Memória sobre a ilha Terceira/V/II/IV

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CAPÍTULO IV A ilha Terceira durante o reinado de Filipe II de Portugal Foi assinalado tristemente na ilha Terceira o começo do reinado do novo Rei. Depois de dois flagelos importantes, a guerra e a fome, sobreveio para esta ilha um outro, não menos funesto, a peste, manifestando-se a 15 de abril de 1599 e vitimando mais de sete mil pessoas. Foi importada da Índia esta doença, de onde é oriunda, numa caixa de fazendas que se abriu em uma casa da Rua da Esperança, onde hoje funciona o Teatro Angrense. Espalhou-se com extraordinária rapidez o terrível flagelo por toda a ilha, excetuando o lugar do Posto Santo, na capitania de Angra, e a freguesia de Agualva, na da Praia. Conhecida a qualidade da doença, reuniu-se a Câmara de Angra, por ordem do corregedor Leonardo da Cunha, e foi deliberado que se lançasse fogo à casa de onde partia o mal. Durante três dias consecutivos foi conservado o fogo ateado, com grandes molhos de lenha, não se conseguindo extinguir a epidemia, que adquiriu o seu máximo de intensidade nos meses de julho e agosto. Encheram-se os hospitais de doentes pobres, sendo necessário estabelecer a primeira casa de saúde no local onde hoje está a igreja do Livramento e que, naquela época, pertencia ao sargento-mor Gaspar de Freitas da Costa, lugar-tenente do Marquês de Castelo Rodrigo.1 No centro da cidade estabeleceu-se também uma outra casa de saúde, por detrás da atual ermida de Nossa Senhora da Saúde, na Praça da Restauração. Na Vila da Praia, onde o número de vítimas foi grande, construiu-se


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uma enfermaria volante; e na Vila de São Sebastião estabeleceu-se um cordão sanitário para evitar a entrada de pessoas da cidade. No mês de novembro do mesmo ano, declinava sensivelmente a epidemia, com o abaixamento da temperatura, até que a 20 de Janeiro de 1600 se levantava a bandeira de saúde em toda a ilha Terceira e eram abertos os seus portos marítimos. Para comemorar a extinção deste flagelo, resolveu a Câmara de Angra tomar como Padroeiro o mártir São Sebastião, e com a promessa de se fazer todos os anos a sua festa e assistir a ela na ermida a que se mandou construir no extremo ocidental da Rua da Guarita. A ermida foi substituído polo convento de religiosas capuchas, sendo mais tarde, em 1847, destinado a cadeia civil. Tendo sido transferida a imagem para a igreja da Conceição, quando se começou a construção do convento no local da ermida, continuou o senado angrense no cumprimento do seu voto, que ainda hoje tem lugar no dia próprio. Continuava o governador D. António Sentono com o seu procedimento altivo e de insolência para com os terceirenses, desprestigiando as autoridades a ponto tal que se tornou unânime a reclamação a El-Rei, pedindo a retirada do governador com dois mil soldados, que exigiam um alojamento especial e soldo, com o que não podiam os habitantes de Angra, já sobrecarregados com impostos de diversas naturezas. Igualmente se dirigiram ao capitão do donatário, o Marquês de Castelo Rodrigo, que então era vice-rei de Portugal, conseguindo imediatamente a substituição do governador D. António Sentono por D. Diego de Miranda Quirós,2 que veio a ser o primeiro governador do Castelo de São Filipe, que acabara de ser construído, na sua parte principal, cessando também a sua ingerência nos negócios civis da administração pública dos Açores. Dois meses depois, retirava-se para Espanha a major parte da tropa castelhana, ficando apenas quinhentos homens, como guarnição do castelo, e acabando os destacamentos para fora da cidade. Ficou somente na cidade, como destacamento, a guarda da porta do cais de Angra, que, segundo a carta régia de 31 de agosto de 1604, escrita por El-Rei à Câmara de Angra, ficou a cargo do castelão Diego de Miranda Quirós, para o que mandou fazer uma casa especial para o corpo da guarda. É a casa denominada da «Verónica», ao canto da Rua da Alfândega. Em 1615, a guarda do cais ficou a cargo dos capitães-mores e da Câmara. A 5 de maio de 1652, passou novamente a cargo da guarnição da cidade, que ficou residindo no Castelo. Finalmente, em 1713 ficou determinado que a porta do cais ficasse a cargo do capitão-mor e da Câmara, como já tinha sido. Ainda não há muitos anos, fornecia o Castelo uma guarda para o cais, que estacionava nos baixos do edifício da Associação Comercial.


