Memória sobre a ilha Terceira/V/IV/VII

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CAPÍTULO VII Chegada do Conde de Vila Flor para capitão-general das ilhas dos Açores e dissolução da Junta Provisória. Continuação dos preparativos para a defesa da ilha Terceira. Batalha da Vila da Praia em II de agosto de 1829, e suas consequências até à nomeação da Regência Foi no meio de um estado convulsivo e ameaçador de grandes desgraças que chegou à cidade de Angra o Conde de Vila Flor, tendo primeiro desembarcado na Vila da Praia a 22 de junho de 1829, depois de ter atravessado o bloqueio miguelista. Acompanhavam-o os seguintes oficiais e cidadãos distintos e ilustrados: Conde de Ficalho, alferes do Regimento de Cavalaria n.° 4; Domingos de Melo Breyner, coronel de milícias; D. António de Melo, tenente do Regimento de Cavalaria n.º 4 e adido à embaixada de Portugal em Londres; D. Carlos Mascarenhas, alferes do Estado-Maior; D. Manuel da Câmara, alferes de Infantaria n.° 4; João Baptista da Silva Lopes, tenente-coronel de artilharia; António da Costa e Silva, major de artilharia; António José da Silva Leão, capitão de artilharia; José Joaquim de Barros, capitão de artilharia; Manuel Tomás dos Santos, segundo-tenente de artilharia; Joaquim José de Groot da Silva Pombo, capitão engenheiro; Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque, tenente engenheiro e provedor da casa da moeda de Lisboa; Manuel José Mendes, major do Estado-Maior; João Ferreira Sarmento, capitão do Estado-Maior; Tomás de Magalhães Coutinho Mota, capitão de Infantaria n.º 4; Francisco de Sá Nogueira, alferes de Cavalaria n.º 4; Baltazar de Almeida Pimentel,


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capitão; Joaquim Maria da Rosa e Sousa, alferes de Caçadores n.º 7; Augusto Sutero Faria Pereira, alferes; José Alexandre da Silveira e Serpa, capitão de milícias; Francisco de Magalhães Coutinho, auditor. No próprio dia do desembarque foi presente à Junta Provisória a carta régia de 5 de abril de 1829, que nomeava o novo governador e capitão-general. A Rainha D. Maria II, aconselhada e dirigida em Inglaterra pelo Marquês de Palmela, querendo obstar ao progresso dos males existentes e nascidos das medidas despóticas da Junta, cujos membros até se achavam em grande desunião; e, desejando restabelecer a ordem pública e dar alento ao partido liberal, que sustentava os seus direitos, deu por extinta a mesma Junta, pela seguinte carta: «Presidente e mais membros da Junta Provisória do governo da ilha Terceira: — Eu a Rainha vos envio muito saudar como àqueles que prezo. — Sendo conveniente reunir em uma só pessoa o governo e administração dessa ilha e das mais dos Açores cujos habitantes forem reconhecendo a minha legítima autoridade, para assim dar todas as providências que as atuais extraordinárias circunstâncias exigirem para bem de meu real serviço, com aquela energia e rapidez sem a qual as mais acertadas se malogram: — Hei por bem dar por acabadas as funções dessa benemérita Junta, nomeando, como tenho nomeado, ao Conde de Vila Flor, par do reino, marechal de campo dos meus reais exércitos, para governador e capitão-general das mesmas ilhas. E por esta ocasião sou servida declarar-vos que terei sempre mui presentes em minha real consideração os relevantes serviços, acrisolada lealdade e constância admirável, com que os distintos membros dessa Junta se houveram em tão críticas e singulares circunstâncias, para os remunerar, distinguir e honrar, como merecem. — Aos públicos empregados que têm servido sob as vossas ordens contemplarei também segundo o seu zelo e merecimento; — e ao governador e capitão-general ordeno que faça subir à minha real presença a relação de seus nomes, empregos e serviços, para os remunerar. — O que me pareceu participar-vos para vossa inteligência e devida execução. — Escrita no Palácio de Laleham,1 aos cinco de abril de mil oitocentos e vinte nove. — Rainha, com guarda.» Foi dada a posse ao novo capitão-general no dia 23 de junho, e dois dia, depois fazia ele publicar a seguinte ordem do dia: «Palácio do governo em Angra, 25 de junho de 1829. — Sendo necessário substituir por uma maneira análoga ao governo em que fui provido as secretarias criadas pela extinta Junta Provisória, a fim de que os negócios tenham a devida expedição sem se acumularem nem confundirem,


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haverá de ora em diante três repartições, a saber: do ajudante-general, do quartel-mestre general, e secretaria militar, pelas quais todos os negócios me deverão ser presentes. — Chefe das duas repartições do ajudante e quartel-mestre general: o tenente-coronel de artilharia José Baptista da Silva Lopes; sub-chefe encarregado da repartição do ajudante-general, o major Manuel José Mendes; sub-chefe encarregado da repartição do quartel-mestre general, o capitão Baltazar de Almeida Pimentel. — Encarregado da secretaria militar, o tenente Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque. — Terão exercício: na repartição do ajudante-general, o major José Maria de Sá Camelo, e o capitão João Ferreira Sarmento; na repartição do quartel-mestre general, o tenente António César de Vasconcelos. — Às minhas ordens: o tenente D. António de Melo e os alferes D. Manuel da Câmara, D. Carlos Mascarenhas e Conde de Ficalho. — Conde de Vila Flor.» Passou o novo general a adotar medidas brandas e conciliadoras do público sossego e ordem. Foi pouco e pouco soltando as pessoas de diferentes classes que estavam na cadeia por simples medida preventiva e segurança; amnistiou desertores, proibiu as chibatadas e restringiu os amplos poderes que tinham os comandantes militares dos distritos, adoçando desta forma a sorte dos terceirenses. Não pôde conseguir totalmente a pacificação da ilha Terceira, porque alguns guerrilhas, ávidos de vingança, andavam dispersos pelos campos, praticando atos atrozes, que era forçoso reprimir e castigar severamente. Em maio de 1829 embarcava em Londres, a bordo da escuna inglesa Briton, o major Bernardo de Sá Nogueira, que fora nomeado chefe de estado-maior do Conde de Vila Flor, e conjuntamente seu irmão José de Sá Nogueira, com destino à ilha Terceira. À vista da ilha foi avistada por uma fragata do bloqueio que, depois de passar busca ao navio, a mandou seguir no rumo de sudoeste, visto os papeis destinarem ser este o seu destino. Poucas horas depois foi avistada pela nau D. João VI, vendo-se os viajantes obrigados a refugiarem-se novamente entre o carvão de pedra que vinha no porão. Para bordo da escuna saltou um oficial, oito marinheiros e seis soldados, obrigando o capitão a voltar para São Miguel. Permaneceram os dois viajantes entre o carvão durante oito a nove dias, sem luz nem espaço para se deitarem, pois que só podiam estar assentados durante algumas horas, até que chegaram a Ponta Delgada. Poucas vezes tiveram comunicação com o capitão, que, a muito custo, lhes levava mantimentos; e, depois de fundeado o navio, sentiram que uma verruma grossa


