Memória sobre a ilha Terceira/V/II/I

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CAPÍTULO I Implantação do novo regime administrativo; partida do Marquês de Santa Cruz para Espanha Quando o Marquês de Santa Cruz entrou na cidade de Angra com o seu exército vitorioso, espalhou-se o terror pelos seus habitantes, ao verem as atrocidades praticadas pela soldadesca, a quem o seu general concedera o saque durante três dias. A sua ferocidade não perdoou as vidas nem as fazendas. O roubo e o incêndio assinalaram de estragos os seus passos. Nas ruas jaziam insepultos os cadáveres nus das vítimas, a par dos animais mortos. Mulheres e donzelas desonradas choravam os maridos ou os pais perdidos. Os filhos buscavam as mães; crianças desamparadas vagueavam como loucas pelas ruas da cidade, e enquanto uns buscavam um refúgio no interior dos matos, outros escondiam-se nos lugares mais imundos ou se entregavam nas mãos do inimigo, sofrendo as mais cruéis torturas e pagando com a vida a sede da vingança de uma soldadesca desenfreada. Era uma verdadeira invasão de bárbaros na ilha Terceira! Escolhera o Marquês de Santa Cruz, para sua residência, os aposentos de D. Violante do Canto, que se havia recolhido ao convento de São Gonçalo; e, depois de instalado no seu novo palácio, mandou postar sentinelas em todos os conventos e igrejas, por lhe constar haverem-se refugiado ali muitas pessoas adeptas de D. António, e que ele considerava corno presos políticos. No entretanto chegavam ao porto de Angra os navios espanhóis, saqueando os que ali estavam, ao mesmo tempo que a tropa castelhana se apoderava dos fortes e redutos da cidade. Vejamos o que sucedera a Du Chaste. Após o bivaque, tentou o comendador entrincheirar-se no forte de São Sebastião, sendo desalojado imediata –-----------------------0489 mente por uma divisão inimiga e obrigado a retirar-se novamente para a freguesia da Agualva. Passava da meia noite quando Du Chaste notou que os soldados franceses se tinham revoltado, tentando matar o seu general e massacrar os capitães, por desconfiarem que ficavam em reféns, enquanto os seus chefes se salvavam. Com muito custo conseguiu o comendador apaziguar os ânimos dos seus subordinados, prometendo-lhes, sob a sua vida e honra, de nunca os abandonar e de morrer com eles. Pouco depois foi advertido de que tinha chegado ao acampamento um soldado espanhol com cartas de D. Pedro de Padilla e de D. Agostinho Iniguez, mestres de campo do exército inimigo, prometendo-lhe um indulto, visto o perigo que corria a sua vida. Agradeceu-lhes o comendador o seu oferecimento, e que a sua vida não estava em risco, como eles julgavam, tendo muito prazer em morrer por El-Rei seu amo. Vendo-se com poucas munições de guerra e poucos soldados dispostos a acompanhá-lo, escreveu Du Chaste aos capitães portugueses, fazendo-lhes ver o seu procedimento indigno em o abandonarem numa ocasião tão crítica e perigosa, e que, com boa vontade, podiam ainda repelir o inimigo, se se unissem a ele. A cobardia e o terror tinham já invadido o ânimo de todos os portugueses, desde o soldado ao general, e, em lugar de responderem ao comendador, enviaram as suas cartas ao Marquês de Santa Cruz, declarando-se ao mesmo tempo fiéis servidores de D. Filipe e prometendo a entrega do Conde Manuel da Silva, sem receio algum de que a história os apontasse como traidores à pátria. Tornara-se cada vez mais difícil e perigosa a situação da tropa francesa, abandonada por todos em um país desconhecido, quase sem mantimentos nem munições e cercada pelo inimigo, a quem os espiões portugueses denunciavam constantemente as intenções de Du Chaste. Não se passaram muitos dias sem que o general francês recebesse novas cartas, com promessa de indulto, e aconselhando-o a render-se. A resposta foi semelhante à primeira; porque Du Chaste, verdadeiro homem de guerra, prezava, acima de tudo, a honra militar e o brio da sua nação. Sabedor do destino que tomara Manuel da