Memória sobre a ilha Terceira/V/I/VI

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CAPÍTULO VI Continuação das duas capitanias até à morte do Cardeal D. Henrique Capitania de Angra Foi com a posse do terceiro capitão do donatário de Angra, que ficou residindo em Lisboa, que começou, por assim dizer, a decadência da ilha Terceira. Em 1539, por denúncia dos empregados da Fazenda Pública, e consulta da Mesa de Consciência, ordenou El-Rei, em Alvará de 13 de janeiro de 1540, que todos os terrenos destinados à comedia do gado pagassem dízimo, sob o nome de tributo de ervagem; e como era grande a extensão destes terrenos, grande foi o tributo sobrecarregado aos pobres açorianos, por causa da desigualdade das avaliações. Dois anos depois, começaram também com o seu tributo de sangue à Nação, no alistamento que El-Rei mandou fazer em todas as ilhas, para a constituição do Exército de Portugal; e, no fim de pouco tempo, a serem explorados pela sua mãe pátria, vendo sair de suas casas uma grande parte do seu trigo e cevada, comprados quase à força por ordem de El-Rei. É assim que, em 1546, aparece em Angra Jerónimo Rodrigues, escrivão da Câmara de El-Rei, que, a título de empréstimo, comprou uma grande parte do trigo produzido, e pouco tempo depois, João Simão de Sousa, feitor da Alfândega do Funchal, com o mesmo fim. Nesta época, achavam-se os mares dos Açores infestados pelos corsários à busca das naus da Índia, e assaltando também as ilhas que encontravam menos defesas. Não podendo Portugal dispor de navios, para lhes dar caça,


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por causa do grande comércio da Índia e guerras de África, mandou El-Rei que, nos Açores, se construísse uma esquadra própria para a defesa da costa. Aprontaram-se os estaleiros em São Miguel, sob as ordens do capitão Francisco do Rego e Sá, intitulado o grão-capitão, e em Angra, nos lugares do Porto de Pipas e Prainha, sob a direção de António Pires do Canto, filho de Pedro Anes do Canto, capitão-mor da armada. Organizada a esquadra, que passou a ser comandada por António Pires do Canto, sucessor de seu pai na capitania, por este ser de idade avançada, começou por limpar os mares dos Açores de todos os corsários que encontrou, auxiliado pela bravura dos terceirenses, e comboiando também as naus que vinham da Índia pelos Açores. Distinguiram-se, nas diversas lutas travadas pela esquadra açoriana, os seguintes indivíduos, cujos nomes ficaram gravados nas páginas brilhantes da nossa história, e são: Sebastião Gago e Jorge Camelo, da ilha de São Miguel, comandando depois navios de alto bordo na Índia, onde faleceram, bem como Pedro Camelo Pereira e André de Novais. Da ilha Terceira, foram: Jorge de Lemos, Francisco Dias do Carvalhal, Gaspar de Ornelas de Gusmão, Manuel de Corte-Real e Sampaio, Diogo Lopes Machado e Diogo Gonçalves Machado, e finalmente António Moniz Barreto. Tendo falecido em 1557 El-Rei D. João III, sucedeu-lhe no trono D. Sebastião, de menor idade, pelo que teve de assumir a regência do reino sua avó D. Catarina, até 1562, em que cedeu o governo a seu cunhado o cardeal D. Henrique. Naquele mesmo ano de 1557, dirigia a Câmara de Angra a seguinte carta a El-Rei, por intermédio de Mateus Jaques, escrivão da mesma Câmara, e com recomendações ao capitão do donatário de Angra, Manuel Corte-Real, e a Manuel da Costa e António Pinheiro, que gozavam de grande influência na corte: «Senhor. — Os serviços que esta cidade faz a V. A. nos dão ousadia para cada dia lhe pedir mercês em mais, pois sabemos quam acostumado é V. A. a fazel-as a quem o serve: e que ainda nessa parte é tão grande sua real bondade e clemência, que sempre nas mercês é mais liberal do que lhe merecem, e nos castigos mais piedoso do que lhe merecemos e daqui, Senhor, vem que, vendo nós como esta cidade de Angra tinha necessidade de requerer a V. A. algumas cousas necessarias ao bem comum dela, acordámos escrevel-o a V. A., e para isso enviar um procurador com certos capítulos que V. A. verá: pedimos-lhe, Senhor, por mercê, que os mande vêr, e proveja, e os mande despachar como vir que é mais serviço de Deus, e seu, e com brevidade, pois o procurador que os requer vae à custa da cidade, que é pobre. Nosso Senhor a vida e estado real de V. A., e da Rainha, e Principes nossos Senhores conserve, e prospere como todo o seu povo com muita razão deseja. — Escripta na Câmara desta cidade de Angra, sob nossos signaes, e sello della, aos 9 dias de Abril. —— Mateus Jaques Escrivão da Câmara a subscreveu de 1557 anos.»


