Memória sobre a ilha Terceira/IV/XXII

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CAPÍTULO XXII Carácter e costumes populares do povo terceirense Descendente do povo portuense e suas cercanias, que acompanhou Jácome de Bruges, do povo madeirense, que acompanhou Diogo de Teive, e do povo hebraico que, em 1501, aportava a esta ilha, fugindo à perseguição movida em Portugal contra os cristãos novos; e por último, do cruzamento que forçosamente teve lugar durante o domínio castelhano, o povo terceirense, apesar desta múltipla descendência, é afável e bondoso, cavalheiresco e caritativo. O terceirense, expansivo e nobre nos seus sentimentos, não abriga ódio para ninguém; e, entre as numerosas famílias que constituem o povo da ilha Terceira, não há o rancor a perpetuar-se nos seus descendentes, como por vezes se observa nos outros países. E se, em épocas de política um pouco mais renhida, algumas se afastam de outras, lá vem, pouco tempo depois, o bálsamo do esquecimento curar as pequenas feridas que se produziram, e por complemento dessa cura, o abraço fraternal. O terceirense abre os seus braços, franqueia a sua casa a todo e qualquer estranho, proporcionando-lhe todos os confortos, e não se importando saber de onde vem, quem é, nem para onde vai. E, apesar de muitas vezes ser ludibriado nos seus afagos, e ter por recompensa o desprezo e o escárnio, cala no seu ânimo o ressentimento que daí lhe possa advir, para no outro dia proceder do mesmo modo para com outrem. Quando o autor da Corografia Açórica,1 referindo-se ao povo terceirense, o intitula de «sensual, vil, assassino e devasso», e por último, «a desonra dos Açores», ou o não conhecia no seu íntimo, ou foi a paixão política que lhe fez brotar o rancor. Se em épocas, que não vão muito longe, o povo terceirense


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cometeu desatinos, verdadeiros crimes, nos grandes movimentos políticos de que esta ilha foi teatro, outros, muito maiores e mais bárbaros se praticaram em Portugal. O povo, naqueles momentos, torna-se, por assim dizer, irresponsável pelos seus atos, constituindo uma verdadeira máquina automática, dirigida e regulada por um ou dois ambiciosos do poder; e como veremos, a maioria dos dirigentes das revoluções políticas, nesta ilha, não eram terceirenses. Ludibriada e esquecida pela sua mãe pátria, a ilha Terceira tem sabido, no meio de toda a sua pobreza, conservar as suas tradições de honradez. Se vive e se orgulha com a sua história, sabe também mostrar, quando é preciso, os nobres sentimentos de liberdade e de caridade, socorrendo, com o quanto pode, os seus irmãos de além mar, que nunca viu nem conhece. Se lhe faltam as grandes indústrias e o comércio, não é porque aos filhos da ilha Terceira lhes falte a aptidão nem a inteligência, mas sim quem os saiba dirigir e os incite no caminho do progresso. Falta-lhes os meios pecuniários; e por último, a falta de proteção dos poderes públicos e a política mesquinha das localidades pequenas, que despreza o desenvolvimento de um povo. Entre o povo terceirense, não se nota hoje a soberba e o orgulho do rico perante o pobre. Para eles não há distâncias; e muitas vezes é o primeiro que se transforma em conselheiro leal do segundo, na prática do bem; e deste convívio fraternal não podia advir senão a bondade e a pacatez dos terceirenses. Atestam estas palavras os numerosos arraiais, que, durante o ano, têm lugar nas freguesias rurais, onde três a quatro mil pessoas passam algumas horas sem que haja uma desordem, nem se cometa um crime. O povo terceirense ama o asseio e a limpeza das suas habitações; e