Livro de uma Sogra/XXV

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Livro de uma Sogra por Aluísio Azevedo
Capítulo XXV


São passados nada menos de um ano e dois meses depois que escrevi as últimas palavras que aí ficam para trás; só agora pude voltar ao meu manuscrito e talvez, quem sabe? para me despedir dele, porque é já com bastante custo que ainda lanço no papel estas linhas, trêmulas e pálidas como a própria mão que as traça.

Como estou desfeita e abatida!

Depois das enganadoras melhoras granjeadas com os ares e águas de Caxambu, o mal acordou de novo, para seguir vitoriosamente e seu negro curso. O meu terrível fígado, apesar dos cuidados médicos, aumentou sempre durante o segundo período da moléstia; e agora, já no terceiro, sinto que me matará este depauperamento geral de forças e esta cruel ascite, que me dá o absurdo aspecto de uma tísica em último grau e grávida.

Todavia, durante esse tempo fizemos uma excursão pela Europa; já de volta ao Rio de Janeiro, operei a minha hidropisia abdominal, e só hoje, consigo, ainda sem deixar a cama, tentar sobre a mesa de cabeceira esta página difícil... Ai! dói-me todo o lado direito; doem-me os pulmões e sinto falta de ar!

Mas é preciso arrastar-me até ao fim das minhas revelações. Vamos: Palmira está pejada de novo; o marido, sem que ninguém lhe falasse nisso, declarou já que iria aos Estados Unidos durante o resguardo puerperal. Recomendei-lhe que não deixasse de visitar Salt Lake City, capital do território de Utah e procurasse, como o Afonso Celso, conversar com os prosélitos e secretários de José Smith, patriarca dos mórmons. A convicção filosófica dessa tribo de homens fortes pode preparar-lhe o espírito para a metade da existência que lhe falta viver ainda com a mulher.

Meu esposo goza da melhor saúde que é dado gozar a um velho, e seria completamente feliz se não fossem os meus padecimentos. Creio que só aos seus desvelos de amigo e de médico, tenho ainda conseguido viver; pelo menos...

Ai! senti agora mesmo nos pulmões uma dor aguda! Não posso continuar a escrever... Bem me dizia César que seria imprudência dar-me a este trabalho...

E terminava aqui o curioso manuscrito, que Leandro me deu para ler na sua pitoresca vivenda da Tijuca. As últimas páginas não pareciam escritas pelo mesmo punho que traçara as primeiras com letra tão firme e corrente. As frases finais eram quase ininteligíveis.

Devorei-o em duas seções: uma à noite, antes de dormir, até às duas horas da madrugada seguinte, e a outra entre o almoço e o jantar desse mesmo dia. Mal o terminei, corri ao meu amigo para pedir-lhe os pormenores da morte dessa inteligente e singular senhora, a quem tão mal julgara eu até aí e por quem, depois daquela leitura, sentia a mais profunda admiração e o mais enternecido respeito; e eis em substância o que me narrou Leandro:

D. Olímpia, depois que interrompeu com um gemido aquela sua página interminada, nunca mais levantou a cabeça dos travesseiros, vindo a falecer da moléstia que a prostrava.

Durou muitos dias a sua agonia mortal. Durante esse tempo, César fez todos os milagres da dedicação e do amor para salvá-la. Jamais amante nenhum foi tão extremoso e digno desse nome; nem jamais noivo de vinte anos chorou com tamanha paixão o desviver da noiva virginal e formosa.

A casta companheira da sua velhice morreulhe nos braços e recebeu o seu beijo derradeiro entre as lágrimas dos filhos. Poucos momentos antes de expirar, chamou estes dois para bem junto dela e, tomando uma das mãos de Leandro, e tomando uma das mãos de Palmira, falou-lhes com a flébil sombra de voz que ainda lhe restava:

— Logo que eu feche os olhos, disse-lhes compassadamente, abram aquela gaveta da minha secretária, cuja chave está debaixo deste travesseiro, e tirem de lá o manuscrito que fui escrevendo depois que Palmira se casou. Encontrarão aí a justificação plena de todos os meus atos e de todas as minhas palavras. Foi por amor de ti, minha filha, que concebi aquelas idéias, e foi para ti, meu genro, que as escrevi. Leiam-no ambos com atenção e procurem seguir à risca os preceitos que lá se acham estabelecidos, porque essa é a minha derradeira e única vontade, ao deixar este mundo. Se o fizerem, hão de ser eternamente felizes como animais humanos: terão a felicidade material que se funda a vida orgânica da nossa espécie; mas, se quiserem desfrutar a outra felicidade, a melhor, a mais alta e mais perfeita; essa, que nenhum dos dois conhece ainda; essa que gozei longe ao lado deste meu atual esposo; essa que se baseia e garante a vida moral — tenha cada um de vocês dois o seu amigo, o amado do seu espírito, o eleito da sua inteligência, porque todo o homem, como toda a mulher, precisa tanto de um companheiro para a sua carne, como de um companheiro para sua alma! A vida é o amor, e o amor não é só a procriação. Cristo não deixou filhos, mas a semente de seu amor vive e frutifica até hoje no coração dos homens... É possível que a ideal melancolia do seu beijo imaculado, chorando eternamente através dos séculos, secasse muitos ventres, esterilizasse muitos homens, mas fecundou de imorredoura ternura muitos e muitos corações!... A carne é egoísta — temam o despotismo da carne! A carne é irmã degenerada — é o Caim da alma! Afastem um do outro esses dois irmãos irreconciliáveis, para que o ideal não caia assassinado pela besta! Vá cada um de vocês dois, meus filhos, buscar o esposo da sua alma, fora e bem longe do leito matrimonial, com os olhos bem limpos de luxúria, com a boca despreocupada de beijos terrenos, com o sangue tranqüilo e o corpo deslodado das lubrificações carnais! Minha filha — toma um amante — para teu espírito! Meu filho — elege uma amiga — para o teu coração de homem!

E calou-se.

Foram estas as suas últimas palavras. Depois de balbuciá-las, deixou pender a cabeça sobre o colo do esposo, e morreu sem um gemido.