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Os pedidos a que se refere esta carta eram os seguintes: 1.° para não pagar aposentadoria aos escrivães da correição, e que as pessoas a quem a Câmara a tivesse de pagar, não excedesse de 180 réis mensais, como se pagava no reino; 2.° para a construção de uma nova Sé, mais ampla, e à custa de El-Rei; 3.° pedindo providências contra o pregador da Sé, que, sendo obrigado a pregar aos domingos, dias de festas e sextas-feiras da quaresma, se recusa a praticar este ato; 4.° que fosse ordenado ao Bispo o cumprimento das determinações de El-Rei D. Manuel sobre os benefícios da cidade serem dados, de preferência, aos naturais da ilha, sendo em primeiro lugar os nobres; 5.° que, visto a fraqueza das terras e a sua pouca produção, ficasse depositado na mão de um indivíduo a terça parte do seu produto, para os casos de necessidade; 6.° que era conveniente não permitir a saída do trigo, para fora da ilha; 7.° que proibisse aos corregedores o levarem consigo os processos crimes, quando saíssem da capitania, e que os deixassem os juízes ordinários para não haver demora no julgamento dos réus; e que outrossim, não vexassem os moradores da Praia, impondo-lhes ações novas por crimes inferiores a 6$000 réis, por assim estar concedido aos moradores da dita Vila; 8.° que um só vereador pudesse prender ou mandar prender todas as pessoas que abusassem e quebrassem as posturas e taxas do concelho, carregando trigos para fora da ilha; e que, presos os delinquentes, fossem estes remetidos aos juízes ou à Câmara para os punirem; 9.° finalmente, que os corregedores, contadores e oficiais de fazenda queriam aposentadoria de graça, mas que se lhes não desse por quantia superior a 5$000 réis. Estas petições, que acompanharam a carta a El-Rei, e que denotam um abuso das autoridades superiores, tiveram mais tarde alguma solução, mas não tão rápida como os terceirenses desejavam, porque à sua chegada a Lisboa já tinha falecido D. João III. Ainda não tinha findado o sono de 1558, quando a Câmara de Angra recebeu uma carta da rainha regente, manifestando-lhe a necessidade que havia em prover as armadas da Índia e a construção doutras, para o que necessitava de um empréstimo de 150:000 cruzados, que os Açores lhe deviam fazer, e para isso mandava o desembargador Afonso Figueira, com todos os poderes para a arrecadação do dito empréstimo, devendo todos os habitantes da ilha Terceira obedecerem-lhe, sob pena de degredo se bem lhe parecesse. Com estas ordens despóticas deu-se bem Afonso Figueira, procedendo por si ou por instigação de outros, com o máximo rigor, exercendo vinganças mesquinhas e satisfazendo os ódios daqueles que tramavam na sombra contra


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as famílias hebraicas e todos os que lhes diziam respeito, impondo-lhes as quantias que deviam entregar. Tal crueldade e tal despotismo não tinham ainda presenciado os terceirenses; e, submissos e timoratos, como sempre têm sido, lá foram entregar o que tanto lhes custara ajuntar, para, dali a pouco tempo verem um tresloucado rei, imberbe e inexperiente, desbaratar nas plagas africanas a flor da mocidade portuguesa! Continuavam, em 1560, as dificuldades em Portugal para acudir às grandes empresas e conservação das conquistas da África; e como fosse urgente e indispensável a fortificação da ilha Terceira, resolveram as Câmaras terceirenses sobrecarregar os seus munícipes com novos impostos, uma vez que nada tinham a esperar de Portugal. Aprovada a petição, que em 1557 fizera a Câmara de Angra a El-Rei, sobre a arrecadação da terça parte do trigo que embarcasse para fora da ilha, entenderam os vereadores que, nos anos de abundância, se