causa admiração como na casa mais pobre possa haver tanto cuidado no seu ménage. No seu vestuário tem partilhado também alguma coisa do progresso, sendo raro ver-se hoje algum dos antigos trajos. O mais vulgar do camponês, consta de calça, colete e camisola de linho, tudo cuidadosamente lavado, ponteado ou remendado, e em lugar da antiga carapuça, verdadeiro solidéu, vê-se o chapéu de palha ou o barrete de lã, fabricados na ilha. Nos domingos, o vestuário torna-se mais esmerado: já não é de pano grosseiro a sua roupa, mas sim de boa casemira ou cotim, importados de Portugal ou do estrangeiro; a camisa aparece alvíssima e cuidadosamente engomada, com grandes botões de ouro, e o chapéu, sempre bom, vindo do continente. Raros são os que se habituam ao calçado, a não ser o indivíduo que tem permanecido por algum tempo em qualquer das duas Américas. Os leiteiros têm também o seu traje especial. Antigamente usavam umas


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calças largas, com um pequeno folho na parte inferior, que já desapareceu, para dar lugar a umas calças grosseiras e largas de cotim. Sobre o colete, do mesmo tecido, uma ampla camisola de linho, aberta no peito, outras vezes deitada sobre o ombro, e como remate, um pequeno barrete de malha. Na mão direita um longo bordão, e sobre o ombro esquerdo um pequeno varapau levemente recurvado, tendo, em cada um dos extremos, uma ou mais cabaças, denegridas pelo fumo e cheias de leite. Entre as mulheres do povo, há também trajos especiais: no campo, é o xaile e lenço; na cidade, o capote e o manto. O primeiro consiste num verdadeiro capote, descendo até aos pés, com sua gola e largo cabeção, e, cobrindo a cabeça, um capuz do mesmo pano, pendido um pouco para o rosto e descendo, muito franzido atrás, para a nuca. O manto compõe-se de uma saia de merino preto e de um corpo sem mangas, que, prendendo-se à cintura por meio de um comprido cordão, passa por cima dos braços e cabeça, onde é sustentado por um largo papelão, o que permite ser fechado ou aberto, à vontade da pessoa. Entre os usos e costumes do povo terceirense, alguns há dignos de menção. Na freguesia da Ribeirinha, a mais próxima da cidade, encontram-se ainda os costumes populares antigos, e de tal modo vivem os seus habitantes arraigados a eles, que difícil será demovê-los de tal pensar, nem tão pouco corrigir-lhes a linguagem especial, que mais parece um dialeto algarvio. Sendo um povo tão crente e religioso, custa a crer que, na quaresma, e na véspera da sua procissão da Penitência, se reúna dentro do templo tanto povo para ver qual é o rapaz mais valente da freguesia, que pode levantar o guião, o mais pesado que há na ilha Terceira, e que alguns chamam, por graça, o Santo Pendão. Alta noite, quando todos já dormem, vai à igreja, acompanhado pela sua família, o mancebo sorteado pela mesa da Ordem Terceira de São Francisco para levar o guião, a fim de o experimentar dentro da igreja; e se consegue aguentá-lo sem custo algum, é uma alegria imensa para todos os parentes. Na tarde da procissão, apresenta-se com os seus guias, convidados antecipadamente por ele, e aos quais tem de dar, no fim, uma lauta ceia. À voz de «saia a procissão» agarra-se com toda a sua valentia ao pesado guião, e ele aí vai pelas ruas fora, sem se importar com o resto das pessoas. Para ele convergem todos os olhares; e, se aguenta bizarramente a sua tarefa até ao fim, é frequente ouvir-se dizer: «valente moço! Como bem honra as barbas do pai!»; finalmente, se há a infelicidade de não satisfazer a todos os predicados, não pode haver para a família e freguesia desgosto maior.


