Meteorito de Bendegó: relatorio (1888)/02

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Meteorito de Bendegó: relatorio por José Carlos de Carvalho Júnior
Historico do meteorito de Bendegó
Imprensa Nacional (1888). páginas 13-23
METEORITO DE BENDEGÓ



I


Historico do meteorito de Bendegó, tentativas feitas para sua remoção


Em 1784, Joaquim da Motta Botelho [1] communicou ao Governador Geral da Bahia, D. Rodrigo José de Menezes, ter encontrado nas proximidades do riacho Bendegó, sobre uma eminencia, uma pedra extraordinaria, que suppunha conter ouro e prata.

Em 1785, o mesmo Governador determinou ao Capitão-mór de Hapicurú, Bernardo Carvalho da Cunha, que fizesse o possivel para conduzir essa pedra ao mais proximo porto de mar, donde pudesse ser transportada para a capital da provincia.

Nesse mesmo anno, Bernardo de Carvalho tratou de desempenhar-se dessa trabalhosa incumbencia, fazendo construir um carretão de madeira para ser puxado por bois.

Construiu ainda uma calçada de pedra no logar onde devia effectuar-se a passagem do riacho Bendegó, porque era seu intento procurar o rio Irapiranga[2] ou Vasa Barris, do qual o Bendegó é tributário, afim de seguil-o até Aracajú na provincia de Sergipe, por ser o porto de embarque mais proximo da cidade da Bahia.

Com bastante difficuldade Bernardo de Carvalho conseguiu montar a pedra sobre o carretão e pol-o a caminho tirado por 12 juntas de bois. Infelizmente o carretão, na descida da collina, tomou carreira; os eixos se incendiaram e foi encalhar no riacho Bendegó, a 180 metros do logar onde tinha recebido a pedra.

Desta mallograda tentativa o Governador Geral, D. Rodrigo de Menezes, participou para Portugal ao Ministro de Estado Martinho de Mello e Castro, remettendo nesta occasião algumas amostras da referida pedra, para serem examinadas em Lisboa.

Em 1810, A. F. Mornay, commissionado pelo Governador Geral da Bahia para estudar fontes mineraes no interior da provincia, ouvindo fallar da existencia dessa pedra extraordinaria de ouro e prata, que elle suspeitou ser um meteorito, resolveu procural-a.

Nesse mesmo anno, Mornay, seguiu para Monte Santo acompanhado pelo proprio descobridor, Joaquim da Motta Botelho, foi ao Bendegó e lá encontrou a pedra ainda montada sobre o carretão, reconhecendo ser com effeito um meteorito composto de ferro metallico.

Com grande difficuldade tirou um fragmentto de alguns kilogrammas, que remetteu com uma interessante noticia ao Dr. Wollaston, secretario da Sociedade Real de Londres.

A noticia de Mornay foi lida áquela associação em 16 de Maio de 1816 com uma nota do Dr. Wollaston, e publicada nesse mesmo anno no Philosophical Transactions.

Deu Mornay ao meteorito as dimensões seguintes:

Comprimento 7 pés.

Maior largura 4 pés.

Maior espessura 2 pés.

Calculou a massa em 28 pés cubicos e o peso em 14.000 libras

A analyse do Dr. Wollaston deu para a composição:

Ferro 95,1 %
Nickel 3,9 %
Diversos 1,0 %

Em 1811, o meteorito foi examinado pelo brigadeiro Felisberto Caldeira, que fez nova tentativa de transportal-o para a capital.

Em 1820, os naturalistas Spix e Martius foram ao Bendegó, e encontraram o meteorito profundamente enterrado, tendo sido esta a provavel razão da divergência do peso estimado em 21.000 libras com o calculado por Mornay.

A extracção de amostras apresentava grandes difficuldades, por já haverem sido tiradas todas as pequenas saliencias pela gente da localidade, e só com trabalho insano lograram aquelles viajantes extrahir duas amostras, cada uma de alguns kilogrammas.

A analyse destes fragmentos deu a Fickentscher os resultados seguintes:

     Ferro..................................    91,90 %
     Nickel..................................    5,71 %
     Parte insoluvel em acido................    0,46 %
     Perda ( agua expellida pelo calor ).....    1,93 %

A parte insoluvel deu ao analysador :

     Oxydo de ferro..........................    0,16
     Oxydo de nickel.........................    0,14
     Silica..................................    0,06
     Carbono.................................    0,10
 

Da enorme massa do meteorito existem fragmentos nos seguintes museus:

     Museu de Munich.....................    3.675 grammas
      —    de Londres....................    2.491   —
      —    de Vienna.....................    2.371   —
      —    de Gottingue..................      315   —
      —    de S. Petersburgo.............       25   —
      —    de Berlim.....................       19   —
      —    de Erlanger...................       18   —
      —    de Copenhague.................        5   —

Em cinco ou seis collecções particulares ha da mesma origem 75 a 100 grammas.

