Memória sobre a ilha Terceira/IV/III

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CAPÍTULO III Roteiro da cidade de Angra

Angra do Heroísmo, a muito nobre, leal, e sempre constante cidade, outrora capital de todo o arquipélago açoriano, hoje tão somente da ilha Terceira e do distrito a que dá o seu nome, está situada na orla de uma pequena enseada, ocultando-se à vista dos navegantes que a ela se dirigem para depois lhes causar a agradável sensação da beleza e majestade do seu todo. Nos primeiros anos após a descoberta da ilha Terceira, foi Angra considerada como vila, do mesmo modo que a Praia. Divergem algum tanto as opiniões sobre a data da criação destas duas vilas, sendo o Padre António Cordeiro de opinião, na sua História Insulana, que, desde o princípio, foi Angra considerada como vila e como capital, enquanto que Frei Diogo das Chagas marca uma época anterior a 1480. O que parece verdadeiro é que, tendo sido estabelecidas duas capitanias (Praia e Angra) em 1474, só depois desta época é que seriam considerados como vilas aqueles dois lugares. Mais tarde, El-Rei D. João III, atendendo aos muitos serviços prestados pelos moradores de Angra em socorro das naus da Índia, e estar a mesma vila muito acrescentada e enobrecida, deu-lhe os foros de cidade, com as mesmas liberdades e privilégios das outras dos seus reinos, por Carta passada em Évora, a 21 de agosto de 1534. Por Alvará de 1 de abril de 1643, foi concedida à cidade de Angra o título de sempre leal, pela lealdade que sempre mostrou para com os Reis de Portugal; e, por Alvará de 26 de fevereiro 1771, a ilha Terceira foi considerada do mesmo modo que as restantes, como ilha adjacente; e, em 28 de


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outubro de 1828, foi a cidade de Angra considera, pela junta provisória dos Açores, como capital da Província dos Açores, o que não durou muito. Finalmente, por Carta de 12 de janeiro de 1837, foi ordenado pelo governo de D. Maria II que a cidade de Angra passasse a denominar-se do Heroísmo, e ao título que já tinha se aumentasse o de sempre constante. A cidade de Angra do Heroísmo, a que andam ligadas as mais heroicas tradições, é incontestavelmente uma bela, formosa e risonha cidade, ufanando-se da sua regular e majestosa edificação, sendo difícil, como muito bem diz o Ex.mo Sr. J. V. Paula Nogueira1, no seu livro As ilhas de S. Miguel e Terceira2, encontrar-se em Portugal, afora Lisboa, uma cidade tão regularmente e tão majestosamente edificada, como a cidade de Angra do Heroísmo, capital da ilha Terceira. Soberba da sua formosura, apenas deixa ver ao viajante uma linha curva ornada de casarias, que se estende desde o chamado Pátio da Alfândega até ao fim da rua inclinada, conhecida com o nome de Rua da Rocha; e para leste uma elevada rocha denominada Cantagalo, no cimo da qual se encontram numerosas casas. Do resto da cidade apenas é visível uma pequena parte, em anfiteatro, no cimo do qual se vê o monumento a D. Pedro IV. Quando o viajante chega ao chamado Pátio da Alfândega, hoje Largo 3 de Março, porque este título comemora o dia em que o Imperador D. Pedro IV desembarcou em Angra no ano de 1832, encontra diante de si o templo da Misericórdia, de que mais adiante falaremos, ao lado do qual segue uma larga e bela rua, chamada com justa razão Rua Direita, que chega ao largo do Colégio, e depois se continua com a denominada Rua do Marquês, um pouco íngreme, e que, costeando a parte posterior da Igreja do Colégio e jardim do Palácio, vai continuar-se com uma outra rua, bem plana, denominada Rua de Mouzinho de Albuquerque, antigamente Rua do Rego, dirigida de leste para oeste, a qual termina no Largo 11 de Agosto, outrora chamado Alto das Covas, por haver neste largo algumas covas onde se depositavam os trigos, para os subtrair à acção dos vermes. Era neste lugar que havia o pelourinho. No fim da Rua do Marquês encontra-se para o lado do norte, e em plano inclinado, a Rua da Miragaia, que vai terminar num pequeno largo conhecido pelo nome de Largo da Pereira, de onde partem duas outras ruas, uma quase em continuação à da Miragaia, com o nome de Rua da Pereira, e a outra para a esquerda, denominada Rua do Chafariz Velho. Ao pequeno Largo da Pereira vem ter o beco do mesmo nome, vulgarmente conhecido pelo de Rua do Saco, que se encontra à direita de quem sobe a Rua da Miragaia e bem no limite desta. Caminhando pela Rua de Mouzinho de Albuquerque encontra-se quase no extremo oeste desta rua, e em frente ao mercado Duque de Bragança, uma outra, também em plano inclinado, dirigida para o norte, paralelamente à da