devia proceder do mesmo modo, o que deu lugar a graves desordens pela imprudência com que executavam a lei, à vontade dos mais abastados. Ao mesmo tempo oprimiam-se os oficiais mecânicos e os trabalhadores do campo, taxando-se-lhes o salário e impondo-se-lhes licenças; e, em 1567, por Alvará de 5 de março, foi ordenado um imposto sobre vinhos, carne e azeites, para ser aplicado à fortificação da costa, bem como o pagamento de 2% em todas as mercadorias exportadas. Não satisfeitos com isto, ainda houve um outro imposto sobre a propriedade dos moradores da ilha, tanto presentes como ausentes, de modo a perfazer a soma de 15:000 cruzados, sendo 10:000 por Angra e 5:000 pela Praia. Para a arrecadação desta quantia, mandou o Cardeal D. Henrique o corregedor Gaspar Ferraz e o engenheiro Thomaz Benedicto, os quais entregariam depois todo o dinheiro a João da Silva do Canto, que então era provedor das armadas e encarregado da fortificação da ilha Terceira. Como preparativos de fortificação, mandou o Regente quatrocentos arcabuzes com seus frascos e morrões, trezentos e cinquenta piques, três quintais de pólvora bombarda, três de pelouros de espingarda e outros tantos de chumbo, só para a capitania de Angra; e para a da Praia, trezentos arcabuzes com seus aparelhos, trezentos e cinquenta piques, três quintais de pólvora e igual quantia de pelouros e chumbo. Foi criado, para a ordenança de toda a ilha, um sargento-mor, Sebastião Rodrigues Sengo, até 1570, em que foi separada a sargentaria da Praia, que ficou a cargo de outro indivíduo, ficando como capitão-mor, em Angra, o corregedor Gaspar Ferraz e mais tarde Gaspar Pereira, na ausência do capitão do donatário Manuel Corte-Real; e para a Vila da Praia, Francisco do Canto, filho de Pedro Anes do Canto, na ausência do seu capitão do donatário Antão Martins Homem.


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Devido à energia e boa vontade de João da Silva do Canto, construiu-se, em 1573, a fortaleza de São Sebastião no lugar do Porto de Pipas, em terrenos pertencentes a Pedro de Castro do Canto, filho de António Pires do Canto, e uma outra fortaleza na freguesia do Porto Judeu, com o nome de Santo António. Em 1542, concedeu o Papa Paulo III a Bula de fundação do convento de São Gonçalo, sendo o padroeiro Brás Pires do Canto, escrivão do eclesiástico. Foram admitidas, como fundadoras, Inês de Deus e Susana de Cristo, seculares, e filhas do padroeiro, e muitas outras que, no fim de um ano, professaram nas mãos do Bispo da diocese. Constando mais tarde, em Roma, irregularidades praticadas nestas profissões, veio ordem para serem anuladas, e entrarem, como reformadoras, as duas freiras do convento de Jesus, da Vila da Praia, Isabel de Jesus e sua irmã Beatriz da Conceição. Achando-se o bispado de Angra separado do do Funchal, mas regendo-se pelas suas antigas constituições, resolveu o Bispo D. frei Jorge de Santiago em 1559 formar outras novas e em harmonia com o meio sociológico em que estava. Para isso, reuniu todas as dignidades da Sé, e celebrou sínodo episcopal na Catedral, desde 4 de maio, dia da Ascensão, até à primeira oitava do Espírito Santo, sendo por fim aprovadas. Entre os vários capítulos que formaram as novas constituições, determinou-se o assento dos baptismos e dos óbitos. Em 1569, ordenou El-Rei D. Sebastião que se fundasse um colégio da Companhia de Jesus na ilha da Madeira e outro em Angra; mas, grassando em Lisboa a epidemia da peste, só em 1570 é que saíram daquele porto onze padres para o Funchal e outros tantos para Angra, em sete naus de guerra, comandadas pelo general D. Francisco Mascarenhas. No dia 1.