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Vem de tempos muito antigos o pedir-se de noite, durante a época quaresmal, as orações dos fiéis pelas almas do Purgatório, costume que vai esquecendo nalgumas freguesias rurais, exceto na Ribeirinha, onde se executa escrupulosamente este ato. Preside a este exercício religioso, o mestre dos noviços da Ordem Terceira de São Francisco, que percorre toda a freguesia, com os seus noviços, três noites por semana, durante toda a quaresma, tocando uma campainha adiante da Cruz, ladeada por duas lanternas. Atrai dos noviços todos os homens e raparigas que se querem ajuntar, vão rezando o terço, convenientemente embuçados, e parando em certos e determinados lugares, aos quais dão o nome de «estações»; um dos mais práticos, com voz cadenciada mas desagradável, pede um Padre Nosso e uma Ave Maria, pelos moribundos, pelos navegantes e pelas almas do Purgatório, terminando este ato religioso com uma estação ao Santíssimo Sacramento, à porta da igreja paroquial. Nesta freguesia é também interessante o cerimonial que acompanha o matrimónio desde o contrato do casamento até à sua realização. Feito o contrato, o mancebo convida a sua futura esposa com seus pais e cunhados, para um jantar em sua casa no próximo domingo, jantar chamado o «caldo», e ao que todos anuem da melhor vontade, trazendo a noiva, neste dia, um corte de fazenda, como sinal evidente do amor que lhe consagra. Findo o caldo, a esposa faz igual convite, para irem no domingo seguinte a sua casa; e, ao retirar-se, é acompanhada pelo noivo, participando assim a toda a freguesia o seu futuro enlace. No primeiro domingo, tudo se cumpre como no anterior, levando também o noivo um corte de vestido, e desde então fica a rapariga sujeita ao rigor ciumento do mancebo, até se realizar o consórcio, que, às vezes, só tem lugar no fim de dois ou três anos. Se, por infelicidade, se não realiza o pretendido matrimónio, fica a rapariga abandonada, e só, quando muito, poderá casar com algum viúvo ou outrem de iguais ou piores circunstâncias. Um dia antes do casamento, as amigas da noiva levam, em exposição, todo o enxoval, da casa dos pais da rapariga para a sua futura habitação, uma com os vestidos, outra com as colchas, outras os utensílios de cozinha, enfim, tudo o que é necessário para fornecimento de uma casa, e que representam dádivas dos seus parentes e amigos. Feita a cama, com todo o esmero, colocam sobre ela todos os presentes, os quais permanecem ali em exposição por espaço de oito dias. O noivo também leva um colchão, de que se servem durante aquele espaço de tempo, ficando de dia convenientemente amarrado sobre uma caixa segundo o costume dos seus antepassados. A nubente, durante os primeiros dias, só recebe visitas, às quais se –--------------------------------0364 apresenta todos os dias com um vestido diferente, e recebendo delas as suas ofertas e os parabéns. No dia da boda, o jantar consta ordinariamente de pão, queijo e vinho, e no fim, os padrinhos dão duas ou três voltas em torno da mesa, com uma bandeja, onde os convidados deitam dinheiro, que é depois oferecido aos noivos. Geralmente é animada esta festa de família, a não ser que o casamento não seja muito do agrado dos pais do noivo, o que se conhece logo chegada a sua casa, quando a sogra não tira com a sua mão o véu da sua nora. No dia seguinte, antes de nascer o sol, o noivo vai convidar os padrinhos para o jantar de família, levando-lhes estes três importantes rosquilhas de massa sovada, que são distribuídas aos pedaços pelos convidados. Nas freguesias das Lajes e Vila Nova, há por costume os noivos receberem dos seus padrinhos uma ou duas carradas de lenha da mais grossa, que permanece anos e anos, dentro do pátio da casa e à beira da estrada. Na freguesia de São Sebastião não há o desprezo e a repugnância para com os cadáveres, como se nota no resto da ilha. No dia do enterro comparecem à cerimónia religiosa, os parentes, amigos e inimigos do finado, acompanhando depois o cadáver à sepultura que foi aberta por todos; e terminada esta obra de misericórdia, voltam imediatamente aos seus trabalhos agrícolas. Na freguesia da Ribeirinha, há individuo próprio para a abertura das sepulturas, mas estranho à localidade. Na casa onde se deu o óbito, não se faz lume na lareira durante sete dias; e neste tempo, chamado por eles o do «Canto», conservam-se em casa, principalmente as mulheres, recebendo as visitas do estilo que lhes trazem sopa variada, café e chá. Permanecem todos juntos ao lar, com as cabeças cobertas; as mulheres com as jaquetas dos homens, e estes com as saias daquelas. A escolha do local indica a grande mágoa da família, que só procura o lugar de menor consideração na casa, e talvez tenha relação com o que se observa entre alguns povos que se cobriam com cinza em tais ocasiões; a troca dos vestuários representa a dor e o desgosto que não permitem a cada um conhecer o que pertence ao seu sexo. Para completarmos este capítulo, resta-nos falar de alguns festejos populares, peculiares da ilha Terceira. Festejos do Espírito Santo Estes festejos, que parecem ter a sua origem pagã no druidismo ou na superstição grega, foram introduzidos em Portugal e nos Açores com a máxima devoção e piedade, conservando-se integralmente até à atualidade.