O celebre professor J. D. Dana, em seu tratado de mineralogia, em artigo dedicado ao ferro nativo, diz :

« Entre os grandes meteoritos de ferro pesa 1.635 libras (743 kilogrammas) o de Gibbs[3] que é conservado no gabinete de Hale College (New Haven, dos Estados-Unidos), tendo 3 pés e 4 pollegadas de comprimento, 2 pés e 4 pollegadas de largura e 1 pé e 4 pollegadas de altura. Foi trazido do Red River, de Texas.

« O meteorito de Incsn, actualmente conservado na Smithsonian Institution, pesa 1.400 libras (636 kilogrammas) e foi transportado de Sonoza, do Mexico. E' de fórma annular, medindo 49 pollegadas no seu maior diametro.

« Massas ainda maiores existem na America do Sul. Uma foi alli descoberta por D. Rubin de Cellis no districto do Chaco-Gualamba (Republica Argentina), sendo calculado o peso em cerca de 32.000 libras (15.000 kilogrammas) e outra na Bahia, provincia do Brazil, tendo o volume, pelo menos, de 28 pés cubicos e 14.000 libras (6.363 kilogrammas).

« O meteorito da Siberia, descoberto por Pallas, pesou originalmente 1.600 libras (727 kilogrammas). »

O meteorito, que tomou o nome de Bendegó, desde 1820, ficou esquecido no sertão da Bahia, até que em 1883 o professor Orville A. Derby, director da secção de geologia do Museu Nacional do Rio de Janeiro, receando que o meteorito pudesse ter sido encorberto pelas enxurradas, pediu a um dos engenheiros da commissão encarregada do melhoramento do rio S. Francisco, Dr. Theodoro Sampaio, que se informasse a tal respeito.

Em data de 31 de Dezembro de 1883, diz o Dr. Theodoro Sampaio, em carta dirigida ao professor Orville Derby :

« Quanto ás informações, que me pede a respeito da massa de ferro meteorico, pude apenas colligir as seguintes :

« Pessoa que a viu, pois esta massa de ferro é bastante conhecida nos sertões de Monte Santo, diz que o sitio onde ella pára se denomina Bendegó, é uma fazenda de criar, situada á margem do riacho daquelle nome, affluente do rio Vasa-Barris, cerca de 12 para 14 leguas a N.E. da villa de Monte Santo e cerca de 27 a 30 da povoação de Queimadas, onde passa a via ferrea em construcção.

« O meu informante refere que um individuo, proprietario da referida fazenda, já tentara com o auxilio de muitas juntas de bois retirar a referida massa de ferro do leito do riacho, mas o tamanho della, o peso, a falta de meios adequados para a mover, foram a causa do insuccesso. »

Em principios de 1886, o Director do Museu Nacional do Rio de Janeiro, Conselheiro Ladsláo Netto, por indicações do professor Orville Derby, procurou obter novas informações dessa preciosidade scientifica.

Por intermedio do Director do prolongamento da estrada de ferro Bahia ao S. Francisco, engenheiro Luiz da Rocha Dias, conseguiu que fosse mandado ao Bendegó o engenheiro Vicente José de Carvalho Filho, chefe de secção daquelle prolongamento, reconhecer o meteorito e ver o meio possivel de effectuar-se a sua remoção para o Museu Nacional.

Nesse anno, o Museu Nacional recebeu pela primeira vez uma amostra do meteorito, remettida pelo director do prolongamento, engenheiro Rocha Dias, e uma noticia circumstanciada dos obstaculos que cumpria affrontar.

Em 1887, quando todas as novas tentativas para a remoção do meteorito pareciam estar abandonadas, na Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro, em sessão de 27 de Maio, li uma memoria sobre o meteorito de Bendegó, acompanhada de novas informações, que me foram fornecidas pelo engenheiro Vicente de Carvalho, e apresentei uma amostra do mesmo meteorito, alguns fragmentos da capa e dous estilhaços dos muitos que foram encontrados espalhados nas vizinhanças do logar da quéda.

