Memória sobre a ilha Terceira/IV/XVIII

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CAPÍTULO XVIII Das freguesias do Raminho, Serreta, Doze Ribeiras e Santa Bárbara Raminho A vinte e sete quilómetros distante da cidade, seguindo a estrada litoral de oeste, está a freguesia do Raminho, criada por Provisão de 3 de fevereiro de 1880. Até 1855 pertenceu este povoado ao concelho de São Sebastião, passando depois a incorporar-se na freguesia dos Altares e esta no concelho de Angra. Em 1861, por Decreto de 14 de agosto, ficou sendo um curato sufragâneo da freguesia anterior, até ao ano de 1880. Tem aproximadamente cinco quilómetros de extensão, e é toda exposta ao norte da ilha. A meio da freguesia está a igreja paroquial, que, tendo sido edificada de 1855 a 1861, tem sofrido consideráveis melhoramentos, transformando-se num templo bastante amplo e bem iluminado. Na capela-mor estão as imagens de Nossa Senhora da Esperança, ao centro, e dos lados, Santo Antão e São Luís, Rei de França. Saindo desta capela, encontram-se, do lado do evangelho, três altares, o do Santíssimo Sacramento, o de Santo António, e o de São Francisco Xavier, orago da igreja. Do outro lado, encontram-se também três altares: o de Nossa Senhora da Conceição, o do Senhor dos Passos, e o do Sagrado Coração de Jesus. Abaixo da igreja está o cemitério, construído em 1879, com sessenta sepulturas aproximadamente.


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Para o oeste da freguesia, encontra-se uma ermida, fundada em 1901 pela Junta de Paróquia, e situada no Biscoito da Fajã. Esta ermida tem um só altar com a imagem de Nossa Senhora de Lourdes, orago da igreja. Esta freguesia é atravessada por duas ribeiras, que são: a do Borges, próxima da Ponta das Cavalas, e a do Cabo do Raminho. Comunica com as freguesias circunvizinhas, pela estrada litoral, e possui algumas canadas, tais como: a dos Dois Moios, da Bernarda, do Esteves, do Cemitério e da Fontinha que servem de comunicação com as terras e casas da freguesia. A sua população é de 1:363 habitantes, distribuídos por 352 fogos. Não tem indústria própria e o comércio reduz-se à venda de cereais. Serreta A vinte quilómetros da cidade, e na ponta mais ocidental da ilha, está a freguesia de Nossa Senhora dos Milagres, conhecida também pelo nome de Serreta, elevada a paróquia independente em 1861. É de todas as freguesias da ilha a que está a maior altura acima do nível do mar, não deixando por isso de ser das mais húmidas, devido à pequena serra que lhe fica sobranceira, e onde se acumulam densos nevoeiros. É histórica a formação deste lugarejo, e conquanto não existam documentos autênticos até uma certa época, que nos mostrem a sua verdadeira origem, há contudo a seguinte lenda, que tem atravessado até hoje umas poucas de gerações. Nos fins do século XVI, um velho padre, consumido de desgostos, e revoltado contra os aviltamentos e baixezas da sociedade humana, embrenhara-se pelos matos, à procura de um lugar perfeitamente isolado, onde não chegassem as vozes dos seus semelhantes, e ali pudesse dirigir a Deus as suas preces. Com muito trabalho divisara o santo padre o lugar da Serreta, e com as suas próprias mãos edificara toscamente uma pequem ermida onde colocou a imagem da Virgem, que consigo levara. Tornara-se ermitão, e em pouco tempo eram conhecidas em quase toda a ilha as virtudes do piedoso sacerdote, começando para ali a concorrência do povo, não só com o sentimento religioso, como também para admirarem as virtudes e santidade do próprio velhinho. Anos depois da sua morte, foi a pequena imagem transportada para a igreja das Doze Ribeiras, por ordem do Prelado e, a pouco e pouco, foi o povo esquecendo-se dos milagres da Virgem, até que acabaram de vez as romarias. Quando em 1762 foi recebida a ordem do Marquês de Pombal, para que a ilha Terceira se preparasse para a defesa das suas costas, visto não querer


