Memórias Póstumas de Brás Cubas/CXXIV

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Memórias Póstumas de Brás Cubas por Machado de Assis
Capítulo CXXIV: Vá de intermédio

Que há entre a vida e a morte? Uma curta ponte. Não obstante, se eu não compusesse este capítulo, padeceria o leitor um forte abalo, assaz danoso ao efeito do livro. Saltar de um retrato a um epitáfio, pode ser real e comum; o leitor, entretanto, não se refugia no livro, senão para escapar à vida. Não digo que este pensamento seja meu; digo que há nele uma dose de verdade, e que, ao menos, a forma é pinturesca. E repito: não é meu. Um dos ouvintes cocou o nariz, outro- consultou o relógio, o terceiro tamborilou sobre o joelho, o quarto deu algumas pernadas pela sala, o quinto era eu. Mas, continuando a falar, ponderei que essa idéa, inteiramente justa, não era minha, e sim de Machiavelli; circumstancia que levou o primeiro a não cocar o nariz, o segundo a não consultar o relógio, o terceiro a não tamborilar sobre o joelho, e o quarto a não dar pernadas; e todos me rodearam, e me pediram que repetisse o dito, e repeti, e elles extasiavam-se, e batiam com a cabeça approvando, saboreando, decorando. O que estimei, porque fui sempre amador de idéas justas. Mas vamos ao epitaphio.