Memória sobre a ilha Terceira/IV/II

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CAPÍTULO II Costas marítimas da ilha Terceira Toda a costa marítima da ilha Terceira apresenta numerosas irregularidades, não só no seu contorno, como também na sua altura. Ao voltar a ponta do Castelo de São Sebastião, conhecido também pelo nome de Castelinho, e caminhando para leste, encontra-se, primeiramente, um pequeno areal, denominado as Águas, outrora bastante extenso, e ao qual fica sobranceira uma elevada rocha, talhada quase a prumo, e que se mantém, sensivelmente com a mesma altura, até ao lugar denominado a Feteira, onde começa a baixar. Durante este trajeto, que é pouco mais ou menos uma légua, a costa apresenta umas pequenas reentrâncias, formando as pontas da Atalaia, em frente ao lugar do mesmo nome; a ponta Ruiva, em frente de Santo Amaro da Ribeirinha, e a ponta da Feteira, defronte do povoado do mesmo nome. A partir daqui, a costa torna-se um pouco mais baixa, e assim continua até à ponta da Má-Merenda, voltada quase o nordeste. Entro estes dois limites, encontra-se a ponta Grossa, defronte do Marco do Biscoito; a dos Coelhos, fronteira ao Porto Judeu; a das Cavalas, em frente do Pico das Contendas; a da Mina; e a do ilhéu do Frade, em frente da freguesia de S. Sebastião; a ponta Negra e a de São Jorge, defronte do Porto Martins; a ponta do Baixio da Praia, fronteira ao Cabo da Praia, e, finalmente, a da Má-Merenda, ao norte da baía da Praia da Vitória. Entre os dois pontos acima indicados, encontram-se pequenos portos ou enseadas, acessíveis somente a pequenos barcos de pesca, tais são: o do Porto Judeu, a baía da Salga e a das Mós, em frente à freguesia de São Sebastião,


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e que se tornaram memoráveis na história política da ilha Terceira, como adiante veremos. Entre a ponta da Mina e a de São Jorge, que é baixa, a costa forma uma pequena ansa denominada o Porto Novo, situada ao norte da freguesia de São Sebastião e fronteira à Ribeira Seca; e na costa do Porto Martins, encontramos o porto da Negra, o de Santiago, o de São Francisco, e o da Câmara. Todos estes portos são pequenos e apenas se tornam acessíveis aos barcos de pesca e de cabotagem, visto que a profundidade não excede ali a 22 metros. Em seguida à ponta do Baixio da Praia, encontra-se a de Santa Catarina, que marca, para o sul, o começo da vasta baía da Vila da Praia da Vitória, a qual termina ao norte na ponta da Má-Merenda. Esta baía, a mais extensa que possui a ilha Terceira, e, segundo os náuticos, uma das mais seguras com o vento oeste, tem a forma de lua crescente, tendo uma milha, pouco mais ou menos, de abertura, entre o Forte do Espírito Santo e o de Santa Catarina. O máximo de profundidade que tem esta baía é de 40 metros; e para o lado sul encontra-se um banco de areia, bastante extenso, que se toma perigoso para as embarcações que demandam aquele porto. A hora do preia-mar é, na baía da Praia da Vitória, de 12 horas e 35 minutos,1 e a amplitude da maré é 1,2 m, pouco mais ou menos. Este areal, que se torna notável, não só pela extensão e forma regular, como pela cor esbranquiçada que apresenta, e que o distingue de todos os outros areais que possui a ilha Terceira, é formado de pequenas conchas marítimas, cuja forma só pode ser apreciada por meio da lupa, e que o mar continuamente arroja sobre as praias. Continuando a circundar a ilha, e a partir da ponta da Má-Merenda, a costa começa novamente a elevar-se em rocha escarpada até à Ponta da Caldeira das Lajes, formando as pontas: dos Carneiros, e a do Ilhéu do Espartel, em frente da Serra de Santiago, e a ponta da Caldeira, em frente da Caldeira das Lajes. A partir desta ponta, a costa marítima abate-se novamente até ao Pico de Matias Simão, em frente à freguesia dos Altares, apresentando para oeste da Ponta do Espartel duas bacias pequenas, fronteiras à freguesia de Vila Nova. Em frente da primeira, e a ⅔ de milha da costa, encontra-se um baixio, denominado Baixa de Vila Nova, formado por pequenas rochas pouco percetíveis, e dispostas de modo tal que, a onze metros para leste deste escolho e a dezasseis metros a oeste, pode facilmente passar qualquer barco de pesca. A segunda bacia fica bem em frente da freguesia de Vila Nova; e, entre estes dois últimos pontos, encontram-se as pontas: da Forcada, em frente à Canada da Bezerra, de Vila Nova; e a da Baleeira, fronteira às Quatro Ribeira. Logo a seguir a estas duas bacias, encontra-se a ponta da Rua Longa,


