Lourenço (Franklin Távora)/XVIII

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Lourenço por Franklin Távora
Capítulo XVIII


Obra de um mês depois, pacificada a capitania, voltados aos seus lares Francisco e Lourenço, saiu este uma manhã do sítio do padre Antonio, onde todos moravam agora, enquanto Francisco cortava umas varas na mata para fazer um caritó onde guardar goiamus, que começava a andar ao atar. Fora Marcelina a autora da idéia, dizendo ao marido que os goiamus, bem cevados como ela os sabia cevar, haviam de dar bom dinheiro na vila, e não convinha perder este lucro.

Lourenço, conquanto a manhã estivesse fresca e risonha, levava no rosto a sombra do desgosto íntimo que, passada a impressão do grande acontecimento, voltou de novo, não tão intenso como dantes, mas tenaz e constante como um, remorso ou uma chaga incurável.

E saíra com o pé esquerdo, porque, adiante, saltando um pau que cortava a passagem, foi cair com a cabeça de encontro a uma pedra onde se feriu, ficando com a camisa lavrada de longas machas de sangue.

Como tinha feito tenção de ir ver um pedaço de terra, do lado de Jopomim, que lhe fora oferecido pelo dono que o vendia por pouco dinheiro, prosseguiu o caminho, não obstante o desastre e a má aparência.

Depois de andar cerca de meia hora, deu na várzea que de há muito não via, a várzea do Jopomim, por onde brincara alguns anos antes, pegando canários e gurinhatãs, quando o seu espírito discorria por horizontes sem nuvens nem limites, quando no seu coração não havia nenhum espinho.

De repente ouviu umas vozes femininas que partiam de ponto não muito distante do em que estava. Com pouco descobriu, de fato, duas mulheres, uma das quais trazia um saco nas costas, e era acompanhada por um cão, que farejava de moita em moita, e às vezes parava de latir. Então a mulher aproximava-se do lugar, arreava o saco, inclinava-se para o chão, e aí apanhava, ora rindo-se ora fugindo com o corpo e as mãos, um objeto que, com toda a precaução, atirava dentro do saco. Lourenço compreendeu logo que a mulher andava apanhando goiamus.

A outra, que estava mais perto dele, e parecia mais nova, em vez de imitar a mais velha, colhia araçás aqui e acolá, e atirava-os dentro de uma cuia, correndo e saltando com os cabelos soltos, de um araçazeiro para outro, como fazem os beija flores de roseira em roseira, nos jardins.

Pressentindo gente por ali, antes de ver quem era, o cão, mais defensor que caçador, deixou aquela a quem estava prestando seus bons serviços, e correu na direção de Lourenço, com quem deu em um instante. Logo que a mulher que se achava mais perto, viu o rapaz com a camisa cheia de lavores pouco tranqüilizadores, um cacete em uma das mãos, um facão na outra, e as vistas cravadas nela, deixando escapar um grito angustioso, e cair da mão a cuia, correu para onde estava a outra:

— Minha mãe! minha mãe! gritou ela, assusta da e trêmula. É Lourenço! É ele. Corramos, fujamos, minha mãe. Quem sabe se ele não vem matar-me!

— Cala a boca, Marianinha. Quem te disse que é Lourenço? respondeu Joaquina, a qual, pela distância, não pudera ainda distinguir bem as feições do rapaz.

Este reconheceu pelas vozes as suas amigas vizinhas e camaradas.

Penetrante e atroz foi a mágoa sentida por Lourenço, quando ouviu as acerbas palavras da filha de Vitorino. O seu coração já tão castigado pelos últimos acontecimentos, o seu coração infeliz que tinha a sensibilidade nervosa dos enfermos de doença moral, experimentou uma dessas impressões produzidas por choques traumáticos a que muitas vezes não se pode resistir com a vida.

Ao princípio, quis fugir para o lado oposto. Não era este o meio direto de resolver aquela situação aflitiva? Fugir das vistas daquele a quem desagradamos, não é passo natural e racional?

Lourenço esteve para dá-lo; mas, compreendendo que, se assim procedesse, confirmaria o mau conceito que dele já formava Marianinha, tomou resolução contrária.

— Elas têm para si que sou um assassino; mas eu não sou o que elas pensam. É preciso que se desenganem. Às vezes, quando me esquento, sou capaz de comer gente viva, mas isto acontece uma vez na vida.

Eis o que ele pensou, eis o que lhe ocorreu, após o primeiro impulso, vencido pelas reflexões. Não hesitou mais, e encaminhou-se para onde estavam mãe e filha.