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atravessava o pavimento imediato ao porão, colocando um deles, por precaução, um dos seus chapéus cheio de carvão contra o orifício que acabava de ser feito. Valeu-lhes de muito este estratagema, pois que, tendo os marinheiros da nau reconhecido a existência do carvão, deixaram-se de novas pesquisas, facilitando desta forma a passagem dos fugitivos para a câmara de ré, de onde puderam sair, com grande dificuldade pelas vigias, para um barco que os esperava, alta noite, próximo do navio, conduzindo-os ao lugar denominado Rosto do Cão. Depois de saltarem em terra refugiaram-se em casa de William Harding Read, cônsul geral inglês, de onde partiram, pouco depois, para Inglaterra, voltando finalmente à ilha Terceira no mês de dezembro do mesmo ano, apesar do bloqueio que ainda continuava. Este bloqueio era comandado por Rosa Coelho, que recebera do Conde de Basto as seguintes instruções: «Se acontecer que venham à vista da ilha Terceira alguma ou algumas embarcações de guerra, ou mercantes, brasileiras, ou de outra qualquer nação, transportando reforços de gente aos rebeldes, que atualmente ocupam a ilha Terceira, ser-lhes-há estorvada a entrada à viva força. — Se porém em algum destes navios vier a Sereníssima Senhora Princesa D. Maria da Glória, deve haver o cuidado de esgotar toda a consideração e respeito, devido a tão alta jerarquia, intimando com toda a consideração e respeito que a ilha Terceira estando em rigoroso bloqueio por ordem de El-Rei nosso Senhor, o Senhor D. Miguel I, deve S. A. retirar-se dessas águas, e dirigir-se para onde quiser, contanto que não seja para algum dos domínios da Coroa de Portugal. — Sendo desatendida esta intimação, e sendo o navio em que ela vier acompanhado por outros, que tentem sustentar a ideia de forçar o bloqueio, serão estes logo metidos a pique; esperando que esta operação sirva de exemplo ao navio em que vier S. A. para ceder à intimação, que antes lhe deve ter sido feita. — Caso que isto mesmo não obste, e que este navio persista na determinação de tentar a entrada, procurará V. Ex.ª com a sua força fazer-lhe as hostilidades parciais até que se desengane que não cederá, e então nesse caso fazer-lhe-há sofrer a sorte dos outros, fazendo preservar, se possível for, a vida da Senhora Princesa do Grão Pará.» Logo que o Conde de Vila Flor tomou posse do seu cargo, dividiu a ilha Terceira em oito distritos militares, dispostos do seguinte modo: 1.° — Desde o Portão de São Pedro até à margem direita da Ribeira do Testo; comandante, o coronel Domingos de Melo Breyner. 2.° — Desde a margem esquerda daquela ribeira até à Ribeira Seca; comandante, o coronel de milícias de Tomar, Francisco Soares Caldeira.


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3.° — Desde aquele ponto até à Ponta de Santa Catarina do Cabo da Praia; comandante, o coronel de milícias de Braga, José Maria Barbosa de Albeem. 4.° — Desde esta última ponta até à da Má Merenda; comandante, o major de voluntários Manuel Joaquim de Menezes. 5.° — Desde aquele forte até à margem direita da Ribeira das Pedras, em Vila Nova; comandante, o tenente-coronel de infantaria Pedro José Frederico. 6.° — Desde esta freguesia até ao Pico de Matias Simão; comandante, o coronel de cavalaria José da Fonseca. 7.° — Desde este pico até às Cinco Ribeiras; comandante, o major de infantaria Amaro dos Santos Barroso. 8.° — Desde esta freguesia até ao Portão de São Pedro; comandante, o tenente-coronel de infantaria Emídio José Lopes da Silva. O pessoal militar que existia na ilha Terceira, em 1829, era o seguinte: — Batalhão de artilharia, distribuído pelos fortes, castelos e colunas, composto por 385 homens, incluindo oficiais superiores, sob o comando do major António da Costa e Silva. — Companhia de condutores, com 31 homens, sob o comando de Manuel António Freire. — Companhia de oficiais a cavalo, com 63 homens, sob o comando do capitão José Osório do Amaral. — Batalhão de Caçadores n.º 5, com 427 homens, sob o comando do major José Quintino Dias. — Batalhão de oficiais, com 152 homens, sob o comando do coronel Bernardo Baptista da Fonseca. — Companhia de voluntários académicos, com 54 homens, sob o comando do capitão José Maria de Freitas. — Regimento provisório de infantaria, com 712 homens, sob o comando do tenente-coronel D. Bartolomeu Salazar Moscoso. — Batalhão de Voluntários da Rainha, com 416 homens, sob o comando do major Manuel Joaquim de Menezes. — Companhia de voluntários da cidade, com 110 homens, sob o comando do major Domingos Mendes Ribeiro. Nestes números não veto incluídos os oficiais superiores e pessoal de ambulâncias. O total da tropa era de 2350 homens, distribuídos da seguinte forma pelos distritos e colunas militares:


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Distritos: 1.° Cidade — 158 2.° Porto Judeu — 49 3.° Porto Martins — 68 4.° Praia — 417 5.° Vila Nova e Lajes — 45 6.° Biscoitos — 82 7.° Santa Bárbara — 39 8.° São Mateus — 67 Colunas: 1.º Terra Chã — 113 2.º São Sebastião — 143 Pessoal superior militar: Cidade e polícia militar — o coronel Pedro de Sousa Canavarro. Castelo de São João Baptista — o coronel José António da Silva Torres. Castelo de São Sebastião — o major Joaquim de Freitas Aragão. Comandos Artilharia geral — o brigadeiro Sebastião Drago Valente de Brito Cabreira. Artilharia do Castelo de São João Baptista — o tenente-coronel Joaquim Pereira Marinho. Artilharia do Castelo de São Sebastião — o capitão Anselmo de Noronha Torrezão. Artilharia da Vila da Praia— o tenente José Maria Baldy. Força armada — o coronel António Pedro de Brito. Brigada de infantaria — o tenente-coronel Filipe Tomás Ribeiro. Major da brigada de infantaria — o tenente Joaquim Bento Pereira. A 7 de julho de 1829, havia recolhido a São Miguel a nau e a fragata portuguesa do bloqueio, a esperar o resto da expedição que chegou ali no dia 19 do mesmo mês. Antes de se afastar da ilha Terceira, dirigiu Rosa Coelho ao povo angrense a seguinte proclamação: «Angrenses: — Até quando durará a vossa ilusão! Acaso trinta mil habitantes que existem do vosso país serão poucos para repelir, de entre vós, um punhado de fracos foragidos, que tanto vos têm oprimido, espoliado e desonrado? E será tanta a vossa cegueira que ainda vos não seja visível a discórdia que reina entre esses monstruosos déspotas, que, aterrados pelos remorsos de seus nefandos crimes e desanimados desses ilusórios socorros


