Mentira (Luís Delfino)

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Mentira
por Luís Delfino
Publicada em Rosas Negras.


Circe fala-me então com tal despejo,
Que eu bem sei que ela mente, eu sei, bem vejo...
Mas... que filtro lhe cai da voz sutil!...

Amor dá-me ódio a tudo que ela toca;
Ele, que às mãos me pôs o fuso e a roca...
E olho-a de rastos, tímido e imbecil!...

Mente? — Que importa? — O que é toda cadeia
Das banais ilusões, que a vida inteira
Volve em pegões e envolve prisioneira,
Pondo lá dentro o sol e o grão de areia?!...

E como é suave essa canção traiçoeira
Com que ela nos embala, ebria, enleia!...
Amar alguém? Não há ninguém que o creia:
E aos pés morrer-lhe, amando-a, há quem não queira?...