Minha formação/XVIII

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Minha formação
por Joaquim Nabuco
Meu Pae
Edição de referência: Rio de Janeiro: H. Garnier, Livreiro-editor, 1900. páginas 184-201.
Por onde quer, entretanto, que eu andasse quaisquer que fossem as influências de país, sociedade, arte, autores, exercidas sobre mim, eu fui sempre interiormente trabalhado por outra ação mais poderosa, que apesar, em certo sentido, de estranha, parecia operar sobre mim de dentro, do fundo hereditário, e por meio dos melhores impulsos do coração. Essa influência, sempre presente por mais longe que eu me achasse dela, domina e modifica todas as outras, que invariavelmente lhe ficam subordinadas. É aqui o momento de falar dela, porque não foi uma influência propriamente da infância nem do primeiro verdor da mocidade, mas do crescimento e amadurecimento do espírito, e destinada a aumentar cada vez mais com o tempo e a não atingir todo o seu desenvolvimento senão quando póstuma, essa influência foi a que exerceu meu pai...

Quando eu o vi pela primeira vez, em 1857, ele tinha 44 anos e acabava de deixar o Ministério da Justiça. O Gabinete Paraná-Caxias (1853-57) fora o mais longo que o Império até então tinha tido e ficou sendo a mais brilhante escola de estadistas do reinado. O grupo dos “moços” que o marquês de Paraná reuniu em torno de si, mostra de que maneira ele lia os homens e o futuro. Paranhos, Wanderley, Pedreira, Nabuco estavam todos destinados a representar primeiros papéis em política. Esse gabinete foi conhecido como o Ministério da Conciliação. Ele correspondia ao pensamento, aceito pelo imperador depois do choque da última guerra civil do Império, de abrir a política aos elementos liberais proscritos, sem tirar a direção dela ao espírito conservador. Antes de entrar para o Ministério, fora Nabuco quem melhor definira o alcance e os limites dessa nova política, da qual devia ficar depois da morte de Paraná, e por muito tempo, quase que o solitário continuador. Citarei em trecho desse seu discurso de 1853 como simples deputado, discurso-programa, pode-se dizer, pelo muito que será interpretado e invocado depois que por ele é feito ministro, porque basta esse trecho para dar idéia do seu modo de insinuar nos espíritos uma direção nova, um rumo diverso do que se ia levando.

É dos seus discursos o chamado a ponte de ouro. Os discursos de Nabuco tinham entre os contemporâneos cada um o seu nome, ou, como esse, tirado pelos adversários do alcance, da intenção que lhe atribuíram, ou dado pela imagem ou frase mais expressiva, ou compreensiva, de que ele se serviria para caracterizar a situação. “Eu entendo, dizia ele falando da idéia de conciliação, a qual estava no ar, que é preciso fazer alguma concessão no sentido que o progresso e a experiência reclamam, para que mesmo o orgulho e o amor-próprio não se embaracem ante a idéia da apostasia; para que a transformação seja explicada pelo novo princípio, pela modificação das idéias. A conciliação como coalizão e fusão dos partidos, para que se confundam os princípios, para que se confundam os princípios, para que se obliterem as tradições, é impraticável, e mesmo perigosa, e por todos os princípios inadmissível; porque, destruídas as barreiras do antagonismo político que as opiniões se opõem reciprocamente, postas em comum as idéias conservadoras e as exageradas, estas hão de absorver aquelas; as idéias exageradas hão de triunfar sobre as idéias conservadoras; as idéias exageradas têm por si o entusiasmo, as idéias conservadoras somente à reflexão; o entusiasmo é do maior número, a reflexão é de poucos; aquelas seduzem e coagem, estas somente convencem... A história nos diz que nestas coalizões a opinião exagerada ganha mais que a opinião conservadora...” E em seguimento: “ Ouvi com repugnância uma idéia proferida nesta casa, que os partidos por si é que se deviam conciliar. Entendo ao contrário que a conciliação deve ser a obra do governo e não dos partidos, porque no estado atual, se os partidos por si mesmo se conciliarem, será em ódio e despeito ao governo, e a transação, versando sobre o princípio da autoridade, não pode deixar de ser funestíssima à ordem pública e ao futuro do país...”