° de julho desembarcavam em Angra, com toda a pompa, os seguintes padres da Companhia: Luís de Vasconcelos, reitor do colégio, Pedro Gomes e Baltazar Barreiros, pregadores, Pedro Freire, Sebastião Álvares e mais seis religiosos, sendo recebidos cordialmente pelo Bispo D. Nuno Álvares Pereira, que os conduziu para a Misericórdia, onde foram hospedados. Pouco depois seguiram para a casa do fidalgo João da Silva do Canto, na Rua de Jesus, destinada para recolhimento de órfãos, tendo uma capela sob a invocação de Nossa Senhora das Neves; e ali estiveram até 16 de fevereiro de 1608, recolhendo-se depois ao seu colégio que acabara de ser construído. Atualmente pertence aquela casa à família Xavier de Andrade. Concedeu El-Rei a estes padres o privilégio exclusivo do ensino da língua latina, contra o que protestaram os franciscano, mais antigos nesta ilha, e que tinham sido os primeiros mestres da mocidade terceirense; e em 157, obtiveram também privilégio para livremente exportarem todo o seu trigo, como já tinha sucedido em 1570.


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Neste mesmo ano, aos 18 dias de novembro, foi lançada a primeira pedra para a atual igreja da Sé, na presença de todas as autoridades civis e militares, completando-se o edifício em 1618. Em 1572, foram criadas, pelo Bispo D. Gaspar de Faria, as vigararias de São Pedro e de São Bento; e, em 1577, fundava-se o Convento da Esperança, pertencente à Ordem de Santa Clara, segundo a reforma do Papa Urbano IV. Foi fundadora, Isabel de Jesus, religiosa do mosteiro de São João Baptista da ilha do Faial, e autorizada por bula de Paulo IV. Esta religiosa, que viera a Angra tratar da sua saúde, resolveu fundar este convento depois de se encontrar curada dos seus padecimentos, e foi padroeiro da capela-mor Álvaro Pereira Sarmento, seu irmão. Finalmente, em 1579, fundava-se em Angra, o Convento da Graça, sendo seu fundador frei António Varejão, natural de Freixo de Espada à Cinta. Este,ilustre pregador começou também um hospital, que depois cedeu para um convento de freiras da Conceição, onde hoje está o Hospital de Santo Espírito. Continuava mal o estado geral da ilha Terceira, não só pela esterilidade dos terrenos e deficiência das colheitas, como também pelos grandes impostos com que estavam sobrecarregados os terceirenses, quando, a 15 de maio de 1578, tomava posse do lugar de corregedor Ciprião de Figueiredo de Lemos e Vasconcelos, com todos os poderes que até ali tinham os seus últimos antecessores, e acumulando o cargo de capitão-mor, como lhe competia, por ter falecido em 1577 o ilustre cidadão João da Silva do Canto. Neste fatal ano, era desbaratado em África o exército português, e com ele D. Sebastião, não deixando sucessor à coroa de Portugal, pelo que teve de tomar assento no trono o decrépito Cardeal D. Henrique, seu tio. Só no dia 5 de novembro é que houve conhecimento em Angra desta fatal notícia, procedendo-se à aclamação do novo Rei. Ao mesmo tempo que a ilha Terceira pranteava o desbarato da mocidade portuguesa, arrastada à força por um rei inexperiente, recebia o corregedor Ciprião de Figueiredo uma carta do Cardeal D. Henrique, recomendando-lhe a defesa da ilha contra a Inglaterra e a França, que preparavam navios com o intento de assaltarem os Açores. Governava a diocese de Angra D. Pedro de Castilho, nomeado Bispo em 1575 por El-Rei D. Sebastião. Durante o seu governo procurou por vezes invadir e devassar a jurisdição do corregedor Ciprião de Figueiredo mandando prender alguns indivíduos acusados de adultério, obrigando, com ameaças de excomunhão e prisão, os ministro e oficiais de justiça, a descobrirem-lhe os segredos dos autos que lhes eram mandados fazer, chegando a lançar a excomunhão sobre o juiz ordinário da Vila da Praia, João Cardoso Machado.