O engenheiro Vicente de Carvalho calculou ter o meteorito approximadamente:

    Volume.........................   0,911
    Peso...........................   7,014 kilogrammas
    Maior comprimento..............   2m,15
      -   largura..................   1m,50
    Altura média...................   0m,66

A amostra trazida por este engenheiro foi offerecida a S. M. o Imperador, e a memoria que apresentei á Sociedade de Geographia foi publicada no 2° Boletim do Tomo III de 1887 da Revista da mesma Sociedade, e na Gazetilha do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, de 5 de Julho do mesmo anno.

Na Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro, em sessão de 3 de Junho de 1887, completei as informações sobre o meteorito, e o professor Orville Derby nesta occasião discorreu largamente sobre o mesmo assumpto.

Por indicação do presidente desta sociedade, o Sr. Marquez de Paranaguá, resoveu-se, por votação unanime, que a Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro tomasse a si fazer transportar o meteorito do sertão da Bahia para esta Côrte, com o fim de offerecel-o ao Museu Nacional.

Em sessão de 17 de Junho desse mesmo anno, communiquei á Sociedade, tendo feito antes a participação a S. M. o Imperador, que o Sr. Barão do Guahy, deputado pela provincia da Bahia, concorria com a quantia necessaria para a remoção do meteorito de Bendegó, e que o Sr. Conselheiro Rodrigo Augusto da Silva, então Ministro e Secretario de Estado dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas, estava prompto a prestar á Sociedade os auxilios que estivessem na alçada do ministerio a seu cargo.

Em 28 de Julho de 1887, o presidente da Sociedade dirigiu o seguinte officio ao Sr. Ministro da Agricultura:

Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro, 28 de Julho de 1887.

N. 239.— IIIm. Exm. Sr.— Tendo esta sociedade resolvido transportar para esta Côrte o notavel meteorito de Bendegó, que ha mais de seculo foi encontrado no sertão da provincia da Bahia, e, contando com a quantia precisa, offerecida pelo benemerito consocio Barão do Guahy e com os serviços do prestimoso consocio comendador José Carlos de Carvalho, vem ora solicitar de V. Ex. todo o auxilio que estiver na alçada de V. Ex. e que fôr reclamado pelo encarregado de semelhante commettimento, que tem por objectivo o augmento da riqueza do Museu Nacional. Aproveito a opportunidade para reiterar a V. Ex. os protestos de minha alta estima e distincta consideração.

A S. Ex. o Sr. Conselheiro Rodrigo Augusto da Silva, Ministro e Secrêtario de Estado dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas.- Visconde de Paranagaá.




O Sr. Conselheiro Rodrigo Augusto da Silva, Ministro e Secretario de Estado dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas, respondeu em data de 31 de Julho:

Gabinete do Ministerio da Agricultura, em 31 de Julho de 1887.

IIIm. e Exm. Sr. Senador Visconde de Paranaguá.— Tenho a satisfação de accusar o officio que V. Ex., na qualidade de Presidente da Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro, me dirigu em data de 28 do corrente, acompanhado da Revista da mesma sociedade (Tomo III, 2° boletim) em que se lê uma noticia relativa ao gigantesco meteorito existente na provincia da Bahia, junto do Riacho Bendegó, cujo nome lhe foi posto pela tradição.

A resolução adoptada por essa sociedade para transportar a esta Corte o referido meteorito, mediante auxilio pecuniario do Exm. Sr. Barão do Guahy, e sob a direcção pessoal do IIIm. Sr. Commendador José Carlos de Carvalho, e com o fim, declarado no officio de V. Ex., de o dar ao Museu Nacional, é digna de louvor por parte do Estado ; o que me apresso em communicar a V. Ex., para que se digne fazel-o aos seus honrados consocios.

Obter-se-ha assim, a esforços de uma corporação scientifica, particularmente de alguns de seus membros, que o Brazil conserve recolhido em estabelecimento publico e official, essa grande massa de ferro, da qual varios museus da Europa possuem desde muito amostras preciosas.

Quanto ao auxilio que estiver na alçada do ministerio a meu cargo e me fór opportunamente pedido, póde V. Ex. contar que será prestado sem detença e com particular satisfacção.


Sou, com elevada estima e profunda consideração,

De V. Ex. Amigo, Venerador, Obrigado e Criado.— Rodrigo Augusto da Silva.