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Divergem um pouco de opinião os cronistas açorianos, sobre a data em que foram introduzidos nos Açores os festejos do Espírito Santo. Maldonado,2 na sua Fenix Angrence, afirma que estas devoções começaram com os primeiros povoadores das ilhas açorianas; e Drummond3 nos seus Anais da Ilha Terceira, marca o ano de 1522, dando, como causa, o grande terramoto que causou a subversão de Vila Franca, na ilha de São Miguel. Inclinamo-nos mais para a opinião de Maldonado, porquanto, tendo a Rainha Santa Isabel e El-Rei D. Dinis introduzido em Portugal os festejos do Espírito Santo com todo o esplendor e devoção, os primeiros povoadores desta ilha, cujos sentimentos religiosos a história não contesta, deveriam também estabelecer os mesmos festejos. Na Revista dos Açores, tomo 1.°, páginas 78 e 85, o Sr. Bernardino de Sena Freitas,4 um dos principais escritores sobre antiguidades açorianas, escreveu um extenso artigo sobre estes festejos, o qual vem reproduzido no Archivo dos Açores, tomo 1.°, páginas 182 a 192. Diz aquele escritor que, em 1492, tendo Angra os foros de vila, se fazia um esplêndido império, então denominado dos nobres, tendo uma ermidinha com a invocação do Espírito Santo, e à porta desta davam esmolas, superintendendo depois nesta festividade a Santa Casa da Misericórdia; e que, por documento de 1523, se soube, que muitos anos antes havia impérios na Vila da Praia, com grande bodo, saindo o imperador da Santa Casa da Misericórdia desta vila. No mesmo Archivo dos Açores, tomo 3.°, páginas 189 e seguintes, vem transcrita uma breve notícia sobre as festas do Espírito Santo, de Alberto Pereira Rei,5 presbítero secular, natural dos Açores e publicada em Lisboa no ano de 1753. Diz o autor, referindo-se à devoção e piedade que havia com aquelas festas, ter existido uma irmandade tão antiga, que, um dos seus instituidores, fora o capitão do donatário de Angra, João Vaz Corte-Real, o qual tomara conta da sua capitania em 1474. Em 1523 tentou El-Rei acabar com estes festejos, ao saber os abusos que se davam nas igrejas, por ocasião das coroações; mas o povo, não se importando com as ordens regias, continuou com as suas festas, até que, em 1597, tais desacatos se praticaram nos atos religiosos, que foram novamente proibidas. Pouco tempo durou esta proibição, porque em 1600 encontrarno-los novamente; e em 1602, o bispo desta diocese, D. Jerónimo Teixeira da Cunha, as modificou, proibindo expressamente que os foliões bailassem na capela-mor das igrejas paroquiais, por ocasião de se coroarem os imperadores. Em cada freguesia há pelo menos um império, chegando algumas a terem 6 ou 7, cada um com a sua coroa e respetiva irmandade. Aos estrados de madeira, sucederam as capelas feitas em pequenas casas ou ermidas, com um altar, onde é colocada a coroa. Contígua a esta.


