Memória sobre a ilha Terceira/IV/XVII

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CAPÍTULO XVII Das freguesias de Agualva, Quatro Ribeiras, Biscoitos e Altares Agualva A dois quilómetros do centro de Vila Nova, e um pouco para o centro da ilha, fica a freguesia de Agualva, assente na falda de um outeiro formado de lava, que provavelmente para ali correu do sertão da ilha, nos tempos primitivos. O seu nome deriva de uma grande ribeira, que atravessa o povoado, de água muito límpida, proveniente de várias fontes, e por isso denominavam, ao princípio, a freguesia de Água-Alva, e mais tarde Agualva. Até 1623 foi este lugar considerado como capelania sufragânea à Vila Nova, tendo sido instituída a sua ermida em 1588, por João Homem da Costa, filho de Heitor Álvares Homem. Desde então tornou-se freguesia independente, completando-se as obras da igreja em 1678 segundo a inscrição gravada na porta do templo. Esta paroquial está quase ao centro da freguesia, e é formada, no seu interior, por três naves. Na capela-mor está a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, orago da igreja, ao centro, e dos lados, em nichos apropriados e aderentes às bases das colunas do arco da mesma capela, as imagens de Nossa Senhora do Rosário e de Santa Ana. Na nave lado do evangelho, encontra-se uma capela, a das Almas, com a imagem do Coração de Jesus; e na do outro lado, três capelas, a de Santo Cristo, onde está também a imagem de São Francisco, a de Nossa Senhora


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das Necessidades, onde está também Santo Amaro e Santo Antão, e dentro da sacristia daquele lado, a do Senhor dos Passos, com a imagem da Senhora da Soledade. Possui esta igreja dois coretos: um, junto à porta principal, e o outro, do lado da epístola, entre dois arcos da nave, no qual está um órgão. Na frontaria desta igreja, que é de arquitetura antiga, vê-se no seu ângulo esquerdo um antiquíssimo gnomon ou relógio do sol, tendo as horas gravadas numa pedra. Em 1880 foi construído um cemitério contíguo à igreja, com duzentas e cinco sepulturas. Esta freguesia é atravessada por quatro ribeiras, sendo as principais, a de Agualva, que corre todo o ano, e a das Pedras, só por ocasião das grandes chuvas. A esta última vão ter: a ribeira dos Leitões e a grota dos Pachecos. Próximo do limite da freguesia corre também o Rego das Calhas, que leva a água para a fábrica de destilação de álcool na freguesia das Lajes. É esta freguesia rodeada por vários picos, tais como o do Assopro, para o oeste, e o dos Louros para o norte, formando uma pequena caldeira; e entre esta freguesia e a das Quatro Ribeiras, corre, desde o mato até ao mar, um terreno de biscoito, a que dão o nome de Biscoito das Colmeias. A Agualva comunica com a freguesia antecedente e Quatro Ribeiras, pela estrada litoral; com São Brás e Lajes, pelo Caminho do Meio; e com as Fontinhas, pelo caminho das Pateiras. As ruas que atravessam esta freguesia são a dos Moinhos, do Valverde, a Rua Velha, da Levada, do Morro, Canada Grande, das Dadas, do Vicente Coelho, dos Correias, Caminho dos Outeiros, Rua da Portela, Caminho do Outeiro do Filipe e Caminho da Ladeira de Nossa Senhora. A sua população é de 1:813 habitantes, distribuídos por 440 fogos. Possui alguns industriais, tais como cesteiros, galocheiros, sapateiros e um ferreiro, mas a sua principal indústria é a de moagem de cereais, feita em vários moinhos, movidos pela água. O seu comércio é superior ao de muitas outras freguesias: conta hoje oito casas comerciais de líquidos a retalho, mercearia e fazendas; e há também os negociantes de lenhas, que, quase todos os dias vão à cidade tratar do seu negócio. Nesta freguesia é digno de menção um castanheiro secular, que conta três séculos, cujo tronco medo dez a doze metros de circunferência. Quatro Ribeiras A seguir à freguesia de Agualva, encontra-se a das Quatro Ribeiras, de que já falámos no capitulo XIII sobre a sua origem, ao descrevermos a freguesia de São Sebastião.


