Memória sobre a ilha Terceira/V/I/II

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CAPÍTULO II Instalação dos primeiros povoadores da ilha Terceira Da carta de doação, que abaixo transcrevemos, passada pelo Infante D. Henrique, em 2 de março de 1450, vê-se que o primeiro a pisar o solo terceirense foi Jácome de Bruges, natural do condado de Flandres, e que, conhecedor dos grandes empreendimentos dos portugueses, viera para Portugal entregar-se ao serviço do Infante, talvez com o fim de alcançar grandes riquezas. Carta de doação «Eu o Infante D. Henrique, Regedor, e Governador da Ordem da Cavalaria de N. Senhor Jesu Christo, Duque de Vizeu, e Senhor da Covilhã, faço saber aos que esta minha carta virem, que Jacome de Bruges, meu servidor, natural do Condado de Flandres, veio a mim, e me disse, que, porquanto desde ab initio, e memoria dos homens, se não souberão as Ilhas dos Assores sob outro aggressor senhorio, salvo meu, nem a Ilha de Jesu Christo, terceira das ditas Ilhas a não souberão povoada de nenhuma gente que atégora fosse no mundo, e ao presente estava erma e inhabitada; que me pedia por mercê, que porquanto ele a queria povoar, que lhe fizesse della mercê, e lhe desse minha Real authoridade para ello como senhor das Ilhas. E eu vendo o que me assim pedia ser serviço de Deos, e bem, e proveyto da dita Ordem, querendo-lhe fazer graça, e mercê, me apraz de lha outorgar como ma elle pedio. E tenho por bem, e me apraz que ele a povoe de qualquer gente que lhe a ele aprouver, que seja da Fé Catholica, e Santa de N. Senhor Jesu Christo; e por ser causa da prymeira povoação da dita Ilha, haja o dizimo de todos os dizimos, que a Ordem de Cristo houver, para sempre, e aqueles que de sua geração descenderem; e tenha a Capitania, e governança da dita Ilha, como a tem por mim João Gonçalves Zarco na Ilha da Madeyra na parte do Funchal; e Tristão na parte de Machico, e Perestrelo no Porto Santo, meus Cavalleyros; e depois delle a qualquer pessoa que da geração dele descender; e a hajão assim pela guiza que a estes Cavalleyros a tenho dado, e que da dita Ordem a hão; e quero que elle tenha todo o meu poder, e regimento de justiça na dita Ilha, assim no civel como no crime, salvo que venhão por apelação d’ante elle os feytos de mortes de homens, e talhamento de membros, que resalvo para mim, e para maior alçada, assim como nas ditas Ilhas da Madeyra, e Porto Santo. E me apraz, por algṹs serviços que do dito Jácome de Bruges tenho recebido, porquanto me disse que elle não tinha filhos legitimos, e somente duas filhas de Sancha Rodriguez sua mulher, que se elle não houver filhos varões da dita sua mulher, que a sua filha maior haja a dita Capitania, e os que de sua geração descenderem, e não havendo sua filha maior filhos, havemos por bem que a filha segunda, que depois da morte da primeira ficar, possa haver a dita Capitania para filhos, e filhas, netos, e descendentes, e ascendentes, que das ditas descenderem, com aquelas liberdades, e poderes, que aos ditos Capitães tenho dadas, por que assim o sinto por serviço de Deos, e acrescentamento da Santa Fé Catholica, e meu, pelo dito Jácome de Bruges povoar a dita Ilha tão longe da terra firme, bem duzentas e sessenta legoas do mar Oceano; a qual Ilha se nunca soube povoada de nenhuma gente que no mundo fosse ategora: e rogo aos Mestres, e Governadores da dita Ordem que depois de mim vierem, que façam dar, e pagar ao dito Jácome de Bruges, e seus herdeiros, que delle descenderem, a dita dizima do dizimo, que a dita Ordem na dita Ilha houver, como lhe por mim he dada, e outorgada, e não consintão lhe ser feito sobre ello nenhum aggravo; e peço por mercê a EIRei meu Senhor, e sobrinho, e aos Reis que dele vierem, que ao dito Jacome de Bruges, e aos herdeiros que delle descenderem, fação pagar o dito dizimo à dita Ordem do que na dita Ilha se houver, e que lhe façam pagar a dita dizima do dito dizimo aos Mestres, ou Governadores da dita Ordem, como lhe por mim he dado, e outorgado para sempre, em todo lhe faça ter, e tenha a dita mercê, que lhe por mim he feita. E por segurança sua lhe mandei ser feita esta minha carta, assinada por minha mão, e sellada do sello de minhas armas. Feyta em a Cidade de Silves, a 2 dias do mez de Março. Pedro Lourenço a fez, anno do Nascimento de nosso Senhor Jesu Christo de mil e quatro centos e cincoente annos.»