Silva, e conhecedor do seu procedimento indigno e desleal, mandou Du Chaste perguntar-lhe. era. possível socorrê-lo com pão e algumas outras munições, ao que lhe respondeu o Conde, que nada tinha e que necessitava ter com ele uma entrevista, pedindo ao mesmo tempo que os seus lhe não fizessem qualquer desfeita. Cedeu o comendador ao pedido do Conde; e, alta noite, passando este por entre os franceses, foi por eles reconhecido e insultado, exclamando a tropa: «Eis o poltrão que nos abandonou, e é a causa da nossa infelicidade. Matemo-lo, matemo-lo!» –-------------------------0490 Perante esta agressão recuou o Conde; e, com os olhos rasos de água, coberto de vergonha, respondeu-lhes: «Franceses, meus irmãos e meus amigos, tendes motivo para tirares-me a vida; mas antes disso, peço-vos, em honra de Deus, que me perdoeis!». Du Chaste ao ouvir esta exclamação, e comovido pelo arrependimento que mostrava o Conde, ajoelhado perante os seus soldados, impôs silêncio à tropa. Expôs-lhe Manuel da Silva as miseráveis condições em que estava, abandonado de todos os seus, e pediu-lhe encarecidamente que, ao fazer alguma composição com o inimigo, o compreendesse também e lhe salvasse a vida. «Ser-me-ia dobrado mal, — respondeu-lhe Du Chaste — lembrar-me de quando tão poucos motivos me destes disso. Entretanto far-se-á o que se puder». No dia seguinte, vendo o comendador que aumentavam as deserções para o inimigo e que lhe era impossível manter-se por mais tempo naquela situação, fez reunir os seus capitães, decidindo-se enviar um parlamentário ao campo espanhol, o qual conseguiu, com alguma dificuldade, a composição nos seguintes termos: 1.° — Que o dito Marquês de Santa Cruz prometia, ao comendador Du Citaste e à sua tropa, a faculdade de se retirarem para a França, com espadas e adagas; 2.° — Que daria navios avitualhados para os conduzir e suas bagagens, que não pesavam muito sobre as costas dos franceses, que haviam perdido tudo, não lhes restando mais do que o vestuário que os cobria no dia do combate; 3.° — Que também o Marquês, por desconfiança que tinham tido da sua fé, juraria sobre os Santos Evangelhos observar a composição, que assinaria com os principais da sua armada. E assim partiram para a sua pátria, no dia 14 de agosto de 1583, aqueles bravos que, de boa vontade, expuseram as suas vidas a favor dos terceirenses, recebendo, como paga, a traição e o desprezo dos seus irmãos de armas, comandados por um homem inábil e desprezível, que acabava de entregar a ilha Terceira ao domínio espanhol. Estava a cidade de Angra quase deserta quando, no segundo dia de saque efetuado pela tropa castelhana, mandou o Marquês de Santa Cruz abrir as portas dos conventos e das igrejas, saindo os partidários de D. António para as cadeias públicas, até segunda ordem, enquanto que os escravos, em número de cem, eram metidos a bordo dos navios, para seu serviço. No dia seguinte, 30 de julho, foi informado o Marquês de uma tentativa de rebelião na capitania da Praia, e, temendo ser apanhado de improviso, mandou espalhar por todas as freguesias rurais da ilha a seguinte carta de perdão: –--------------------------0491 «O Marquez de Santa Cruz Capitão Geral, etc. — Sendo já notorio que por a ostinasão com que hos naturais desta ilha Terceira am hestado nom bastante hos perdoes gerais que em nome de sua magestade lhes hofereri de cuja cauza hos conquistei por forsa de armas e hemtrei esta sidade donde movido ha piedade por hemformasões que me am feito de que todos os naturais desta ilha e hos demais abitantes e coabitantes hem hela amdão em hella montanha padesendo fome e harisquados ha ser deguollados de gente de guera deste fillisysimo imxersito e tendo consyderasão a isto por uzar de beninidade e cllemensia que sua magestade e seos capitãis gerais em seu nome ha costumamos, por ho teor da presente concedo e fasso graças ha todos os naturais desta dita ilha e haos abitantes e coabitantes dela que sejão portuguezes, das