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Em presença de tais arbitrariedades, viu-se obrigado o corregedor Ciprião de Figueiredo a intimar o Bispo a pôr em liberdade os presos, fazendo-lhe ver que exorbitava da sua autoridade. Das evasivas respostas de D. Pedro de Castilho, houve recurso para o juízo da coroa, vindo pouco depois a seguinte resolução: «Acordei, etc. — Vistos os autos que o supplicante tirou de vós Bispo de Angra, pelos quaes se mostra que, sendo elle leigo e da minha jurisdição, vós Bispo o queríeis obrigar e aos officiaes dante elle, vos mostrassem os autos que por meu mandado fizeram com a abbadessa e freiras do mosteiro de Jesus, e vos descubram o segredo delles, pondo-lhes penas de dinheiro e procedendo contra elles, com censuras e excomunhões, perturbando n’isso a jurisdição secular: o que tudo visto e o mais dos autos, mandei que se passasse certa, porque vos rogo e encomendo, não queiraes compellir ao dito corregedor supplicante e mais officiaes, vos mostrem os autos e segredos de justiça, e levanteis vossos procedimentos e censuras, e não o querendo vós Bispo fazer, o que de vós se não espera, mando às justiças seculares não obedeçam a vós dito Bispo n'esta parte, nem cumpram vossas censuras e excomunhões: a 6 de agosto de […].» D. Pedro de Castilho, não se importando muito com esta sentença, continuou em luta com as autoridades civis, até que se viu obrigado a ausentar-se para a ilha de São Miguel, com medo de ser preso e processado, serenando com isto os ânimos que se achavam revoltados contra tal procedimento. Complicavam-se seriamente os negócios políticos em Portugal, em 1580, pela falta de sucessão ao trono. Decrépito pela idade, e rebelde à mudança de estado civil, recusou o Cardeal D. Henrique o pedido que lhe fizeram para o casamento, a fim de dar sucessor ao trono de Portugal, e evitar as guerras com qualquer nação estrangeira. Conhecendo o Cardeal, que existiam vários pretendentes à corda portuguesa, mandou citá-los, para que, em pessoa ou pelos seus embaixadores, mostrassem os direitos que tinham à sucessão. Esses pretendentes eram: D. Catarina, casada com o Duque de Bragança, neta de El-Rei D. Manuel e filha do infante D. Duarte; Rainuncio, filho do Príncipe de Parma e de D. Maria, irmã mais velha de D. Catarina; D. António Prior do Crato, filho ilegítimo de D. Luís e neto de El-Rei D. Manuel; o Príncipe de Piemonte, filho da infanta D. Beatriz e neto de El-Rei D. Manuel; o Rei de França, que pretendia descender dos Reis de Portugal pelo lado materno; e por último D. Filipe de Castela, neto mais velho de D. Manuel e sobrinho do Cardeal D. Henrique.


