as rochas negras a prumo do Calpe e Abyla que aí assestara colunas a todo o porvir, margem a margem do "fretum Gaditanum" a mão do Alcida com a inscrição funda - non plus ultra; e pelos longes dessa península, na ria do Tagus, uma aldeia, dita pelas tribos do Endovélico criada por esse Grego vagabundo que um mendigo de Smirna erguera em pedestal imorredouro, laureado de glórias pelas révoras de todo um viver humanitário. Era a Bética, onde a imaginação dos Cartagineses realizava seus sonhos anelantes de Trios, entrevistas pela adustão das sestas africanas!... a Bética, aonde todas as cismas tendiam deleitosas como o heliotrópio ao sol e lábios de homem à taça de gozos de uns lábios de mulher suave!... a Bética, por cujas balsas varavam olores ambrosíacos e o soldado perdido sentia o amornar de hálitos embalsamados da s ninfas.

E ao norte estendiam-se as grimpas de brava serrania, desde o Mare internum até ao Mare magnum Atlancticum, onde os barcos peregrinos do aventureiro foram buscar entre seus gelos a Thule misteriosa desse nevoento Mare Germanicum, que banhava o longo das costas calcárias da Britânia de Júlio César, do norte da Gália, desse costeal escandinavo da Gótia e do Chernoseno Címbrico, em cujas obras se escondiam os veleiros iates dos piratas northmans e dinamarqueses e as enseadas dessa indomável cordoalha dos Pictos e Escotos, os terríveis invasores da Britânia, que a fizeram no optar de duas escravidões preferir a Saxônia... lá essa Caledônia, onde nas brumas árticas as ventanias das Orcadas rugiam como ululadas de afogo nos basaltos gigânteos e fatídicos da escura caverna do Fingal.

Não nos cabe o historiar fatos da Península, nem despertar alentos dessas idades antigas. Lenda de brios e afanosas valentias, sabem-no todos, foi sempre a desses homens das montanhas iberas, onde o estrangeiro, ao embrenhar-se a medo no mugir das torrentes, no ramalhar dos arvoredos diluvianos, aos ventos do inverno, ouvia acordes dos mil vozeios terríficos da Tessália de Ésquilo - esse concerto dolorido de ânsias e gemidos das florestas do Cremis, das valadas do clivoso do Eta, dos picos vertiginosos e rotos a pino das cordilheiras Combuciras e dos pantanais do Sperchio, no assombro escabroso e ínvio de um mundo estranho aos homens da Itália, perdidos por uma natureza de aluviões cataclísticas em despenhadeiros surdos, ao pendor dos cumes côncavos e nus dos montes agourentos.

Quando, depois que as armas do Aragonense, filho de Joana - a castelhana, correram desde o cimo das Alpuxarras, pelo langor das planícies sevilhanas, como montanhas de gelo despegadas das cumiaias alpinas, a raça agarena e as coranitas hordas Bereberes e Almogaures passaram fugitivas, como sombras, a Mourama, donde o apelo vingativo do conde Julião ( o pobre vassalo, o pobre pai, cujas barbas de velho se enlodaram da afronta de D. Cava Florinda, pelo amor voluptuoso do destronador de Vitiza), a voz do governador de Septum as despertara de seus sonhos de Espanholas, pelas veigas onde ao azular das águas do Bétis entre as aldeias turdetanas se revelara nos verdegais dos vergéis de Córdova, a voluptuária Córdova, donde contos lascivos iam embeber nas auras do além da Bética as visões arabescas da Mauritânia tingitana, pelo afã das noites quentes das paragens do deserto... então quando, repetimos, a raça islamita abandonou em meio o seu vislumbre de festas luxuriosas, seus romais floreados, seus alhambras de rendas marmóreas... nesse misto de civilização romano-gótica das gentes bárbaras de Sertório e Viriato e da província cartaginesa, onde as muralhas de Sagunto e Cartago - a nova, se tinham abalado às gritas bélicas dos republicanos de Bruto, precipitou-se, como o ouro na infusão do clorureto de platina, a civilização árabe.