vidas e lhes haseguro e prometo que não sejão tornados ha saquear em nenhuma maneira todo o que trouxerem e que se venhão has cazas donde vivião com suas molheres e filhos e a roupa, e benefesiem e recolhão hos pãis e que da gente da guera não sejão havexados nem molestados, e por a presente mando ha toda ha que ha nesta ilha que em nenhuma maneira fasão avexasão nem molestia algua a nhuma pesoa portugueza que se viherem a hesta sidade, e hem quoamto ha os juizes e vereadores e capitães tambem se lhe faz o mesmo perdão com que se hapresentem perante minha pesoa demtro de tres dias; e pera decllarasão disto mandei pesar ha prezente firmada de minha mão, sellada com sello de minhas armas e referendada do escrivão infra escripto. Dada em Angra ha trinta e hum de julho de mil e quinhentos e outemta e três. — O qual treslado de perdão eu Gaspar Coelho, tabeliam publico e do judicial por elrey noso senhor nesta cidade de Angra desta ilha Terceira este fiz tresladar de hum treslado que fica em meu poder e com ele concertei bem e fielmente com ho tabeliam abaixo asinado em Angra haos coatro dias do mes de setembro; anno de mil e quinhentos e oitenta e sinco. — Concertado por mim Gaspar Coelho — Comigo Manuel Jacome Trigo.» Com estas palavras enganadoras conseguiu o Marquês dissimular a sua índole vingativa, chamando a si as pessoas principais da ilha para depois processar. Entre estas, faltava-lhe a principal, o Conde Manuel da Silva, chegando a prometer grandes recompensas a quem lho entregasse vivo. Recolhido no mato e vivendo nas furnas naturais que encontrava no terreno, esteve Manuel da Silva alguns dias, até que, obrigado pela fome, se disfarçou em castelhano, caminhando entre a soldadesca que o procurava no interior da ilha. Ao passar por uma escolta, levando presa uma mulata, teve a veleidade de perguntar pelo Conde, sendo logo reconhecido pela escrava. Temendo que outra pessoa o fizesse, e ela continuasse na escravidão, não teve pejo de dizer ao capitão: «V. mercê me fará se eu hoje lhe der o Conde Manuel da Silva preso, porque bem sabe que o Marquês o que tem prometido a quem o der?» –----------------------0492 — «Se tu isso fizeres, eu te prometo a liberdade, e te dou minha, e além disso te darei dinheiro para remediares tua vida». Sem dar tempo a reconsiderações, a mulata conduziu o capitão junto de Manuel da Silva, dizendo-lhe: «Capitão, vedes aqui o Conde Manuel da Silva!» A esta declaração inesperada, apeou-se o oficial e descobrindo-se, dirigiu-se ao Conde: «Vossa senhoria esteja preso». Tudo se passou tão rápido que Manuel da Silva não pôde balbuciar uma só palavra, nem executar um movimento qualquer, tão aterrado ficou com a denúncia da mulata. Pouco depois recuperando o sangue frio que lhe era peculiar, voltou-se para a mulata, dizendo-lhe: «Se tu me tiveras segredo, o que se te oferece dobrado te houvera de dar!» — «Senhor Conde, bem lancei eu em mim toda essa conta, mas vossa excelência houvera de ser descoberto por outros, e não houvera de escapar, porque a gente da terra está mais inimiga dele que os soldados castelhanos, e eu perdia a ocasião da minha liberdade, e vossa excelência me perdoe». Não querendo prolongar por mais tempo a conversa, para evitar a fuga do Conde, ordenou-lhe o capitão que subisse para o seu cavalo que ele iria ao estribo. Não quis Manuel da Silva tais honras; e só próximo da cidade, onde as estradas eram intransitáveis, montou a cavalo, colocando-se o oficial na garupa. Percebendo o Conde a intenção do seu aprisionados, entabulou com ele a seguinte conversação: — Senhor capitão, bem entendo a V. m. Faz muito bem de não pôr em risco de lhe fugir a empresa. Nenhum agravo V. m. faz em segurar o preso, mas só de uma coisa me espanto. O Marquês tanto desejou de me prender, eu o mereço, porque ele não ganhou a Terceira, eu lh'a dei. — Pois vossa senhoria, — disse-lhe o capitão, — porque a não dava sem guerra e pacificamente e não por outra ordem? — Porque não