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Miragaia, com o nome de Rua do Visconde de Bruges, ou vulgarmente Rua do Pau São, e que vai terminar na Rua do Conde da Praia da Vistoria, colocada perpendicularmente àquela. Esta rua, que melhor se poderia chamar um beco, dirige-se para leste, indo terminar em frente da igreja paroquial de Santa Luzia, numa pequena rampa denominada Rua de Santa Luzia. Ao lado direito, quem sobe a Rua do Visconde de Bruges, encontram-se duas ruas que são a Rua de Baixo e a Rua de Cima, as quais se unem numa só que vai terminar na Rua da Miragaia. Ao lado esquerdo da Rua do Visconde de Bruges temos a Rua da Boa Vista, dirigida de leste para oeste, terminando na Rua da Madre de Deus, colocada perpendicularmente aquela, indo esta terminar no Largo 11 de Agosto. Entre a Rua do Visconde de Bruges e a Rua da Madre de Deus, temos a Rua Queimada, colocada paralelamente àquela, e que, começando na Rua da Boa Vista, vai terminar na Rua de Mouzinho de Albuquerque. A partir do Largo 11 de Agosto, e dirigindo-nos para oeste, temos uma bela rua de macadame, denominada Rua de São Pedro, ou vulgarmente Rua de Cima de São Pedro, que termina no Largo 4 de Março de 1642, vulgarmente conhecido pelo nome de Portões de São Pedro, por ter sido ali um dos portões da cidade. A esta rua, que é uma das de maior trânsito, sobretudo para as freguesias rurais, vêm ter várias outras que são, a começar do Alto das Covas e só para o lado esquerdo: a Rua do Conde de Sieuve de Menezes, cujo primeiro nome foi Rua do Fanal, depois Rua da Alegria, e ainda é conhecida vulgarmente pelo nome de Rua de Baixo de São Pedro; em seguida, uma pequena travessa sem nome, comunicando a Rua de São Pedro com a Rua de Baixo e a Rua do Meio; a Travessa de São Pedro, que termina na Rua do Conde de Sieuve de Menezes; a Travessa do Fanal, paralela aquela e tendo a mesma terminação; a Rua do Cotovelo, que, começando ao lado leste da igreja paroquial, descreve depois um verdadeiro cotovelo e, encontrando-se com a Travessa do Fanal, vai em seguida continuar-se com a Rua do Meio de São Pedro, situada entre a Rua do Conde de Sieuve de Menezes e a Rua de São Pedro; e finalmente, quase no fim desta última rua, encontra-se a Rua da Cruz, ou vulgarmente Rua de Trás, que vai continuar-se com a Rua do Conde de Sieuve de Menezes, formando estas duas ruas um ângulo quase reto. No principio da Rua de São Pedro e fim da rampa do Alto das Covas encontra-se uma outra rua, dirigida para o sul, parte da qual tem o nome de Estrada de São Gonçalo por costear o edifício do extinto convento deste nome, e depois o nome de Rua da Boa Nova ou vulgarmente Rua do Mota, que, depois de descrever uma pequena curva quase no fim, se une à Rua do Conselheiro Nicolau Anastácio de Bettencourt, antiga Rua do Pintor, que, correndo paralelamente aquela, vai terminar no Largo 11 de Agosto. Deste largo desce para leste a principal rua da cidade, a Rua da Sé, que