— Então, que é isto, Marianinha? perguntou ele, ainda de longe. Correu de mim? Eu não venho fazer mal a ninguém. O meu facão não tem ponta; partiu-se ali atrás em uma pedra onde quebrei a cabeça; e é por isso que estou com a camisa cheia de sangue.

Assim falando, Lourenço atirou o facão, de feito quebrado, aos pés da menina, a fim de que ela visse distintamente que ele dissera a verdade.

Não obstante a humildade e brandura destas expressões, Marianinha não ousava levantar os olhos ao rapaz. Mudas e abaladas, Joaquina e a filha não sabiam o que dizer.

— Nunca matei ninguém, nem Deus há de permitir que eu chegue a matar quem quer que seja algum dia. Vim por aqui para as ver. Tenho sentido muitas saudades da sua companhia. Mudaram-se do Cajueiro sem me dizerem adeus, zangadas comigo sem grande razão, porque...

Lourenço não soube como continuar.

— Se não nos despedimos, disse Joaquina, foi porque você tinha feito o que não devia fazer com a Marianinha, que morria por você, que lhe queria tanto bem, que vivia somente para lhe querer bem.

— Naquele tempo, tornou o rapaz, eu andava fora de mim. Agora não hei de sair mais do bom caminho. Foram-se os que tinham vindo, e ficaram os que cá estavam. Com estes é que eu me hei de achar.

Enquanto falava, Lourenço punha os olhos em Marianinha, cujas formas tinham se tornado esplêndidas. Quantas diferenças lhe notou!

Desgostosa do que acontecera, Marianinha cortara os cabelos logo depois da mudança. Estava agora com cabelos novos, bastos e lindos. Libertada do amor e do ciúmes que a amofinavam, engordou e cobrou cores finas. As espáduas, o pescoço, a raiz dos seios, os braços curtos, as mãos pequeninas, estavam revelando a Lourenço, no boleado e no ilustre, quanto ganhara ela com a transformação.

— Não fujam mais de mim, que me fazem ficar tristes - prosseguiu o rapaz. Não vivemos sempre em boa harmonia?

— Sempre não - atalhou Joaquina; até certo tempo, enquanto não se meteu entre nós uma nuvem negra que foi a causa do nosso desgosto.

— Está tudo acabado agora. A nuvem foi-se embora. Não está tão bonita esta manhã? Pois quem sabe se não vem com ela a manhã da nossa passada amizade?

— Como está Marcelina? Como está Francisco? Ainda não o vi depois que chegou, disse Joaquina, como quem ia se acomodando com a nova ordem de idéias sugerias pela imaginação de Lourenço.

— Estão bons. Vou já dizer-lhes que estive aqui, e que depois de amanhã, que é domingo, sinhá Joaquina e Marianinha vão passar o dia lá em casa.

— Não, Lourenço; lá não - disse Joaquina.

— Pois então há de ser cá. Venho eu, meu pai e minha mãe. Pegaremos o resto dos goiamus. A andada não dura três dias?

— Se quiserem vir, venham. Aqui nos acharão para os recebermos.

— Havemos de fazer a nossa festa mesmo debaixo destes araçazeiros. Mas, que é isto, Marianinha? Você parece que está muda. Se não diz que posso vir, não venho.

— Minha mãe já não disse que você podia vir? O que ela disse é o que é.

— Então, até domingo.

— Até domingo. Olhe. O caminho é por ali, e a casa é aquela - ponderou a viúva do Vitorino, apontando, por ver que o rapaz se resolvia a partir.

No dia seguinte amanheceu Marianinha tratando dos preparativos para a esperada recepção.

A casa era de barro, coberta com palhas. Tinha pertencido a um morador que, por desgostos com a senhora daquelas terras, se passara para outras. Estava ainda muito bem conservada e ficava em boa situação. Do lado direito vinham morrer-lhe no oitão uns canaviais; pela esquerda e pelos fundos tinha a várzea; pela frente passava o caminho que levava a Goiana; Entre a casa e o caminho havia um araçazal mais basto do que se via na zona intermédia entre aquela e a mata.

Marianinha cortou com o facão alguns matos que fechavam o caminho, decotou umas goiabeiras ramalhudas que tiravam a vista do alpendre, limpou à enxada a frente, a fim de tornar mais espaçoso e alegre o pátio. De tarde mostrava-se graciosa e faceira. Remoçara com o asseio, e estava como sorrindo aos hóspedes ainda ausentes.