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Querem alguns escritores antigos, como o Padre Cordeiro, na sua História Insulana, que fora Fernão Dulmo,1 com os seus companheiros vindos de Cabo Verde, os primeiros a entrarem na ilha Terceira pelo lado norte, fundando a primeira igreja no lugar das Quatro Ribeiras; e como a qualidade


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do terreno lhes não permitisse a passagem para o interior da ilha, voltara para Portugal. Esta asserção é, para nós, inverosímil, porque sendo Fernão Dulmo um aventureiro, que viera para Portugal, como Bruges e outros, com o fim de se engrandecer com as descobertas dos portugueses, não se contentaria em declarar a D. Henrique a existência de uma ilha, sem que a pedisse para si, como fez Jácome de Bruges; e numa carta de doação passada pelo Duque D. Manuel a favor de Fernão Dulmo, em 3 de março de 1486, lê-se: «[...] que Fernão Dulmo Cavalleiro e Capitam na Ilha Terceira [...]», logo não podia ser este o primeiro povoador da ilha Terceira, mas sim Jácome de Bruges que, partindo de Lisboa, alguns meses depois de lhe ser doada a ilha, a encontrou no dia 1.° de janeiro de 1451, pelo que lhe deu o nome de Ilha de Jesus Cristo da Terceira, por ser a terceira ilha que era povoada. Nesta primeira viagem de exploração, contentou-se Bruges em trazer consigo algumas espécies de animais que lhe pudessem ser úteis no trabalho e alimentação; e, conhecidos os pontos principais da ilha, voltou a Portugal a pedir gente ao Infante, para a vir povoar. Não lhe foi fácil angariar colonos em todo o Portugal, porque este se achava esgotado com a colonização de outras ilhas e continentes, sendo necessário que o Infante D. Henrique fizesse seguir Jácome de Bruges para a ilha da Madeira, com cartas suas, a propor grandes lucros aos nobres e operários que o quisessem acompanhar. Bruges já trazia consigo João Coelho, João da Ponte, João Bernardes, João Leonardes e Gonçalo Eanes da Fonseca, todos fidalgos de Portugal; e, na ilha da Madeira, agregou-se-lhe Diogo de Teive, que, por Alvará do Infante, fora nomeado lugar-tenente de Jácome de Bruges, e ouvidor geral na ilha Terceira. Além destes titulares e operários, vieram alguns franciscanos para o culto religioso e administração dos sacramentos aos novos terceirenses, visto que as ilhas dos Açores pertenciam à Ordem de Cristo, como adiante se verá numa Carta de El-Rei D. Afonso V. Ignora-se o ano em que Bruges aportou, pela segunda vez, à ilha Terceira; e conquanto não haja a certeza do ponto de desembarque, tudo leva a crer, pelas razões já apontadas no capítulo XIV da Parte IV, deste trabalho, que foi no lugar denominado o Pesqueiro dos Meninos, adiante da Ribeira Seca, estabelecendo-se a primeira povoação no Vale-do-Paul, próximo da ribeira de Frei João; e por ser aquele lugar plano e semelhante aos campos do Alentejo, lhe puseram o nome de Porta-Alegre, fazendo construir um pequeno templo, o primeiro na ilha Terceira, sob a invocação de Sant'Ana, e passando a pequena freguesia, que durou habitada por mais de um século,


