Maracutaias ?!...

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Maracutaias ?!...
por Geraldo Lapenda
Escrito em junho de 1990 e publicado originalmente em Jornal do Commercio (Recife) e em A Vanguarda (Caruaru)


Uma das duas interpretações da palavra maracutaia publicadas na secção “Cartas” do Jornal do Commercio, de 30 de maio passado, afirma tratar-se de “legítimo termo tupi-guarani”, composto de mará (= guerra, desordem), cu (= língua falante) e taia (= tardia, maldosa, azeda); a outra, de 07 do corrente mês, apresenta apenas uma hipótese.
Não é de meu interesse visar aqui à criação de uma polêmica, nem é de meu feitio pretender, se houver o caso, melindrar ninguém; desejo, unicamente, expor minha opinião. Nem me arvoro em dono da verdade, contudo a minha interpretação, embora igualmente baseada em uma hipótese, aliás complexa, parece-me a mais verossímil, enquanto alguém não propuser outra melhor, acompanhada naturalmente de argumentação hábil e eficaz, e acatá-la-ei de bom grado.
Para se dar uma explicação etimológica – E, muitíssimas vezes, quanto é difícil ou impossível! – não basta meramente juntar, com base só na aparência, algumas palavras encontradas no dicionário e transformá-las em elementos de composição, sem pelo menos levar em conta a sua existência dentro de determinada região ou época. Eis, a seguir, os meus motivos e considerações:

1. Aos treze anos de idade aprendi o nheengatu do Amazonas e aos quatorze iniciei-me no guarani antigo, com a obra do Pe. Ruiz de Montoya,e depois no guarani moderno, em contacto com pessoas paraguaias; em seguida, estudei obras tupis: as dos padres Anchieta e Figueira, o Catecismo na Língua Brasílica e posteriormente os trabalhos abalizados dos atuais mestres Aryon Rodrigues, Edelweiss e Pe. Lemos Barbosa. Sinto-me, então, à vontade em debater assunto ligado à família lingüística tupi-guarani, nome inadequadamente empregado pelo autor da primeira interpretação quando o tratou como se uma e mesma língua, pois ou seria tupi (isto é, próprio dos dialetos falados na parte do Brasil desde São Paulo até o Amazonas) ou é guarani (falado no sul do Brasil, no norte da Argentina, no Uruguai, Paraguai e parte da Bolívia). O autor o empregou por influência do título do vocabulário escrito pelo Prof. Silveira Bueno – exímio conhecedor da língua portuguesa – vocabulário esse que é na realidade uma miscelânea dialetal, no tempo e no espaço, e inclui até mesmo formas não-tupis ou não-guaranis ou formas do moderno nheengatu. Os elementos propostos pelo autor, além de não constituírem nexo semântico, estão lingüisticamente misturados: sem levar-se em conta a forma mará (marã no guarani e marana no tupi), a palavra củ (cujo u é nasal), usada pelos guaranis e correspondente a apecủ dos tupis, significa tão-somente o órgão anatômico localizado dentro da boca dos animais, o qual, embora no ser humano sirva também como parte do aparelho fonador, nem no guarani nem no tupi traz a conotação de fala (língua, nesse sentido, se diz nheé no guarani, nheega no tupi); ademais, a associação da forma guarani củ à forma tupi taia (que no guarani é tai) não combina bem. Pela aparência sonora, maracutaia tanto poderia ser tupi, quanto uma palavra japonesa.
2. Com respeito à segunda interpretação, convém antecipar que, na realidade, seu autor, José Roberto de Melo, estava mais interessado em condenar – ato completamente louvável – os abusos contra a língua portuguesa, quando levianamente nela se introduzem termos como maracutaia, e aproveita a ocasião para enunciar a provável correspondência desta palavra a maracotão, relacionado com marmelada. Trata-se realmente de uma explicação bastante admissível, de acordo com a forma lingüística e a relação semântica, todavia eu reluto em aceitá-la plenamente. De fato, com a palavra mélon (= maçã, pomo), correspondente a malum do latim, compunham os gregos outras formas – posteriormente herdadas pelos romanos e introduzidas em várias partes do império – como por exemplo mélon kydónion ou melokydónion (isto é, pomo de Cidônia, Creta) para significar o marmelo, e mélon persikón (= pomo da Pérsia) para designar o pêssego. Da primeira etmos na Espanha a palavra melocotón, mas com o sentido de pêssego, a qual em Portugal se transformou em maracotão, espécie de pêssego durázio, produto de enxerto em marmeleiro. Seria, pois, razoavelmente possível que, fazendo-se correlação com o marmelo ou com a própria enxertia, surgisse o sentido figurado de marmelada e daí o de maracutaia, mas isto não torna muito provável a criação de uma gíria aqui no Brasil, onde maracotão não tem o uso tão difundido das palavras marmelo ou pêssego.
3. Entre os principais fatores na criação natural de um termo novo está certamente a analogia, de forma ou de sentido. Assim é que – para usarmos de exemplo mais simples – da palavra leite, unida ao sufixo eira, temos leiteira; por analogia de forma, de café temos cafeteira (em vez de cafeeira).

Algumas vezes, essa criação faz-se por força direta da expressividade de sons: o emprego freqüente de certos encontros de fonemas ou morfemas, ouvidos ou pronunciados, passa a constituir nos falantes de determinada língua um modelo mental com valor expressivo, e este modelo pode ser obtido da correlação de termos, análogos quanto à forma ou quanto ao conteúdo, ou simplesmente daqueles que têm similitude apenas de forma. Podem surgir, então, palavras (comumente usadas em gíria ou como apelidos) à guisa de brincadeira ou ironia; neste caso, nascem usualmente vocábulos, de valor expressivo, baseados em um analogia com palavras de forma geralmente extravagante; esse valor expressivo, fortalecido às vezes pelo contexto, produz na mente do interlocutor a compreensão, total ou parcial, do significado de uma palavra nova apresentada.
O inventor do termo maracutaia deveria, ao criá-lo, ter latente em seu subconsciente alguma palavra de sentido análogo, como maranha (donde emanhado), isto é, “enredo, conluio, astúcia”, combinada com outras formas do tipo marasmo, marafunda (barafunda); ou ter conservadas na mente palavras de forma invulgar, mesmo cujo significado lhe fosse desconhecido, mas que lhe houvesse despertado a atenção ao tê-las ouvido ou visto (como por exemplo: abacutaia, carapitaia) influenciadas talvez por outras nos moldes de maracá ou maracatu ou (caso lhe fosse do conhecimento) maracotão, supramencionada; ou qualquer uma acabada em aia, provida de certa conotação pejorativa ou depreciativa, como gandaia, catraia, laia, mesmo que esse sufixo seja a deturpação de alha (em canalha, gentalha) na pronúncia de nível lingüístico inferior.
Em conclusão: Minha interpretação seria a de que maracutaia é forma espontânea, criada sob influência da expressividade sonora em nossa língua popular. A prova disso está no fato de que quase todas as pessoas por mim inquiridas, as quais ouviram Lula empregá-la, captaram logo – algumas um pouco mais, outras um pouco menos – o seu significado, sem portanto o auxílio de um dicionário.
Nota (só a título de curiosidade): Em italiano existe o vocábulo marachella (= trambique), cuja pronúncia é marakella e que também começa com os mesmos cinco fonemas iniciais de maracutaia.