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externos, só buscam o momento de se evadirem à justa punição que os espera (como eles já patenteiam nas suas correspondências para Inglaterra, intercetadas por mim a bordo da galera inglesa Oceano e chalupa Daniel, que na madrugada do dia 6 do corrente saíram do porto de Angra) pretendendo deixar-vos entregues a toda a sorte de desgraças, como já praticaram no Porto e Madeira! — Então que esperais? Quereis, continuando a fazer causa comum com eles, ser co-réus de seus enormes delitos, e que as armas do Rei e a espada da justiça, que dentro em poucos dias se apresentarão à vossa frente, façam de vós um montão de cadáveres em lugar de formar uma só família, que, amando-se mutuamente, faça a fortuna e delícias da sociedade? — Eia, pois, angrenses, seja a vossa divisa o temor de Deus, a honra nacional e a fidelidade ao Rei; abraçai a justa causa do nosso magnânimo soberano o senhor D. Miguel I, Rei fidelíssimo de Portugal, aclamado em cortes legitimamente congregadas na conformidade da lei fundamental da monarquia portuguesa, lei que por tantos séculos fez a ventura de nossos avós; atacai e desprezai esse bando estranho que vos oprime e faz duvidosa a vossa conduta; contai comigo e com as forças que tenho à minha disposição, que pela sua quantidade, qualidade e valor se tornam invencíveis; olhai que elas para vencer não precisam mais que pisar o vosso território: a operação é facílima, e então será esse o apertado e derradeiro momento da vossa salvação não tendo de antemão aproveitado. — Fazei-vos, pois, dignos do perdão do nosso amado e benéfico soberano, surpreendei esses cabeças de rebelião, evitando assim que eles pela fuga se salvem levando consigo as vossas riquezas, único fim a que se propõem. — Dada a bordo da nau D. João VI, à vela e à vista de Angra, 17 de junho de 1829. — José Joaquim da Rosa Coelho, chefe de esquadra, comandante em chefe.» No dia 26 de julho fizeram-se de vela para a ilha Terceira os navios da expedição, sendo avistados três dias depois. Na madrugada seguinte reconheceu-se ser efetivamente a esquadra portuguesa, composta de vinte e duas velas, sendo: uma nau, três fragatas, duas corvetas, quatro brigues, quatro charruas e navios de transporte, sendo alguns artilhados. Era general desta expedição José Joaquim da Rosa Coelho; comandante José António de Azevedo Lemos, acompanhado do tenente-coronel Luís de Azevedo Pinto, D. Gil Eanes da Costa e Sousa de Macedo; e o vice-almirante, general destas ilhas por parte de Portugal, Henrique da Fonseca de Sousa Prego. O Conde de Vila Flor, desenvolvendo toda a sua energia, tratou da defesa da ilha, guarnecendo todos os pontos acessíveis e estabelecendo vigias nos que pareciam de acesso impraticável. Designou a guarnição dos castelos de São João Baptista e de São Sebastião, formou uma coluna volante para


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ocupar os cumes sobranceiros da parte de oeste, sudoeste e noroeste da ilha e apoiar com celeridade qualquer ponto que a esquadra se dispusesse a atacar nesta parte da costa, reunindo o grosso das forças em uma coluna central, que conservou consigo para marchar com ele ao ponto que fosse atacado. Dirigiu depois a seguinte proclamação aos povos da Terceira, recomendando-lhes completo sossego, e submissão às ordens das autoridades: «Habitantes da ilha Terceira: — Alguns navios que aparecem no mar reunidos parecem pertencer ao usurpador da coroa portuguesa, e vêm talvez com o fim de ameaçar um desembarque nesta ilha, que tem permanecido fiel ao dever sagrado de obedecer à sua legítima soberana. — A mim, povos desta ilha, a mim somente, pertence dar as precisas providências para vossa defesa; à briosa e leal guarnição militar, cujo comando me foi confiado por Sua Majestade, cumpre unicamente defender-vos; — eu velarei incessante na vossa segurança, e os oficiais e soldados desta guarnição saberão fazer arrepender os desleais de um ataque temerário, se eles, contra o que espero, ousarem fazê-lo. — Povos! Dirijo-me a vós para, em nome da nossa legítima Rainha, vos lembrar que é vosso dever e interesse conservar-vos no mais pleno sossego, cerrar os ouvidos a toda a voz sediciosa e todo o infame grito que tenda a aterrar-vos, na certeza de que da vossa conduta dependerá, se assim o cumprirdes, o gozo dos favores que a vossa generosa soberana derramará um dia sobre o país que serviu de baluarte à fidelidade; e com aqueles que de tal dever se apartarem, tão severo e tão inexorável com a rigorosa lei, eu obrarei de maneira que seu exemplar castigo sirva para sempre de escarmento aos atrevidos que ousem postergar o dever de súbditos, e renunciar à religião sagrada do juramento. — Povos desta ilha, cidadãos de todas as classes, tranquilidade completa, inteira submissão às ordens das autoridades, e nenhum receio de uma força que, quando se atreva a obrar, será sem fruto. — É este o proceder que o vosso governador vos recomenda, e que a pátria e a nossa Rainha de vós esperam. — Palácio do governo em Angra, 30 de julho de 1829. — Conde de Vila Flor.» A esquadra, sem se poder conjeturar o motivo, conservou-se bordejando até ao dia 10 de agosto, tendo, pouco antes, vindo da ilha de São Jorge vinte a trinta barcos abertos, de diferentes lotações, que se distribuíram pelos diversos navios. Na véspera tinha havido a bordo da nau uma espécie de conselho militar, em que se tratou: — 1.° se a ilha devia ser atacada em um ou mais pontos; — 2.° qual o ponto que devia ser escolhido; — 3.° se, decidido esse ponto, convinha simular um ataque noutro lugar.


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Depois de vários alvitres, decidiu-se fazer o ataque num só ponto, com todas as forças, e que o local fosse o mais plano. Escolheu-se o Cabo da Praia; mas, por indicação dos práticos, que asseveravam não ser um o fundo bom, resolveu-se fazer o ataque entre a Vila da Praia e a Ponta da Má Merenda, e que as tropas ocupassem logo a Serra de Santiago. No dia 10, voltando o vento a sudoeste, toda a esquadra tomou o rumo de sueste e fez-se ao largo, reconhecendo-se que escolhera a Vila da Praia para dar o ataque. Formou então o general uma nova coluna, com algumas bocas de fogo, que mandou ocupar a Vila de São Sebastião, para poder de pronto socorrer a Vila da Praia, cuja guarnição era confiada ao Batalhão de Voluntários da Rainha, comandado pelo major de caçadores Manuel Joaquim de Menezes; e ordenou ao comandante do distrito à esquerda daquela Vila, o tenente-coronel Pedro José Frederico, que levasse as suas forças às alturas que dominam aquela baía, no seu lado esquerdo. Depois redigiu a seguinte proclamação aos soldados da esquadra, provavelmente para quando saltassem em terra: «Soldados, arrastados ao crime e à desgraça pelo mais malvado engano, a que vindes a estas praias? Encontrar nelas a desonra e a morte! Vós sois os mesmos que eu comandei em Alegrete, em Coruche, e nas pontes do Prado e da Barca. Vós sois os mesmos que defendestes até com tanta Glória o trono legítimo ao senhor D. Pedro IV e da senhora D. Maria II contra esses infames que agora vos comandam. — A vossa adorada Rainha me mandou a esta ilha comandar os vossos antigos camaradas: eu estou nela, soldados, e escuso dizer-vos que a defenderei de todo o ataque, que as minhas forças, em muito superiores à dos rebeldes, lhes não podem deixar a menor esperança de vistoria; mas custa-me ver-vos enganados e ver derramar o vosso sangue. — Soldados, voltai essas armas contra o usurpador e seus aderentes, e não contra a vossa legítima Rainha. As suas graças para o futuro, as do poderoso imperador seu augusto pai, serão a vossa recompensa; e desde já unindo-vos a nós, em vez de andardes como degredados pelos mares, sofrendo violências, calamidades e misérias, tereis a abundância, a paga pronta, o serviço regular, e, mais que tudo, trocareis o nome e vergonha de rebeldes pelo título de heroicos defensores do trono e da pátria. — Palácio do governo em Angra, 10 de agosto de 1829. — Conde de Vila Flor.» Ao romper do dia 11 de agosto, a esquadra, talvez para encobrir o seu desígnio, apareceu mui próxima da terra em frente à baía de Angra e a oeste do castelo; mas, ao aclarar o dia, soprando-lhe o vento mais fresco e