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É um dos lugares mais estéreis e tristes da ilha Terceira, e o seu orago é Santa Beatriz. A paroquial, situada quase no centro da freguesia, parece ter sido construída em 1652, tendo sofrido depois vários consertos. O seu interior está dividido em três naves, separadas por três colunas de cada lado, e tem na capela-mor o Sacrário e acima as imagens de Santa Beatriz, mártir, ao centro, e dos lados São Francisco de Assis e Santo António. Em frente à nave do lado do evangelho, e ao lado da capela-mor, está o altar de Nossa Senhora do Rosário, onde estão também as imagens de São Mateus e Santa Luzia. Do outro lado, e simétrica a esta, está a capela de São Pedro, tendo aos lados as imagens de Nossa Senhora do Carmo e São Gregório. Sobre a porta principal corre um pequeno coreto; e dentro do adro da igreja está o cemitério com sessenta e oito sepulturas. A freguesia das Quatro Ribeiras é atravessada por quatro ribeiras: a Ribeira Grande, a Pequena, a Ribeira Seca, e a do Almeida. Comunica com as freguesias circunvizinhas pela estrada litoral, e tem apenas duas canadas: a da Igreja, e a da Vesta, que comunicam com o mato; havendo também o Caminho Velho, onde se encontram alguns moinhos movidos a água. A sua população é de 674 habitantes, distribuídos por 170 fogos. Não tem indústria alguma, e o seu comércio consiste na venda de lenha de pinho e cereais. Biscoitos Voltada ao noroeste da ilha Terceira e a seguir à freguesia das Quatro Ribeiras, encontra-se os Biscoitos, outrora florescente e abundante de vinhos e frutas, mas que, ainda hoje, apesar do estado decadente a que chegou, constitui um dos pontos da ilha mais concorridos na estação calmosa, e uma das freguesias mais saudáveis, tanto pela sua orientação como pela natureza do seu solo. Assente sobre terreno vulcânico, e rodeada pelo sul por altas e negras serras vulcânicas, apresenta ainda, nalguns pontos, os vestígios da última erupção que teve lugar na ilha Terceira. A porção de terreno que a separa da freguesia das Quatro Ribeiras, com o nome de Biscoito Bravo, e toda a planície que se estende desde os Picos Gordos até ao Outeiro Alto e um pouco acima da igreja paroquial, constituem as relíquias do grande cataclismo de 1761. É uma das freguesias mais antigas da ilha; anterior a 1568, apenas tem de extensão, entre as freguesias limítrofes, pouco mais de três quilómetros.