Em data de 18 de Agosto de 1887, o chefe da expedição recebeu do Sr. Ministro da Agricultura as seguintes


Instrucções


Rio de Janeiro, em 18 de Agosto de 1887.— Directoria das Obras Publicas do Ministerio da Agricultura, Commercio e Obras Publicas — 3ª Secção, n. 99.


Communico a Vm., para seu conhecimento e devidos effeitos, que este Ministerio resolveu facilitar-lhe, pelos meios de que dispõe, o desempenho da commisão de que Vm. está incumbido, tendo por fim fazer transportar para o Museu Nacional o meteorito denominado Bendegó, existente na provincia da Bahia.

Neste sentido, já havendo providenciado para que a Vm. sejam fornecidos os instrumentos de engenharia de que precisar, e bem assim, prestados pelo Presidente da provincia e pelo Director engenheiro em chefe do prolongamento da estrada de ferro da Bahia ao S. Francisco os auxilios que dos mesmos dependerem, não terá duvida em proporcionar-lhe além disso quaesquer recursos que ainda forem necessarios, uma vez que estejam ao seu alcance.

Para o bom exito da commissão convém, entretanto, que o transporte do referido material seja effectuado em condições convinientes, tomando-se préviamente as medidas necessarias quanto ao caminho a percorrer e os meios de conducção, principalmente até a estação respectiva da estrada de ferro, e procedendo-se, outrosim, aos estudos indispensaveis para que a todo tempo constem minuciosamente as circumstancias que interessarem a respeito de tão notavel meteorito.

Espera, pois, este Ministerio que Vm. organizará plantas da localidade, contendo as diversas indicações que convierem para o fim exposto, e um estudo dos caracters geologicos do terreno.

Tudo o que ocorrer desde o começo até a conclusão dos trabalhos deverá ser mencionado no relatorio que Vm. apresentar.

O local onde se acha o meteorito e os mais pontos que offerecem circumstancias especiaes deverão ser assignalados por meio de marcos, que em qualquer época possam ser reconhecidos.

O louvavel interesse que Vm. tem revelado pelo assumpto, o zelo e a proficiencia com que tem desempenhado commissões anteriores, constituem garantia efficaz do bom resultado desta delicada incumbencia.


Deus Guarde a Vm. - Rodrigo Augusto da Silva.- Sr. José Carlos de Carvalho.




No paquete nacional Espirito-Santo, a 20 de Agosto de 1887, deixou o Rio de Janeiro, com destino á provincia da Bahia, o chefe da expedição, levando por companheiro os engenheiros Vicente José de Carvalho Filho e Humberto Saraiva Antunes.

A 23 do mesmo mez chegou a commissão á Bahia ; a 27 seguiu para Alagoinhas ; a 2 de Setembro para Santo Antonio das Queimadas ; a 5 a Villa de Monte Santo ; a 6 ao Bendegó, e finalmente no dia 7, anniversario da Independencia do Brazil, á 1 hora da tarde, foram inaugurados com toda a solemnidade os trabalhos da remoção do meteorito para o Museu Nacional, lavrando-se por este motivo o seguinte termo, cuja cópia authentica foi encerrada em uma caixa de ferro, que ficou collocada nas fundações do marco levantado no logar onde cahiu o referido meteorito.


Inauguração dos trabalhos de remoção do meteorito de Bendegó para o museu nacional do Rio de Janeiro


Aos sete dias do mez de Setembro do anno de 1887, durante o reinado de Sua Magestade o Imperador o Sr. D. Pedro II, e regencia da Serenissima Princeza Imperial D. Izabel, neste logar, conhecido pelo nome de Ipoeira de João Venancio, à margem do riacho Bendegó, affluente do rio Vasa-Barris, pertencente à freguezia e termo de Monte Santo, provincia da Bahia, sendo Presidente o Conselheiro João Capistrano Bandeira de Mello, achando-se presentes, á 1 hora da tarde, junto ao meteorito o cidadão José Carlos de Carvalho, chefe da commissão e os engenheiros Vicente José de Carvalho Filho e Humberto Saraiva Antunes, nomeados pela Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro, da qual é presidente o conselheiro de Estado Visconde de Paranaguá, e de conformidade com as instrucções que foram dadas ao chefe da commissão pelo Conselheiro Rodrigo Augusto da Silva, Ministro e Secretario de Estado dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas, foi declarado pelo chefe da commissão, que, por ordem da Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro e do Governo Imperial, estavam inaugurados os trabalhos da remoção do meteorito para o Museu Nacional.