E aí, nesse amálgama que abrilhantara a nudeza dos tempos de guerra com o esmalte dos arabescos poéticos dos fugitivos maometanos, a velha Hispânia romana, embora o genro de Afonso de Castela, o francês conde Henrique, instalasse pelas praias atlânticas no seu reino de Porto-Calle, as dos lidadores de Ourique, dos vassalos nobres e dos eclesiásticos de Lamego, uma outra Hispânia independente e livre... embora!... sempre houve um nome, uma unidade que resumiu aquelas duas nações, inda mesmo quando depois que uma invasão conquistadora e após da tirania dos Filipes os ecos da terra portuguesa relembraram os antigos sons das tubas de Aljubarrota e a nação independente de Afonso Henriques aclamou D. João IV: embalde... o ciúme que arreigou fundos em ambos esses povos ódios mútuos aplicando um dito do Sr. Garret: - "Os portugueses ficaram sendo sempre espanhóis - castelhanos nunca".

O romanceiro do Cid, essa trova de jograis que deram à Provença os lais de amor e o romance da Rosa (de Meung); e os Cancioneiros de Rezende e D. Diniz, são numa língua irmã toda: ou antes, a língua é a mesma. E, ainda muito depois, a literatura portuguesa corava de escrever no dialeto porventura mais bárbaro dos Hispânico-Lusos, mas inçado talvez das línguas estrangeiras, de vestígios árabes deixados pela invasão, de mistos franceses trazidos pelos cavaleiros de D. Henrique; e Montemor escrevia em castelhano a sua Diana, Bernardes, Sá de Miranda, Camões, mesmo Camões, trovaram muitas de suas inspirações da língua da mãe-pátria.

Da epopéia de Camões, perdoe-se-nos o erro, se é que o há em dizê-lo, é que data a inteira separação de literaturas e, em Portugal, o timbre de apurado estudo estudo e a preferência das falas nacionais.

As línguas separam-se de então e as literaturas também; pois, segundo nosso muito humilde parecer, sem língua à parte não há literatura à parte. E (releve-se-nos dizê-lo em digressão) achâmo-la por isso, senão ridícula, de mesquinha pequenez a lembrança do Sr. Santiago Nunes Ribeiro, já dantes apresentada pelo coletor das preciosidades poéticas do primeiro Parnasso Brasileiro. Doutra feita alongar-nos-emos mais a lazer por essa questão e essa polêmica secundária que alguns poetas e mais modernamente o Sr. Gonçalves Dias parecem ter indigitado: saber que a nossa literatura deve ser aquilo que ele intitulou nas suas coleções poéticas - poesias americanas. Não negamos a nacionalidade desse gênero. Crie o poeta poemas índicos, como o Thalaba de Southey, reluza-se o bardo dos perfumes asiáticos, como nas Orientais Víctor Hugo, na Noiva de Abidos Byron, no Lallah-Rock Thomas Moore, devaneie romances à européia ou à chinesa, que por isso não perderão sua nacionalidade literária os seus poemas. Nem trazemos a pleito o mérito dessas obras. Em outra parte enlear-nos-emos talvez nessa questão.

E demais, ignoro eu que lucro houvera - se ganha a demanda - em não querermos derramar nossa mão cheia de jóias nesse cofre mais abundante da literatura pátria: por causa de Durão, não podermos chamar Camões nosso! por causa, por causa de quem?... (De Alvarenga?) nos resignarmos a dizer estrangeiro o livro de sonetos de Bocage!

A literatura... crêmo-la nós um resultado das relações de um povo; é um efeito cuja causa são os sentimentos cordiais, muitas vezes gerais, de ordinário muito peculiares e algumas vezes até excêtricos à vista das outras, como em relação à poesia européia os poemas chins, à vista dos dramas Schillerianos as tragédias índias. As línguas, eis aí também o resultado das relações; e mais frisante é o exemplo dos dois reinos da Península Ibérica, a esse respeito, que começaram ambos com a mesma língua e cujos idiomas se mudaram e tornaram-se diversos em virtude da variedade de acidentes de civilização. As línguas são um dos meios, porventura a bitola mais exata para conhecer-se a oscilação do progresso e o caminhar das civilizações. Não nos demoraremos nesse tema, nem cansar-nos-emos num esgrimir no ar, como diz Fr. Luiz de Souza, a querermos demonstrar o que é claro.