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Portugal associar-se ao pacto de família, estabelecido entre Carlos XIII de Espanha e Luís XV de França, contra a Inglaterra, e haver receio de que, qualquer destas nações, viesse atacar as ilhas dos Açores, várias pessoas das mais importantes, entre as quais figuravam alguns cabos de guerra, foram imediatamente inspecionar a ilha. Ao chegarem à freguesia das Doze Ribeiras entraram na igreja, como bons religiosos que eram, e ao verem a imagem de Nossa Senhora dos Milagres, a Ela se dirigiram em suas súplicas, para que livrasse os terceirenses da guerra que estava eminente, prontificando-se a fazerem-lhe, todos os anos, uma festa solene, se porventura a ilha não fosse atacada. Feita a paz entre as nações beligerantes, reuniram-se os peticionários, e dois anos depois lavravam, por escrito, um termo, a 11 de setembro de 1764, pelo qual se comprometiam, enquanto vivos, a fazerem todos os anos uma festa com toda a solenidade, e para o que se intitulavam desde já Escravos de Nossa Senhora. Em 1772, estando reunidos os ditos escravos no dia 13 de setembro, dia da festa, resolveram reedificar a ermida no lugar da Serreta, para o que trataram de angariar os donativos necessários, mas, ou porque o dinheiro lhes não chegasse, ou porque o povo se esquecesse dos milagres da Virgem, chegaram a 1782 sem nada terem feito. Novos perigos ameaçaram a ilha Terceira em 1797, devidos à ambição de Napoleão Bonaparte, e novamente se reuniram os escravos de Nossa Senhora, para a reconstrução da igreja. Estabelecida a paz, voltou novamente o esquecimento, até que o general Francisco António de Araújo, obedecendo ao plano geral de levantar as capelas-mores das igrejas, e conhecedor do voto feito em 1772 e 1797, mandou, com os donativos de alguns devotos e do Estado, construir a igreja, conseguindo apenas o levantamento das paredes. Paralisaram depois as obras, com as perturbações políticas da época, e só em 1842, o nunca esquecido governador civil José Silvestre Ribeiro, coadjuvado pelo Visconde de Bruges, pelo brigadeiro Vital de Bettencourt Vasconcelos e Lemos, e outros, conseguiu completar a nova igreja, e a 10 de setembro daquele ano, a imagem de Nossa Senhora dos Milagres entrava com toda a solenidade na sua igreja. Foi então criado o curato da Serreta, até que pela Provisão do Bispo D. Fr. Estêvão de Jesus Maria, de 24 de dezembro de 1861, passou a paróquia independente, o que já tinha sido autorizado pelo Decreto de 15 de outubro daquele mesmo ano. A igreja, que ainda hoje existe, e onde todos os anos se tem feito com toda a solenidade a festa de Nossa Senhora dos Milagres, seu orago, está situada a meio da freguesia. Tem uma só nave e no seu altar-mor está a imagem de Nossa Senhora, tendo aos lados Santa Luzia e Santa Rosa de Viterbo. Logo abaixo desta capela, encontra-se, do lado da epístola, um altar com