Esses quatro anos de Ministério foram para ele extremamente trabalhosos, mas por igual fecundos. Meu pai vinha da magistratura e da Câmara com uma reputação feita de jurisconsulto. No Ministério da Justiça ele a consolidou. Não tento agora um resumo de sua obra, que extensamente recompuz em Um Estadista do Império. Escolho alguns traços somente para definir a sua individualidade e a sua influência. Coube-lhe em primeiro lugar acabar inteiramente com o tráfico de africanos que Eusébio de Queiroz, seu antecessor, ferira de morte, mas que não queria desaparecer senão mui lentamente; a menor fraqueza da parte de uma futura administração fá-lo-ia renascer com dobrada ânsia de aproveitar a monção, porque seus quadros e material conservavam-se intatos no Brasil e em África. Nabuco propõe como recurso extremo tirar-se o julgamento do crime aos jurados. Esse golpe na “instituição popular” parecia uma enormidade aos idólatras do preconceito liberal: ele, porém, sustentou-o com razões de uma coerção moral e social absoluta. “Em 1850, vós o sabeis, disse ele à Câmara, o grande mercado dos escravos era nas costas; é aí que havia grandes armazéns de depósito onde todos iam comprar; mediante essa lei de 5 de setembro de 1850”, – a lei de Eusébio de Queiroz, – “essas circunstâncias se tornaram outras, os traficantes mudaram de plano. Apenas desembarcados os africanos são para logo, por caminhos impérvios e por atalhos desconhecidos, levados ao interior do país. A face destas novas circunstâncias que pode o governo fazer com a lei de 4 de setembro de 1850, cuja ação é somente restrita ao litoral? Se desejamos sinceramente a repressão, se não queremos sofismá-la, devemos seguir os africanistas em seus novos planos... Não é para abusar que o governo quer estas disposições, porque para abusar eram bastantes e poderosos os meios que estão hoje à sua disposição... Um governo, a menos que desconheça a sua missão, não pode por amor de um interesse comprometer os outros interesses da sociedade: é na combinação de todos eles que consiste o grande problema da administração pública... Eu vos disse que o governo tinha o desejo sincero de reprimir o tráfico e não queria sofismar a repressão: não será sofismar a repressão o encarregar ao júri o julgamento deste crime?... Os africanistas não hão de deixar de procurar para o desembarque aqueles sítios em que a opinião for favorável ao tráfico; não hão de internar os africanos senão para os lugares em que acham proteção, e o júri desses lugares, os cúmplices, os interessados, os coniventes no crime, podem julgá-lo?...” O governo triunfou, a lei proposta foi votada pelas Câmaras... Ter ousado propor a derrogação da competência do júri quando o tráfico estava expirante, era a coragem do verdadeiro homem de Estado, cuja divisa deve ser o nil actum reputans de César. A glória não seria mais de repressão depois do golpe de Eusébio; este a tinha tirado toda a antecessores e sucessores igualmente; o que restasse a quem viesse depois dele era somente o dever. Mais de uma vez meu pai teve que fazer frente aos defensores teóricos da intangibilidade do júri para fazer triunfar o princípio superior da defesa social. Assustava-o a estatística da impunidade, e entre as causas desse estado de coisas ele contava o poderio das influências do interior que dominavam o júri e por esse meio aumentavam e mantinham em obediência a sua vassalagem. Como remédio propunha a concentração do júri nos lugares povoados bastante para terem uma opinião independente.