Daí vê-se: os vezos e usanças das colônias do Brasil eram os mesmos dos portugueses; a língua foi sempre a mesma. Os poetas, cuja nascença tanto honra ao Brasil, alçaram seus vôos d'águia na mãe-pátria. Com pouca exceção, todos os nossos patrícios que se haviam erguido poetas tinham-se ido inspirar em terra portuguesa, na leitura dos velhos livros e nas grandezas da mãe-pátria. José Bonifácio e Durão, não foram tão poetas brasileiros como se pensa. Os heróis do Uraguay e do Caramuru eram portugueses. Não há nada nesses homens que ressumbre brasileirismo, nem sequer um brado de homem livre da colônia, nada... até ao canto entusiasta da mocidade ardente de Antônio Pereira de Souza Caldas, até às gritas livres da insurreição do Tiradentes, esse prelúdio sublime de uma orquestra de clamores de guerra ao brilhar das palmas da independência, procelária que aí vinha desgarrada ante o bafo da tormenta. E contudo o poeta representante dessa época, Gonzaga, apesar de todos os lavores do "parnasso" e do "Plutarco" do Dr. Pereira da Silva, não está muito claramente provado que fosse brasileiro. Eis portanto: os usos eram os mesmos; os homens de aquém-mar sentiam como os colonizadores; Fernandes Vieira e Amador Bueno eram a cópia bela dos guerreiros das Índias.

- Voltando agora ao tema do capítulo.

As literaturas portuguesa e espanhola, ao separarem-se as línguas, ficaram formando duas. Mas assim mesmo é tanta a similitude do parecer, tanta a fusão dos sonhos poéticos, são tão reflexivos numa e noutra os toques da cavaleirosa desfreima, os sentimentos altivos dos peninsulanos, desses Cids tão robustos como a Ioriga, desde os pulmões da cervilheira até as grevas onde ressoa o argentino tinir dos acicates que, se fosse possível passar por esse tropeço do vário das línguas, pudéramos dizer que essas duas eram uma só literatura.

Se houve nações onde o brio do campeador se justara com os demãs do trovador e onde o soldado ao depor da armadura, ao desembaraçar do broquel soubesse o dedilhar da lira, afinada por anjos e a ambrosia das musas se lhe inalasse dos lábios, onde o cenáculo dos bardos fosse às vezes a tenda do legionário, foram essas... onde as frontes dos poetas irradiavam sempre sob o elmo das lides. Olhai: - Alonzo de Ercilia escrevia a Araucana às praias de Oceano, na barraca do soldado ao sopé das Cordilheiras, onde a ave-rei dos céus da América, o Condor dos Andes, enverga seu adejo pelas grutas negras de nuvens da serrania Camões, denodado pelejador de Ceuta, o desterrado guerreiro das Índias, cantou os Lusíadas na Índia, em Macau, em toda a parte onde o vento nas palmeiras da Ásia lhe falava das glórias do passado. Corte-Real foi o poeta de Diu e do naufrágio da Sepúlveda. Garcilasso, o neto dos Incas, como disse W. Schlegel, escrevia suas canções de amor sobre os destroços de Cartago, o mausoléu de passadas ruínas, onde Caio Mário, soberbo e Romano, se assentara sublime no seu vagabundo passar de desterrado. Cervantes pelejara em Lepanto, na grande vitória de D. João de Áustria - bastardo. Calderon, D. Pedro de Calderon - o poeta, o soldado e o nobre! Pelejara na Flandres e na Itália. Lope de Vega fora um dentre as miríadas de guerreiros que se passaram na armada invencível, ido com o ferro em punho à Albion de Shakespeare travar-se de gládio a gládio com os jograis da velha Inglaterra, como - segundo a expressão de Ampère - os menestréis northmans do barão de Guilherme - o conquistador, com os bardos ruivos de Harold - o Saxão.

Quando os hábitos guerreiros dessas duas nações acabaram, a poesia descaiu. E que os Homeros são os cantores que foram embalados às tubas da guerra e essa geração, que em Portugal era a diakenasta (sic) dos Lusíadas e na Espanha a do Cid, era uma tribo de homéridas.