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Nesta época governava o bispado de Angra, D. Jerónimo Teixeira Cabral, cujos atos despóticos o tornaram mal visto para com os terceirenses, chegando a ser comparado a um dos antecessores D. Pedro de Castilho. Pouco depois de tomar posse, dirigiu-se à Vila da Praia, e, na presença de todas as autoridades, mandou demolir o altar-mor da igreja matriz, para verificar a existência das relíquias depositadas por um dos seus antecessores. Este seu primeiro ato governativo mostrou ao público terceirense qual a índole do seu pastor, que quis remodelar e destruir alguns abusos introduzidos na disciplina eclesiástica. Esquecendo-se da brandura com que devia proceder, em pouco tempo ganhou várias inimizades e malquerenças entre todos os açorianos, que se viram obrigados a interporem agravo a alguns dos seus atos, como sucedeu à Câmara da Vila da Praia. Foi durante o governo deste Bispo que Pedro Cardoso Machado fundou o mosteiro de Nossa Senhora da Conceição (1606), onde está hoje o hospital de Santo Espírito, autorizado por Bula de Paulo V. Entraram logo no princípio vinte e cinco religiosas, sendo nomeada fundadora Simôa da Anunciada, irmã do padroeiro. Na parte civil, não foram também muito felizes os terceirenses com as suas autoridades, salientando-se o corregedor Leonardo da Cunha, cujo zelo farisaico prejudicou consideravelmente os proprietários e o comércio terceirenses. Tendo sido resolvido pelas Câmaras, alguns anos antes, que se guardasse a quarta parte do trigo produzido, para provimento dos povos, queixaram-se alguns proprietários do atraso que havia no pagamento, e de que muitas vezes faltava o cereal pare consumo da ilha. As reclamações sucederam-se, umas após outras, sem que da parte do corregedor fossem dadas as providências necessárias para o bem-estar do povo. Vendo os terceirenses a pertinácia daquela autoridade, dirigiram-se diretamente a D. Filipe, que logo mandou a seguinte provisão ao corregedor: «Leonardo da Cunha, corregedor das ilhas dos Açores, eu El-Rei vos envio muito saudar. — Por assim convir ao meu serviço e aos moradores das ditas ilhas, Hei por bem e mando que delas, se não possa tirar trigo algum para fora delas, nem de umas para as outras, sem primeiro ficar cada uma provida de todo o trigo que for necessário para os vizinhos dela se sustentarem, e para suas sementeiras, e para sustentação da gente da guerra que nos presídios delas houver, e em particular se terá com isto muita conta na ilha Terceira, e assim vos encomendo que o façais cumprir, tendo disso muito cuidado, e o mesmo terão os corregedores que vos sucederem, e os oficiais das Câmaras das ditas ilhas, e para esse efeito se registará esta minha carta nos livros das Câmaras, e de como assim estiver feito me enviareis. — Escrita em Buitrago, a 22 de Maio de 1603. — Rei. — Pedro Álvares Pereira.»