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casa está uma outra, denominada a despensa, onde é guardado o pão e o vinho por ocasião dos bodos. Todos os irmãos de cada império pagam anualmente a sua quota, que, conjuntamente com os donativos que alcançam durante o ano e no próprio dia da festa, constitui a receita para as despesas a efetuar com os festejos. Entre os irmãos há um certo número deles, chamados do pelouro, cuja quota é maior, e entre os quais se faz o sorteio, no dia da festa, para se determinar quais os imperadores, das oito domingas, incluindo o domingo da Trindade, ficando um com a coroa todo o ano. Nas freguesias rurais são obrigatórias as coroações, para todos os que tiveram a sorte de ter a coroa, não havendo irmandades nem esmolas por conta do imperador, como na cidade. Durante a semana de cada imperador, é obrigatório o rezar-se o terço diante da coroa, que está em altar próprio convenientemente decorado, passando-se em seguida aos jogos de prendas ou aos bailaricos, onde as raparigas e os rapazes, ao som de uma ou duas violas, lá vão em passo cadenciado e monótono, formando uma pequena roda, cantando várias quadras ao desafio, cujas rimas, por vezes, seriam capazes de fazer estremecer os ossos de Camões. Tudo respira alegria nestas casas, onde se reúnem todos os convidados, e é frequente ouvir-se uma declaração de amor, ou uma cantiga de despeito da que é desprezada por este ou aquele rapaz da sua simpatia, ou, finalmente, se estabelece um desafio entre dois rapazes, o qual termina, algumas vezes, pelo ajuste de contas fora da casa do imperador. Chegando-se à quarta-feira, enche-se a casa do imperador de grande quantidade de mulherio, para se proceder à amassadura e cozedura do pão. Na quinta-feira, vai o imperador convidar os seus amigos e parentes, para acompanharem o bezerro no dia seguinte, e do qual se darão esmolas. Na sexta-feira, o pequeno animal é enfeitado com rosas de papel ou naturais, pregadas com breu sobre a pele, e sobre os chifres pequenas bandeiras ou arcos com fitas: juntamente com duas ou mais vacas, lá vai o pobre animal percorrer a freguesia, levando, no seu séquito, um grande acompanhamento de homens, cantando várias quadras ao som de violas, ou de uma roufenha rabeca e esganiçado clarinete. Acabada esta digressão, conduz-se o bezerro para junto do altar, e ali é obrigado a ajoelhar, colocando-se a coroa sobre a cabeça. No domingo, o grande dia para aqueles que vão jantar a casa do imperador, procede-se de manhã à coroação. Antes de nascer o sol e ainda escuro, são distribuídas as sopas do Espírito Santo por toda a freguesia, em tigelas levadas pelas raparigas que ficaram trabalhando durante a noite. Todos os imperadores têm de cumprir esta formalidade, e em todas as casas ficam as portas só encostadas, para as raparigas entrarem e despejarem numa terrina, deixada próxima da porta, o presente que levam.