Quando as monarquias da Península descaíram das eras de glórias, a literatura passou dos epinícios do vitoriado hosana aos siscentismo de Góngora, Marini e Dorat, que até, no dizer de Benary, tivera sua época nas letras sânscritas, assinalado no poema Nloday. E enquanto a literatura castelhana se perdia nos trocadilhos e no gongorismo, o monumento das letras portuguesas era a Fênix renascida, tipo dos desvarios de mentes caducas. A Fênix é um objeto digno de estudo: é um padrão do estado vergonhoso de esfalfamento e laxidão, do afã de um dormir de escrava, dessa pobre Lusitânia! que a derrota de Alcácer-Quibir e os manejos do jesuitismo entregaram sem láurea e coroa aos sorvos sedentos de vida que lhe bebia no romper das veias o vampiro castelhano. Voltemos atrás ainda. Quando Portugal retumbava na sua era mais épica às vitórias dos Adenfosíades e varria como uma catadupa ao britar de suas garras de leão as miríadas mouriscas das terras dadas ao conde Henrique, a contemporânea Castela ufanava-se aos cantos triunfais da Cristandade livre. Quando os sucessores de Colombo, Fernando Cortez e Pizarro lastravam as pegadas sangüentas de suas grevas pelas praias americanas, ao devassar com seu pugilo de bandidos as florestas, ao bater dos acicates de ouro no colo azumbrando dos Incas e Las Casas catequizava os selvagens, Pedr'Álvares Cabral erguia em Porto Seguro o padrão português, Martim Afonso e Pero Lopez de Souza roteavam as costas da terra de Santa Cruz, Nóbrega e Anchieta, dois jesuítas, fundavam a Capitania de São Vicente.

A sina das duas nações, ou antes a história dos povos, é a mesma: e para evitar o transbordar de uma na outra, um Papa alinhava no globo a raia limítrofe dos dois povos no novo mundo. Navegações, conquistas, tudo... ia-lhes de par: vedes os portugueses na África? - lá estão também os espanhóis. Instinto guerreiro, mesmo bulhar de sangue irmão, aspiração rival de competências gloriosas ou instinto de equilíbrio político, o que sobressai nisto tudo é o esmalte aventuroso daqueles corações. Longe fomos: não duvidamos que demais para um preâmbulo. Mais algumas palavras e findamos o capítulo. - A literatura moderna portuguesa de hoje tem tido seu aluziar, seus relumbres do mesmo gênio e nisso tem acompanhado a espanhola. Pelos poetas que levaram arma ao ombro na guerra da carta em Portugal, a Espanha tem os constitucionais Larra, Espronceda e Zorrilla.

Contudo, nem sempre a poesia peninsular ergueu-se à sombra dos velhos cantos guerreiros; quase sempre ela renega do passado romântico de Camões e Bernardim pelo crisocal da escola de V. Hugo. O timbre, às vezes a exageração de lavor e louçanias nas formas, o quebro harmonioso do molde, o requinte da idéia facetada como um diamante, esmerada como um arabesco da renascença florentina, eis aí quanto ao metro, quanto ao trabalho artístico; e por isso o Sr. João de Lemos é para nós o representante da literatura portuguesa depois do Sr. Garret. Quanto à filosofia da poesia, é às vezes o egotismo ensombrado de Byron, o rir sardônico do poeta inglês: mas a ironia vem adonisada de flores, o sarcasmo lavrado a primor ressoa melodioso, como os "Ciúmes do Bardo" do Sr. Castilho... apesar ainda de todas as juras de proselitismo de uma forma mais severa que a do Eco e Narciso. No teatro, é o mesmo ademã dos Srs. Mendes Leal, Abranches, Pereira da Cunha. É o lirismo do canto das Orientais, dourando às vezes o gosto antigo das peripécias e enredos de Calderón e Vega, revivido por Corneille e acordado de seu segundo sono pela imaginação espanhola de V. Hugo. De ordinário muito florilégio, muito lavrados os trasflores, muito esmalte, as expressões vazadas no crisol, os sons filtrados pela doçaina de um sentimentalismo às vezes falso: mas quanto ao fundo... Levantai a púrpura dos discursos de Cícero, disse-o Lamartine no Rafael, sentireis ainda as lágrimas romanas no seu cibório lacrimário; levantai essa nuvem de rosas, que vêdes aí?...