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Não ficando satisfeitas as Câmaras coma forma ambígua da provisão de El-Rei, requereram ao corregedor que, para evitar novos inconvenientes, lhes fosse indicado o tempo para os depositar e a época do seu pagamento. A este pedido tão justo, respondeu aquele magistrado, que só a El-Rei competia tal deliberação; mas, sendo ouvido o mestre de campo D. Diego de Miranda Quirós e procurador geral dos Armazéns Reais Gonçalo Vaz Coutinho, a quem se haviam dirigido as Câmaras, obtiveram a seguinte resolução favorável: «[…] — Acordei, os agravantes são agravados por vós corregedor em mandardes ordem que fique na terra todo o trigo que for necessário para sustentação da gente da guerra, como para os moradores dela e suas sementeiras, para que dos sobejos possam os senhorios aproveitar-se em tempo acomodado; provendo seu agravo, vistos os autos; e como ficando na terra o trigo necessário que baste para o sobre-dito, não se proíbe o tirar-se dela o que sobejar, e usarem dele os senhorios particulares como lhe for melhor, mando que de 15 dias de Julho até 20 de Agosto de cada um ano se face orçamento e exame do trigo que for necessário para sustentação da gente da guerra, como para os moradores da terra e suas sementeiras, ouvindo nisto o provedor do presídio, ou seu procurador, para que, ficando na terra todo o trigo necessário para provimento das ditas necessidades, dos sobejos possam os senhorios aproveitar-se no tempo e modo que lhes aprouver. — A 20 de Maio de 1604.» Com esta declaração cessaram os atos despóticos do corregedor Leonardo da Cunha, cujo procedimento, nas outras ilhas, deu lugar as novas reclamações, até que El-Rei se viu obrigado a nomear Francisco Botelho como substituto, a 7 de setembro de 1606, e em 1607 nomeou corregedor dos Açores o desembargador Roque da Silveira. A este ilustre magistrado deveu a cidade de Angra grandes melhoramentos e os terceirenses uma boa administração. Foi sob as suas ordens que se ampliou o edifício da Câmara Municipal, alargando-se ao mesmo tempo o largo que lhe ficava fronteiro, e se calçaram muitas ruas, concorrendo para estas obras os fidalgos e cidadãos de Angra e mil cruzados que enviou D. Filipe. Na parte administrava, procedeu sempre aquele magistrado com a máxima prudência, segundo as leis do país, não promovendo atritos com as outras autoridades nem perseguindo os terceirenses; e desta forma conseguiu dissipar no ânimo de todos os atos vexatórios dos seus antecessores. Em 1607 falecia o castelão D. Diego de Miranda Quirós, sendo geral o sentimento pela sua morte, pela prudência e sagacidade com que desempenhou o seu cargo. Sucedeu-lhe interinamente o capitão Francisco de la Rua,


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até que em 1609 veio como governador do Castelo de São Filipe D. Pedro Sarmiento, um dos afamados cabos de guerra que teve a Espanha, e muito estimado pelo seu exército. Foi sob a sua direção que as obras do Castelo receberam novo impulso, mandando El-Rei entregar ao castelão quatro mil cruzados, que estavam em depósito na ilha de São Miguel, além de dezasseis contos de réis, que já estavam destinados para tal fim, e quatrocentos mil réis nas rendas dos 2% daquela ilha. Em todas as outras ilhas se levantou dinheiro para as obras do castelo, o que constituiu um grande sorvedoiro para os povos açorianos. Em 1612, contava já o Castelo de São Filipe cento e tantas peças, entre as quais estavam cinquenta e duas de bronze, um grande número de canhões, colubrinas de 18, 20 e 24 libras de calibre, já montadas nas plataformas e baluartes, faltando apenas o interior da fortaleza, onde se deviam construir os quartéis. Decorriam os primeiros meses do ano de 1614, sem incidente algum notável, quando nos meses de abril e maio sofreu a ilha Terceira um grande terremoto, após um ano de esterilidade dos campos, morrendo muito gado à fome e elevando-se consideravelmente o preço dos géneros alimentícios. Dessa catástrofe medonha, que arrasou uma parte da ilha, existe a a seguinte descrição extraída de um manuscrito antigo por A. Silveira, e transcrito no Archivo dos Açores:. «Em o ano de 1614 em 9 de abril, quarta feira, entre as nove, e dez da noite, deu esta ilha tão grande abalo de tremor de terra, que na mesma hora caíram quantas casas havia no Lugar das Fontinhas, freguesia de Nossa Senhora da Pena, sem ficarem mais que duas em pé; e estas tão arruinadas que não habitava ninguém nelas, e tal foi este estrago, que nem a Igreja da Senhora, e a de Santo António ficaram reservadas deste horrendo caso, ficou a gente desta ilha muito atemorizada; mas pouco emendada. Começaram logo os Frades Franciscanos nesta Cidade a fazerem grandes procissões, e abstinências e disciplinas; mas não vi nenhuma restituição de honras, nem aleivos, nem perdão de ódio que se tivesse do próximo um ao outro. Continuaram os tremores com menos furor até aquele infausto dia 24 de maio.