Essa era a sua qualidade principal de político: adaptar os meios aos fins e não deixar periclitar o interesse social maior por causa de uma doutrina ou de uma aspiração. Como se mostrou com o júri, mostrou-se, ele, magistrado, com a magistratura. A distribuição da justiça foi um de seus maiores empenhos na ordem administrativa, uma boa magistratura, eficiente, instruída, prestigiada, era para ele a solução de metade dos nossos problemas; levantar a vocação de juiz por todos os meios ao alcance do Estado seria o complemento do seu outro desideratum: levantar a vocação religiosa, formar um clero a cujas mãos se pudesse entregar a guarda dos dez mandamentos, o depósito da moral e dos costumes. No entanto será ele o principal sustentador das aposentadorias forçadas de magistrados vitalícios; ele quem transformará em máxima do governo, em aspiração para os homens de Estado, as palavras de um antigo chanceler francês, quando disse: “Prefiro mil vezes ser julgado por um magistrado venal, porém, capaz, a sê-lo por um magistrado honesto, porém, ignorante, porque o magistrado venal não faltará à justiça senão nas causas em que tiver interesse em fazê-lo, enquanto que o magistrado ignorante só por um mero acaso pronunciará uma boa sentença”.

Da mesma forma com o clero. Como ministro da Justiça, ele dá um forte impulso à educação do clero, propõe a criação de faculdades teológicas; é dele o decreto que confere aos bispos o poder ex-informata conscientia sobre os seus sacerdotes, sem o qual não seria praticável a arregimentação passiva da milícia eclesiástica; e no entanto é ele quem interrompe no Brasil o noviciado monástico. Seu pensamento, longe de se suprimir as ordens religiosas, era regenerá-las, restituí-las à desejada pureza, ou, como ele disse em uma frase que se gravou na memória de Pio IX, “levantar um muro de bronze entre o novo e o velho clero”. Assim também serviu a Monarquia com lealdade e desinteresse; jovem ainda, acadêmico de Olinda, partiu dele o primeiro grito ouvido e repercutido no Norte contra as tendências republicanas de 7 de abril, mas a prerrogativa monárquica não encontrou entre nós mais forte barreira do que fosse o seu espírito liberal fortemente imbuído do preconceito constitucional. É característico do seu modo de compreender a posição de conselheiro de Estado a franqueza com que perante o próprio imperador ele sustenta máxima, – o rei reina e não governa.

De 1868 a 1871, em que a idéia foi abraçada pelo visconde do Rio Branco que a converteu em lei, meu pai foi o principal agitador da libertação das gerações futuras. Em 1866 ele votara por essa reforma em despacho de ministros e em 1867 fora o seu mais extremo defensor no Conselho de Estado, como relator do projeto que depois se converteu na lei de 28 de setembro. Distribuindo no dia da vitória os louros do triunfo. Francisco Octaviano render-lhe-á este tributo: “Ao seu nobre colega o sr. Nabuco de Araújo também é indisputável a glória pelo zelo com que no Conselho de Estado, na correspondência com os fazendeiros e na tribuna por meio de eloqüentes discursos, fez amadurecer a idéia e tomar proporções de vontade nacional”.

Essa foi a reforma a que ele se dedicou com maior interesse e amor... Também desde 1866 o meu sonho, minha ambição para ele era que o seu nome ficasse associado ao primeiro ato de emancipação do reinado... Quantas cartas minhas escritas da academia, e conservadas, como ele fazia com todos os papéis que recebia, encontrei depois exprimindo aquela esperança íntima de que ele viesse a ser o Lincoln brasileiro! E de certo de sua carreira nenhum traço me é mais precioso do que esse que reconstruí com fidelidade em sua Vida e que faz dele, assim como Rio Branco foi o Robert Peel, o Cobden daquele primeiro movimento abolicionista. Assim, se ao entrar eu para a Câmara em 1879 ele vivesse ainda, ao passo que sua presença no Senado, modificaria em muita coisa a minha “liberdade de ação, em um ponto, tenho a mais completa certeza, o meu papel teria sido o mesmo, ainda mais acentuado: na questão dos escravos. Nessa ele não me corrigiria nem me conteria. A sua atitude seria, como havia de ser a de Rio Branco se assistisse a mais uma sessão legislativa, francamente favorável à abolição. Se um e outro vivessem, o caráter revolucionário do movimento teria talvez sido evitado, porque em ambos os partidos haveria no momento decisivo – depois foi tarde –, quem se identificasse com a propaganda, impedindo assim no futuro a aspiração liberal humana de tornar-se em fermento político... Eu não tenho, graças a Deus, dúvida que esta seria a sua atitude, e posso assim dizer que em 1879 não fiz como deputado senão continuar do ponto em que ele ficara, substituir-me a ele, com a diferença natural entre minha mocidade e sua velhice, desenvolvendo em favor dos escravos existentes o pensamento que ele assinalara como um dever nacional, tanto no preparo como na discussão da lei que libertou as gerações futuras.