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termina no largo principal da cidade, denominado Praça da Restauração, ou vulgarmente Praça Velha. Ao lado sul desta rua, vêm desembocar outras, todas direitas e paralelas entre si, e que são, de cima para baixo: a Rua de D. Afonso VI, ou vulgarmente Rua dos Canos Verdes; a Rua de Jesus, a Rua do Infante D. Luís, ou vulgarmente Rua dos Cavalos3, a Rua do Salinas; a Rua do Infante D. Henrique, ou vulgarmente Rua da Palha; e, finalmente, a Rua de São João. Todas estas ruas são cortadas transversalmente por uma comprida rua, que, partindo a meio da Rua de São João, sobe paralelamente à Rua da Sé, até terminar no pequeno largo de São Gonçalo, e a ela se deu o nome de Rua do Conselheiro Jacinto Cândido da Silva, que antes era chamada Rua da Rosa. Esta rua continua-se, para oeste, com a Rua de Miguel do Canto, vulgarmente conhecida pelo nome de Caminho Novo, que termina na Rua do Castelo, situada perpendicularmente àquela. Esta última rua começa próximo da rampa do Castelo e vai terminar no bairro de São Pedro, na Rua do Conde de Sieuve de Menezes. Paralelamente à Rua do Conselheiro Jacinto Cândido da Silva, e para o sul da cidade, existe uma outra, denominada Rua da Alfândega ou vulgarmente Rua das Frigideiras, começando na Rua Direita, próximo do edifício da Alfândega, e indo terminar na Rua do Infante D. Luís. Esta rua, que põe também em comunicação entre si as outras de que já falámos, ao chegar à Rua do Infante D. Luís descreve uma pequena curva, contornando sempre a rocha que fica sobranceira à baía, e vai continuar-se com a Rua da Rocha, de pequena extensão, a qual termina num pequeno largo onde vão ter as ruas de D. Afonso VI e da Boa Nova. Em seguimento à Rua da Alfândega, e a partir da Rua do Infante D. Luís, encontramos uma outra rua, a da Oliveira, caminhando paralelamente à Rua do Conselheiro Jacinto Cândido da Silva, e indo terminar no Largo da Boa Nova. No seu percurso atravessa as ruas de Jesus, D. Afonso VI e do Conselheiro Nicolau Anastácio de Bettencourt. Entre a Rua da Oliveira e a da Rocha, há uma pequena travessa conhecida pelo nome de Travessa dos Carvalhais, que, começando na Rua de Jesus, vai terminar na do Conselheiro Nicolau Anastácio de Bettencourt; finalmente, esta última rua comunica também com a de D. Afonso VI por uma pequena travessa, denominada Travessa do Moreira, situada entre a Rua da Oliveira e a do Conselheiro Jacinto Cândido da Silva, e entre esta e a Rua da Sé fica a Rua Serpa Pinto, antiga Rua do Barcelos, que, partindo da Rua do Infante D. Luís, vai terminar na do Conselheiro Nicolau Anastácio de Bettencourt. Do lado norte da Rua da Sé encontra-se, em frente à Rua de Jesus, uma pequena rampa que, passando por diante do mercado Duque de Bragança e circundando as casas que outrora formaram o Convento da Esperança, vai


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terminar em frente à Rua do Infante D. Luís, onde começa uma outra, a da Esperança, que, caminhando paralelamente à Rua da Sé, vai terminar no Largo do Prior do Crato, vulgarmente conhecido pelo nome de Largo do Colégio. Em frente à Rua do Infante D. Henrique, começa uma outra rua, que é por assim dizer a continuação daquela, e que tem o nome de Rua do Duque de Palmela, a qual se dirige para o norte e vai terminar no ponto em que termina a Rua do Marquês e começa a da Miragaia. Na Praça da Restauração, que tem a forma de um quadrilongo e é arborizada em volta, encontra-se o edifício da Câmara Municipal, voltado a oeste, tendo de cada lado duas ruas dispostas em plano inclinado, e que são à direita a Rua D. Amélia, que, há pouco, tinha o nome de Rua do Galo; e à esquerda, a Ladeira de São Francisco. Subindo a Rua D. Amélia e chegando a dois terços, pouco mais, encontra-se uma bifurcação de ruas, ficando para a direita a Rua da Conceição e para a esquerda a continuação da de D. Amélia, que vai terminar numa outra rua levemente inclinada, que é a Rua do Cruzeiro, e que, partindo do pequeno largo do Cruzeiro e passando perpendicularmente por diante da Rua D. Amélia, vai terminar ao pé da igreja da Conceição. A Ladeira de São Francisco vai terminar junto ao adro da igreja do mesmo nome, onde se forma um pequeno largo, pela reunião das ruas do Cruzeiro e da Garoupinha, sendo esta disposta em plano bastante inclinado, e começando no terço inferior, pouco mais ou menos, da Rua D. Amélia. Em seguimento à Rua D. Amélia, que é de macadame, encontramos outra igual, bem larga, antigamente denominada Rua da Guarita, e que hoje tem o nome de Rua de D. Carlos, terminando no pequeno largo de São Bento, onde outrora havia um dos portões da cidade. Esta rua, do mesmo modo que a de São Pedro, é de bastante trânsito, porque põe a cidade em comunicação com as freguesias rurais dispostas a leste e ao norte da ilha. Partindo do extremo da Ladeira de São Francisco, e dirigindo-nos para o norte, encontramos, primeiramente, a Rua da Memória, vulgarmente conhecida pelo nome de Pisão, por ter sido ali construido o primeiro pisão que houve nesta ilha, e que vai terminar próximo do monumento a D. Pedro IV. Nesta rua encontra-se ao lado direito, quem sobe, a Rua Nova, que é estreita, e que, depois de descrever dois ângulos retos, vai terminar na Rua do Cruzeiro, e logo acima, uma outra bem inclinada, a Rua do Desterro, que vai terminar no largo do mesmo nome, onde está a ermida de Nossa Senhora do Desterro. A esta última vêm desembocar as seguintes ruas, do lado esquerdo, quem sobe: a Rua da Malagueta, a mais íngreme de todas, que depois se continua, em ângulo reto, com a Rua das Maravilhas, dirigida para o norte, atravessando todo o bairro do Outeiro; e a Travessa dos Penedos; disposta em escadaria


