Livro de uma Sogra/III

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Livro de uma Sogra por Aluísio Azevedo
Capítulo III


Sim! minha mulher foi a única mulher que amei. Em meio de maior enjôo da vida doméstica, sentia eu perfeitamente, no âmago da minha consciência, que nenhuma outra valia tanto como Olímpia, quer no físico, quer na moral e até no intelectual; sentia que, se ela não fosse minha esposa, minha companheira obrigada de cama e mesa, de todo o instante, havia de desejá-la apaixonadamente; sentia, adivinhava que, se eu viesse um dia a deixar de possuí-la, como fatalmente sucedeu, havia de sofrer muito, como efetivamente sofri, sem nunca mais encontrar mulher que a substituísse ou que lograsse fazer-me-la esquecer.

Não! Não podia amá-la mais do que a amei no meu noivado, do que a amei depois nos intervalos de cólera, do que a amo hoje principalmente, nesta irremediável viuvez da nossa fatal desunião. Todavia, antes de nos separarmos, só a desejei deveras como mulher, além daquela época, uma vez em que tivemos de afastar-nos um do outro por oito meses seguidos; de resto foi sempre o mesmo tédio e os mesmos enfastiamentos na comunhão da cama. Muita vez o perfume dos seus belos cabelos, o cheiro do seu corpo, aliás sempre limpo e bem tratado, o contato macio da sua pele e a frescura de seus lábios relentados no delíquio amoroso, me fizeram repugnância.

Por quê? Não achei nunca a explicação. Mas a verdade é que, antes mesmo da nossa primeira contenda doméstica, quando éramos ainda um para o outro, só afagos e sorrisos, eu, apesar de amá-la muito, gostava já de vê-la arredar-se de mim por qualquer tempo. Amava-a muito, mas, se por condescendência ficava um dia inteiro ao seu lado, depois de passarmos a noite juntos, como de costume, sentia certo prazer estranho, sentia um inconfessável gozo de alívio, se me vinham anunciar que algum amigo, mesmo dos mais insignificantes, estava à minha espera na sala de visitas.

Quantas vezes não detive perto de mim pessoas que o não mereciam, só porque, enquanto estivesse eu com elas conversando, não estaria conversando ou procurando o que conversar, com a minha querida esposa?... só porque, enquanto eu estivesse abrigado naquela visita, não sentiria no meu corpo o calor do corpo de minha mulher, e não lhe sentiria o cheiro penetrante das carnes e dos cabelos!...

E como todo esse contraditório martírio cresceu depois do nascimento do nosso primeiro filho? Como fiquei eu amando moralmente muito mais minha esposa e desejando menos possuí-la como mulher?

Depois do nascimento de Palmira, nunca mais o meu espírito amou minha mulher associado com o meu corpo. Meu espírito continuava a amá-la, como sempre, meu corpo continuava, também como sempre, a unir-se ao dela para o matrimônio; mas o espírito e corpo completamente alheios e separados durante o ato conjugal. O amor do meu espírito nada tinha de comum com o amor do meu corpo, como aliás sucedia dantes, na primeira fase do casamento; e ai! só nesse irrecuperável período o nosso amor foi completo, e foi amor, porque nos unia de corpo e alma! O amor de meu espírito era um sentimento insexual, respeitoso, nobre, feito de uma ternura de amigo, de irmão mais velho, um sentimento baseado na proteção do mais forte que se dedica pelo mais fraco. Havia nele um quê de mística doçura, de sagrado voto cumprido lealmente, um quê da consoladora satisfação do desempenho de um dever honroso, um quê de religião e de ideal. Ao passo que o amor do meu corpo era quase inconsciente, irresponsável até, nem merecia o nome de amor, porque, no fim de algum tempo era, por bem dizer, preenchido sem o menor concurso do coração.

E pensar que o abuso deste segundo falso amor prejudicou o primeiro, o verdadeiro, a ponto de privar-nos da sua doçura e do seu enlevo!

