Luzia-Homem/VII

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Luzia-Homem por Domingos Olímpio
Capítulo VII


Além da habitual aglomeração de retirantes na rua do Menino Deus, à porta do armazém da distribuição de, socorros, algo havia de extraordinário, a julgar pelos modos assustadiços, os olhares de maligna curiosidade do mulherio, que se acotovelava aos empuxões para observar o que se passava no interior, onde estavam reunidos os membros da Comissão, o delegado de polícia e o promotor público. Dois soldados, Belota e Cabecinha, guardavam a porta, com ordem de vetar a entrada a quem quer que fosse. Crapiúna girava entre o povilhéu, contendo, com maus modos, os exaltados, que protestavam contra a demora da distribuição das rações, principalmente as mulheres que haviam deixado em casa filhos pequenos, sem um grão de farinha para fazer um mingau.

— Cessa rumor! Cambada – intimava Crapiúna, com a costumeira impostoria – Vocês ou ficam quietos e calados ou arribam daqui. Em fariscando comida, ficam logo assanhadas...

E continuava a ronda, sob um chuveiro de imprecações e motejos, que a sua excessiva grosseria provocava.

Os cidadãos incumbidos pelo Governo da penosa tarefa de distribuir socorros, desempenhavam com excepcional e caridosa dedicação, os seus deveres, mantendo o mais escrupuloso zelo e probidade na administração do serviço. Não houvera ainda um caso de muamba, coisa muito vulgar em outros centros de afluência de retirantes, nos quais se explorava escandalosamente a miséria, e se desviavam, para serem vendidos por excessivo preço, os víveres destinados aos infelizes famintos. Era, pois, natural que, ciosos de tão honrosos precedentes, ficassem muito impressionados com o roubo de gêneros e de duzentos mil réis em dinheiro, denunciado, naquela manhã, pelo almoxarife.

A porta do armazém fora encontrada aberta, sem o menor vestígio de violência, caixas com fazenda abertas e a gaveta que continha o dinheiro arrombada. Estavam bem patentes os indícios do crime, pegadas, do ladrão impressas na poeira, pingos de velas de carnaúba sobre as caixas e o instrumento, empregado para forçar a gaveta, um grande formão de carpinteiro.

Quem seria o audacioso criminoso? O nome de Alexandre, pronunciado por lábios anônimos, no meio da turba, foi logo envolvido pela sinistra atmosfera da suspeita. Ele guardava as chaves do armazém; era empregado de inteira confiança, conquistada pelo mais irrepreensível procedimento, e os mais abonados precedentes; mas não se podia eximir da responsabilidade do fato, senão por desídia, por falta de vigilância. Demais, naquele dia, ele sempre pontual, chegara tarde, notando-se-lhe no semblante profunda perturbação ao encontrar a porta aberta, e o almoxarife, que o interrogava com o olhar severo. Não pudera, no primeiro momento, se justificar ou explicar as circunstâncias que o denunciavam. Indicações vagas, circulando na massa de retirantes, aludiam a fatos que davam corpo às suspeitas. Ele estava para casar; pretendia deixar a cidade; era bem possível que a paixão por Luzia-Homem o alucinasse ao ponto de arrastá-lo a tamanha desgraça. Por outro lado, alguns amigos que o não abandonaram na hora do infortúnio, alegavam que, tendo as chaves, não necessitaria de deixar a porta aberta, apenas encostada, recorriam aos precedentes de porte ilibado, a doçura de caráter, maneiras de pessoa bem-ensinada e de boa procedência.

Entre os pró e contra, prevaleceu o depoimento de Crapiúna, afirmando haver visto, à meia--noite, mais ou menos, um vulto com uma trouxa volumosa subir apressadamente a rua na direção da igreja. Não jurava que fosse Alexandre, por não ter, em consciência, absoluta certeza, e para que não dissessem que o acusava por andar enticado com ele; mas a verdade é que tinha o mesmo andar e a mesma estatura. Não o perseguira por não lhe passar, então, pela cabeça, a idéia de um crime tão vil. Belota confirmava, em todas as minúcias, a história do camarada, protestando todavia, que, até à véspera, seria capaz de meter a mão no fogo por tão bom moço; mas... a ocasião fazia o ladrão...

Alexandre foi interrogado. Estava tão abatido pela comoção, que fez declarações incongruentes, contraditórias e inverossímeis, nem pôde explicar, de modo plausível, a demora. Acossado pelas questões da autoridade, limitava-se a protestar com voz angustiada:

— Juro que sou inocente, seu Delegado. Eu nunca me sujei com o alheio. Antes me secassem as mãos e me faltasse a luz na hora da morte!

Continuava o interrogatório, aliás conduzido com imparcialidade complacente, quando a audiência foi interrompida por estranho rumor, gritos e imprecações ameaçadoras, estrugindo na rua. Aquecidas as faces pela fadiga da caminhada, os grandes olhos lampejantes de chispas fugitivas e o traje em desalinho, Luzia penetrou nos densos magotes humanos, que lhe embaraçavam a passagem, com ímpeto irresistível; e foi abrindo larga brecha, afastando aos empurrões homens e mulheres, sob uma saraivada de remoques, queixumes e impropérios.