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a imagem de Nossa Senhora dos Aflitos, e em frente um outro, onde estão as imagens de Santo António, São Francisco e Santo Antão. Ao fundo da igreja, e por cima da porta principal, corre um pequeno coreto. Esta igreja possui também duas sacristias, e junto a ela está o passal para residência do pároco. O aumento progressivo da população e as acanhadas dimensões do templo determinaram a construção de uma nova igreja, mais ampla e de arquitetura moderna. A 29 de abril de 1895 procedia-se à bênção da primeira pedra do novo templo, e iniciavam-se logo as obras. Segundo o plano, a igreja terá a altura de 19 metros no seu frontispício até à base da cruz e 10,75 metros de largura, não incluindo a torre para os sinos, cuja altura será de 23 metros. O seu interior será de uma só nave, e além da capela-mor terá quatro capelas laterais. O comprimento total do templo é de 19,80 metros e a largura 9,60 metros. Presentemente só estão concluídas as paredes da igreja, que ficará sendo uma das mais elegantes das freguesias rurais da ilha. A cento e quarenta metros distante da igreja, e para o lado do mar, está o cemitério, perfeitamente isolado, comportando cento trinta e cinco sepulturas, todas divididas e numeradas. Esta freguesia comunica com as circunvizinhas pela Estrada Real, e é atravessada por quatro ribeiras a das Quatorze, que a separa da freguesia das Doze Ribeiras, a do Gato, logo adiante da igreja, a das Lapas, que atravessa um pitoresco vale todo arborizado, e finalmente a Ribeira de Além. Sobranceiros a esta freguesia estão vários outeiros, que são verdadeiras ramificações da Serra de Santa Bárbara. É na Ponta do Queimado desta freguesia que será colocado um farol, segundo os estudos ultimamente feitos. A população desta freguesia é de 858 habitantes, distribuídos por 217 fogos. Pouco ou nada tem progredido a sua agricultura, limitando-se o povo à cultura, em pequena escala, dalguns cereais e legumes, devido à aridez do solo. Esta freguesia torna-se notável pela romaria que todos os anos faz o povo terceirense no mês de setembro, e pela existência de uma fonte de água mineral, a que dão o nome de água azeda, e da qual faltaremos em lugar competente. Doze Ribeiras A dezasseis quilómetros da cidade, e para o lado ocidental da ilha, encontra-se a freguesia das Doze Ribeiras, voltada um pouco ao sudoeste, tendo quatro quilómetros, pouco mais ou menos, de extensão.


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Ignora-se a data precisa em que foi elevada a paróquia, bem como aquela em que se separou, como curato da freguesia de Santa Bárbara, mas é de presumir que seria em fins do século XVII, pois que no arquivo paroquial desta última freguesia, relativo ao ano de 1606, vê-se que o lugar das Doze Ribeiras já possuía um cura, e em 1684 era paróquia independente. A sua igreja paroquial primitiva, que estava quase no centro da freguesia, ficou bastante danificada em virtude do ciclone que passou por esta ilha a 28 de agosto de 1893, sendo necessário demoli-la, e no mesmo local edificar uma outra mais ampla e de estilo moderno. Em 1895 procedia-se à bênção da primeira pedra, e em 1898 começava a funcionar o novo templo, duma só nave e bem espaçoso. Na capela-mor encontram-se as imagens de Nossa Senhora da Conceição, ao centro, tendo aos lados, São Jorge, orago da igreja, e Santo António. No corpo da igreja, notam-se duas capelas de cada lado. À esquerda, uma que ainda não tem imagem, e a outra com Nossa Senhora do Carmo; à direita, está a capela do Senhor Jesus da Paz, e a de Nossa Senhora do Rosário, onde estão também as imagens de São Domingos de Gusmão e Santo Antão. Sobre o para-vento da igreja, corre um pequeno coreto. Acima da igreja, e para o lado do oriente, está o cemitério, cujas sepulturas ainda não estão marcadas. Esta freguesia é atravessada por seis ribeiras: a das Dez, que a separa da freguesia de Santa Bárbara; a das Onze, a das Doze, a Ribeira Grande, a Ribeirinha, e a das Quatorze que a separa da Serreta. Comunica com as freguesias circunvizinhas pela Estrada Real, e com a Terra Chã por uma canada que tem o nome de Caminho de Cima. Sobranceiros a esta freguesia notam-se os picos das Dez, Manuel Alves, do Teles, e outros, derivados da Serra de Santa Bárbara. A sua população é de 1:430 habitantes, distribuídos por 365 fogos. Nada tem progredido a agricultura e o comércio nesta freguesia, predominando a cultura do milho e do trigo. Santa Bárbara A treze quilómetros distante da cidade, e para o lado ocidental da ilha, encontra-se a freguesia de Santa Bárbara das Nove Ribeiras, a primeira paróquia criada na jurisdição de Angra, no tempo do primeiro capitão do donatário da ilha, Jácome de Bruges, e portanto anterior a 1486. Quase ao centro da freguesia, e num espaçoso largo, encontra-se a igreja paroquial de estilo antigo, e cujo orago é Santa Bárbara. O seu interior está dividido em três naves por meio de arcos, assentes sobre pequenas colunas de pedra, desproporcionadas e pouco elegantes.