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Ameaçou Deus o castigo em 9 de Abril, e descarregou o golpe de espada da divina justiça sábado véspera da Trindade, pelas 3 horas do meio dia, em 24 de Maio, e foi Deus servido que padecesse esta Ilha toda tão grande abalo, que totalmente cuidaram todos os moradores dela em geral, e muitos que não eram seus vizinhos, que era chegado o dia do Juízo. Vendo-se assim toda a gente desta Cidade, ficou como cousa suspensa, e pasmada; logo em continente saíram os Capitulares da Sé com muita gente em procissão e foram Virgem dos Remédios; e da Conceição vieram por São Francisco e Colégio, recolheram-se pelas sete da tarde; começaram a correr homens de cavalo da outra banda, a dar notícias a esta cidade, dizendo de como estavam postos por terra quatro povos, que todos os quatro caíram a um tempo naquela hora, a saber, a mais famosa Vila da Praia, que lhe não ficou templo que não caísse por terra, tanto monta igreja como mosteiros e conventos, os quais eram um de frades e dois de freiras. Caiu também a freguesia das Lajes, orago de São Miguel Arcanjo. No mesmo estado mais avante a Vila Nova, e toda a sua comarca, onde não ficou pedra sobre pedra, e assim a freguesia de Nossa Senhora de Guadalupe da Agualva que padeceu o mesmo; isto é o que diziam os que vinham dar a triste nova, e vinham sacerdotes pedir remédio sobre o que fariam ao Santíssimo; tanto que isto se soube, nesta cidade, foi tal o alvoroço, que não havia nenhuma pessoa que se não pusesse em grandes lamentações, lembrando-se daquele dito que se dizia: «Quando vires arder as barbas do teu vizinho, bota as tuas de molho», isto se passou no sábado; quando foi domingo, 25 do mês, começarão logo a fazer muitas procissões com muitas disciplinas, e abstinências como tal caso pedia. Parti de minha casa em 26 de Maio para ver o acontecido da outra banda, cheguei à cafua que se diz do Ajuntamento, posta em campo deserto; e foi a primeira que vi posta por terra, caminhei à Agualva, vi a Ermida de Madalena, que mandou obrar o Bispo D. Hieronimo Teixeira, posta por terra, e quantas casas estavam ao redor, estavam assoladas, as paredes pareciam que com alviões andaram arrancando algumas pedras para que não ficassem umas sobre outras. Procedendo, mal podia passar as canadas por estarem as paredes caídas de uma a outra parte que que impediam a passagem, chegando à entrada do lugar, olhando para uma e outra parte não vi parede nem casa em pé assim de telha como de palhoça ficando-lhe as armações das de palha sobre esteios, caindo-lhe as paredes para o chão. Chegando à Igreja me encontrei com o vigário Manuel Cabral, mostrou-me a Imagem da Senhor posta em um palheirinho. Despedido comecei a caminhar contra o mar, vindo ao longo da Ribeira, medo tinha de passar pelo caminho pelas grandes aberturas que tinham a terras, não há que falar de paredes por que nenhuma estava em pé, chegando-me arrabalde aonde se chamam as Dadas de São Pedro, não vi casa que não fosse posta por terra, nem a casa do mesmo Apóstolo ficou reservada do castigo porque toda foi ao chão. Aqui no direito deste arrabalde está uma parte que lhe chamam Abussa, que é uma rocha muito alta, e foi tanta quantidade de terra ao mar que o fez recuar, e fazer grande muralha e ficou esta parte donde caiu este lanço de terra, ao modo de uma baía ensacada na terra. Eu vi na freguesia do Espírito Santo de Vila Nova, chegando ao adro da igreja, antes que nela entrasse, vi no caminho tal rotura na terra, que era cousa muito de admiração, achei ali o Vigário Pedro Vanhegas, levou-me a um canto do adro, aonde estava um alpendre de palha sobre quatro esteios, que não servia mais do que acolhimento de uns bois e um carro, debaixo