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a denominar-se de Sant'Ana de Portalegre das Quatro Ribeiras, por serem quatro as ribeiras que os habitantes da Praia tinham de atravessar quando vinham à missa. As ribeiras são: de Santo Antão, do Belo Jardim, Ribeira Seca e a de Frei João, no Arrabalde da freguesia de São Sebastião. Esta dedicação a Sant’Ana parece indicar que Jácome de Bruges chegou à ilha Terceira no dia 26 de julho, em que a igreja reza aquela santa. Instalados previamente neste lugar de Port’Alegre, trataram os primeiros habitantes da ilha de a explorar, encontrando nela uma vegetação abundantíssima, e grande multiplicação do gado, que anos antes trouxera Jácome de Bruges; e, como possuíssem vários artigos de lavoura, procederam à escolha do terreno que devia pertencer a cada um. Jácome de Bruges escolheu para si o lugar da Praia, e ali se estabeleceu juntamente com Diogo de Teive, a quem deu a Serra de Santiago e outros terrenos para o lado das Lajes. Gonçalo Eanes da Fonseca estabeleceu-se na Ribeira Seca, onde sua mulher teve um filho, que foi o primeiro a nascer na ilha Terceira; Frei João, chefe dos franciscanos, escolheu o lugar junto da ribeira que dele tomou o nome; João da Ponte, o lugar do Arrabalde, na freguesia de São Sebastião; João Coelho, o Porto Judeu; e João Leonardes as terras do Pico das Contendas. Depois desta divisão, voltaram os principais habitantes da ilha a Portugal, em busca de suas famílias e criados, regressando em 1456, pouco mais ou menos, Jácome de Bruges com sua mulher D. Sancha Rodrigues de Arce e Thoar, dama da Infante D. Beatriz, e com sua filha D. Antónia Rodrigues de Arce, sucessora de seu pai na donataria; Diogo de Teive, com sua mulher D. Maria Gonçalves Vargas; João Leonardes, com sua mulher D. Catarina Pires; Gonçalo Eanes da Fonseca, com sua mulher D. Mécia de Andrade Machado e seu genro Pedro de Mariz Pinheiro, casado com D. Inês Gonçalves Machado; e João Coelho Guimarães, com sua mulher D. Catarina Rodrigues da Costa. Além destes, trouxe Jácome de Bruges, na sua companhia, o capitão. Fernão Dulmo, a quem concedeu o terreno das Quatro Ribeiras, entre o Biscoito Bravo e a Ribeira da Agualva. Porém, não se prestando o terreno ao trabalho, ou por negligência ou ignorância de Fernão Dulmo e dos seus companheiros flamengos, desistiu aquele capitão de tudo o que lhe tinha sido dado, e intentou descobrir uma ilha ao norte da Terceira, de que mais adiante falaremos. Corno fosse também infeliz nesta sua nova empresa, voltou à Terceira, sendo-lhe então dado o terreno compreendido entre a Serra da Ribeirinha e a Feteira. Todos estes terrenos eram distribuidor de sesmaria, isto é, cada proprietário recebia do donatário a porção de terreno que podia arrotear no prazo de cinco anos, segundo o número de trabalhadores de que podia dispor; e,


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dos frutos colhidos, pagava a dízima à Ordem de Cristo, e deste tributo retirava o donatário para si a redízima. Conhecidos em Portugal os progressos dos novos terceirenses, e às repetidas instâncias de Jácome de Bruges e do Infante D. Henrique, aportaram à ilha Terceira, em 1458, Álvaro Vaz Merens, chefe da família deste apelido, que recebeu, por dada, os campos compreendidos entre a Grota do Vale e o Porto de Pipas; e Miguel Ximenes, com sua mulher D. Violente de Bettencourt, o qual recebeu o terreno de Val-de-Linhares. Um pouco mais tarde, chegavam à ilha Terceira, Gonçalo Ferreira de Teive, parente do ouvidor Diogo de Teive, Gonçalo Mendes de Vasconcelos, Simão Pacheco, Rodrigo Afonso Fagundes e outros, que se instalaram na parte da Praia, do mesmo modo que Lourenço Álvares, Fernando Anes Frois, Fernão Afonso, Gonçalo Anes Serodeo, Afonso Álvares, Afonso Anes, Diogo Pires e outros não menos distintos cidadãos se fixavam em Port'Alegre. Como se vê, a primeira população da ilha Terceira começou a concentrar-se para leste, ocupando a Praia e seus arredores, e sendo aquela a primeira capital da ilha Terceira, desde 1450 até 1464, em que foram estabelecidas as duas capitanias. Tendo aumentado consideravelmente a população e prosperado a agricultura, viu-se Jácome de Bruges obrigado a cuidar do culto religioso, mandando edificar a atual matriz da Vila da Praia, e da administração pública, conforme as instruções recebidas do Infante D. Henrique. Para isso, organizou a primeira Câmara da ilha Terceira, com os quatro Joões que consigo trouxera, e como juiz ordinário, Gonçalo Eanes da Fonseca, funcionando o primeiro senado terceirense no lugar do atual curato do Porto Martins e no local a que o povo dá o nome de Canto da Câmara, próximo da igreja de Santa Margarida.


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