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baixa e pouco saliente, pertencendo à freguesia dos Biscoitos; e, a oeste do meridiano desta ponta, vê-se o Pico do Viana, e logo adiante o porto dos Biscoitos, quase inacessível aos barcos de pesca. Há poucos meses começaram os trabalhos neste porto, tendentes a modificarem o varadouro dos barcos de pesca, e torná-lo menos periogoso. Entre este porto e o Pico de Matias Simão, nos Altares, a costa é quase talhada a prumo, e apresenta uma só ponta, a dos Casteletes, fronteira à Fajã. Deste último ponto, a costa marítima torna a elevar-se até à ponta da Ajuda, na freguesia de Santa Bárbara, na extensão de cinco léguas, apresentando rochas escarpadíssimas e as mais altas de toda a costa, sendo as mais notáveis a do Queimado e a do Peneireiro. Em frente da Rocha do Queimado, encontra-se a ponta do mesmo nome, e logo a seguir a Ponta da Baleia, fronteira à Serreta. A 2 ⅓ milhas, pouco mais ou menos, da Ponta da Serreta, entre N 51° O e N 56° O, encontram-se duas baixas perigosas, cobertas de água na espessura de nove metros. Estes baixios, denominados — baixas da Serreta — acham-se situados sobre um plateau de 18 a 20 metros de profundidade, situado a uma milha, pouco mais ou menos, da costa. A partir de Santa Bárbara, a costa torna a descer outra vez até à ponta de São Mateus, e daqui até ao Monte Brasil é, por assim dizer, ao nível do mar. Durante este trajeto, encontra-se a ponta dos Graneis, em frente à ribeira das Cinco; a ponta das Duas Ribeira, fronteira à ribeira da Ponte; a do Recanto, em frente de São Bartolomeu; a do Frade, junto ao porto do Negrito; e a ponta de São Mateus, fronteira à freguesia do mesmo nome. Tem também os pequenos portos das Cinco, do Negrito, de São Mateus, e a baía do Fanal, ao oeste do Monte Brasil, onde vão ancorar os navios, quando o vento sopra rijo de SE ou SSE. Finalmente, entre a ponta leste do Monte Brasil e o Castelo de São Sebastião, encontra-se a baía de Angra, que, pelo seu formato, deu o nome à cidade, constituindo o principal porto da ilha. O estabelecimento do seu fundeadouro é às 11 horas, e a amplitude da maré 2,3 m. Entre a ponta de Santo António, no Monte Brasil, e o Castelo de São Sebastião, encontra-se uma profundidade de 20 a 24 metros, onde .podem fundear embarcações de grande tonelagem; e para dentro regula de 13 a 16 metros, o suficiente para pequenas embarcações mercantes. Esta baía, completamente desabrigada aos ventos SE e SSE, torna-se por isso bastante perigosa para os navios que nela estão fundeados. Nesta baía encontram-se vários cais de desembarque, que são: o Porto de Pipas, na encosta do Castelo de São Sebastião, e que antigamente se denominava o régio-porto, mandado construir em 1566 por D. Sebastião,


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sofrendo, mais tarde, algumas modificações, sendo a principal, o cais que nele se encontra e a muralha protetora. Neste lugar do Porto de Pipas existiu, outrora, um estaleiro onde se construíram alguns navios, sendo o último um brigue com o nome de Faísca, lançado ao mar no dia 10 de maio de 1846. Ao oeste da baía; um outro cais denominado da Figueirinha ou Porto Novo, junto à raiz do Castelo de São João Baptista, cuja construção começou no dia 27 de dezembro de 1841, por ordem do Conselheiro José Silvestre Ribeiro, de saudosa memória para os Terceirenses, quando Governador Civil deste distrito, desde 1839 até 1844; finalmente, o Cais da Alfândega, o principal e o mais antigo, pois que o padre Cordeiro, na sua Historia Insulana, escrita em 1717, já a ele se referia como sendo o primeiro cais que possuiu a baía de Angra. Estes três pontos de desembarque acham-se hoje reunidos por uma bela estrada, denominada de Bernardino Machado. Entre o cais da Alfândega e o da Figueirinha, encontram-se dois pequenos areais: um, próximo deste ultimo cais, comunicando com o Campo do Relvão por uma larga escadaria, e o segundo, o da Prainha, próximo do cais da Alfândega. Segundo afirma o P. Cordeiro, na sua História Insulana, (livro VI, capítulo VIII), serviu, outrora, este areal de estaleiro, onde se construíram muitos navios e galés, que serviam para defender a ilha, dos piratas. Para oeste do Monte Brasil, encontra-se um outro areal, denominado do Fanal, onde por vezes se tem projetado construir um cais para descarga dos navios; e entre este e a Bateria de S. Diogo, no recanto denominado dos Espanhóis, existe um pequeno cais, denominado do Fanal ou dos Vapores, mandado construir pela Companhia União Mercantil, que existiu nesta cidade, e para o qual se desce por uma grande escadaria, disposta em vários lanços. No resto da costa marítima da ilha Terceira, apenas existe um pequeno cais na baía da Vila da Praia da Vitória, parte do qual se acha em ruínas. Em volta da costa, encontram-se alguns ilhéus, que são os dois ilhéus das Cabras, a SE da baía de Angra e a ⅔ de milha, pouco mais ou menos, distante da costa, em frente da freguesia do Porto Judeu. O ilhéu grande, que está para leste, tem 150 metros de altura e é cortado quase a prumo na sua face do sul e de oeste. Estes dois ilhéus formam entre si um canal estreito, com 200 metros de largura e 20 a 24 de profundidade, podendo, por isso, dar passagem a grandes navios. No ilhéu maior encontram-se várias furnas e uma extensa câmara vulcânica que é acessível a pequenos barcos. Ao sul do ilhéu grande, e à distancia de perto de 2 milhas, encontram-se uns pequenos cachopos, denominados os Fradinhos, dos quais, o mais alto, tem nove metros de altura. Estes rochedos formam, com os ilhéus das


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Cabras, um canal bastante largo, dando passagem a navios de grande tonelagem. No resto da costa marítima encontram-se finalmente os ilhéus: da Mina, do Espartel, dos Casteletes, e o do Frade, em frente das pontas, têm estes nomes.


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