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anuviando-se o horizonte com aguaceiros, voltou subitamente de bordo e correndo a costa rapidamente, surgiu de improviso na baía da Vila da Praia, dobrando o Cabo da Praia sem ser vista de terra, por ser espessa a neblina que encobria os navios, que só às 11 ½ horas da manhã deram fundo. Vejamos quais as forças que iam entrar na memorável batalha da Vila da Praia: — Nau D. João VI, com 76 peças, trazendo a bordo o general da expedição e seu estado maior. Era comandada pelo capitão de fragata José Gregório Pegado e conduzia parte do 2.° batalhão do Regimento de Infantaria n.° 1. — Fragata Diana, com 52 peças, comandada pelo chefe de divisão Francisco Inácio de Miranda Everard, conduzindo o 2.° batalhão do Regimento de Infantaria n.° 7. — Fragata Pérola, com 46 peças, comandada pelo capitão de fragata João Pedro Nolasco da Cunha, conduzindo parte do 2.° batalhão do Regimento de Infantaria n.° 1 e parte do 2.° batalhão do Regimento de Infantaria n.° 16. — Fragata Amazona, com 32 peças, comandada pelo capitão de mar e guerra Joaquim José da Cunha, conduzindo parte do 2.° batalhão do Regimento de Infantaria n.° 15. — Corveta Urânia, com 22 peças, comandada pelo capitão-tenente Sebastião António Pegado, conduzindo os artífices engenheiros e parte do Batalhão de Caçadores n.º 11. — Corveta Princesa Real, com 22 peças, comandada pelo capitão-tenente José Joaquim Pereira, conduzindo o Batalhão de Caçadores n.º 11 e parte do 2.° batalhão do Regimento de Infantaria n.° 13. — Charrua Galateia, com 12 peças, comandada pelo segundo-tenente António Daniel Baptista de Barros, conduzindo parte do Batalhão de Caçadores n.º 11, parte do 2.° batalhão do Regimento de Infantaria n.° 1 e parte do 2.° batalhão do Regimento de Infantaria n.° 20. — Charrua Orestes, com 2 peças, comandada pelo primeiro-tenente Francisco de Paula Tavares, conduzindo o Regimento de Artilharia n.° 1 e parte do 1.° batalhão do Regimento de Infantaria n.° 20. — Charrua Princesa da Beira, com 8 peças, comandada pelo primeiro-tenente Manuel Pedro de Carvalho, conduzindo o Regimento de Artilharia n.° 3, e parte do 1.° batalhão do Regimento de Infantaria n.° 20. — Charrua Maia Cardoso, com 12 peças, comandada pelo capitão de fragata Joaquim Maria Brum de Morais, conduzindo parte do Batalhão de Caçadores n.º 1. — Charrua Príncipe Real, com 2 peças, comandada pelo primeiro-tenente António José Borges de Castro, conduzindo parte do 2.° batalhão do Regimento de Infantaria n.° 7 e parte do 1.° batalhão do Regimento de Infantaria n.° 20.


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— Patacho Bom Jesus, comandado pelo guarda-marinha João César Cardoso, conduzindo os condutores de artilharia. — Brigue Glória, com 8 peças, comandado pelo primeiro-tenente Porfírio António Caminha. — Brigue Infante D. Sebastião, com 18 peças, comandado pelo primeiro-tenente José da Costa Couto. — Brigue Treze de Maio, com 12 peças, comandado pelo capitão-tenente João José Fernandes. — Brigue Providência, com 12 peças, comandado pelo segundo-tenente António Francisco Vicente Heitor. — Escuna Triunfo da Inveja, comandada pelo primeiro-tenente Domingos Fortunato do Vale. — Escuna Divina Providência, comandada por Francisco de Assis e Silva, voluntário. — Iate Bom Despacho, comandado pelo segundo-tenente José Joaquim do Rego. — Iate Santa Luzia, comandado pelo guarda-marinha Carlos Augusto Morais de Almeida. — Patacho Carmo e Almas, comandado pelo guarda-marinha David Vítor da Câmara. O total da força da divisão debaixo do comando do coronel José António de Azevedo Lemos era de 2988 homens, pertencentes às seguintes armas: Artífices engenheiros — 32 Artilharia n.° 1 e n.° 3 — 284 O 1.° batalhão do Regimento de Infantaria n.° 1 — 663 O 2.° batalhão do Regimento de Infantaria n.° 7 — 399 O 2.º batalhão do Regimento de Infantaria n.º 16 — 154 O 1.º batalhão do Regimento de Infantaria n.º 20 —368 Duas companhias do Regimento de Infantaria n.º 13 — 137 Batalhão de Caçadores n.º 1 — 446 Batalhão de Caçadores n.º 11 — 244 Adicionando aquele número número os oficiais de marinha, oficiais de saúde, artistas e tripulação, perfaz o número total de 6178 homens. Em defesa, na famosa e extensa baía da Praia encontravam-se os seguintes fortes: Santa Catarina do Cabo da Praia, com 3 peças do calibre 24, 20 e 18. Comandante Nuno Brandão de Castro, alferes de infantaria, e guarnecido por 3 artilheiros de linha, 12 de costa, 10 praças de infantaria e 3 de Caçadores n.º 5.


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São José, com 2 peças de calibre 24 e 9; comandante António Augusto da Costa Riper, sargento do batalhão de voluntários da Rainha D. Maria II; guarnecido por 2 artilheiros de linha, 8 de costa, 6 praças de infantaria e 3 de Caçadores n.º 5. São Caetano, com 2 peças de 24 e 9; comandante José Peixoto da Silva, soldado do batalhão de voluntários da Rainha D. Maria II; guarnecido por 2 artilheiros de linha, 8 de costa, 6 praças de infantaria e 3 de Caçadores n.º 5. São João, com uma peça de calibre 18; comandante José Paulo Machado, soldado de artilharia; guarnecido por um artilheiro de linha, 4 de costa, 4 praças de infantaria e 3 de Caçadores n.º 5. Santa Cruz do Porto, com uma peça de calibre 24; comandante Simão António de Albuquerque e Castro, alferes de infantaria; guarnecido por um artilheiro de linha, 5 praças de infantaria e 6 marinheiros. Foram grandes as avarias que deste forte se fizeram em a nau D. João VI, passando as balas da popa à proa, matando muita gente nas coxias e quebrando-lhe o pau da retranca. Espírito Santo, com 2 peças de calibre 24 e 18; comandante Manuel Franco, alferes de caçadores; guarnecido por artilheiros de costa e 4 praças de infantaria. Os navios inimigos, com a nau D. João VI à frente, dispuseram-se da seguinte forma: Nau D. João VI, batendo os fortes do Espírito Santo, Luz e Chagas, dos quais os dois últimos estavam desartilhados, e duas baterias entre o Espírito Santo e Porto, uma entre Porto e Luz e outra entre Luz e Chagas. Fragata Diana, batendo o forte de Santa Catarina e uma bateria à esquerda do mesmo forte. Fragata Amazona, batendo o mesmo forte. Fragata Pérola, os fortes de Santa Catarina e Chagas. Corveta Princesa Real, ficou fora da linha, dirigindo o fogo para onde lhe convinha, entre a nau e a fragata Pérola. Corveta Urânia, ficou em frente à cidade de Angra, bloqueando-a. Charrua Galateia, fora da linha, batendo o forte do Espírito Santo, a sueste da fragata Diana. Charrua Orestes, batendo o forte de Santa Catarina e conduzindo um hospital e material de guerra. Charrua Princesa da Beira, combatendo com a charrua Maia Cardoso, uma bateria mascarada e esta última a estrada por onde vinha a gente unir-se à Praia.