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Os foliões percorrem também a freguesia cantando e recebendo ofertas, indo depois almoçar com o imperador. São sempre em número de três, com opas de chita enramada, e levando um tambor, bandeira e pandeiro. São as três individualidades mais importantes, porque a elas todos obedecem, e nada se pode fazer sem sua ordem, anunciada por cantigas e toques de tambor. Organizado o cortejo, os foliões colocam-se à frente, e logo a seguir, os convidados, cada um com a sua vara de madeira pintada de vermelho, tendo uma pomba pintada a branco, e mais atrás os parentes, dos quais só seis é que levam varas de pinho pintadas, tendo na parte superior um toco de vela. A meio do séquito vai o alferes de bandeira e no fim a coroa, que é oferecida pelo imperador ao parente mais próximo, ou a pessoa de distinção que da cidade vá honrar a festa. Durante o trajeto para a igreja, entoa-se o terço, e chegados lá, o pároco junto da porta, depois de aspergir o acompanhamento, dirige-se para o altar-mor onde é colocada a coroa em lugar apropriado do lado do evangelho, e ao lado, a bandeira. Reza-se a missa, e depois procede-se à coroação, ajoelhando o imperador sobre uma almofada. O sacerdote, pegando no cetro e beijando-o, coloca-lho inclinado no braço em seguida, beija a pomba da coroa, dá-a a beijar ao imperador e coloca-a na cabeça, entoando o Veni Creator Spiritus.6 Acabada esta cerimónia, dirige-se novamente o cortejo para casa do imperador, que leva a coroa na cabeça, e onde se procede à descoroação metodicamente feita ao som do tambor e dos descantes da folia. O jantar é servido em mesas improvisadas, onde se colocam grandes terrinas com a sopa especial daquela festa, grandes travessas com galinhas e as clássicas cassarolas de barro ordinárias7 com as alcatras, e por último o arroz doce. Durante este lauto jantar, nada se põe na mesa sem ordem dos foliões em cantigas adequadas. Findo o jantar, procede-se à mudança da coroa para casa do imperador do domingo seguinte. No domingo de Pentecostes e no da Trindade os impérios dão o seu bodo, que consiste em pão cozido especialmente para aquele dia e rosquilhas de massa sovada. Do tarde, reúne-se todo o mulherio em volta do império, e ali estão sentadas as raparigas em carros de bois, cobertos com um tolda especial vendo os forasteiros que passam ou então correspondendo aos sorrisos amáveis dos seus namorados. Dentro do império reina sempre alegria e rico ou pobre que por ali passe tem de receber um pão ou rosquilha, aliás caso recusasse seria considerado como mal educado e soberbo. E assim terminam, no campo, os festejos do Espírito


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Santo, que, a par do divertimento que proporciona ao povo terceirense, tem por fim principal a sublime e santa virtude da Caridade. Na cidade divergem um pouco estes festejos. Os foliões foram substituídos pelas filarmónicas, que acompanham as coroações nos dias de bodo, e, em muitos domingos, as mudanças de coroa, duma para outra casa. Não são obrigatórias as coroações, a não ser no domingo de Pentecostes e no da Trindade. O bodo é substituído por esmolas de pão e carne, expostas em mesas a meio da rua, e previamente bentas pelo vigário próprio, em seguida à coroação. Além destes festejos que acabamos de narrar, fazem-se outros em honra do Espírito Santo, no aprazível lugar de São Carlos, fora da época própria. A história nada nos diz com relação à origem destes festejos, que se fazem nos fins do mês de setembro; e só por tradição se sabe que, pouco tempo depois de ter rebentado o fogo no local denominado Entre o Pico e a Serra, em 1761,8 desenvolveu-se um fumo denso que, descendo da cumeada da serra de Santa Bárbara, veio ter ao local onde hoje está edificado o império. Assustados os terceirenses com tal fenómeno, foi conduzido, por alguns devotos, para este último ponto, um estrado de madeira, onde colocaram uma coroa do Divino Espírito Santo, e em volta dela o povo implorou