Com minha mulher devia suceder a mesma coisa que sucedia comigo, porque certas vezes, despertei-a à noite para o fim genésico, e, mais dormindo que acordada deixava indiferentemente, com os olhos fechados, que eu saciasse nela o meu desejo material. Tanto o nosso espírito já por fim não tomava parte no desempenho da função matrimonial, que em muitas ocasiões, enquanto nos dispúnhamos para cumpri-la, conversávamos de vários interesses domésticos, alheios ambos ao supremo destino que naquele instante nos aproximava um do outro.

Não! isso não era amor; isso era instinto somente; isso era brutalidade! Entretanto, hoje, que já não possuo minha mulher; hoje, que me acho para sempre incompatibilizado com ela, e me vejo na mesquinha contingência de recorrer, para satisfação das minhas necessidades fisiológicas, a essas pobres máquinas vaginais que se alugam por instantes, quanto não daria em tais momentos para poder tê-la ao alcance de meus braços? Quanto não daria para dispor então daquela valiosa criatura, ao lado de quem não consegui viver, e ao lado de quem, ainda hoje, me seria impossível suportar a existência, apesar de desejá-la tanto?

Sim! ainda aplaudo e compreendo a nossa separação, e ainda a amo. E se agora, neste instante, por um efeito maravilhoso, me dessem a escolha de uma mulher, entre todas as mais sedutoras e formosas que tenho visto, reclamaria, sem hesitação, a minha própria esposa, e juro que a amaria com o mesmo arrebatamento do primeiro desejo que ela me inspirou.

Todavia, ridículos monstros que somos nós! no tempo em que vivíamos juntos, quantas vezes, deitados no mesmo leito, me senti, apesar da sinceridade do meu empenho em respeitar o voto nupcial, perturbado pela lembrança de outras mulheres, que sem dúvida não valiam a sombra daquela que eu tinha ao lado? Quantas vezes, com a consciência ressentida, não conjeturava eu a hipótese traiçoeira de ter nos braços, naquele momento, certa provocadora mulher com quem estivera conversando essa noite, durante o baile? E isto dava-se estando eu deitado junto de minha esposa! Revoltava-me contra tão hipócrita deslealdade; repelia indignado semelhantes pensamentos inconfessáveis, mas a mulher, que não era a minha e que não valia tanto quanto ela, mas que eu só avaliava por conjeturas, e cujo perfume do cabelo ou cheiro de corpo nunca me tinham sido revelados na intimidade da posse, impunha-se despoticamente aos meus culposos sentidos, acordando-me amores fogosos e energéticos, como os já não acordavam a minha bonita companheira.

Oh! que me perdoes, Olímpia, as vezes que em ti matei desejos que vinham de outras mulheres!

E, em consciência, não será isto já o adultério? A idéia do toque amoroso com outra que não seja a própria esposa, não será uma traição conjugal? Castus est qui amorem amore, ignemque igne excludit, diz Santo Agostinho. Se assim é, há de ser difícil descobrir um casal que se não adultere de parte a parte, pois estou bem convencido de que com minha mulher, por excelência virtuosa, devia suceder outro tanto; assim como estou amplamente convencido de que tudo, tudo que em mim observei, se verificou também com ela."

Aí termina o trecho das notas de meu marido. Ele tinha razão: Amei-o e desejei-o também na sua ausência e, justamente quando pensava em tentar um reconciliação, o que hoje compreendo que seria loucura, recebi a triste notícia de sua morte. Então a saudade e o amor que ele de longe me inspirava transformaram-se em verdadeiro culto. Idolatrei a sua memória; mas, só depois dos estudos que determinaram este manuscrito, pude compreender de todo quanto esse pobre homem era bom, digno e reto, e quão pouco nos cabia, a ele e a mim, da responsabilidade de nossa desgraça.

Demais, o seu lugar no meu coração, quando por mais nada, estava garantido como pai que era da minha Palmira, da minha filha idolatrada, laço único que me ligava à vida e ao mundo. E se fui boa mãe; se consegui, à força de desvelos e de extremos de amor, aplanar-lhe a existência das misérias que a minha corromperam, di-lo-ão estas páginas, paraelas escritas.