me atrevi com o povo que receei de se alvoroçarem contra mim, como fizeram com um fidalgo João de Bettencourt; e notório é eu entregá-la agora, de que estão os moradores da ilha contra mim, que todos tenho por inimigos, e não achei quem me tivesse segredo para estar escondido antes de me buscarem». Assim caminharam até à cidade, sendo recebidos pelo povo, que, sabedor desta prisão, correra a ver o traidor e o tirano, que durante algum tempo encheu de terror toda a ilha Terceira, com o seu governo despótico, lançando na viuvez um grande número de esposas, e na orfandade milhares de crianças. Por isso o contentamento foi geral; e mais pelo lado dos terceirenses, que viam assim castigado o cruel Conde Manuel da Silva. Foi encerrado numa galeota, onde sofreu várias torturas durante dois dias, findos os quais voltou para terra, sendo conduzido em um cavalo para a praça da Câmara, onde o Marquês mandara levantar um cadafalso. –----------------------0493 Ao ver o género de morte que lhe estava destinado, pediu perdão ao povo, confessando que bem merecia aquela morte. E de um só golpe lhe foi decepada a cabeça, com a sua própria espada, indo substituir a de Melchior Afonso, que ainda estava no alto da Câmara. Seguiu-se-lhe Amador Vieira, cúmplice do Conde, e Manuel Serradas, capitão da armada que saqueou o castelo de Arguim e as ilhas de Cabo Verde. Ambos tiveram igual morte, perante um grande concurso de povo, onde se notava uma certa comiseração pelos padecentes que, convictos dos seus crimes, pediam perdão. Não satisfeito com estas execuções dos principais personagens, mandou o Marquês de Santa Cruz que fossem também decapitados o capitão Fernão de Távora, um dos fidalgos mais distintos da cidade; Domingos Onsel, desembargador da Relação; Domingos Toledo, capitão da fortaleza de São Sebastião da Vila; Gonçalo Pita, governador do Castelo de São Sebastião de Angra; António Matela de Azevedo, alferes-mor da cidade; e muitos outros que não sendo verdadeiros réus, pagaram com a vida a sua adesão à causa de D. António. Escaparam a esta carnificina humana os capitães do distrito militar da Praia e forças do seu comando, por terem sido compreendidos na capitulação de Du Chaste. Satisfeito este primeiro ímpeto de vingança do Marquês, e pacificada a ilha Terceira à custa de muito sangue, revelou também aquele tirano o seu carácter ambicioso, chamando a si vários espólios, entre eles o do Conde Manuel da Silva, para o que foi necessário submeter a torturas o seu secretário particular, Marco António, que tinha escondido o tesouro, e o do negociante Melchior Gonçalves, que o entregou de boa vontade para escapar à morte. No dia 11 de agosto do mesmo ano, chegava ao porto de Angra o Duque D. Pedro de Toledo, com a armada que fora, por ordem do Marquês, conquistar a ilha do Faial, e naqueles mesmos navios mandou, alguns dias depois, para Lisboa, vários clérigos e frades e outros prisioneiros civis, bem como os despojos mais importantes das duas ilhas Terceira e Faial. Passados os três dias marcados pelo indulto acima transcrito, mandou o Marquês de Santa Cruz proceder contra os que não apareciam, confiscando-lhes os bens e processando os que por acaso eram descobertos. Entre estes últimos conta-se Gaspar de Gamboa, corregedor, mandado executar na forca que estava por detrás da cadeia, do mesmo modo que o licenciado Domingos Pinheiro, juiz ordinário de Angra, enquanto que outros foram açoitados com baraço e pregão pelas ruas da cidade. Com esta forma de governo não foi difícil a D. Álvaro de Bazán destruir os chefes do partido de D. António; e quando viu que nada tinha a temer dos terceirenses, fez aclamar D. Filipe II de Castela nas três Câmaras da ilha. –-----------------0494 Destes autos, que deviam ser iguais nos termos, apenas se conhece o seguinte, relativo à Câmara da Vila da Praia: «No ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e oitenta e três, aos onze do mês de Agosto do dito ano, nesta Vila da