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Charrua Príncipe Real, com material de guerra, fora da linha. Brigue Infante D. Sebastião, colocou-se à queima-roupa dos entrincheiramentos da Praia, para a mosquetaria. Brigue Providência, entre as fragatas Pérola e Diana, batendo a estrada da cidade, por onde vinham reforços de gente e parques de campanha, e para proteger também o desembarque à esquerda do forte do Espírito Santo. Brigue Treze de Maio, batendo a planície sobre a ponta da Má Merenda, onde estava o telégrafo e um esquadrão de cavalaria. Escuna Triunfo da Inveja, sobre vela, do mesmo modo que os demais navios. Perto do meio dia, começou a memorável Batalha da Vila da Praia. Ao serem avistados os navios inimigos, começou o forte do Porto num fogo vivo contra a esquadra, que foi logo correspondido por uma banda da nau e mais vasos de guerra que, continuando o seu movimento, penetraram até onde puderam, lançaram ferro, e, colhendo o pano, prosseguiram sem interrupção no mais vigoroso canhoneio. Enquanto a esquadra trovejava, com pouco resultado, sobre as baterias e trincheiras, sofria a nau consideráveis avarias, causadas pelo fogo certeiro do forte do Porto, que era comandado pelo alferes de infantaria Simão de Albuquerque. Eram então os Voluntários da Rainha os únicos defensores da Praia e que, atacados com tanta celeridade e violência, sofriam corajosos o fogo de centos de canhões, esperando o desenvolvimento das operações do desembarque. À uma hora da tarde, a nau D. João VI fez sinal à esquadra de ter conseguido vantagem sobre o inimigo; e pouco depois fez sinal para o desembarque das tropas. Os primeiros foram os corpos de caçadores, os quais, com os granadeiros do 20, passaram para as barquetas, que se foram reunir perto do forte do Espírito Santo. O coronel Azeredo, comandante da tropa inimiga, não podia distinguir bem da embarcação em que estava os entrincheiramentos da infantaria da terra nem o modo como estavam feitos; mas vendo o sinal de desembarque para as tropas ligeiras, meteu-se num escaler e dirigiu-se para o ponto indicado. Saltaram em terra quinhentos homens, e querendo Azeredo subir com a tropa a rampa do forte, encontrou um estreito desfiladeiro, de difícil acesso, não podendo passar senão a um e um. De terra mandou logo o major Menezes uma parte dos Voluntários a


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defender aquele ponto, reunindo-se à força que do distrito imediato se postara junto à base do forte; e debaixo do fogo das baterias de bordo e da metralha de duas canhoneiras que protegiam o desembarque, começaram num tão vivo e bem dirigido fogo de mosquetaria, que conseguiram fazer retroceder algumas das lanchas bastante estragadas; mas, a maior parte das forças miguelistas, arrojando-se atrevidamente e a todo o risco sobre os penedos e trepando ao forte do Espírito Santo, que já se achava evacuado, conseguiu lançar alguns homens no interior do mesmo forte, enquanto outros mais longe conseguiram trepar a escarpa. Era este o projeto dos atacantes, assenhorearem-se do forte e crista da rocha, ocupar com a sua força as alturas da esquerda, a fim de protegerem as suas operações ulteriores; mas o intrépido valor dos Voluntários malogrou esse plano, porquanto, trepando rapidamente ao cume que domina o forte, saltaram nele à baioneta e desalojando os miguelistas, os precipitaram sobre os rochedos, guarnecendo depois a crista da escarpa. A coluna central, já a esse tempo marchava por uma estrada batida de flanco pelas baterias da esquadra e entrava na Vila da Praia, quando a primeira coluna dos atacantes havia já perdido o seu comandante e outros oficiais mortalmente feridos, acometida por um chuveiro de balas e isolada na base da escarpa, completamente rota e desalentada, sofrendo o activíssimo fogo dos constitucionais. Tomou aquela coluna central posição para obstar ao segundo ataque, que, já ao abrigo da nau e fragatas, se projetava com uma segunda coluna disposta em lanchas que ameaçavam a direita; mas tendo o primeiro tiro de artilharia de campanha da bateria que comandava o capitão Vilarinho, voltado a primeira lancha e repetindo-se o estrago de outras, retrocederam as que puderam salvar-se, cobrindo-se com a nau e outros navios de guerra. Chegava então à Praia o resto da artilharia defensora e os obuses, que se retardaram um pouco pela dificuldade das estradas. A primeira granada por eles lançada, ameaçava a esquadra de um novo perigo. Era perto da noite. A nau, vendo malogrado o ataque, fez sinais ao resto da esquadra, e os navios, cortando as amarras, seguiram para fora da baía e fizeram-se ao mar.


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Eis a relação das perdas sofridas pelas forças beligerantes na batalha de 11 de agosto de 1829: Guarnição da ilha Terceira Mortos Infantaria n.° 10 — o capitão Manuel Joaquim Simões; Infantaria n.° 21 — o tenente José Caldas Osório; Batalhão de Voluntários — o tenente José Narciso de Carvalho, 2.° sargento Evaristo Luís de Morais e os soldados Francisco José Bernardes de Oliveira, João José Pereira, Joaquim de Almeida Queiroz, José Coutinho Alves, José Maria de Passos, Manuel da Cruz, Marcelino José da Silva; Caçadores n.º 5 — o soldado Manuel António. Feridos mortalmente Batalhão de voluntários — o soldado Jacinto Rodrigues Chaves (morreu no hospital). Feridos gravemente Batalhão de voluntários — tenente João Eduardo de Abreu Tavares, 1.° sargento António José de Sousa (morreu no hospital) e os soldados António José de Carvalho e José Marques de Carvalho; Artilheiros da costa — o soldado Francisco Pacheco. Feridos levemente Caçadores n.º 5 — o alferes Luís António de Azevedo; Batalhão de Voluntários — o alferes João António de Morais; os 2.º sargentos António José Pereira (morreu no hospital), Francisco de Sousa Ribeiro e Joaquim de Almeida Menezes; sargento-ajudante Joaquim Jorge Pinto; cabos, Domingos José Ferreira, Joaquim de Oliveira Costa e Luís Claudino; soldados, António Alves Carneiro, Francisco Teixeira Pinto, João António Vidal, José Dias Pereira, José Joaquim Pereira, Luís dos Santos Ramos, Manuel Coelho de Sousa, Manuel Joaquim, Manuel José Leite, Manuel Maria de Paiva, Manuel Pinto de Miranda, Manuel de Sousa Mota. Tropas miguelistas: Prisioneiros Estado maior — o major de brigada Joaquim Alves Costa (ferido). Infantaria n.° 1 — o tenente Silvério Atanásio Ramay e o alferes António Hermogénio da Cunha. Infantaria n.° 7 — o tenente António José Soares, e o alferes José António Ferreira de Leão (morreu no hospital). Infantaria n.° 16 — o alferes Augusto Pais de Vasconcelos. Infantaria n.° 20 — o major graduado Júlio César Augusto e o capitão Francisco Borges Delicado.


