Memórias Póstumas de Brás Cubas/CXVII

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CAPITULO CXVII

 
O Humanitismo
 

Duas forças, porém, além de uma terceira, compelliam-me a tornar á vida agitada do costume: Sabina e o Quincas Borba. Minha irmã encaminhou a candidatura conjugal de Nhã-loló de um modo verdadeiramente impetuoso. Quando dei por mim estava com a moça quasi nos braços. Quanto ao Quincas Borba, expoz-me emfim o Humanitismo, systema de philosophia destinado a arruinar todos os demais systemas.

— Humanitas, dizia elle, o principio das cousas, não é outro senão o mesmo homem repartido por todos os homens. Conta tres phases Humanitas; a statica, anterior a toda a creação; a expansiva, começo das cousas; a dispersiva, apparecimento do homem; e contará mais uma, a contractiva, absorpção do homem e das cousas. A expansão, iniciando o universo, suggeriu a Humanitas o desejo de o gozar, e dahi a dispersão, que não é mais do que a multiplicação personificada da substancia original.

Como me não apparecesse assaz clara esta exposição, o Quincas Borba desenvolveu-a de um modo profundo, fazendo notar as grandes linhas do systema. Explicou-me que, por um lado, o Humanitismo ligava-se ao Brahmanismo, a saber, na distribuição dos homens pelas differentes partes do corpo de Humanitas; mas aquillo que na religião indiana tinha apenas uma estreita significação theologica e politica, era no Humanitismo a grande lei do valor pessoal. Assim, descender do peito ou dos rins de Humanitas, isto é, ser um forte, não era o mesmo que descender dos cabellos ou da ponta do nariz. Dahi a necessidade de cultivar e temperar o musculo. Hercules ou Herakles não foi senão um symbolo antecipado do Humanitismo. Neste ponto o Quincas Borba ponderou que o paganismo poderia ter chegado á verdade, se se não houvesse amesquinhado com a parte galante dos seus mythos. Nada disso acontecerá com o Humanitismo. Nesta egreja nova não ha aventuras faceis, nem quedas, nem tristezas, nem alegrias pueris. O amor, por exemplo, é um sacerdocio, a reproducção um ritual. Como a vida é o maior beneficio do universo, e não ha mendigo que não prefira a miseria á morte (o que é um delicioso influxo de Humanitas), segue-se que a transmissão da vida, longe de ser uma occasião de galanteio, é a hora suprema da missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente ha só uma desgraça: é não nascer.

— Imagina, por exemplo, que eu não tinha nascido, continuou o Quincas Borba; é positivo que não teria agora o prazer de conversar comtigo, comer esta batata, ir ao theatro, e para tudo dizer n’uma só palavra: viver. Nota que eu não faço do homem um simples vehiculo de Humanitas; não, elle é ao mesmo tempo vehiculo, cocheiro e passageiro; elle é o proprio Humanitas reduzido; dahi a necessidade de adorar-se a si proprio. Queres uma prova da superioridade do meu systema? Contempla a inveja. Não ha moralista grego ou turco, christão ou mussulmano, que não troveje contra o sentimento da inveja. O accordo é universal, desde os campos da Iduméa até o alto da Tijuca. Ora bem; abre mão dos velhos preconceitos, esquece as rhetoricas rafadas, e estuda a inveja, esse sentimento tão subtil e tão nobre. Sendo cada homem uma reducção de Humanitas, é claro que nenhum homem é fundamentalmente opposto a outro homem, quaesquer que sejam as apparencias contrarias. Assim, por exemplo, o algoz que executa o condemnado póde excitar o vão clamor dos poetas; mas substancialmente é Humanitas que corrige em Humanitas uma infracção da lei de Humanitas. O mesmo direi do individuo que estripa a outro; é uma manifestação da força de Humanitas. Nada obsta (e ha exemplos) que elle seja egualmente estripado. Si entendeste bem, facilmente comprehenderás que a inveja não é senão uma admiração que luta, e sendo a luta a grande funcção do genero humano, todos os sentimentos bellicosos são os mais adequados á sua felicidade. Dahi vem que a inveja é uma virtude.

Para que negal-o? eu estava estupefacto. A clareza da exposição, a logica dos principios, o rigor das consequencias, tudo isso parecia superiormente grande, e foi-me preciso suspender a conversa por alguns minutos, em quanto digeria a philosophia nova. O Quincas Borba mal podia encobrir a satisfação do triumpho. Tinha uma aza de frango no prato, e trincava-a com philosophica serenidade. Eu fiz-lhe ainda alguma objecções, mas tão frouxas, que elle não gastou muito tempo em destruil-as.

— Para entender bem o meu systema, concluiu elle, importa não esquecer nunca o principio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, como se dissessemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e elle chupava philosophicamente a aza do frango), a fome é uma prova a que Humanitas submette a propria viscera. Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu systema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi plantado por um africano, supponhamos, importado de Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido um navio o trouxe, um navio construido de madeira cortada no matto por dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do apparelho nautico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e lutas, executados com o unico fim de dar mate ao meu appetite.

Entre o queijo e o café, demonstrou-me o Quincas Borba que o seu systema era a destruição da dôr. A dôr, segundo o Humanitismo, é uma pura illusão. Quando a criança é ameaçada por um páu, antes mesmo de ter sido espancada, fecha os olhos e treme; essa predisposição é que constitue a base da illusão humana, herdada e transmittida. Não basta certamente a adopção do systema para acabar logo com a dôr; mas é indispensavel; o resto é a natural evolução das cousas. Uma vez que o homem se compenetre bem de que elle é o proprio Humanitas, não tem mais do que remontar o pensamento á substancia original para obstar qualquer sensação dolorosa. A evolução porém é tão profunda, que mal se lhe podem assignar alguns milhares de annos.

O Quincas Borba leu-me dahi a dias a sua grande obra. Eram quatro volumes manuscriptos, de cem paginas cada um, com letra miuda e citações latinas. O ultimo volume compunha-se de um tratado politico, fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do systema, posto que concebida com um formidavel rigor de logica. Reorganisada a sociedade pelo methodo delle, nem por isso ficavam eliminadas a guerra, a insurreição, o simples murro, a facada anonyma, a miseria, a fome, as doenças; mas sendo esses suppostos flagellos verdadeiros equivocos do entendimento, porque não passariam de movimentos externos da substancia interior, destinados a não influir sobre o homem, senão como simples quebra da monotonia universal, claro estava que a sua existencia não impediria a felicidade humana. Mas ainda quando taes flagellos (o que era radicalmente falso) correspondessem no futuro á concepção acanhada de antigos tempos, nem por isso ficava destruido o systema, e por dous motivos: 1.° porque sendo Humanitas a substancia creadora e absoluta, cada individuo deveria achar a maior delicia do mundo em sacrificar-se ao principio de que descende; 2.° porque, ainda assim, não diminuiria o poder espiritual do homem sobre a terra, inventada unicamente para seu recreio delle, como as estrellas, as brisas, as tamaras e o rhuibarbo. Pangloss, dizia-me elle ao fechar o livro, não era tão tolo como o pintou Voltaire.