Para o fim da vida seu liberalismo tinha tomado um tom muito acentuado, mas era sempre sob formas concretas que ele encarava a liberdade. Assim ocupava-se sobretudo das garantias judiciais da liberdade individual. Ele tinha um certo número de fórmulas constitucionais, de máximas políticas, que faziam parte de sua lealdade tanto à causa monárquica como à causa liberal. Conservador na mocidade e em toda a parte da carreira em que a vida se expandia e a emulação o inspirava, foi na idade do retraimento que ele rompeu com o partido da tradição, que a seu ver se tornara uma oligarquia, tomando a forma de um triunvirato; chefe liberal, porém, mostrou sempre preferir a maneira, o compasso, a compostura da velha escola à lufa-lufa, promiscuidade e indisciplina do seu novo campo.

Estes traços bastariam para desenhar o homem de Estado: era uma natureza liberal, com um impulso imaginativo muito pronunciado, vendo distintamente o ideal político, mas querendo realidades e não fantasmas, preferindo um pouco de liberdade que se pudesse deixar como a herança aos filhos, um bem-estar relativo, a grandes direitos ilusórios, em cuja posse não se pudesse entrar; ou a grandes reformas do mecanismo político que em nada melhorassem a condição do país. Tinha um fundo de idealismo, formado de princípios inflexíveis, mas corrigido sempre pela intuição nítida dos efeitos práticos da lei. Era um chefe de partido alheio à pequena política, o que quer dizer que exercia uma espécie de autoridade moral que os amigos e adversários compararam por vezes ao poder espiritual dos antigos mikados.

Vivendo no meio de uma elite verdadeiramente notável de homens de Estado, oradores, legisladores, a mais rica dos dois reinados em talento parlamentar, tradições políticas e conhecimentos administrativos, ele teve longo tempo entre eles por admissão geral o papel de oráculo. Para o fim falava raramente e uma tristeza invencível misturava-se às suas adivinhações patrióticas. Hoje dir-se-ia, lendo-o, que a uma distância de doze ou quinze anos o fim das instituições liberai projetava na frente a sua sombra e que ele a via avançar sobre a tribuna do Senado.

Foi muitos anos depois e sua morte, estudando-lhe a vida, meditando sobre o que ele deixou do seu pensamento, compulsando o vasto arquivo por ele acumulado, a sua correspondência política, os testemunhos, as controvérsias, suscitadas pela sua ação individual e as conseqüências a ela atribuídas por amigos e adversários, que abrangi a personalidade política de meu pai. Na mocidade ser-me-ia impossível ter dele a compreensão que depois formei; eu não teria as faculdades para isso, a calma necessária para admirar o que só fala à razão, o espírito de sistema, o gênio construtor. Mas se o estadista só podia ser medido e avaliado por mim em outra fase do meu desenvolvimento, não sofri, toda a vida, influência direta e positiva como a admiração que tive pelo homem. Sua grande ciência eu sabia bem, eu via, estar nele e não nos livros, que literalmente não eram senão autoridades de que ele se servia para o público, juízes, colegas... Mais, porém, do que sua ciência, o que me dominava nele era a harmonia visível da sua estrutura mental e moral, manifestada por uma serenidade e uma doçura sem igual.