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A sua população encontra-se mais condensada para o sul, onde foi o núcleo da primitiva freguesia. A atual paroquial, situada próximo do pitoresco lugar da Caparica, onde a vegetação é mais viçosa, apresenta uma arquitetura antiga e mesquinha. Não foi a primeira a construir-se naquela freguesia, pois que, segundo nos diz a história, a primeira paroquial ficava a mil e quinhentos metros ao sul da atual, no lugar denominado as Igrejinhas, o que prova ter sido na Caparica a parte principal da freguesia dos Biscoitos. O interior do templo é duma só nave. Na capela-mor está a imagem de Nossa Senhora da Conceição, e em dois nichos laterais, São Pedro, orago da igreja, e o apóstolo São Paulo. Saindo da capela-mor, encontramos, do lado do evangelho, um altar denominado das Almas, tendo no cimo um Cristo sobre um fundo de tela pintada, representando o purgatório, e abaixo as imagens de São Francisco de Assis, no centro, e aos lados Santo Antão e Santo Amaro. Do lado oposto, existe também um só altar com um quadro do Sagrado Coração de Jesus, e as imagens de Nossa Senhora do Rosário, no centro, e aos lados São Sebastião e Santo António de Pádua. De há muito que esta igreja necessita de reparações importantes, ou talvez melhor, de mudança de local, visto ter aumentado a população e estendido as suas habitações para a estrada litoral da ilha. O bairro que circunda esta igreja, denominado de São Pedro, é alegre e pitoresco, já pelo grande número de casas que o compõem, já pela vegetação exuberante que o rodeia e cobre a encosta elevada que lhe fica sobranceira. Próximo desta igreja, encontra-se a ermida de Nossa Senhora do Loreto, fundada em 1556 por Pedro Anes do Canto, com um só altar, onde está a imagem da Virgem. Dirigindo-nos para a parte baixa da freguesia, e caminhando pela estrada litoral para o lado do poente, nota-se uma pequena ermida sob a invocação do Espírito Santo, contígua à casa do Ex.mo cavalheiro Ciríaco Tavares Silva, e que feira construída em 1761 por Matias Silveira, em consequência do voto que fizera, ao ver o fogo correr sobre a terra, naquele ano, e parar próximo às suas propriedades. Tem um só altar, onde está o símbolo do Divino Espírito Santo. Próximo do porto dos Biscoitos, divisa-se entre os vinhedos já decadentes da freguesia, uma outra ermida de Santo António, com a imagem do seu orago, e que hoje pertence ao Sr. José Cupertino Dinis Ormonde. Acerca da sua origem, obtivemos os seguintes apontamentos, fornecidos pelo seu proprietário: tendo chegado a esta ilha, em 1690, o alferes José Dinis Ormonde, natural da ilha do Corvo, fixou a sua residência na freguesia dos Biscoitos, onde possuía a maior parte dos seus bens. Resolvendo fazer algumas obras nas suas propriedades, e constando-lhe que entre os Biscoitos


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e as Quatro Ribeiras, aparecia muita madeira boiando à superfície do mar, para ali se dirigiu, descobrindo, próximo das pedras à beira-mar, um pequeno caixote, dentro do qual estava a imagem de Santo António. Construiu imediatamente a ermida, com a condição de seu sobrinho, o reverendo Francisco Dinis Ormonde, celebrar todos os dias dentro dela, o santo sacrifício da missa. A propriedade desta ermida foi passando de geração em geração, até que, na época liberal de 1830 a 1833, estacionando na freguesia dos Biscoitos o Batalhão de Voluntários, estes, arrombando a ermida, lançaram ao mar a imagem do Santo. Tendo conhecimento deste sacrilégio, o capitão Francisco Dinis Ormonde, pai do atual proprietário da ermida, deitou-se ao mar e conseguiu alcançar a imagem, mas ficou profanado o templo até 1874, em que foi novamente reparada e onde se conserva a mesma imagem. Finalmente, no limite ocidental desta freguesia, encontra-se a ermida de Santa Catarina, fundada por Gonçalo Alvares Pamplona, natural do reino de Navarra, que ali instituiu cabeça de morgado, e de onde descende a família de Alexandre Martins Pamplona. Esta ermida, situada no ponto que separa a freguesia dos Biscoitos da dos Altares, tem um só altar com a imagem de Santa Catarina. Possui esta freguesia um pequeno porto, com sete barcos de pesca, e próximo dele, os restos de um pequeno forte, denominado Forte do Porto. Próximo deste ponto, está uma pequena calheta, muito frequentada pelos banhistas nos meses de verão, e mais adiante, para o lado do nascente, a baía do Rolo, formada por grandes calhaus de forma esférica e de cor branca, que se não encontram noutro ponto da ilha. Junto à rocha desta pequena angra, notam-se os vestígios de um forte, que outrora tinha o nome de Forte da Rua Longa. Possui esta freguesia lindos pontos de vista, merecendo especial menção a Caparica e o Pico do Gaiteiro, bem como a Fonte, para onde se desce por cento e tantos degraus, encontrando-se num profundo e estreito vale uma vegetação exuberante por entre a qual corre um pequeno riacho. E, em consequência da amenidade desta freguesia, e concorrência sempre crescente das famílias de Angra e Praia da Vitória, na estação calmosa, tem adquirido o título de Sintra Terceirense. A freguesia dos Biscoitos comunica com as suas vizinhas, pela estrada litoral, e com a cidade, pela Canada do Caldeiro, que vai terminar na Estrada Real n.° 3, em frente aos Picos Gordos. Possui algumas canadas, sendo as principais, a das Vinhas, dos Boiões e a do Porto, que vai ter ao mar. A sua população é de 2:039 habitantes, distribuídos por 635 fogos. Não tem indústria especial, e o seu comércio reduz-se à venda de peixe, lenha e frutas.