É uma cousa que, no meu muito humilde juízo de mesquinho leitor, eu lamento muito a essa escola em cujo frontal douraram o nome de Shakespeare, como um símbolo de independência, a esses mancebos que não quiseram ser clássicos com Eurípides e Sófocles para sê-lo com Hugo e Dumas. A sua sentença está no mestre da escola: - a imitação mata o gênio, a cópia destrói o lampejo da originalidade, seja de um clássico, seja de um romântico. Os chefes de sistemas literários são mais por admirar e estudar que por copiar. Goethe lamentava-se dos seus imitadores, criticava acerbo o sentimentalismo falso que seu Werther fizera brotar nos romances e o desregrado do drama que seu desordenado, mas belo Goetz de Berlichingen fizera bem-querer. Chateaubriand queixava-se do bronco de expressão, do exagerado de idéias, que sua reação romântica acordara nas escolas do belo horrível, que excederam todo o medonho da ronda de horrores e lascívias de Lewis e das mortualhas dramáticas de Mathurin. É que os discípulos, na fascinação da apoteose que erguem ao gênio, no tresladar, no arremedo de suas belezas, imitam-lhe também e mais que o resto, defeitos, porque foi no embelezá-los, em escondê-los sob flores, que os mestres envidaram suas forças.

Na escola dramática portuguesa só há daquela seita Shakespeariana que se fechou em James Shirley e Joana Baillie o nome do filho do carniceiro de Stratford. Às vezes no desregrado dessa brilhante plêiade encontram-se defeitos, mas nunca, nunca as belezas que assombram no bretão. Perdoem-nos os fanáticos do seiscentismo do Sr. Mendes Leal, do lirismo de D. Sisnando, desse Sr. Freire de Serpa que, moço, quis seguir o V. Hugo das Baladas (a quem rastejara nos Salous, onde trovara suas cismas mais belas, ao tom das Vozes Íntimas e dos Cantos do Crepúsculo e que o Sr. Lopes de Mendonça só pudera chamar lamartiano pela monótona beleza da infanção das trovas) no sôlho dúbio do palco, onde tão mau êxito houve; da pobreza de execução do Fronteiro D'África desse, certo, dos maiores poetas contemporâneos do Sul da Europa, o Sr. Alexandre Herculano; da afetação em geral de toda essa mocidade que desgarrou-se da simpleza de dizer do Sr. Almeida Garret e foi-se à cena falar às turbas uma língua que não era a dela, a língua bela sim, mas morta, do quinhentismo; e, como Chatterton, sacrificou porventura o cintilar das idéias pela hirteza de um falar elaborado; e, em lugar de inspirações de poesia, preferiu mostrar a sua ginástica de jogral da seita erudita de sir Walter Scott, o bardo que ao depois, no poetar de Byron, foi "o Ariosto da Inglaterra, como Ariosto fora o Walter Scott da Itália".

O que eu disse dos dramas do Sr. Mendes Leal, não exclui gabos de trechos verdadeiramente dramáticos, essencialmente muito poéticos, em maior grau nos Dois Renegados, a obra primeira, porventura a obra-prima pelo passar do crisol do poeta do Camões e de Fr. Luiz de Souza. Mas o que é de lamentar ao melodioso lamartiniano das MeditaçõesSonhei-a, das Indianas, da Rosa branca e de tanta poesia linda é a pobreza de enredo, a monotonia das suas heroínas e sempre a mesma beleza:

"O rosto de um jaspe frio, um gelo imóvel
Em que vida não há;
E em formosura a triste inda primava,
Ermo lírio abatido,
Estátua qu'rida d'escultor poeta,
Querubim perdido
Sonho d'alma em noite melancólica,
Visão da madrugada,
Sem luz, sem cor, vestida de vapores,
De névoas coroada."