Quem soubesse dos precedentes entre as duas famílias, que circunstâncias supervenientes tinham separado, havia de cuidar que a filha de Joaquina, tão solícita em preparar digna recepção à suas antigas amizades, entre as quais se compreendia Francisco, seu padrinho, estava nadando em satisfação.

Mas a verdade é que bem diverso sentimento dominava Marianinha. Em vez de clarões suavíssimos, clarões e esperanças, tinha no espírito nuvens negras, nuvens de desgosto invencível. A vinda de Lourenço avivara todo o seu passado de que não restavam na lembrança dela senão quadros desbotados, quase extintos; e o passado não lhe era agradável, porque nunca Lourenço lhe dera motivos de verdadeira satisfação, antes quase sempre a contrariara.

Marianinha passou toda a noite pensando no que havia de fazer. Lourenço para ela já tinha morrido, e com ele o grande amor que lhe dedicara. Ressurgindo-lhe agora diante dos olhos, devia ela desenterrar o falecido amor? Lourenço merecia-lhe este milagre? Lourenço, que nunca lhe dera provas de sincera estima, devia voltar a ocupar nas aras do seu coração o lugar de honra, e receber o culto exclusivo que ele próprio desprezara? Depois de pensar em tudo isto, e de meditar cada uma das graves questões que no espírito se lhe apresentavam, a menina, tomando uma resolução heróica, disse consigo:

— Lourenço morreu para mim de uma vez. Seja de quem quiser, menos meu; nem eu serei dele. Lourenço acabou-se para mim, como homem a quem eu queria bem.

Com Lourenço dera-se o contrário. Aparecendo-lhe acrescentada de beleza e graça, quando ele tinha a alma devastada e árida, a gentil rapariga deu-lhe frescura e vigor. A sua imagem restituiu-lhe o amor à vida. Dissuadido do enganoso sonho, sentiu-se voltar todo, como o girassol, para aquele astro que se lhe deparou no horizonte brusco. Marianinha era meiga e boa, era extremosa e dedicada, era paciente e cândida. Ele conhecia as suas superiores qualidades raras numa menina, adoráveis numa esposa. Onde acharia mulher mais digna dele? Nenhuma conhecia que se comparasse com ela na ternura, na modéstia, no afeto, e poucas poderiam ser rivais nos seus encantos.

Aceso em desejos, anelou pelo domingo. Tinha tomado também a sua resolução. Na mesa, por ocasião do almoço ou do jantar, recordaria a passada promessa, e designaria dia para o casamento.

No domingo aprazado, ainda com escuro, bateram à porta da casa da várzea. Marianinha e Joaquina puseram-se imediatamente de pé, julgando serem as visitas. Era um negro que Lourenço mandara adiante com um carneiro que devia ser sacrificado nas aras da reconciliação, e com algumas garrafas de vinho dentro e um cesto, licor indispensável em semelhantes sacrifícios, como é no sacrifício por excelência da igreja católica.

Pouco depois chegaram Marcelina, Lourenço e Francisco, que foram recebidos pelas duas mulheres à beira da estrada, onde eram esperados com impaciência.

Todos sabem ou ao menos avaliam com que atenções e cortesias se tratam no primeiro encontro pessoas que, depois de desavindas, reatam as antigas relações. Neste particular, nenhum dos que se achavam presentes levou vantagem a Lourenço, origem da desavença.

Das nove para as dez horas começou o almoço, na parte lateral do alpendre que dava para a várzea. Com ser almoço de gente pobre, foi variado e abundante.

Moquecas e amorés, e frigideiras e ensopados de goiamus, preparados na véspera por Marianinha; sarapatel feito do sangue do carneiro por Marcelina; angu de milho já nesse tempo muito usado entre o povo, e que Joaquina sabia fazer primorosamente, deram-lhe, com café com leite, e as usuais macaxeiras e batatas doces, honras de lauta refeição de gente abastada.

Quando foi chegando a ocasião do café, Francisco pegou do copo e, dirigindo-se a Marianinha, disse-lhe:

— Marianinha, enche o teu copo. Há de ser de virar. À saúde do teu casamento.

A menina empalideceu, e guardou silêncio.

— Então, Marianinha, que é isso? inquiriu Marcelina. Põe vinho no copo, menina. Não fiques triste. Desta vez há de fazer-se o que tanto desejas.

— À saúde do teu casamento, Marianinha, repetiu Francisco, pondo-se de pé.

E voltando-se para Lourenço:

— Que fazes tu também aí que não despejas logo o teu bacamarte? Queres ou não queres casar com Marianinha.