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Na capela-mor está a imagem de Nossa Senhora da Conceição, ocupando o centro do camarim, tendo aos lados as imagens de Santa Bárbara e de Santa Isabel, Rainha de Portugal. No corredor do lado do evangelho, encontram-se três capelas: a do Santíssimo Sacramento; a de Nossa Senhora do Rosário, onde estão também as imagem de São José e São Domingos; e a outra com o painel das Almas e as imagens do Senhor Jesus das Misericórdias, de Nossa Senhora do Desterro e de Santa Luzia. Do lado da epístola existe uma pequena capela, contígua à capela-mor, com a imagem do Coração de Jesus, tendo aos lados os dois apóstolos São Pedro e São João; e logo a seguir, um altar com as imagens de Santo Antão, Santo Amaro e São Sebastião, e uma capela com as imagens de Nossa Senhora de Lourdes, tendo aos lados Santo António e São João Baptista Machado. Nesta capela existe também um altar onde está um Presépio, tendo por cima o Menino Jesus. Logo abaixo do cruzeiro da igreja e no segundo arco lateral, está um coreto alto com um órgão grande, adquirido em 1834 e que pertencia ao extinto convento da Conceição de Angra. A mais de cento e cinquenta metros da igreja, e para o lado do mar, está o cemitério perfeitamente vedado, comportando quatrocentas e oitenta e três sepulturas, tendo uma secção para adultos, outra para crianças, outra para eclesiásticos, e uma, em campo profanado, para os não católicos e suícidas. A freguesia de Santa Bárbara é atravessada por cinco ribeiras: a da Nove, a das Oito, a das Sete, a das Seis e a do Manuel Vieira; e, finalmente, temos a Ribeira do Hospital ou da Canada da Praia, que separa esta freguesia da do Pilar. A 2.ª, 3.ª e 4.ª ribeiras não são muito caudalosas, na época das grandes chuvas, e confluem todas na Ribeira das Sete, abaixo da ermida de Nossa Senhora da Ajuda cerca de cem metros, e setenta a oitenta acima do nível do mar. A estrada é também cortada por dois pequenos regatos ou grotas a das Seis, ao nascente da igreja paroquial e confluindo com a ribeira do mesmo nome, e a dos Carneirinhos, em pequena distância ao nascente da Ribeira da Nove. Um pouco adiante do largo da igreja, encontra-se à esquerda, e dirigida para o lado do mar, a Canada da Ajuda, que vai terminar quase à beira-mar e onde está uma ermida denominada de Nossa Senhora da Ajuda, reconstruida nos anos de 1877 e 1878. Esta pequena ermida tem um só altar, com um bonita imagem da Virgem, ao lado da qual estão duas pequenas imagens de São José e São João Baptista. Esta freguesia comunica com as circunvizinhas pela Estrada Real e pela canada denominada Caminho de Cima. Possui também as seguintes canadas: dos Terreiros, do Correia, do Miradouro, Caminho Fundo, à ribeira do Manuel


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Vieira, Caminho à Ribeira das Nove, Caminho à Ribeira das Dez, Canada das Bagacinas, Canada Nova; e a Rua do Açougue e Rua do Poço. O terreno desta freguesia, mais produtível que o das freguesias vizinhas, presta-se perfeitamente à cultura de todos os cereais e árvores frutíferas, matas de toda a qualidade e vinha. A sua população é de 2:182 habitantes, distribuídos por 503 fogos. É de todas as freguesias do concelho de Angra a que está mais adiantada, não só no comércio, como também nas indústrias e artes. Conta hoje com alguns estabelecimentos de comércio, sendo dois bem fornecidos, e oficinas de sapateiros, galocheiros, ferreiros, alfaiates, barbeiros, carpinteiros, costureiras e tecedeiras. Possui também um talho ou açougue, um forno de telha de barro ordinário, e vários veículos de aluguer. A freguesia de Santa Bárbara é montanhosa, nela se encontram: a Serra Grande, ao norte; o Pico Agudo e o de Catarina Vieira, ao sul; o da Vigia, ao nascente; o Pico da Vassoura, acima da Estrada Real, e abaixo desta, o Pico do Miradouro e o Pico do Enes; finalmente, ao poente, o Pico dos Constantinos, hoje conhecido pelo nome de Pico do Martinho, e o Pico das Dez, junto à ribeira do mesmo nome.


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