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Altares A trinta e seis quilómetros distante da cidade, seguindo a estrada litoral de oeste, ou a dezasseis quilómetros pela estrada do interior da ilha, está a freguesia dos Altares, cujo nome, na opinião do Padre Cordeiro, na sua História Insulana, provém do pico de Matias Simão ter a configuração de um altar, quando visto do mar. Na opinião de Monsenhor José Alves da Silva1, que foi por muitos anos vigário desta freguesia, a palavra «Altares» provém da contração de «Altos Ares», segundo uns documentos antigos. É uma das freguesias que mais tem progredido nestes últimos anos não só em aformoseamento e condições higiénicas, como também no aumento da sua população, comércio e indústria. Conquanto não exista documento algum que nos indique a data da criação desta freguesia, é fora de dúvida que é das mais antigas da ilha. Supõe-se que seja anterior a 1547, porque, segundo nos diz a história, a primitiva igreja foi derribada pelo terremoto de 17 de maio daquele ano. A atual, que está em reconstrução, fica a mil e quatrocentos metros do limite ocidental da freguesia, e a dois mil e seiscentos do limite oriental. Este templo, voltado um pouco ao norte, tem uma só nave, resguardada do exterior por um pequeno para-vento sobre o qual corre um coreto alto. Na capela-mor, está o Sacrário, acima do qual se ergue um camarim com a imagem de São Roque, orago da igreja. Descendo para o corpo da igreja, encontra-se, do lado do evangelho, duas capelas, na primeira das quais está uma primorosa imagem do Coração de Jesus e outra de Santo António, e na segunda, uma boa imagem do Senhor dos Passos, abaixo da qual se vê uma outra, em escultura moderna, do Senhor Morto. No camarim desta capela vê-se também as imagens de Santo Antão, São Francisco e São José Cupertino, dignas de menção pela sua boa escultura. Do lado da epístola, temos também duas capelas, na primeira das quais está a imagem de Nossa Senhora de Lourdes com a Bernardete e outra irmã de São José, e na segunda, a do Senhor Jesus dos Milagres, com Nossa Senhora do Rosário, Santo António e São Pedro. Além destas imagens, não podemos deixar de nos referir a uma outra de Nossa Senhora da Soledade, e que, na nossa humilde opinião, é a primeira que traduz fielmente a expressão da dor da Virgem que não pode chorar morte de seu Filho. Próximo. igreja está o cemitério, convenientemente amurado, com sepulturas divididas para adultos e crianças, e uma parte para os não católicos. Esta freguesia é atravessada por cinco ribeiras: a do Pamplona, que


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separa dos Biscoitos, da Lapa, de São Roque, da Luz, e a dos Gatos, no extremo ocidental da freguesia. Comunica com as freguesias circunvizinhas pela estrada litoral, e com a cidade pela Estrada Real n.° 3. Possui algumas canadas já macadamizadas, tais como a das Cales, do Engenho, dos Morros, e do Pelame, e um grande número de chafarizes de água potável. A sua população é de 1:703 habitantes, distribuídos por 460 fogos. A sua indústria reduz-se à lavoura e a uma fábrica de lacticínios; e o seu comércio à exportação de gado e cereais, sobretudo o trigo e milho.


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