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muito antiga, terminando próximo do monumento a D. Pedro IV, depois de atravessar a Rua das Maravilhas. Entre a Rua da Malagueta e a Travessa dos Penedos, existe a Travessa da Malagueta.4 Partindo da ermida de Nossa Senhora do Desterro e dirigindo-nos para oeste, encontramos uma rua estreita, sem nome, que vai ligar-se com a Travessa dos Penedos e Rua da Memória, e terminando junto ao monumento a D. Pedro IV; para leste da dita ermida, encontramos a Canada do Barreiro, que se continua com a Canada de António Sieuve, a qual vai terminar próximo da ermida de São Lázaro, e entre aquela e a Rua de D. Carlos há uma outra rua bem larga, denominada Rua do Padre Jerónimo Emiliano de Andrade, conhecida também pelo nome antigo de Canada do Barreiro. Voltando ao nosso primitivo ponto de partida, o Pátio da Alfândega, temos ao lado leste da igreja da Misericórdia uma rua, não muito larga, que é chamada a Rua de Santo Espírito, terminando na Rua D. Amélia, e comunicando com a Rua Direita por uma estreita travessa, conhecida pelo nome de Travessa de Santo Espírito, do mesmo modo que esta última rua comunica com a de São João, por uma denominada Travessa de São João, quase em frente à primeira. Do lado leste da Rua de Santo Espírito, encontramos primeiramente a Rua do Faleiro, bastante íngreme, e terminando junto da ermida do Corpo Santo, situada no cimo da rocha de Cantagalo; e logo a seguir a Rua do Morrão também disposta em plano inclinado, e terminando na Rua da Conceição, de que já falámos. Esta última rua, circundando a igreja do mesmo nome, vai terminar na Rua do Porto, disposta perpendicularmente aquela, e que, começando próximo da ermida dos Remédios, vai terminar no Porto de Pipas. Entre a Rua da Conceição e a Rua de D. Carlos existe uma outra rua bem estreita, denominada de Trás das Hortas ou Travessa das Hortas. Partindo do largo da igreja da Conceição e dirigindo-nos para o sul, encontramos primeiramente uma pequena rua com o nome de Rua do Padre Rogério, e paralelamente a esta a do Conselheiro Monjardino, terminando ambas no pequeno Largo dos Remédios, onde existe a ermida do mesmo nome. Em frente à Rua do Conselheiro Monjardino, e a começar do Largo dos Remédios, encontramos a Rua do Armador, que vai terminar na Rua do Faleiro, e paralelamente a ela ficam para o norte a Rua dos Italianos, quase em continuação à do Padre Rogério, e para o sul a Rua do Cardoso. Estas três ruas, dispostas em plano inclinado, vão terminar na Rua do Faleiro; e a pequena distância desta, são cortadas por uma outra rua, bem extensa, a do Barreiro, que começa na Rua do Morrão e vai terminar junto à ermida do Corpo Santo, depois de descrever um pequeno ângulo quase no seu extremo. A partir desta ermida, encontramos num plano inferior à Rua do Faleiro,


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e, quase paralela a ela, a Rua do Corpo Santo, que termina em escadaria próximo do cais da Alfândega, na estrada de Bernardino Machado. Em frente à Rua do Faleiro, e para o sul da dita ermida, começa uma outra rua denominada do Castelinho, vulgarmente conhecida pelo nome de Cantagalo, que, descendo em rampa bastante inclinada, vai terminar no jardim do Porto de Pipas.


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