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Caçadores n.° 1 — o tenente-coronel António Simplício de Morais Fontoura; os capitães António Victorino da Costa e José Bernardino de Carvalho; o tenente Francisco Alberto da Costa Rubim; e os alferes António Joaquim Duarte e Joaquim José Freire. Caçadores n.º 11 — o tenente,José Manuel de Paiva Carvalho. Perderam as forças invasoras naquela batalha, em os rochedos e nas vagas do mar, da primeira coluna, perto de mil homens, entre soldados, sargentos e oficiais; e foram feitos prisioneiros trezentos oitenta e oito. Morreram ali o tenente-coronel José Azeredo Pinto, comandante em segundo, da expedição e comandante da primeira brigada, e o major D. Gil Eanes da Costa. A perda que sofreu a segunda coluna de desembarque, voltadas e quebradas várias lanchas, foi considerável, pela dificuldade de salvar a gente. A perda dos defensores consistiu apenas em nove homens mortos, entre, eles três oficiais, e vinte e cinco feridos, alguns mortalmente. No dia seguinte dirigiu o Conde de Vila Flor o seguinte manifesto aos habitantes da ilha Terceira: «Habitantes da ilha Terceira. — Quando a esquadra do usurpador, respirando sangue, e vingança, apareceu ameaçando a vossa Ilha, eu vos recomendei o sossego, e a confiança em mim e na leal Guarnição, que vos defende; e vos prometi o castigo dos inimigos do legítimo Trono, e da liberdade da Pátria, se eles se atrevessem a acometer este glorioso Baluarte da Fidelidade. Vós, habitantes leais desta Ilha, observastes fiéis o que vos indiquei; e com seu valor inabalável as Tropas leais, que comando, me fizeram cumprir a minha promessa. — O inimigo deixou cobertas dos cadáveres dos seus as vossas praias, que queria inundar do vosso sangue; as ordens sanguinárias, que traziam contra a vossa Guarnição, e contra os povos fiéis desta Ilha, a Providência, que malogrará sempre os esforços do crime, as volveu contra eles; mais de metade dos seus soldados ou morreu pelo fogo, ou pelas ondas, ou recebeu dos seus generosos vencedores aquele acolhimento, que a Religião e a humanidade determinam, mas que as ordens da tirania lhes tinham proibido dar aos seus defensores, e a vós mesmos, se fossemos vencidos. — Se, depois da ruína experimentada, se atreverem a voltar a estas praias, eu vo-lo prometo novamente, e a experiência acaba de mostrar-vos o valor desta promessa, a sua ruína será completa. — Povos da Terceira, habitantes deste Ilustre Baluarte da Fidelidade, da Honra, e da Constância, continuai a viver na mais completa tranquilidade. Cooperai com os valorosos, que vos defendem, para acabar de pôr estas praias ao abrigo de todo o criminoso esforço de nossos adversários; e a nossa


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Ilha terá a Glória de ter restaurado no Trono a nossa Amada Rainha, de ter reabilitado o nome Português; e de ter sido o foco de onde partiu a Liberdade e a prosperidade da Pátria. —Acampamento em São Sebastião, aos 12 de agosto de 1829. — Conde de Vila Flor.» No dia 15 de agosto houve Te Deum na Sé Catedral, em ação de graças pelo triunfo alcançado nas areias da Praia; e nesse mesmo dia à noite saiu para Inglaterra D. António de Melo, com as participações oficiais daquele sucesso ao Marquês de Palmela. Por ordem do dia, n.° 25, do mesmo dia 15, foram louvados todos os oficiais e soldados da guarnição, bem como os Voluntários da Rainha e artilharia que estavam na Vila da Praia. Não ousou a esquadra tentar um segundo ataque. Velejaram os navios alguns dias em frente da baía de Angra, até que desapareceram com bastantes avarias. Contudo o receio de que a esquadra, depois de reparada convenientemente, voltasse de novo a atacar a ilha Terceira, fez tornar cautelosamente refletidas medidas de defesa, artilhando-se diferentes pontos e reparando-se algumas trincheiras, sendo as principais as de São Mateus e do Porto Judeu. No dia 18 foi avistado perto dos ilhéus um pequeno barco, que não tinha mais que braça e meia de comprimento, feito de boana e sem leme. Foi aprisionado, e nele ia fugido o guerrilha José Joaquim, desertor do Batalhão de Caçadores, com um rapaz do campo. Indo a perguntas declarou que se dirigia à Vila do Topo, ilha de São Jorge, mas o vento e a maré lhe haviam sido contrários. Não cessavam as prisões. No dia 19 entrava na cadeia uma família distinta do Posto Santo, D. Mariana Cláudia e sua irmã, por denúncias de que lá se asilava o célebre Almeida. No dia 28 de agosto apareceram alguns navios da esquadra, que se conservaram bordejando em frente da ilha; e no dia 29 foi preso na Terra Chã o famoso guerrilha o «Boi Negro», que havia feito várias mortes, declarando terem vindo a terra alguns oficiais da esquadra, indicando ao mesmo tempo a furna onde se escondia o Almeida, que depois procuraram inutilmente. De Inglaterra chegaram alguns auxílios pecuniários no dia 1.° de setembro, trinta praças, dois obuses, artilharia grossa e munições. O navio que isto trouxe foi perseguido por uma corveta do bloqueio, mas pôde escapar-lhe. No dia 7 extinguiu-se o Tribunal da Relação, criando-se uma Junta Criminal, que entrou logo em exercício. Os oficiais miguelistas prisioneiros carecendo de suas bagagens, que existiam a bordo dos navios da esquadra, o Conde de Vila Flor, a 14 de setembro, enviou ao chefe da esquadra Rosa Coelho, comandante da nau


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D. João VI, um barco com cartas dos mesmos prisioneiros; e, aproveitando, a ocasião, escreveu-lhe diretamente a seguinte carta: «Ill.º e Ex.º Sr. — Não é possível a um português ver sem horror a efusão de sangue de portugueses que, divididos e tornados inimigos, têm regado com ele o território pátrio: — nem V. Ex.ª nem eu podemos ser estranhos a este sentimento; e é com o fim de contribuir quanto em mim cabe para a cessação de tão grandes males que tomo o partido de fi•igir a presente a V. Ex.ª — Não é minha intenção, nem esta a ocasião oportuna, de disputar corri V. Ex.ª sobre a legitimidade das causas que um e outro defendemos, nem as quero invetivar a V. Ex.ª sobre o partido que julgou dever adotar e servir. — V. Ex.ª mal informado da força e disposições da guarnição e povoação desta ilha, julgou o partido de Sua Majestade a Rainha próximo a sucumbir ao primeiro acometimento e terminada por este modo a guerra civil; porém a resistência firme e intrépida que V. Ex.ª experimentou contra o seu denodado ataque, devem ter persuadido a V. Ex.ª que não é possível ao senhor infante, com as forças de que pode dispor, esbulhar a Rainha da posse desta ilha, nem por conseguinte consolidar seus projetos e terminar as calamidades públicas. — Por outro lado a Europa, que só esperava para declarar-se ativamente o resultado deste ataque, vai agora sem dúvida fazê-lo; e se ela reconheceu sempre em Sua Majestade a Rainha a legítima soberana de Portugal quando a derradeira porção do território fiel ao seu domínio se achava investida e em risco de ser, ao que parecia, tomada, como se não declarará agora que as armas de Sua Majestade foram tocadas pela vitória? — A V. Ex.ª pode pertencera honra de acelerar a conclusão da paz pública, e de merecer por um serviço transcendente a benevolência de Sua Majestade. — Acho-me historiador para convidar a V. Ex.ª a entrar com a sua nau neste porto para restitui-la ao serviço de Sua Majestade, na certeza, de que V. Ex.ª e todos os oficiais da nau e vasos que a seguirem, conservarão seus postos, honras e prerrogativas, às quais Sua Majestade se dignará ajuntar aquele galardão que lhe ditar a sua real generosidade. — V. Ex.ª combinará comigo o melhor serviço que a nau possa fazer à Rainha e à pátria, ou, quando V. Ex.ª julgue não lhe convir a continuação no efetivo comando, poderá V. Ex.ª escolher o lugar para onde quer retirar-se e os meios de viagem que houver nesta ilha. — E conhecendo Sua Majestade que, em tais circunstâncias, distante de sua casa e de recursos, poderia V. Ex.ª sofrer penosas privações, estou igualmente autorizado para dar a V. Ex.ª a minha palavra de honra, que, apenas V. Ex.ª executar o proposto, lhe será entregue em espécie a soma de quarenta contos de réis, para as suas despesas e viagens que quiser fazer. — V. Ex.ª refletirá sobre estas proposições, nascidas do amor do bem