Em 1860 meu pai mudou-se do Catete para a praia do Flamengo, onde residiu até a morte. A casa era uma dessas construções maciças ainda do bom tempo da edificação portuguesa do Rio de Janeiro, com proporções no interior de um trecho de palácio ou de convento. Ali, naqueles salões, e quartos que eram salas, ele estava à vontade, tinha o espaço e, com o mar em frente de suas janelas, a variedade e o movimento exterior, precisos a um recluso dos livros. A sociedade do Rio de Janeiro vinha às suas partidas e recepções; vizinhos, nos domingos, à missa rezada em seu oratório; durante a sessão das Câmaras, deputados pernambucanos, e sempre os íntimos, como o marquês de Abrantes, Quarahim, os antigos colegas. Isto, além das vezes que ia de carruagem ao Senado ou ao escritório, constituía toda a distração que ele tinha fora do seu gabinete. Sua vida, pode-se dizer, era exclusivamente cerebral, e nunca teve tempo, (nem um dia, talvez, em toda ela), de interromper, de suspender, essa labor contínuo, que era todo ele um serviço forçado, nenhuma parte, nem a mais insignificante sequer, sendo de sua própria escolha ou inclinação...Desse modo de viver, encerrado entre altas muralhas de livros, saindo da sua cela somente para se encontrar em presença da família com os que a simpatia ou a fidelidade reunia em torno dele, resultou aquela bondade cativante, que foi o seu principal traço.

É para mim hoje uma causa de arrependimento e compunção o não ter tido como principal aspiração saciar-me, saturar-me dele, fazer do meu espírito uma cópia, um borrão mesmo, do que havia impresso e gravado no dele, quando mais não fosse, das notações que um instante retive, mas deixei apagar... Há lacunas que não me seria possível reparar...Estou-me lembrando agora dos grandes volumes encadernados que faziam companhia no degredo do escritório à duplicata dos velhos praxistas...Era a coleção dos periódicos em que colaborara ou que redigira no Recife... Estavam ali vinte anos de sua vida...Toda essa série dispersou-se, desapareceu... Porque não coincidiu o interesse profundo, incomparável, que tudo isso depois me inspirou com o tempo em que vivi ao lado dele? Este desejo de recolher os menores vestígios do seu pensamento, os traços mais fugitivos da sua reflexão, eu sempre era, na esfera em que ele produzia, pessoal, criadora, transformadora do assunto que tratava, só me veio quando já não podia recorrer a ele, pedir-lhe esclarecimentos, fazê-lo animar para mim aquela poeira com a vida que estava só nele, dar-me a chave, o espírito da época, o caráter, o alcance, a verdade real do que ali se representava, e de que só ele possuía as limitações, a escala, o padrão definitivo em que tudo devia ser tomado...E em relação aos personagens que conhecera, com quem vivera! Porque não fiz passar diante dele, sem cansá-lo nem forçá-lo, a galeria dos seus contemporâneos para apanhar o vestígio que lhe ficara de cada um?... No entanto, quanto não conversei com ele! Anos inteiros meu maior prazer eram as horas que ele nos dava cada dia em que me embebia em ouvi-lo e, ainda mais, em vê-lo... Hoje sinto não ter tido a ambição de não ser senão o aparelho que recebesse para conservar o mais que fosse possível dele, e cuja presença continua ao seu lado lhe fosse recolhendo as reminiscências, os pontos de vista, as imagens representativas, em cinqüenta anos de atividade cerebral traçaram em seu pensamento.