Praia da ilha Terceira de Jesus Cristo, por estar assentado em câmara da dita Vila, neste domingo e dia se levantasse por nosso Rei, e senhor ao Sereníssimo Senhor Rei D. Filipe, e assim de jurar ao Príncipe e senhor dos ditos reinos, e para isso serem advertidas, e notificadas as pessoas nobres e povo da Vila, e sua capitania, antes da entrada da Missa do dia, do dito domingo, e da pregação, os vereadores da dita Vila, a saber Manuel de Ornelas, e Gaspar Cardoso Machado, juízes; Francisco de Vila Lobos, e Manuel Teixeira de Melo, e Baltazar Mesquita, vereadores, com Simão Fernandes, procurador do concelho, e comigo escrivão, e muita gente, que os acompanhou, foram à câmara da dita Vila, onde já à janela dela estava arvorada a bandeira de El-Rei, e a casa armada, e da dita câmara saíram todos com as varas nas mãos, estando a praça e ruas cheias de muita gente nobre, fidalgos, cavaleiros, escudeiros, e pessoas do povo, e assim o reverendo padre licenciado João Luís Homem, vigário da igreja principal da dita Vila, e com ele os beneficiados, vigários das igrejas de fora, e cleresia da dita Vila, e sua jurisdição, os mais deles. E logo em presença de todos foi dado pelo vereador mais velho a Heitor Homem da Costa, fidalgo da casa do dito Senhor, a dita bandeira, e tomada pela câmara foram postas por assistentes quatro pessoas nobres, fidalgos, a saber: Hieronymo Paim da Câmara, Afonso Homem da Costa, e Gaspar Homem da Costa, dois de cada banda da bandeira; e em querendo andar, por Diogo Paim da Câmara, um dos assistentes, em inteligível e alta voz foi dito: Real — Real — por o muito cristianíssimo, alto e poderoso senhor D. Filipe nosso senhor Rei de Portugal.— E logo começando a andar, responderam todos os circunstantes em alta voz: Real — Real — E assim foram como em procissão pelas ruas, desde a da Câmara pela da Misericórdia, e de Sebastião Vieira, e do mosteiro da Luz à praça, e daí ao chafariz principal, e rua do mosteiro de Jesus à igreja principal, e até chegar à dita igreja se deram nove pregões pelo dito Diogo Paim, e lhe foi respondido assim pela maneira do primeiro; e se começou a missa solene, e pregação do próprio vigário, em que exortou com muita instância o juramento, que se havia de prestar do Rei, e príncipe; e acabada a missa, com a igreja cheia de gente, no íntimo dela estava uma mesa ornada com um frontal de seda, e em ela um livro de missas, onde primeiramente o dito vigário de joelhos, em seu nome, e dos beneficiados, vigários e cleresia da Vila e capitania com muitas palavras, e solenemente jurou por Rei e senhor, e defensor dos reinos, e senhorios de Portugal a El-Rei nosso senhor D. Filipe, e sucessor dos ditos reinos, e senhorios. E assim deram juramento –--------------------0495 nas suas mãos e livro, a saber: primeiro o juiz Manuel de Sousa de Ornelas o primeiro juramento, e da mesma maneira em seu nome, e da Câmara atrás; e acabado ali nas mãos do dito juiz o livro, e com os joelhos prestaram dito juramento o outro juiz, e vereadores cada um per si, e em nome de todo o povo miúdo todos juraram da própria maneira ao dito senhor Rei, e príncipe: e uns e outros protestaram suas lealdades, e conservariam como a seu único e verdadeiro, e aprovado Rei e senhor. E acabado o dito juramento, todos foi dado: Que vivesse como senhor. E em alta voz disseram todos: Viva, viva El-Rei D. Filipe, e o príncipe seu filho, e sucessor. E porque no auto sobredito se gastou muito tempo, se não fez a procissão solene, que estava ordenada, e se delatou para quinta-feira seguinte por ser dia da Santa Cruz de nosso Senhor, por se dignar ser protetor em terra, e reino, e nos dar tal Rei; e que seja todo para glória do mesmo senhor, e aumento da sua santa Religião, e utilidade destes reinos, e senhorios. E de tudo se mandou fazer este auto, que eu Francisco Ferreira Teixeira escrivão desta Câmara, todos presentes, escrevi. — Gaspar Cardoso Machado — Manuel de Sousa de Ornelas — Manel Teixeira