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Todos apresentaram os seus embaixadores, à exceção deste último que, logo depois da morte de D. Sebastião, instara com seu tio para o indicar como sucessor a coroa de Portugal; e, vendo o partido que podia tirar dos seus direitos e do auxílio de alguns traidores à pátria, deu largas comissões ao Duque de Ossuna e a D. Cristóvão de Moura, para que estes, pela sua parte, seduzissem os portugueses com promessas e dinheiro para a sua aclamação. O Cardeal D. Henrique sabedor das subtilezas de seu sobrinho, mandou reunir as cortes de Lisboa, para ser nomeada uma comissão de Governadores, que ficaria dirigindo Portugal, depois da sua morte. Com esta deliberação iníqua mostrou que se esquivava à solução pedida pelo povo para a sucessão ao trono de Portugal, ou que estava combinado com seu sobrinho D. Filipe, para a nomeação de indivíduos comprados por este, para depois da sua morte entregarem traiçoeiramente ao rei ambicioso todo o Portugal e seus domínios. Ficaram eleitos, pelos três Estados, como Governadores do Reino de Portugal, D. Jorge de Almeida, Arcebispo de Lisboa, D. João de Mascarenhas, Francisco de Sá, D. João Telo e Diogo Lopes de Sousa, governador da Casa do Cível, aos quais a história não pode deixar de marcar o ferrete de traidores à Pátria. De todos os pretendentes ao trono de Portugal, só D. Filipe de Castela se recusou a jurar as determinações das cortes portuguesas; e D. António Prior do Crato, apesar de ter feito o juramento exigido pelo Cardeal D. Henrique, não desistiu da sua pretensão, fazendo-se passar por filho legítimo, com um Breve que lhe concedera o Papa. Com estas ideias percorreu algumas vilas de Portugal, indo por último fixar a sua residência em Coimbra, no convento de Santa Cruz, aonde El-Rei o mandou prender. Tendo conhecimento desta ordem, refugiou-se em Lisboa, onde viveu secretamente até à morte do Cardeal D. Henrique, que teve lugar no dia 31 de janeiro de 1580. Capitania da Praia Confirmada a capitania da Praia na pessoa de Álvaro Martins Homem, pela renúncia de seu pai Antão Martins Homem, teve aquele de sustentar, desde o princípio, grandes questões com os corregedores, que continuamente vexavam os moradores da Praia com as suas aposentadorias, levando ao mesmo tempo consigo os autos cíveis e crimes, sem despacho algum. Para por termo a tais questões, conseguiu Álvaro Martins Homem um Alvará, em 1534, pelo qual cessaram estes abusos, como sucedia em Angra. Ignoram-se quais os atos importantes praticados por este capitão do donatário, e do mesmo modo o lugar onde faleceu. Sucedeu-lhe seu filho, Antão Martins


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Homem, casado com D. Joana de Mendonça, filha de Henrique Pinheiro, alcaide-mor de Barcelos, sendo-lhe confirmada a capitania em Carta Régia de 30 de janeiro de 1533. Ferreira Drummond, nos seus Anais da ilha Terceira, dá a este capitão do donatário o nome de Antão Martins da Câmara, e no ano de 1565 muda-lhe o nome para Antão Martins Homem. No Archivo dos Açores, cujo autor procurou sempre fundamentar-se em documentos autênticos, ao tratar dos donatários da Vila da Praia, dá-lhe o nome atrás indicado. Ignora-se também quando tomou conta do seu cargo. Em 1540 foi obrigado pelo corregedor Jerónimo Luís, o Mau, a fazer à sua custa a cadeia, que ainda hoje existe, e teve depois que sustentar grande pleito, estando em Lisboa, para que o seu lugar-tenente pudesse assistir à tiragem dos pelouros dos oficiais da Câmara, sendo-lhe julgada favoravelmente a causa, em 1543. Foi no tempo deste capitão do donatário que Heitor Homem da Costa e sua mulher fundaram a ermida de Nossa Senhora da Ajuda, em Vila Nova, no lugar denominado o Varadouro, anexando-lhe um bom morgado. Foi o quarto filho, deste Heitor Homem, chamado João Homem, o instituidor da ermida de Nossa Senhora de Guadalupe, hoje paroquial da