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do qual estava o Sacrário sem ter o Santíssimo, os dois Crucifixos que ali se guardavam com toda a veneração, com boa fé e zelo, e a imagem da Senhora e do Mártir São Sebastião; estava a igreja toda desolada e descomposta por causa das ruínas que não acertei com as covas de meus Pais para lhe encomendar as almas a Deus. A ermida da Madre de Deus estava em tal estado que lhe não ficou pedra sobre pedra, até o ladrilho se virou debaixo para cima. Passei às Lajes, por todo o caminho estavam as paredes caídas e as roturas na terra mais profundas e maiores do que as dos lugares atrás, em toda esta freguesia lhe não ficou uma casa em pé, os alicerces das paredes da igreja ficaram por cima das outras pedras da parede, como quem põe a de cima por baixo, e a de baixo por cima; a ermida de São Brás estava posta por terra. Cheguei à Vila da Praia, representou-se-me a destruição de Jerusalém por que não ficou nesta Vila templo de Deus nenhum que não caísse de modo que em toda ela não havia casa ou igreja onde se pudesse dizer Missa salvo na Ermida de São Lázaro que está fora da Vila; na caída da Matriz morreram quatro pessoas debaixo das paredes; na Vila e fora dela caíram 24 igrejas; morreram 3 freiras e uma criada; e das mais gentes que se acharam por conta morreram para cima de duzentas pessoas; os fogos que caíram, e eram abatidos, e tirados os que tinham moradores, dizem ser mil seiscentos e onze, isto tudo na jurisdição da Vila da Praia, que é quatro léguas de comprido, e uma de largo. Em a Vila de São Sebastião também caíram muitas casas; foi tão horrendo o terremoto de 24 de Maio que os animais dos campos o sentiram, e se atemorizaram correndo uns para os outros, fazendo ajuntamentos, berrando com as cabeças no ar, cousa que mete mais espanto.» Aterrados os moradores da Praia com este cataclismo, vendo destruídas as suas propriedades e ameaçados de ficarem sob as ruínas das suas caias, abandonaram a Vila, refugiando-se noutras freguesias e alguns na cidade. Os franciscanos recolheram-se no convento de São Francisco de Angra, as freiras de Jesus no palácio do Bispo, as da Luz no convento da Esperança e as do recolhimento das Chagas na freguesia da Agualva. Ficara deserta a nobre Vila da Praia; urgia levantá-la, de pronto; e sob o impulso dado pelas Câmaras, secundado pelas autoridades civis e eclesiásticas, resolveram mandar a Lisboa João Vaz de Vasconcelos, cidadão benquisto em toda a ilha, com as representações camarárias e de outras corporações, implorando o valioso auxílio de D. Filipe para a reedificação da parte da ilha que acabara de ser destruída. Sobrecarregados com impostos e cansados de lutar contra a esterilidade das terras, onde as tempestades repetidas tinham destruído as sementeiras, tão cuidadosamente feitas, não esperavam os terceirenses, e muito menos os municípios, que as sábias providências de um Rei se limitassem a uma