— Arreda, que lá vem Luzia-Homem, como uma danada!...

— Mulher do demônio, você não enxerga a gente, sua bruta?!...

— Esta excomungada está com o diabo no coiro!...

— Vote! malvada!...

— Ficou como lacraia assanhada, por causa do macho...

Luzia era insensível às queixas e insultos, foi avançando sem desfalecimento, sem hesitação. Ao enfrentar a porta, Belota pretendeu tolher-lhe o passo, mas foi repelido com possante e rápido movimento. Igual sorte tiveram Cabecinha e Crapiúna. Este lhe não ousou tocar, inanido por estranho terror. Surdiu, enfim, na sala, e parou indecisa, espantada por se achar entre pessoas notáveis, aturdidas pela surpreendente invasão. Depois se dirigiu a Alexandre, que a contemplava estupefato, num misto de assombro e alvoroço.

— Que foi isto, seu Alexandre?...

— Nada – respondeu ele, baixando os olhos – Um impute, que me fizeram...

— Mas é falso!... Não é?...

— Juro por alma da defunta minha mãe...

E grossas lágrimas lhe deslizaram pelas faces tostadas, embebendo-se na barba crespa e aloirada.

— Seja homem, Alexandre – disse-lhe então a moça, com voz vibrante e enérgica – Deus é grande!... Quem não deve, não teme!...

— Choro de vergonha, porque nunca me vi em semelhante desgraça...

Ela, animando Alexandre com a protetora carícia de um olhar inefável, voltou-se resoluta e calma para os circunstantes. Do desalinho das roupas, o lençol pendido do braço a arrastar pelo chão, o cabeção de renda emoldurando o seio nu e palpitante, as desgrenhadas madeixas a lhe caírem em ondulações fulvas de serpentes negras; dos olhos, do gesto e da voz, um concerto de convicção e firmeza, irradiava sobrenatural encanto, empolgando o auditório, subjugado pela esplêndida e fascinante exibição da força e da beleza, harmonizadas naquela admirável criatura.

— Saberão vossas senhorias – exclamou, em vibrações fortes e sonoras – que este homem não é nada meu!... Nem parentes somos, senão por Adão e Eva. Posso morrer sem confissão. Meu corpo não tem pechas, nem pecados a minh'alma...

E estendeu os braços, num gesto largo e franco de inocência que se exibe:

— Entre essa gente maligna que faz pouco de mim, essa gente desalmada que me persegue, como se eu fora uma excomungada ou um bicho brabo, encontrei nele um amigo, um irmão; e hoje, abaixo de Deus, é ele quem me ajuda a sustentar os dias de minha mãe, entrevada dentro de uma rede. Estas noites temos passado juntos fazendo quarto à pobre velha que gemia com dores de fazer cortar coração. Hoje, de manhãzinha, esteve lá em casa e pedi-lhe que fosse procurar o doutor... Ah! meus senhores, até os bichos são agradecidos, quanto mais criaturas cristãs. E aqui está, em pura verdade, porque eu puno por ele e juro que está inocente...

— Não temos provas – observou o Delegado – Por ora só há contra ele suspeitas, indícios...

— Então por que o prenderam? Pois se envergonha um homem sem quê nem para quê, por um impute?...

Em benefício dele; para apurar a verdade...

E se não conseguirem isso? – perguntou Luzia impaciente – Ficará preso toda a vida?!...

— Não se aflija – ponderou o promotor, intervindo, e no intuito de amenizar a pungente cena – Sente-se, repouse. A senhora está muito exaltada, acalme... Que estupendo tipo! Que formoso cabelo – observou à puridade, voltando-se para um dos comissários.

Luzia reparou, então, em seu desalinho, e sentiu um calefrio de pejo, como se a lambessem aqueles olhos que a fitavam com insistência, olhos mortos de volúpia. Colheu os cabelos, toda aflita e ruborizada; enrolou-os rapidamente, e os prendeu com um gesto gracioso no alto da cabeça, e abrigou-se no lençol branco de babados de cambraia de salpicos.

— Donde é natural? – inquiriu o Promotor.

— Eu me chamo Luzia Maria da Conceição. Sou filha do Ipu. Meu pai, que Deus haja, era vaqueiro das Ipueiras do Major Pedro Ribeiro... Está ouvindo, seu doutor?

Ela aludia a gritos e gargalhadas do povilhéu, bradando na rua: Luzia-Homem!... Metam ela na cadeia que se descobre tudo!.. Aviem os pobres que estão aqui esperando com fome!..

— Por que lhe deram essa alcunha?

