Manhã d'estio

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Manhã d'estio
por Cruz e Sousa
Texto publicado em Missal

O Azul hoje amanheceu numa melodiosa canção, duma consoladora carícia veludosa de arminho, duma doce e suavíssima frescura de maçã rosada - brunido, reluzente, como um raro bronze florentino finíssimo, vivamente cheirando a violetas, a jasmins e a rosas machucadas.

Na cristalina sonoridade do côncavo páramo aberto há uma etérea música que passa em fios sutilíssimos de luz e de aroma pela sua transparência diamantina e velada, como um líquido radioso e fragrante através duma primorosa safira.

E o canto de um pássaro, que além atravessa o céu é mais brando, é mais tenro, então, mais harmonioso e sereno, prende, emociona e arrebata mais porque vai cheio desta ambiente fluidez matinal, desta vaporosa e delicada tonalidade aérea, deste fino sentimento amoroso de impoluto noivado dos elementos naturais animados, destes, enfim, deliciosos tons alegres que dão um rico sabor à terra, uma vibração luminosa aos aspectos e um mais meigo encanto imaculado aos frutos que pendem das árvores e às flores que coloram, dulcificam tudo com a graça, a inefável candidez de sorrisos.

Os arvoredos recortam nitidamente no ar as suas ramagens intensas, cujo verde orvalho cintila, e as palmeiras, que mais de perto avisto, altas, sobrepujando os outros arvoredos, como a afirmação soberana do poder germinativo, aprumam-se, firmes, desdobrando no alto as suas verdejantes plumas que tremeluzem nas arfantes aragens.

Na pradaria florida os gorjeios crescem, trinados festivamente cortam o espaço, vôos, rumores d’asas, claros e argentinos ruídos frescos de rios, chiantes carros dormentes de lavouras tomando o vermelho e risonho atalho murmuroso dos campos relvosos, entre a implorativa plangência mugidora dos tardos bois melancólicos;

movimentos agrícolas de enxadas, de sachos e arados, todos os instrumentos e aparelhos rurais, cavando, mondando, preparando a terra para as culturas, avigorando-a e adubando-a, dando-lhe a larga força nutriente aos germes para que ela opere e produza, farte infinitamente a todos de sazonadas colheitas.

E toda essa orquestração da Natureza e do trabalho, todas essas impetuosas, palpitantes correntes da Vida, enchem o ar de alvoroço, de alarido, duma religiosa bênção panteísta e de um cântico enlevador que desce consolativamente sobre as coisas - como se toda a seiva, vegetal e humana, estivesse na gestação poderosa, da fecunda elaboração de mundos virgens e novos.

Nós, Artistas, que dissipamos toda a nossa mais bela e opulenta porção de glóbulos rubros para arrancar à Natureza a sua latente verdade; que nos embevecemos na contemplação, no misticismo do céu; que de tudo ansiamos pelas recônditas, encantadas origens; que tanta vez nos mergulhamos no azedume e na inclemente maresia do tédio, achando a vida gasta, acabada, falazes e mentidos os seus lantejoulados, fascinantes enlevos, trememos de comoção, ficamos extasiados quando essas perspectivas se nos antolham assim d’esplendor, trazendo ainda à nossa desvirilizada e já quase decadente estrutura moral um pouco de alento, heroísmo e força, de sagrada virtude de pensamento e gloriosa envergadura espiritual para a luta, hauridos a plenos sorvos nos abundantes mananciais de luz, na soberba caudal imensa da Natureza fecunda e generosa.

Porque só a Natureza, germinalmente só ela, nos sabe dar à alma e ao corpo esta nobre saúde, estas estóicas atitudes épicas; porque só ela nos comunica os seus emotivos impressionismos, nos penetra os seus evangélicos, pensativos silêncios e recolhimentos alpestres, tão empiricamente transvasados no neblinoso luar dos Sonhos e tão relicariamente votados ao culto como os santuários; só é dela que vem a crença robusta que nos põe no peito como que afiadas lâminas de espada para destruirmos bizarros as mil venenosas cabeças da formidável serpente da Dúvida; só ela nos veste dessa flamante irradiação de aurora da qual emergimos vitoriosos, no fluido ouro resplandecente da aurora da Vida;e só ela, enfim, nos lava do mal, nos purifica como a salitrosa salsugem do Mar glauco nas salutares e matinais travessias d’alacridade picante, quando se volta das ondas numa eflorescência pagã de Tritão marinho, no luminoso frescor primaveril e sonoro dum viçoso ramo silvestre ruflante de revoadas de coleiros e gaturamos cantando.

Um clarim, uma trompa de caça que por aqui vibrasse, como numa pastoral da idade média, nesta formosa manhã perfumada, apanharia, tomaria destes murmúrios todos, pelo fenômeno acústico da recepção e transladação dos sons, como em placas fonográficas, todos os profundos e vagos ecos e os levaria então para longe - derramando-os, espalhando-os em cada placidez sedentária de sítio, em cada remanso bonançoso de campo, fazendo renascer a brava cultura ingênita das terras, palpitar o rijo pulmão d’aço do movimento incessante, pulsar, latejar vinculativamente as artérias da fecundidade e circular em todo o sangue oxigenado, ardoroso e produtivo que gera e fortalece tudo e que não é mais do que o Sol eletricamente entranhado nas mais profundas raízes de tudo.