Feito este ato de contrição pelo que deixei de aproveitar dele para minha própria formação e pelo que deixei perder ao seu espólio intelectual, a verdade é que nenhuma sanção moral foi por muito tempo tão forte para mim como a consciência da relação que me prendia a ele e que em todo o tempo estive sempre pronto a renunciar a uma palavra dele – que a não disse –, a minha inspiração pela sua, o papel que eu ambicionasse pelo que ele me desse. Como eu disse, só muito mais tarde, vinte anos depois de o ter visto pela última vez, pude avaliar o que chamo hoje o seu gênio político e sentir por ele toda a admiração consciente, objetiva, de que sou capaz. Mas ainda assim o sentimento da sua superioridade no seu tempo foi para mim instintivo. Longe dele, na minha esfera intelectual independente, eu exprimiria muitas opiniões, diversas das suas, teria muito exagero da linha que ele levava; não haveria hipótese, porém, de não ceder eu à menor pressão que ele julgasse preciso exercer sobre mim, a uma persuasão que me quisesse incutir. A pretensão da mocidade, que se inspira em si mesma e decreta a sua infalibilidade, porque só vê o lado das coisas ao seu alcance, desapareceria sem hesitação a um apelo da sua ternura, a um toque da sua razão superior. Prouvera a Deus tivesse sido assim nos primeiros anos da curiosidade intelectual insaciável, quando primeiro travei conhecimento com a terra incógnita assinalada no mapa da fé como o limite da própria imaginação.

O espetáculo da sua devoção concorreu mais do que nenhuma outra influência para conservar durante anos intacta a minha crença; depois esta passou por grandes abalos, mas aquela impressão predominante fez-me sempre tratar o que me parecia essencial na religião como a esfera superior ou a fonte mais elevada da inspiração humana... Alguma vez, entretanto, pensando nele e na sua grande autoridade sobre mim, não deixei de sentir a vantagem que os espíritos emancipados se atribuem em relação aos que nunca saíram da fé. Era no tempo em que eu perguntava a mim mesmo se um homem, mesmo tendo o gênio de um Santo Tomás de Aquino, podia ser chamado superior, se não tinha, em nosso século, outro horizonte intelectual senão o da revelação... Talvez pensasse eu então como consolo que meu pai também tivera dúvidas que não deixava perceber, ou que tinha voltado à fé como uma síntese já pronta da vida humana em todas as suas relações depois de ter debalde procurado construir outra por si mesmo. Só mais tarde alcancei compreender que a inteligência pode trabalhar até ao fim inteiramente alheia aos graves problemas religiosos que confundem o pensador que os quer resolver segundo a razão, se nenhum choque exterior veio perturbar para ela a solução recebida na infância. A dúvida não é sinal de que o espírito adquiriu maior perspicuidade, é às vezes um simples mal-estar da vida. Uma existência ocupada por grandes trabalhos pode não ter um momento para dar à dúvida religiosa. Se não é exato dizer que a dúvida nunca ajudou nenhum dos grandes gênios da humanidade no traço ou no aperfeiçoamento de sua obra, o número dos que ela assistiu é seguramente pequeno comparado ao dos que não precisaram de um sopro de negação para os inspirar e souberam criar, crendo. Uma coisa pelo menos é certa, a saber, que as faculdades criadoras devem estar solidamente construídas para que a dúvida não as faça produzir uma obra menos considerável ou menos bela do que o faria a fé. A dúvida pode ser o indício de um novo destino humano, o esboço de uma inteligência ainda por vir, mas ela levará muito tempo para chegar a formar um sentido superior à religião. As minhas idéias sobre o que constitui a superioridade intelectual mudaram felizmente muito desde esse tempo em que eu procurava pretextos para atribuí-la a espíritos destituídos da faculdade da dúvida, mas que em tudo mais me impunham admiração, como meu pai. Eu tomaria por vezes então um literato, um escritor, como superior a um desses pensadores ásperos, cuja idéia só se pode colher depois de quebrar o invólucro resistente que a protege. É como se a flor que dura uma manhã devesse ser a última expressão do mundo vegetal da preferência ao cedro milenário, pai da floresta.