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público e do desejo que Sua Majestade tem de poupar a efusão de sangue, e toda a espécie de calamidades que possam afligir seus súbditos. — Confio que a resolução de V. Ex.ª me dará em breve a satisfação de poder assinar-me — De V. Ex.ª — atento venerador. — Conde de Vila Flor. — Angra, 14 de setembro de 1829.» A esta carta respondeu Rosa Coelho em termos enérgicos, e pouco dignos da sua posição, da seguinte forma: «Ill.º e Ex.º Sr. — Acuso a receção da carta de V. Ex.ª escrita a 14 do corrente e recebida por mim ontem, por mão de um parlamentário por V. Ex.ª autorizado para a entrega dela. Chamo-lhe parlamentário, porque como tal, conforme as leis da guerra, se dirigiu a esta nau, e o recebi na hipótese de que V. Ex.ª já não terá à sua disposição indivíduo de maior esfera, que a de um pobre pescador, a quem incumba uma tal diligência, posto que eu dispense a civilidade que é de presumir V. Ex.ª tivesse não estando no caso em que o suponho. — Muito me admiro que V. Ex.ª diga está horrorizado por ver a efusão de sangue português, derramado por portugueses, sobre o território pátrio, depois que são passados nove anos que V. Ex.ª é um dos principais autores de tal desgraça, sem lhe aproveitar a experiência prática, quando os conhecimentos teóricos, que a um grande cumpre possuir, lhe não tivessem em tempo mostrado as terríveis consequências de uma infundada rebelião! Como quer V. Ex.ª que eu acredite que possui tais sentimentos, e que olha com horror para as calamidades que afligem a família portuguesa, ora divergente em opiniões (talvez pelo exemplo daqueles a quem cumpria, como a V. Ex.ª, mostrar-lhe o caminho da honra), se observo que não teve pejo de ir postar-se à frente de um bando de facinorosos e salteadores, e fazendo causa comum com eles, continua a cometer na desgraçada ilha Terceira horrores e vilezas? — Agora mesmo não se envergonha V. Ex.ª de cometer uma quando tem a infeliz lembrança de se persuadir que um vassalo fiel a Sua Majestade Fidelíssima o senhor D. Miguel I é capaz de vender a sua honra por quarenta contos de réis? Uma tal ideia só pode entrar na cabeça de quem está na posse de ser levado pelo ouro a qualquer partido, esquecido do seu nascimento, e sem lhe importar que pelas suas ações fique manchada a fidelidade que caracterizou aqueles de quem descende, e com que houveram as honras e distinções que são privativas dos sustentáculo dos tronos. — Não pareça a V. Ex.ª que a Europa agora se decida contra os inauferíveis direitos de Sua Majestade Fidelíssima o senhor D. Miguel I pelo simples facto de se haver malogrado em parte a tentativa de 11 do mês passado, ou porque V. Ex.ª se acha sobre uma pedra no meio do oceano com uns


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poucos de miseráveis expatriados e já costumados a fugir (algumas vezes com V. Ex.ª à sua frente) do Porto e Madeira, nem tão pouco que Sua Majestade Fidelíssima o senhor D. Miguel I não tem à sua disposição forças disponível para proceder contra, e muitas mais que sejam necessárias, como dentro eu poucos dias farei ver a V. Ex.ª — Todas quantas mandou que fizeram essa efusão de sangue que V. Ex.ª agora sem remédio lamenta, ainda existem sem lesão ou defeito algum. O Tejo ainda tem meios que não tardam em reunir-se, e em mim existe muito boa disposição para ir pouco e pouco diminuindo, por filas, essas fileiras de campeões que V. Ex.ª mandar aproximar às praias: contudo, tantos males podem ter ainda um remédio, e a V. Ex.ª cumpre dar-lho. — O magnânimo coração de Sua Majestade Fidelíssima o senhor D. Miguel é aquele mesmo cheio de bondade e de comiseração, que V. Ex.ª conhece tão bem, senão melhor, do que eu; e suposto que V. Ex.ª por escrito, por obras e palavras, mostre estar esquecido do muito que a ele deve e a seu augustos progenitores, quero ainda persuadir-me foi a isso obrigado quando entre aqueles que ainda esperam quimeras, se tornava preciso de ir com eles: agora porém que V. Ex.ª se acha só, pode acordar comigo os meio de salvar a sua vida e a daqueles que o seguem, obtendo um perdão por tantos crimes e tantas indignidades cometidas na ilha Terceira contra a real pessoa de El-Rei nosso senhor. Eu estou disposto a entrar nessa negociação, e posso certificar a V. Ex.ª que sé depende da sua vontade evitar continuação de desgraças: de contrário, afirmo-lhe que estão dadas todas as providências e tomadas as medidas para dentro em poucos dias acabar com este resto que existe na ilha Terceira, sem que a isso V. Ex.ª possa obstar e menos contar que nas outras ilhas se ponham em prática os aéreos plano formados e mandados por V. Ex.ª, enquanto eu tiver vida e meios para o ir no mar desfazendo com a mesma facilidade com que V. Ex.ª os firma em terra, só com a diferença de que os portadores vão pagando caro os porte das mensagens. — Sinto ter tido ocasião de falar a V. Ex.ª em tais termos, mas tais são os que V. Ex.ª devia esperar do seu venerador. — José Joaquim da Rosa Coelho. — A bordo da nau D. João VI, à vela e à vista de Angra, 19 de setembro de 1829.» Malogrou-se enfim a expedição naval que conduzia forças superiores às precisas para tomarem a ilha, mormente havendo a certeza de que uma grande parte do povo apoiaria as suas operações. Ou a imperícia dos chefes miguelistas ou a Providência que velava pelos constitucionais, fez com que estes, por mais uma vez, subjugassem a tirânica política de D. Miguel. Foram os prisioneiros de 11 de agosto, e mais tarde os das outras ilha do oeste, encerrados numa rigorosa prisão do Castelo de São João Baptista, e