proteção. Durante três semanas se conservou este fumo, sem passar além do estrado, até que, no domingo seguinte ao dia em que a igreja venera o apóstolo São Mateus, desapareceu por completo este fenómeno sem deixar vestígios: e assim começou a ter lugar aquele festejo, bastante concorrido por todo povo da cidade e seus subúrbios. E já que nos referimos aos festejos do Espírito Santo, não podemos deixar de mencionar o privilégio que teve a coroa do império do Outeiro no reinado de D. José I. Quando em 1761 houve o grande terramoto nesta ilha, e do qual já nos ocupámos na Parte I deste trabalho, todo o povo concorreu aos lugares onde se tinha dado a horrorosa catástrofe, com procissões e preces, sendo em maior número as coroas do Espírito Santo. Segundo uma versão antiga, que se diz ser verdadeira, a primeira coroa, que ali chegou foi a do Outeiro, pelo que El-Rei D. José, em Alvará especial, ordenou, que a dita coroa tomasse a direita às outras, quando fossem em procissão. Touradas à corda Uma corrida de touros à corda constitui, desde há muito tempo, o principal divertimento do povo terceirense. Por ela abandonam os trabalhadores os campos, as oficinas, etc., deixando de ganhar o seu salário, para se transportarem a algumas léguas de distância, a ver um toiro, que, no maior das


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vezes, nada tem de bravo, e que percorre, amarrado por uma longa corda, algumas centenas de metros duma estrada. São geralmente em dias de trabalho que têm lugar estas corridas, no dia seguinte ao de uma festa do Espírito Santo ou de outra qualquer festa religiosa. Ou são os impérios que promovem este divertimento ao público, ou é qualquer influente político que, querendo ser grato aos seus amigos, promove e concorre com a maior parte das despesas. Este divertimento foi sem dúvida introduzido nesta ilha pelos castelhanos, quando estavam de posse da ilha, porque ainda se observam no interior da Espanha estas mesmas corridas, mas com os touros em hastes limpas. Se é agradável e pitoresco a aglomeração de povo armado de compridos e grossos varapaus ferrados (muitas vezes mais perigosos que o touro), e os balcões e janelas das casas repletos de raparigas com vestuários de variegadas cores, ao mesmo tempo é bárbaro ver a corrida de um pobre animal, geralmente malezzo, ser espicaçado por milhares de paus, que lhe produzem largos ferimentos, chegando algumas vezes a esvaziarem-lhe os olhos. Anunciada uma corrida de touros à corda, numa dada localidade, o contentamento torna-se quase geral, e bem cedo se vê o mulherio correr pressuroso a tomar lugar sobre as paredes, balcões ou janelas, e ali permanecem o resto do dia, sustentando-se a favas torradas ou de um pequeno farnel que levam consigo. Mais tarde, chegam os homens, armados de bordões bem lustrosos, e destinados só para aquelas festas. Pouco tempo antes de começar a corrida, chegam os touros, que se fazem anunciar à distância pelos chocalhos das vacas, e, entre a algazarra dos pastores e dos rapazes, são introduzidos num improvisado touril de madeira, onde descansam algum tempo. À hora convencionada, e dado o sinal comum do foguete, sai o primeiro touro, convenientemente embolado e amarrado pelas hastes ou pelo pescoço, a uma longa corda, sustentada por quatro valentões, que, antigamente, apareciam mascarados. Todos fogem ao primeiro impulso que o animal dá, mas a pouco e pouco se vão chegando mais, conforme a índole do animal, que fica indeciso para que ponto deverá investir. Dada a «pancada», isto é, fazendo esticar a corda para obrigar o animal a parar, aparecem então os toureiros ad hoc, fazendo recortes, apanhando uma vez por outra o seu boléo, e ali entretêm o animal durante alguns minutos, findos os quais, lá volta a correria para outro ponto onde se executa o mesmo. Cansado o animal, é este recolhido ao touril, havendo um pequeno intervalo, enquanto preparam o segundo, e assim sucessivamente até ao último. Cada corrida consta, geralmente, de quatro touros.