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simples Provisão, passada a 18 de maio de 1615, ordenando a reedificação da Vila da Praia à custa das Câmaras e que os templos e edifícios monásticos se reconstruissem à custa dos seus rendimentos. Para os edifícios particulares, pagariam os seus proprietários que fossem reconhecidos por abastados; e por muito favor concedeu que a Câmara, muros da Vila e alguns mosteiros mais pobres fossem reedificados à custa dos 2% de todas as ilhas, que estavam destinados para a fortificação, e que, para as capelas-mores, retábulos e sacristias das igrejas paroquiais, concedia dois mil cruzados anuais, por espaço de quatro anos. Reunidas as três Câmaras para tomarem conhecimento das ordens régias, opôs-se a de Angra a cooperar na reedificação da Praia, alegando os muitos impostos com que estava sobrecarregada e os serviços que já prestara em ocasiões análogas durante muitos anos. Deste embate de opiniões resultou um agravo interposto pela Câmara de Angra, que só a 11 de maio de 1616, foi resolvido na Relação, mandando executar a Provisão de El-Rei e anulando as razões expostas pelo senado angrense. Devido à solicitude do corregedor João Correia de Mesquita, encarregado de percorrer todas as ilhas dos Açores para a arrecadação dos impostos destinados à reedificação da Vila da Praia, no fim de dois anos, pouco mais ou menos, estavam adiantados os trabalhos em toda a capitania, concorrendo para a construção dos templos um novo imposto lançado sobre a propriedade dos presentes e ausentes, ordenado em Provisão régia de 17 de setembro de 1617. Em 1614, falecia em Lisboa, o capitão do donatário das duas capitanias da ilha Terceiar, o Marquês de Castelo Rodrigo, vice-rei de Portugal, sem que do seu governo resultasse benefício algum para os terceirenses. Sucedeu-lhe na donataria seu filho, D. Manuel de Moura Corte-Real, 1.° conde de Lumiares, 2.° marquês de Castelo Rodrigo, por carta de 16 de dezembro daquele ano. Prosseguiram os trabalhos de fortificação da ilha, à custa de muitos impostos com que as autoridades superiores sobrecarregavam o povo, sempre submisso e escravo dos seus senhores. A D. Pedro Sarmiento sucedera no governo do Castelo, cujas obras não estavam completas, o fidalgo D. Gonzalo Mejía,3 militar distinto pelas suas excelentes qualidades, conseguindo conquistar facilmente as simpatias de todos os terceirenses. Deu grande impulso à fortificação da ilha Terceira, auxiliado pelo corregedor João Correia de Mesquita e pelo capitão-mor de Angra, Manuel do Canto e Castro. Foi aquele governador que mandou plantar extensas matas no Monte Brasil e edificar a ermida de Santo António da Grota. A 23 de outubro de 1618 falecia o governador D. Gonzalo Mejía, muito amigo dos portugueses, sucedendo-lhe Juan Ponce de León, não menos digno e honrado que o seu antecessor. Tendo recebido aviso de que os corsários pretendiam atacar os Açores,


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tratou o governador da boa defesa da ilha, modificando também a ordenança. Aumentou o número de companhias e sujeitou à capitania de Angra a ordenança da Vila de São Sebastião e Porto Judeu, acabando ali a permanência de um capitão-mor. Na Vila da Praia reparou alguns fortes, guarnecendo-os com duas peças cada um, e fez construir em 1620 uma cortina de defesa, desde a Barroca até ao Forte de Santa Catarina, e outra contígua ao Poço da Areia. Em 1621 falecia o governador Juan Ponce de León, sucedendo-lhe D. Pedro Esteban Dávila;4 e, pouco depois, falecia também Filipe II de Portugal, sucedendo-lhe D. Filipe III e IV de Castela.


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