Agualva. Tendo-se ausentado para Lisboa o capitão do donatário da Praia, ficou exercendo o seu lugar, por Carta Régia, o valoroso capitão Francisco do Canto, filho ilegítimo de Pedro Anes do Canto. À sua energia se devem as providências tomadas naquela capitania para a fortificação da Praia, começando pela construção de entrincheiramentos na entrada das ruas, durante a regência do Cardeal D. Henrique. A falta de meios fez com que a Praia concorresse, em 1567, com 5:000 cruzados, bem como o imposto sobre os vinhos, carne e azeites, e os 2% sobre a exportação, à semelhança do que se fazia em Angra; e foi o mesmo Gaspar Ferraz, na qualidade de corregedor, quem foi à Vila da Praia, e conjuntamente com a Câmara, lançou o imposto e fez a derrama pelos moradores da Vila. Urgia dar maior impulso à fortificação de toda a ilha, e por isso, sob a direção do engenheiro Thomaz Benedicto se procedeu à construção de vinte e quatro fortes em toda a cortina do sul e de algumas muralhas indispensáveis nas diferentes baías da capitania da Praia. Ao mesmo tempo, remetia El-Rei trezentos arcabuzes, convenientemente aparelhados, trezentos e cinquenta piques, três quintais de pólvora e dois de bala de chumbo. Foi em 1565 que se decidiu judicialmente o pleito levantado por Antão Martins Homem, capitão do donatário, contra Manuel Corte-Real, capitão da parte de Angra, sobre a delimitação das duas capitanias. Foram os seus lugares-tenentes os que levantaram esta questão, pois que nesta época residiam em Portugal os dois capitães; e, a 7 de junho daquele ano, foram colocados


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definitivamente os marcos divisórios, ficando a ilha dividida em duas partes iguais, desde a Ribeira Seca até ao Raminho. Tendo sido fundado um mosteiro da ordem de Santa Clara, por Domingos Homem da Câmara e sua mulher Rosa de Macedo, em 1556, com o nome de Mosteiro das Chagas, o Bispo D. Nuno Álvares Pereira, em 1568, anulou todos os votos e clausura perpétua, por não ter o seu fundador satisfeito a promessa do padroado e não terem as religiosas os meios suficientes para se sustentarem com decência, passando a ser um recolhimento, indo como regente Antónia dos Anjos, ex-abadessa do mosteiro. Mais tarde, em 1684, ficando quase reduzido a cinzas por um incêndio, uniu-se ao mosteiro da Luz, e com ele acabou em 1833. Tendo sido dada ordem, para regressar à ilha Terceira, ao capitão do donatário Antão Martins Homem, para cuidar da fortificação da Vila, só em fins de 1575 é que chegou à Praia, falecendo a 9 de junho de 1577, sem deixar descendência alguma. Nos últimos anos do seu governo não deixou de perseguir os moradores da sua capitania, opondo obstáculos à moagem dos cereais, etc. No dia seguinte ao da sua morte, tomou posse da capitania o corregedor Diogo Álvares Cardoso, até 1578, em que veio para a Terceira Ciprião de Figueiredo de Lemos e Vasconcelos, como corregedor de todas as ilhas. Informado, por El-Rei D. Henrique, do estado em que iam os acontecimentos políticos em Portugal, e da altitude em que estavam a Inglaterra e a França, para atacarem as ilhas dos Açores, tratou o corregedor Ciprião de Figueiredo de intimar o capitão-mor Gomes Pamplona de Miranda e o sargento-mor Manuel Quinteiros, para que tratassem, com toda a brevidade, da milícia de pé e a cavalo, e que, por sua parte, modificassem a forma das ordenanças como melhor lhes parecesse. Recomendou também que melhorassem o baluarte da Luz, fronteiro à casa onde está hoje a Alfândega. Recrutou-se a gente válida para a organização do corpo de milícias, sendo nomeados capitães das companhias Gaspar Camelo do Rego e Simão de Andrade, distribuindo-se também algumas companhias pelas outras freguesias da capitania; e, deste modo, em pouco tempo, ficou a capitania da Praia convenientemente armada, para qualquer invasão inimiga.


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