Memória sobre a ilha Terceira/IV/XII

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CAPITULO XII Dos arredores da cidade de Angra Possui a cidade de Angra alguns arrabaldes dignos de menção, sobretudo ao norte e oeste, aos quais a sociedade angrense recorre na estação calmosa. Situada numa leve encosta, Angra possui ao norte o bairro de São João de Deus e o aprazível lugar do Posto Santo, pertencentes à freguesia urbana de Santa Luzia, e dos quais passamos a tratar. Em frente ao monumento de D. Pedro IV, começa o bairro de São João de Deus, colocado em plano levemente inclinado, e atravessado por uma larga e abundante ribeira, denominada Ribeira do Castelo dos Moinhos ou de São João de Deus, a qual, depois de descrever pequenas curvas no seu trajeto, vem atravessar a Praça da Restauração, e, caminhando paralelamente à Rua Direita, vai desaguar no mar. Esta ribeira foi mandada encanar por Álvaro Martins Homem, capitão do donatário de Angra, visto que a sua primitiva direcção, além de embaraçar as edificações da cidade que se pretendiam fazer, não podia ser aproveitada para a moagem dos cereais, como hoje está sendo. Quase a meio do bairro de São João de Deus, encontra-se uma pequena ermida, que outrora tinha o nome de Santo Isidro, e que foi mandada construir por Francisco Borges de Ávila em 1657. É de pequenas dimensões, e apenas tem uma capela ao fundo, onde está a imagem de São João de Dos, orago da igreja, tendo dos lados dois pequenos nichos, num dos quais está a imagem de Santo Isidro, e no outro a de Nossa Senhora do Parto.


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Para o norte desta ermida corre a parte mais plana do bairro, cheia de pequenas e alegres casas com seus balcões de pedra, e ao fim um largo, denominado o Terreiro. Este bairro, de onde se desfruta um bonito panorama sobre toda a cidade é muito concorrido na segunda-feira da Trindade, onde tem lugar uma corrida de toiros à corda, considerada já como clássica. Este bairro comunica com a cidade pelo lado do Outeiro e pela Rua da Pereira, de que já falámos, e vai terminar no lugar do Lameirinho que nada tem de notável e que constitui a estrada real, como veremos mais adiante. Mais ao norte da cidade fica o lugar do Posto Santo, que hoje constitui um curato sufragâneo da freguesia de Santa Luzia, e cujo nome provém da grande epidemia da peste que assolou toda a ilha em 1599 e que tantas vítimas fez em todos os pontos, exceto neste lugar, para onde se refugiaram muitas famílias da cidade. Neste lugar, cercado de pinheirais e numerosos eucaliptos e faias, o ar torna-se puro e saudável, e por isso, raríssimas vezes tem sido visitado pelas epidemias que têm grassado na ilha. Ali se encontram boas quintas, frequentadas pelos seus proprietários nas estação calmosa, e possui também uma ermida de Nossa Senhora da Penha edificada pela família Merens de Távora, e elevada a curato em 1716. Nesta pequena ermida há um só altar com a imagem de Nossa Senhora da Penha de França, tendo aos lados o Menino Jesus e Santo António. Este curato comunica com a cidade, pelo lugar da Boa Hora, pela Ladeira Branca que vem terminar ao Chafariz Velho, e com a Ladeira do Milhafre, que vem ter ao lugar da Pateira. Saindo da cidade pela Rua de São Pedro, penetra-se no Largo Quatro de Março, onde começam duas duas estradas, uma à beira-mar com o nome de Caminho de Baixo, e a outra dirigida para o norte, denominada Caminho de Cima, ambas pertencentes à freguesia urbana de São Pedro. Esta última termina no lugar denominado Bicas de Cabo Verde, a pouco mais de um quilómetro distante do extremo da cidade. Algumas quintas se encontram no Caminho de Cima, e a pouca distância do portão de São Pedro está o aprazível e pitoresco lugar do Pico da Urze, com um pequeno monte, sobre o qual se ergue a ermida de Nossa Senhora da Penha de França, fundada em 1742 pelo Padre Sebastião Deiró Condé, por intermédio do seu procurador nesta ilha, o Padre António Dias.1 Daqui segue, por um caminho não muito largo, e costeando o pequeno monte, para o lugar denominado de São Carlos, sito no Caminho do Meio, quase dois quilómetros de distância do Largo Quatro de Março. Esta estrada, que começa no Caminho de Baixo e a pouca distancia do extremo da cidade, atravessa parte da freguesia de São Mateus, no lugar de São Francisco das Almas, toda a freguesia de São Bartolomeu e vai terminar


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no lugar denominado Cruz das Duas Ribeira, um dos limites da freguesia do Pilar. O lugarejo de São Carlos, a Sintra Terceirense, está enriquecido com boas propriedades e casas de habitação. No pequeno largo encontra-se uma ermida, restaurada há poucos anos, e que fora edificada por António Coelho de Carvalho e depois reedificada por Francisco Borges de Ávila em 1600. Nesta ermida está uma linda imagem de São Carlos Borromeu, de grande devoção; e fronteiro a este templo o império do Espírito Santo ao qual nos referiremos noutro capítulo. É no Caminho do Meio que está a quinta denominada do Garrett, fronteira à de Santo Antonino, e onde o imortal escritor Visconde de Almeida Garrett passou os primeiros anos da sua mocidade, na companhia de seu tio o Bispo D. Fr. Alexandre da Sagrada Família, dono da propriedade. Mais adiante de São Carlos fica a pequena ermida de Jesus, Maria, José, em prédio particular, e na Canada dos Folhadais a de São Mamede, construída em 1635. Finalmente o Caminho de Baixo, seguindo sempre à beira-mar, constitui a estrada real que circunda toda a ilha. Até à distancia de três quilómetros, pertence à freguesia urbana de São Pedro ; possui este caminho boas casas e quintas, onde os seus proprietários vão passar a estação balnear. Ali se encontra, a pequena distância da Silveira, onde está amarrado o cabo submarino, a ermida de Nossa Senhora da Oliveira, mandada construir por Domingos Moniz Correia e sua mulher Joana Maria em 1734, e reconstruida em 1817 por João da Rocha Ribeiro. Mais adiante está o largo da Estrela, tendo à esquerda a quinta que foi dos jesuítas, sobre o portão da qual está a seguinte legenda «Avè Maria Stella», e por último o lugar da Aberta, muito concorrido nas tardes quentes do Estio. Resta-nos finalmente falar do lugar de Vale-de-Linhares, pertencente à freguesia de São Bento; mas como aquele bairro constitui quase a totalidade desta freguesia, a ele nos referiremos no capítulo seguinte.


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