— Quero, sim senhor. Eu já tinha feito tenção de falar nisto hoje, se vosmecê me desse licença.

— E por que não? Jurei sobre a cova do compadre Vitorino que tu, Lourenço, havias de ser o marido de Marianinha. Chegou a ocasião. Mas... que tens, menina? perguntou Francisco, vendo a afilhada com os olhos cheios de lágrimas. Não chores. A ocasião é para a gente rir.

Lourenço, Francisco, Marcelina e Joaquina levaram os copos aos lábios, e esvaziaram-nos. Somente Marianinha não bebeu.

— Por que motivo não bebes? perguntou Francisco espantado.

— Porque esse casamento não se há de fazer, respondeu a menina, com voz chorosa.

— Estás malucando, menina, tornou Francisco.

Os outros, silenciosos e confusos, cravaram as vistas na filha de Vitorino, cuja palidez aumentara.

— Há de fazer-se o casamento, porque eu quero, Lourenço quer, e tu queres.

— Não, eu não quero, meu padrinho, respondeu ela com firmeza, que a todos deixou por um instante espantados, quase fulminados.

— Tu não queres! exclamou o matuto, tomado de assombro. Por esta não esperava eu!

— Não quero, não senhor. Não quero, porque sei que Lourenço não me quer bem.

Lourenço, a esta voz, quis vir ao encontro da rapariga, mas faltaram-lhe expressões. Como havia de provar o contrário, quando na consciência de todos parecia haver um tropel de provas a favor da afirmação de Marianinha?

Houve, por instantes, uma como suspensão da vida em todos os convivas. No semblante de alguns, em cujo número estava Marcelina, revelou-se vaga expressão de pesar.

Francisco, levando as vistas ao rosto de Lourenço, foi o primeiro que rompeu o silêncio:

— Quanto a isto, estou calado. Se Lourenço te quer bem ou não quer, só ele é que sabe, só ele poderá dizer.

Lourenço acudiu simplesmente:

— Por meu gosto, quero casar com Marianinha.

Esta retorquiu:

— Eu já quis, mas agora não quero mais. Se não me casar nunca, nem por isso hei de morrer. Tenho vivido muito bem em companhia de minha mãe.

Tão decisiva resposta pôs termo à questão. O casamento estava definitivamente desmanchado.

Neste ínterim, ouvindo ruído de passos de cavalo no caminho e, logo depois o eco de pancadas na porta da frente, correu Joaquina a ver quem era.

— Querem ver que temos por aqui o Saturnino, que volta do Jatobá - conjeturou Francisco.

Palavras não eram ditas, quando Joaquina gritou de fora:

— Marianinha, Marianinha, aqui está Bernardina!

Todos correram ao encontro da filha mais velha de Vitorino.

Era de feito ela com o marido, o incomparável Cipriano, já casados, que, aproveitando a ocasião de ter ido com eles por mandado de Joaquina, o Saturnino logo depois da sua chegada do Tracunhaém com Lourenço e Francisco, vinham abraçar a velha e a moça, contentes e felizes.

O convívio que esfriara um momento, recobrou novo calor.

Bernardina, depois da grave doença que a pusera de cama, botara corpo, e estava outra, isto é, cada vez mais bonita.

Cipriano também mudara muito com o casamento. De concentrado e bisonho que era, tornara-se expansivo e sociável. À sombra do padre Antonio formara-se aquela modesta família, por ele dotada e favorecida.

O padre mandara a Lourenço uma carta:

— Que diz essa carta, Lourenço? perguntou Francisco, vendo o rapaz passar as vistas por cima das regras tremidas.

Lourenço leu em voz alta, para todos ouvirem:

Lourenço, Deus te abençoe.

Depois de casados e arranjados aqui juntos de mim, Cipriano e Bernardina resolveram mudar-se para Goiana, onde ela diz querer morrer. Lá nasceu, lá lhe correram os dias da primeira mocidade, lá tem as cinzas de seu pai, lá quer acabar, ao lado da mãe e da irmã. Para que tudo se arranjasse do melhor modo, fiquei com a parte da terra, que tinha dado de dote à menina, e dei-lhe o equivalente em dinheiro, com a condição de comprarem aí outra terra onde vivam, sem serem pesados à ninguém.

Estando eu já no fim a vida, e vendo-me só neste ermo, venho propor-te a tua mudança para aqui.

Em casa deste padre velho e achacado acharás, ao menos, bons conselhos que de muito te devem servir na vida.

Cipriano porá nas tuas mãos novo papel de doações no sítio do Cajueiro, onde poderão ficar morando Francisco e Marcelina.