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Findo o espetáculo, que é anunciado por muitos foguetes, recolhe o pov o satisfeito a suas casas, sem se lembrar do salário que perdeu, e que facilmente pode ali adquirir a causa da sua morte. Desfolhas e debulhas Constituíram, durante muito tempo, dois grandes divertimentos populares, para os quais concorriam muito os morgados e fidalgos da ilha. Hoje limitados aos pequenos lavradores do campo. A desfolha tem lugar nos meses de setembro e outubro, e é sempre feita à noite. Além da família da casa, reúnem-se os rapazes e raparigas de mais intimidade, em um quarto espaçoso, e todos, em alegre convívio, procedem à desfolha do milho, que consiste em tirar a cada soca as folhas mais grossas, deixando as outras cobrindo o grão, e que depois, amarradas convenientemente, formam os cambulhães. Enquanto se trabalha, há a conversa animada entre todos, ou as raparigas cantam ao som da viola. Nos intervalos serve-se, aos convidados, o milho novo cozido em grandes travessas de louça. Terminada a porção de milho que foi destinada para aquela noite, dispõem-se os convidados para os jogos de família, tais como o do padre-cura, de prendas, etc., ou então se forma o baile. Dispõem-se os pares numa pequena roda, dirigida por um dos tocadores de viola, e durante algumas horas cantam várias modas, ou árias, que têm sempre uma certa ordem invariável e música diferente. A primeira é sempre o Charambo, seguindo-se depois São Miguel, Samacaio, Chamarrita, Pezinho, as Velhas, a Saudade, a Praia, etc., etc., e termina sempre com a Sapateia. Entre cada uma delas, há uma pequena pausa para descanso. Depois de desfolhado todo o milho, colocam-se os cambulhães nas burras ou escalões, curiosas construções feitas de paus de pinheiro ou castanho, tendo a burra a forma cónica, com travessas a diferentes alturas onde se suspendem os ditos cambulhães. No vértice do cone coloca-se um alguidar de barro ou caldeirão, que lhe serve de chapéu. O escalão é formado por uma linha de paus, cravados verticalmente no solo, com as travessas horizontais para a suspensão dos cambulhães. As debulhas constituíram, durante a época dos morgados, o divertimento predileto da alta sociedade angrense: hoje pertence exclusivamente aos camponeses, depois da grande divisão que tem sofrido a propriedade. A debulha faz-se em lugares próprios denominados eiras, onde se deita o trigo ceifado, e por cima dele passam os trilhos, que, na ilha Terceira,


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têm configuração especial. São pequenas tábuas grossas e chatas, de contorno parabólico, tendo na face inferior pequenos dentes de ferro ou madeira rija, puxadas por uma junta de bois. Sobre estes trilhos é que se colocam as raparigas e rapazes, tangendo os bois. No tempo dos morgados, reuniam-se várias famílias no campo, em casa própria, e depois de um lauto almoço, procedia-se à debulha, sendo as filhas e os filhos dos fidalgos quem se colocava sobre os trilhos. Corria sempre alegre este divertimento, porque a monotonia do movimento circular dos bois era sempre entre-cortada pelos trambolhões dos inexperiente, e após este serviço, feito debaixo do sol ardente do mês de agosto, servia-se o jantar, à antiga portuguesa, e onde, por vezes, se reuniam perto de duzentas pessoas. Findo o jantar, que era sempre demorado, ou regressavam a suas casas da cidade, ou permaneciam para o dia seguinte, se ainda havia trigo para debulhar. Ferras Um outro divertimento, que data de muitos anos, e que hoje é raro, consiste na ferra do gado bovino. Durante a época dos morgados, em que a maior parte deles possuíam grandes manadas de gado bovino, começava esta festa quase ao amanhecer. As grandes burricadas e os numerosos carros de bois com toldos, repletos de convidados, constituíam já um grande divertimento. Procuravam sempre não se fazerem esperados no local da ferra, que tinha lugar fora da cidade, no meio das grandes pastagens do interior da ilha. Quando chegava o último convidado, já o proprietário tinha feito reunir num pequeno curral todas as vacas leiteiras, as quais eram mungidas e distribuído o leite por todos à descrição. Depois passeava-se até ao almoço, que era sempre abundante, findo o qual se procedia à ferra dos novilhos que se achavam já reunidos num curral separado. Depois de vários trambolhões, conseguia-se domar o animal, que sofria a tortura do ferro em brasa com uma letra ou sinal especial, sendo o primeiro marcado pelo seu próprio dono. Servia-se depois desta festa um lauto jantar a todas as pessoas que compareciam na ferra, quer fossem convidadas ou não, e por último experimentavam-se os novilhos que tinham sido ferrados no ano anterior. Os ganaderos de hoje não têm os meios suficientes para tais despesas, e por isso as ferras só têm lugar em campo raso, onde concorre algum povo, mas levando cada um o seu farnel.


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