de Melo — Baltazar de Mesquita Teixeira — Francisco de Vila Lobos — Simão Fernandes — João Luís Homem.» Depois de aclamado o novo Rei em todas as ilhas dos Açores, tratou o Marquês de Santa Cruz da nova organização administrativa, judiciária e militar. Para a correição dos Açores foi nomeado o desembargador Cristóvão Soares de Albergaria, que acompanhara D. Álvaro de Bazán na sua expedição; e para as Câmaras fez a nomeação dos oficiais segundo as ordenações em vigor. Finalmente, para governador militar, escolheu Juan de Urbina, que ficou sendo a primeira autoridade da ilha, a quem todos obedeciam. Tendo sido recomendada ao Marquês de Santa Cruz, por El-Rei D. Filipe, a ilustre dama terceirense D. Violante do Canto, acérrima partidária de D. António, para que dela se precavesse contra qualquer tentativa de rebelião do povo da ilha Terceira, não quis D. Álvaro de Bazán retirar-se para Espanha sem levar consigo tão ilustre personagem. Acompanhado do seu estado maior, dirigiu,-se o Marquês ao convento de São Gonçalo onde estava D. Violante guardada por sentinelas, e depois de lhe expor as ordens que trazia a seu respeito, pediu-lhe que o acompanhasse até Madrid, para onde partiria no dia 17 de agosto. À hora do embarque, dirigiu-se a ilustre dama para o lugar da Prainha, acompanhada por duas damas, cinco aias e vinte e um criados, entre outros escudeiros, sendo ali esperada pelas principais autoridades de Angra, num estrado alcatifado e construído de propósito para o embarque. Esperava a ilustre dama terceirense uma falua ricamente adornada, que a conduziu a bordo da nau, onde o Marquês de Santa Cruz mandou construir com o máximo luxo os aposentos para D. Violante do Canto. Durante –-------------------0496 trajeto para bordo, foi a falua acompanhada por muitos barcos com as pessoas mais distintas da cidade, e ao pôr D. Violante o pé na escada do navio, ouviu-se urna salva dada pela nau, que foi acompanhada por todos os navios da armada. Na sua passagem pela ilha de Santa Maria, foi D. Violante conduzida por D. Pedro de Villavincenio, general da armada, e grande cortejo de damas, a um convento de religiosas, onde foi cantado um Te Deum. Voltando para bordo com o mesmo aparato, seguiu a armada para Cadiz, onde chegou no fim de trinta dias, permanecendo a ilustre dama a bordo do seu navio por mais três dias, à espera que se preparasse uma escada especial para descer, tal era a consideração que lhe tributava a corte de Espanha. Poucos dias depois do desembarque, foi, por ordem de El-Rei, mandada ir a Jaen, sendo recebida pelas autoridades principais e conduzida ao mosteiro de Santa Clara, onde permaneceu algum tempo. No fim de dois meses, propôs-lhe El-Rei o casamento com Simão de Sousa e Távora, filho de Álvaro de Sousa e Távora e de D. Francisca de Moura, irmã de D. Cristóvão Moura, depois Marquês de Castelo Rodrigo e capitão do donatário da ilha Terceira. O casamento efetuou-se por procuração em Lisboa, para onde foram residir pouco depois. Como a sede da administração dos Açores era na ilha Terceira, deixou o Marquês de Santa Cruz dois mil homens no presídio, tendo por capitães D. Pedro de Bazán, seu sobrinho, D. Pedro Ximenes de Heredia, D. Martin d'Aveiro, D. Arosco, D. Guedaco de Laveiga, D. António Rosa e D. Joaquim Pacheco. Tendo vagado a capitania da Praia em 1577, com a morte de Antão Martins Homem, e a de Angra pertencer a D. Margarida Corte-Real, filha de Vasco Anes Corte-Real, e casada com D. Cristóvão de Moura, particular amigo de Filipe II e o principal instrumento das suas intrigas em Portugal, foi nomeado este personagem capitão do donatário das duas capitanias, sendo, em 10 de julho de 1577 para a da Praia, e em 27 de junho de 1582 para a de Angra, tomando posse de ambas no dia 16 de agosto de 1583, pelo seu procurador Fernão Faleiro. Nunca veio à ilha Terceira, exercendo o seu governo por intermédio dos seus procuradores. –-------------------------0497 –-------------------------0498