E, para que a todo o tempo constasse o logar da quéda do meteorito, mandou ahi assentar a pedra fundamental de um marco, ao qual denominou Pedro II, em homenagem a Sua Magestade o Imperador, sendo postos dentro de uma pequena caixa de ferro um exemplar deste termo e outro do Boletim da Sociedade de Geographia, do corrente anno, no qual vem publicada uma Memoria sobre o meteorito.

Neste marco, que tem a fórma de uma pyramide triangular, assente sobre um embasamento de pedra tosca, serão gravadas as seguintes inscripções: Na face que fica para o nascente—Pedro II, Bendegó—1887 ; na da direita: D. Izabel, regente—Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro, presidente, Visconde de Paranaguá ; na esquerda: Rodrigo Silva, Ministro da Agricultura ; Commissão : José Carlos de Carvalho ; engenheiros, Vicente José de Carvalho e Humberto Saraiva Antunes.

Para mais certeza das condições em que foi encontrado o meteorito, tirou-se-lhe a photographia; e para constar mandou-se lavrar o presente termo, que vai assignado por todas as pessoas presentes e por mim Humberto Saraiva Antunes, servindo de secretario, que o escrevi—Assignados: José Carlos de Carvalho, Vicente José de Carvalho Filho, engenheiro civil ; Humberto Saraiva Antunes, engenheiro civil ; João Cordeiro de Andrade, presidente da Camara Municipal; Cesar Balarmino Cordeiro de Andrade, juiz de paz ; Bertholino Neves da Silva, subdelegado ; Dr. João Fillemont Fontes, lente adjunto da Faculdade de Medicina da Bahia ; Alvaro Ferreira de Carvalho, Lucas Araujo dos Santos, capitão Antonio Joaquim da Silva Lima, Manoel Fernandes de Menezes, negociantes ; Reynaldo Aurelio Tupinambá, Antiocho Juvencio de Andrade, collector ; João de Alencar Lima, Pedro Correia de Macedo, João Ferreira de Mattos, Quintino Dias Leite, Benedicto José Perreira, Antonio Rodrigues de Sant'Anna, João Mendes da Motta, Joaquim Venancio da Motta, João Venancio da Motta, Manoel Ignacio Semgrosar, José Alves de Jesus, José Ferreira Canario, Manoel Mendes da Silva, José Mendes da Motta Filho, José Mendes da Motta, Joaquim Mendes Coelho, Juvenal Ferreira Coelho, Francisco Mendes Dantas, Tietre Alves de Carvalho e Francisco Martins Fontes, juiz municipal.




Feita a exploração da zona do sertão, que devia ser atravessada, e escolhida a direcção da estrada que o meteorito tinha de percorrer até encontrar a linha ferrea ; construido o carretão e preparado todo o trem de transporte, no dia 25 de Novembro sahiu o meteorito das margens do riacho Bendegó, onde ha 104 annos o tinham deixado ficar abandonado, e começou-se essa marcha, cujas condições só poderão ser devidamente conhecidas tendo-se á vista a planta geral e o perfil longitudinal do caminho percorrido.

No dia 14 de Maio deste anno cheguei com o meteorito á estação do Jacuricy, no prolongamento da estrada de ferro da Bahia ao S. Francisco, e a 16 assentei a pedra fundamental do marco de chegada, lavrando-se nesta occasião o seguinte termo :



Termo de inauguração do marco denominado — Barão do Guahy, — no kilometro 245.316m, do prolongamento da estrada de ferro da Bahia, logar onde foi embarcado o meteorito de Bendegó com o destino ao museu nacional do Rio de Janeiro



Aos dezesseis dias do mez de Maio do ano de mil oitocentos e oitenta e oito, durante o Reinado de S. M. o Imperador o Sr. D. Pedro II e Regencia da Serenissima Princeza Imperial D. Izabel, neste logar, kilometro 245.316, perto da Estação do Jacuricy, no prolongamento da Estrada de Ferro da Bahia, do qual é Director-Engenheiro em chefe o Dr. Luiz da Rocha Dias, achando-se presentes, ás onze horas da manhã, o cidadão José Carlos de Carvalho e os Engenheiros Vicente José de Carvalho e Humberto Saraiva Antunes, membros da commissão nomeada pela Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro, da qual é Presidente o Conselheiro de Estado Senador Visconde de Paranaguá, para transportar para o Museu Nacional do Rio de Janeiro o meteorito do Bendegó, descoberto no sertão desta provincia no anno de mil setecentos e oitenta e quatro, declarou o chefe da commissão, cidadão José Carlos de Carvalho, que, de ordem do Exm. Sr. Ministro da Agricultura, Commercio e Obras Publicas e interino dos Negocios Estrangeiros, Sr. Conselheiro Rodrigo Augusto da Silva, inaugurava o marco destinado a assignalar o logar onde se effectuava o embarque do referido meteorito para a capital da Bahia, em transito para o Rio de Janeiro.