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entregues à guarda de um homem perverso, por alcunha o «Cazuza», que por vezes maltratou com verdascadas os pobres prisioneiros. A presença dos navios bloqueantes não produziu, infelizmente, senão males aos povos da ilha Terceira: as transações comerciais com a Inglaterra continuavam com grande dificuldade, e a animação e esperança dos miguelistas exasperavam sobremaneira os ânimos dos liberais. O Conde de Vila Flor não podia já moderar esses excessos terríveis dos políticos exaltados, as vinganças mesquinhas dos fanáticos sobre os que buscavam a liberdade. Durante a noite do dia 15 de outubro de 1829 desceram pela muralha do castelo três prisioneiros, que buscavam na fuga o refrigério para os seus males; e esses pobres infelizes foram, em ato continuo, flagelados por centenas de varadas, pagando alguns com a vida tão bárbaro castigo. E entre os que se evadiram depois conta-se o cavalheiro Bento de Bettencourt de Vasconcelos, descendente de uma ilustre família, e que, escapando de ser espingardeado pelos constitucionais exaltados, veio a ser condenado, poucos dias depois, a quatro meses de prisão e quatrocentos mil réis de multa. Ao mesmo tempo continuavam os preparativos para a fortificação da costa e do castelo; e, como faltassem os recursos pecuniários, foi nomeada uma comissão para tratar da reforma dos soldados e seus respetivos prets. A 13 de novembro começavam a aparecer mais navios de guerra portugueses, o que ativou grandemente a vigilância dos liberais, dando novo impulso aos trabalhos de fortificação e procedendo-se a novas prisões em pessoas que andavam retiradas e fugitivas, pelo receio de maus tratamentos, entre os quais se apontam os cavalheiros Luís Pacheco de Lima, seu irmão Jacinto Pacheco de Lima, João Borges do Canto, e Mateus Pamplona, sendo todos metidos em calabouços escuros e horrendos. No dia 30 do mesmo mês extinguiu-se o convento da Graça da cidade, e as suas rendas entraram na fazenda; e no dia 2 de dezembro se extinguiu igualmente o terreiro público e o correio geral. A 4 de dezembro destacou-se para a Vila de São Sebastião o Batalhão Provisório que estava aquartelado no convento da Graça, por se recear de um novo ataque das forças navais portuguesas. No dia 7 publicou-se a portaria sobre a redução geral de soldos e ordenados; por ser grande a despesa, que andava por quarenta e dois contos de réis mensais. Haviam desaparecido os navios do bloqueio nos princípios de dezembro, e a 12 chegava a escuna inglesa Jack-o’-Lantern, conduzindo a Condessa de Vila Flor, o major de engenheiros Bernardo de Sá Nogueira e outros oficiais inferiores, bem como várias praças do Regimento de Infantaria n.° 18 e munições de guerra. Enquanto se davam estes acontecimentos importantes na ilha Terceira, tratava o ministro inglês com o Marquês de Barbacena, a negociação do casamento


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da Rainha de Portugal D. Maria II com seu tio D. Miguel, a terminação de um pacto de família, sendo árbitro o imperador da Áustria, para assim terminarem as dissidências no interior de Portugal. O Marquês, político hábil e de incontestável merecimento, nunca se deu por convencida na polémica sustentada com o gabinete inglês, até que se declarou formalmente o casamento de D. Pedro, em segundas núpcias, com a princesa da Baviera D. Amélia Augusta, em companhia da qual partiu de Portsmouth para o Brasil, no dia 30 de agosto, e onde chegou a 16 de outubro a Rainha de Portugal D. Maria II. Estas notícias, sumamente agradáveis para o partido liberal, foram recebidas em Angra com grande alvoroço. Os preparativos de defesa continuavam incessantemente. As freiras de Jesus, da Praia, tiveram de ceder o seu convento para ali se estabelecer um aquartelamento da tropa que estava continuamente a chegar de países estrangeiros em navios ingleses. Eram nove as freiras: duas foram para o Convento da Luz, e as outras para casa dos seus parentes, até que foram transferidas para o Convento da Esperança da cidade. No dia 19 de janeiro de 1830 chegavam a Angra duzentas e oitenta praças e muitos oficiais e paisanos, vindos de Ostende2 numa galera inglesa, entre os quais figuravam o Marquês de Ponte de Lima e dois irmãos do Conde de Ficalho; e no dia 31 do mesmo mês, partia para Inglaterra, encarregado de negócios do governo, Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque. A divergência entre os liberais havia tomado um carácter grave porque se estabeleceram dois partidos importantes: um, adotando o general Saldanha, e outro o Conde de Vila Flor, cujo carácter benévolo e pacífico muito irritava os exaltados políticos, que só desejavam despotismos e a flagelação pública. A 21 de fevereiro chegava ao porto de Angra um navio inglês, com carga diversa, e por ele se soube do falecimento da Rainha D. Carlota Joaquina, origem de tantos males para Portugal, sendo festejada esta notícia em toda cidade com girândolas até alta noite. Ressentia-se o governo de Angra da falta de meios pecuniários, apesar da fundição da moeda de metal que se efetuava na casa da moeda existente no castelo, e que começou a funcionar a 3 de abril de 1825. Não bastou o grande número de sinos que ali deram entrada, desde 29 de fevereiro de 1829 até 15 de março de 1830, para a manufatura da moeda de bronze, denominada «malucos», que se extinguiram mais tarde, em março de 1835. Os sinos foram: da igreja da Sé, 4; de São Pedro, 3; de Santa Luzia, 1; de São Bento, 2; do Colégio, 3; da Misericórdia, 1; de São Gonçalo, 1; de São Francisco, 3; de Santo António, 2; da Conceição, 1; do Castelo, 2; da Matriz da Praia, 3; de São Francisco da Praia, 1; da Misericórdia da Praia, 1; das Fontinhas, 1; das Lajes, 3; da Vila Nova, l; da Agualva, 2; das Quatro Ribeiras, 1; dos Altares, 1; das Doze Ribeiras, 2; de São Bartolomeu, 1; de São Mateus, 1; da Ribeirinha, 2; do Porto Judeu, 2; da Fonte do Bastardo, 1; do Cabo da Praia, 2; de diversas igrejas e conventos, entregues ao almoxarife, 2; da ermida da Boa Nova, 1; de Santo Cristo, 1; da Natividade, 1; da Saúde, 1; dos Remédios, 1; da Esperança (Porto Judeu), 1; de São João (São Sebastião), 1; da Câmara de Angra, 1; da Câmara de São Sebastião, 1; da alfândega da Praia, 2; e de Teotónio de Ornelas Bruges, 7.


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Para obviar a este mal, mandou-se, em portaria de 21 de fevereiro ao corregedor de Angra, fazer dar conta das rendas de dois anos os administradores das casas que possuíam na ilha Terceira alguns proprietários residentes em Lisboa, como eram o Conde de Camaride, D. Maria Xavier e outros, a fim de entrarem os seus produtos nos cofres da fazenda. Ainda no dia 2 de março se continuava a conduzir em carros para o Castelo de São João Baptista, grandes toros de grossíssimos pinheiros, tirados a antiga mata da Pateira, para edifícios e combustível; e, aparecendo alguns navios do bloqueio, depositaram-se cautelosamente naquela fortaleza mitos géneros e víveres para subsistência da guarnição. Contudo isso não cessavam as indisposições contra o Conde de Vila Flor que governava sempre com sensatez e brandura, chegando a indignação os seus adversários políticos a representarem, na noite de 13 de março de 1830, o general com as suas insígnias, pendurado na forca. Gravíssimos eram os receios de novos distúrbios e urgente se tornava a adoção de medidas repressivas contra os males que ameaçavam a ilha Terceira, quando chegou inesperadamente a Regência, tranquilizando os espíritos receosos e inspirando a segurança pública.


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