Está com os olhos no caminho o

Padre Antonio.

Quando Lourenço terminou a leitura, Marcelina tinha os olhos nadando em lágrimas, Francisco emudecera comovido, e o próprio rapaz, dobrando o papel, sentia uma grande aperto no coração. A carta era uma ordem terminante a que ele devia obedecer. A separação era inevitável.

— Vais assim deixar-nos, meu filho! exclamou Marcelina. Meu Deus! Quantas coisas neste dia! Só consinto que nos deixe, porque sei que tu não me pertences.

Depois, enxugando os olhos, a cabocla disse com voz segura:

— Deves ir, Lourenço. A felicidade está te chamando. É a felicidade, filho; acredita nas minhas palavras, porque eu sei o que estou dizendo. Seu padre que te abençoa é porque ele quer ser teu pai.

Dizendo estas palavras, a cabocla parecia querer fazer-se forte; mas, foi em vão. As lágrimas, desta vez copiosas, voltaram-lhe aos olhos; e com pouco, entrou a soluçar. Sem se poder conter, correu ao rapaz, abraçou-o ternamente, com quem ia separar-se de uma vez, por morte.

No outro dia, pela manhã, deu-se uma cena ainda mais viva do que esta entre Marcelina Lourenço.

— Minha mãe, perguntou este, vosmecê viu o que Marianinha me fez ontem?

— Vi sim. Eu não esperava por aquilo, ainda que tu...

— Não me diga nada, minha mãe que eu tudo sei. Se lhe falo nisto agora, é para lhe dizer que antes de sair do Cajueiro para o Jatobá, hei de vingar-me de Marianinha.

Um raio que caísse aos pés da cabocla não teria aterrado tanto como estas palavras do rapaz.

— Lourenço, Lourenço, que estás dizendo, Lourenço?! respondeu ela com os tons de suprema angústia.

E atirando-se de joelhos aos pés do rapaz com as mãos postas, em atitude de quem suplicava, continuou:

— Por minha benção te rogo, Lourenço, que te esqueças de semelhante delírio.

— Deixe-me falar, minha mãe - tornou ele, levantando-a; vosmecê não sabe o que vou dizer. Pensa que, para vingar-me do que Marianinha me fez, quero matá-la?

— Nem por graça digas esta palavra, filho.

— Eu quero vingar-me dela de modo muito diferente. Quando ela souber para quanto presto, há de correr para me abraçar; mas já não há de encontrar-me, minha mãe, porque eu estarei bem longe desta terra onde tenho sofrido tanto desgosto, onde só eu tenho sido o infeliz.

— E que é que tu queres fazer?

— Vosmecê sabe que Saturnino, desde pequeno, sempre quis muito bem a Marianinha.

— É verdade.

— Pois, sim; eu quero fazer um presente a Marianinha coma condição de casar com Saturnino; mas o presente depende de vosmecê e de meu pai.

— Que presente?

— Quero dar-lhe este sítio, que seu padre me deu.

— O teu sítio, Lourenço? O teu sítio tão bom, tão bonito?

— Bom e bonito? Sim, ele é tudo isto; mas ele me recorda sempre coisas muito tristes. Eu não passo daqui sem me lembrar de sinhá D. Damiana, e de tudo que mais que houve. Além disso, para que eu o quero, se não hei de voltar mais para Goiana senão de passagem? Sinhá D. Damiana deve voltar, porque todos os seus bens hão de ser-lhe restituídos. Ora, Deus me livre de ter terras e casa junto das dela. Vosmecês também não precisam dele, para morarem porque têm o seu pedacinho de terra e a sua casa. Assim, minha mãe, deixe-me tomar a vingança a meu modo. Só assim sairei de Goiana consolado.

— Pois faze o que quiseres, Lourenço.

Três dias depois, quando os galos começaram a amiudar, Lourenço montou a cavalo à porta do sítio do Cajueiro, Francisco e Marcelina de pé, do lado de fora, viram-no partir, viram-no desaparecer, ouviram ambos, com as faces inundadas de lágrimas, os últimos ruídos dos passos do cavalo, que conduzia para bem longe o melhor das esperanças, o melhor dos afetos, daquelas existências tão boas, tão dignas, tão irmãs - daquelas existências tão ricas na sua pobreza, tão grandes no seu pequenino mundo, tão nobres na sua humilde condição - dois tomos de uma obra que se poderia intitular - Trabalho, bom senso e virtude.

FIM

Este material se destina ao uso acadêmico.

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