São sempre as virgens alvas, como passam às vezes nos romances de Scott e nos sonhos de Burns, o mancebo elevado nas visões dos Brownies e Skelpies da crença montanhesa, o cantor viúvo da Highland Mary... sempre as donzelas tristes como lírios pendentes ao peso da chuva, como as sonham Lamartine e Alfred de Vigny. Violanta, Isabel, a Pobre das ruínas e a amante do homem da Máscara negra, que aí passa cantando no barco com uma música que ressoa no peito como o vibrar do corno de caça de D. Rui Gomes, no Hernani de Hugo! elas são todas belas, sim, mas belas de uma beleza monópita; porém esse ressaibo da pobre amante louca da "Rosa branca", do "Sonho da vida", a sombra suavíssima e cândida que lhe trava de todas as criações, tornam-se monótonos, porque o som mais doce, a sensação mais suave, se... não mudar-se dela, arrefece e torna-se insípida.

Talvez haja bem o leitor em não repreender aquele crítico que alembra a justiça da Revista de Edimburgo, quando ela mostrava a pobreza do poeta de Nossa Senhora de Paris, aquele que fora buscar seu tipo de Esmeralda na Mignon de Wilhelm Meister, e, como di-lo Capefigue, seu contraste de Cigana donosa e do anão Quasímodo em uma das fantasias em uma das fantasias de Hoffmann - Victor Hugo, em cujos dramas o desenlace era quase sempre o lajedo da calçada. Era Triboulet estalando sua cabeça inundada do chumbo fundido da loucura; Didier lamentando que a pobre mulher que o acolhera órfão, nas ruas, lhe não houvesse quebrado o crânio ainda mole nas pedras da rua; Marion Delorme, febril de desespero, atirando-se em desmaio, num anelo suicida, nas lájeas do pátio de uma prisão; eram enfim Cláudio Frollo e Habibrah - o cabra, este embatendo-se nas rochas do precipício, pendente pelas mãos sangüentas das urzes que lhe rebentam nos dedos e uivando sua vasca de morte no escuro do despenhadeiro, aquele caindo espedaçado do clto do campanário de Nossa Senhora ao grito de triunfo e de vingança do aborto-vivo... A Revista de Edimburgo tinha razão, como tivera ao notar que a mola mais forte do enredo dos dramas de Dumas era essa janela por onde Arthur levava o Dr. Muller vendado ao quarto de Ângela sobre o leito de dores da mãe; que servia a Antony - o bastardo, para penetrar na câmera de Adèle - a adúltera, na estalagem; que mostrava Saint-Mégrin buscando a entrevista de amor e topando a traição vingativa; e Ricardo d'Arlington arremessando sua mulher... Eis aí quanto ao Sr. Mendes Leal.

Quanto ao Sr. Alexandre Herculano, o romancista do Eurico, do Monte de Cister, d'arras por foro de Espanha etc., de tantos romances primazes, o poeta da Harpa do Crente, o historiador das velhas crônicas portuguesas, se não lhe cabem os lauréis cênicos, muitos e muitos lhe sobram na fronte de poeta e pensador para que se lhe sentisse falta daqueles.

Quanto ao Sr. Almeida Garret, o que José Agostinho de Macedo sonhara debalde, alcançou-o o herdeiro das glórias de Filinto, o laureado da realeza poética pela mocidade portuguesa. No drama, no poema, nas poesias fugitivas, isso que os Ingleses chamam poetry of the heart, o eloqüente orador, o publicista de tão bem escritos pamphlets, o Sr. Garret não foi só o homem rei dos poetas portugueses, foi também o sócio das glórias deles, aquele que do alto de seu sólio deu a mão aos talentos juvenis e do meio das platéias ergueu o laurel das esperanças. Como os grandes poetas de todas as eras, grande poeta de vários estros, fez diversas escolas. - Do Camões nasceu o D. Sebastião, o Encoberto do Sr. Abranches; da D. Branca da Adozinda e dos outros romances populares que ele revestiu de sua gala os Soldos do Sr. Freire de Serpa (a quem déramos também outra origem de inspiração nas Balatas de V. Hugo); o Romanceiro do Sr. Pizarro e M. Sarmento; os Soldos do Sr. A. P. Cunha e talvez a Noite do Castelo do Sr. A. F. de Castilho, esse venerável ancião cego como Ossian, Homero e Milton, às vezes grandioso no elevar de pensamentos alterosos, como uma sombra de Byron.

Eis aí porque o Sr. J. B. de ª Garret não é só o primeiro poeta português do século, o digno par do erudito Sr. Alexandre Herculano, mas também, segundo o autor contemporâneo dos Ensaios de Crítica, é umaliteratura.