— Eu lhe digo, seu doutor. Desde menina fui acostumada a andar vestida de homem para poder ajudar meu pai no serviço. Pastorava o gado; cavava bebedores e cacimbas; vaquejava a cavalo com o defunto; fazia todo o serviço da fazenda, até o de foice e machado na derrubada dos roçados. Só deixei de usar camisa e ceroula e andar encoirada, quando já era moça demais, ali por obra dos dezoito anos. Muita gente me tomava por homem de verdade. Depois meu pai, coitadinho, que era forte como um touro, e matava um bode taludo com um murro no cabeloiro, morreu de moléstias, que apanhou na influência da ambição de melhorar de sorte, na cavação de ouro no riacho do Juré. Daí em diante, começamos a desandar. Minha mãe, sempre muito doente, e nós duas muito pobres de tudo, menos da graça de Deus, vendemos as miúças e cabeças de gado, que tiramos à sorte da produção da fazenda, os animais de campo e até o meu cavalo castanho-escuro, calçado dos quatro pés e com uma estrela na testa... o meu querido Temporal... Tudo isso para não morrermos de fome quando veio esta seca...

Soluços lhe embarcaram a voz, e desatou em copioso pranto.

— Sossegue moça – disse-lhe o Delegado compassivo – A sua sorte nos interessa. Está entre amigos de quem só deve esperar benefício; mas... é preciso ter paciência. Alexandre tem por defesa os melhores precedentes e todos o abonam; entretanto é indispensável que fique detido enquanto duram as diligências do inquérito...

— Preso?!... Não é possível! – exclamou Luzia – Vossa senhoria não fará tamanha injustiça. Eu lhe peço por vida de seus filhinhos... Alexandre é inocente!...

E rojou-se de joelhos, aos pés do Delegado.

— Tenha paciência! – murmurou este comovido, e tentando erguê-la.

Luzia não se conformava com a horrível idéia da prisão; e continuou a suplicar, muito condolente.

Alexandre já não podia suportar aquele espetáculo, que lhe macerava a alma. Suspirou de alívio quando o Delegado mandou conduzi-lo; e, ao passar por ela, disse-lhe com firmeza:

— Tenha coragem. Cadeia não se fez para animais. Espero em Deus sair limpo desse impute que me levantaram... Vá para junto da tia Zefa que eu me arranjo...

Tanto que o preso partiu escoltado pelos soldados Belota e Cabecinha, Crapiúna assomou na sala, mesmo em frente de Luzia, cujo olhar dolente acompanhava o moço e se fixava na porta por onde o levaram. A figura do soldado, detestável de arrogância triunfante, substituindo o preso, no campo da visão desvairada, interrompeu imediatamente a aniquiladora impressão de mágoa; e a moça, transformada por encanto, estremeceu num esto de ódio, que lhe faiscou no olhar, como um corisco.

— Aqui está, seu doutor – exclamou ela, indicando o soldado, com um soberbo gesto de indignação – Aqui está o asa-negra que me persegue, pensando que eu sou da laia dele... Este homem me atormenta com malcriações, com cartas... Espere... Tenho uma comigo...

E retirou do seio, de envolta com o cacho de cravos murchos, a última, carta de Crapiúna.

— Eis – continuou trêmula de cólera – a carta que este... não-sei-que-diga... me mandou hoje...

O Promotor tomou a carta; leu-a, sorriu-se e passou-a ao delegado, segredando-lhe:

— Há, talvez, em tudo isso um drama de amor.,

— De pouca vergonha, seu doutor, atalhou Luzia – Ele devia saber que sou uma rapariga direita...

Depois de ler a carta, voltou-se o Delegado para o soldado, que até então mantinha ares de basófia:

— Que quer dizer isto?...

— Saberá vossa senhoria que não é nada... – balbuciou ele, sorrindo irônico.

— Nada!... Que significam as suas palavras de ameaça?...

— É um modo de falar para fazer medo e caçoar com ela... Negócio de namoro...

— Namoro, seu atrevido... Pois o senhor fica responsabilizado por qualquer falta de respeito, ou tudo quanto suceder a esta moça... – Por causa disso – observou o escrivão Antônio Rufino – é que ele foi removido da polícia do Curral do Açougue...

— Eu não quero fazer mal a ela, seu Delegado. De mais a mais não é crime a gente querer bem e pretender uma moça dessas...

— Não admito observações. Retire-se... Veja como se porta!...

Crapiúna fez continência e deu meia volta, com inexcedível garbo militar, lançando a Luzia sarcástico olhar de desafio.

— Vá descansada, moça – disse-lhe o Promotor, com meiguice – Sua mãe reclama os seus cuidados. Quanto a Alexandre, a justiça empregará todos os meios e esforços possíveis para descobrir o verdadeiro autor do delito. Estou persuadido que é inocente.

— Deus lhe pague, meu senhor... Deus lhe dê saúde e felicidade... Queira perdoar a minha ousadia... Fiquei fora de mim... – Suspirou ela, com lágrimas na voz.

E compondo as dobras do amplo lençol de mandapolão, saiu lentamente, desconsoladamente, acabrunhada de dor e vergonha.

O Promotor voltando-se, então, para o Delegado e os Comissários, ponderou:

— Não será esta carta um indício precioso?... Na minha opinião, deve ser vigiado aquele soldado.