E para que a todo tempo constasse tambem que todas as despezas com o transporte desta preciosidade scientifica do logar onde foi encontrada pela commissão, nas margens do riacho Bendegó, até a Estrada de Ferro da Bahia, foram feitas pelo illustre Barão do Guahy, Primeiro Vice-Presidente da Camara dos Srs. Deputados, que a tanto se obrigou com a Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro, o chefe da commissão declarou mais, que, interpretando os sentimentos de gratidão daquella sociedade para com o mesmo Exm. senhor, seu benemerito consocio, dava a este marco o nome de Barão do Guahy.

Em seguida mandou depositar dentro de uma caixa de ferro, que foi collocada na cava aberta nas fundações do mencionado marco, uma cópia deste Termo, um exemplar do Boletim da Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro, em que vem publicada uma Memoria sobre o mesmo meteorito, e diversos numeros de jornaes da Bahia, que publicam o decreto que extingue o elemento servil no Brazil.

E para mais solemnisar este acto, mandou rezar uma missa em Acção de Graças, pela feliz conclusão da trabalhosa e difficil travessia de 113 kilometros 603m,10 pelo sertão desta provincia.

Para constar a todo tempo do occorrido, mandou lavrar este Termo, que vai assignado por todas as pessoas presentes e por mim Humberto Saraiva Antunes, que o escrevi.


                                   José Carlos de Carvalho.
                       Engenheiro Luiz da Rocha Dias.
                          »       Humberto Saraiva Antunes.
                          »       Vicente José de Carvalho Filho.  
                          »       Aluizio Augusto Ramos Accioli. 
                          »       Antonio Theodorico da Costa Filho.  
                          »       Emygdio José Ribeiro.
                       Vigario    Firmino de Souza Estrella.
                                  Cantido Gomes de Azevedo.
                                  Alfredo Alvez Maciel.




No dia 17 foi o meteorito baldeado para a estrada de ferro. Chegou á cidade de Alagoinhas no dia seguinte ; a 21 foi removido para a estrada de ferro ingleza e a 22 chegou á estação da Calçada, na cidade da Bahia, onde se conservou em exposição até o dia 28, em que foi transferido para o Arsenal de Marinha daquella provincia.

No dia 1º de Junho foi embarcado no vapor nacional Arlindo, propriedade do Sr. Claudio Vicenzi, negociante desta praça, que gratuitamente offereceu o seu navio para conduzir o meteorito.

No dia 2 de Junho sahio o Arlindo do porto da Bahia com destino a Pernambuco, levando tambem a seu bordo o chefe da commissão, que teve ordem do Sr. presidente da Sociedade de Geographia e do Sr. Ministro da Agricultura para acompanhar o meteorito.

O vapor Arlindo chegou a Pernambuco no dia 4, e a 9 sahio directamente para o Rio de Janeiro, onde chegou a 15 do corrente mez.

Nesse mesmo dia foi retirado de bordo do Arlindo e entregue aos cuidados do Arsenal de Marinha da Corte, até o dia da sua remoção para o Museu Nacional.

  1. No original do compromisso da Irmandade do Senhor dos Passos de Monte Santo datado de 12 de Julho de 1815 encontrei entra os mesarios mais graduados a assignatura de Joaquim da Motta Botelho.
    Em 1786, o missionario apostolico capuchinho da nação italiana frei Apollonio de Todi, fazendo a santa missão naquelle logar, mudou o nome de Pico-Arassú para o de Monte Santo, e collocou em uma capellinha, que alli achou por acabar, uma via-sacra, a que deu o titulo de Santos Passos.
    O Pico-Arassú ou Monte Santo eleva-se a 781 metros acima do nivel do mar.
    Na fralda oriental da Serra de Monte Santo estende-se hoje a villa deste nome.
  2. Na lingua indigena Irapiranga significa peixe vermelho.
  3. Tomou o nome do Coronel Gibbs, que o analysou em 1824.