Modos de ser

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Modos de ser
por Cruz e Sousa
Texto publicado em Missal

Com uma nobre emoção da Arte dizia Balzac que faltariam sempre cordas à lira de uma alma que nunca tivesse visto o Mar.

Na verdade, sem o mar, sem esse organismo vivo, movimentado, vibrante, as perspectivas como que são indecisas, vagas, a retina pouco se desenvolve e educa sem essa larga vastidão das ondas, de onde parece subir, nascer para o alto, como uma luz original, todo o sentimento indutivo das coisas.

Diante do Mar, à sua influência vital, que é a influência da força, do vigor do pensamento, as faculdades de cada um recebem impressões estéticas muito consideráveis, ampliando o seu modo de ser, dando-lhe a sugestão das latitudes geográficas, correspondentes também, para um espírito de indução e dedução fina e atilada, à amplidão das idéias.

Gozar o Mar é viver, sentir a eflorescência da carne, crer n’algum poder forte e épico que nos encoraje, dê ao pulso e ao cérebro essa poderosa segurança de existir que levanta sobre rijos alicerces os princípios e crenças de cada homem.

Do mar vem essa emanação virginal, salutar, que traz o impulso às ações, o vigor nobre à vontade, dando a todo o organismo uma função especial, uma atividade própria, uma determinação expressivista da Natureza.

Os efeitos maravilhosos que a visão recebe do mar , como uma máquina fotográfica recebe nitidamente as fisionomias, desenvolvem-se nos temperamentos artísticos em impressões, em nuances, em colorações, em estilo, em linhas, em sutilezas de percepção, em ductilidade, em fiorituras de imagens, em abundantes floras de imaginação, tão múltiplas e luminosas quantas são as infinidades de ilhas verdes de algas e de sargaços que o Mar contém em seu seio.

Ele infiltra nos órgãos emocionais e pensantes todo um exuberante eletrismo nervoso, todo um fluido de luz e originalidade, uma essência, um germe rico e novo de graça e fantasia alada.

Fica numa saudável impressão e frescura radiante de caça e pesca, numa alegria de sol undiflavando rouparias brancas e finas.



Serenidade de Campo e Mar é esta em que estou agora.

Campo fértil, verde, como se agora mesmo brotasse, em flor, da terra.

Nas manhãs claras, de grande majestade de sol, pelos domingos, a missa da capela branca convida a digressar entre árvores, sob o festivo e claro repique do sino.

E, por estar no campo, numa extensão de relva, de verdurosas alfombras, lembro-me vivamente dos campos das paradas, ao sol, num espelhar faiscante de baionetas, rutilar de fardas e triunfal desfraldamento de bandeiras, quando, imensas, pesadas massas marciais, na evolução de um corpo disciplinar, agitam-se, num tinir e cintilar de metais, como enorme serpente de coruscantes escamas.

Com o espírito livre, em asa aberta, eu procuro arrancar das vozes mudas, inexprimíveis da Natureza, significações.

Campo e Mar estendem-se até longe, ao infinito horizonte, fulgurando às luxuosíssimas sedas do sol.

Elevados cômoros de areias alvas, ao longo das praias, conservam a aparência de grandes dorsos de elefantes brancos deitados.

Então, um ritmo me sobe da alma ao cérebro para me afinar os pensamentos em aspectos felizes, luminosos, como quando os alemães, fumando cachimbo e bebendo cerveja, por entre uma leve névoa ideal de fumo e álcool, mentalmente produzem filosofias...

Como essas raças finas e loiras a que nada mareia a pureza clara da carne civilizada, a idéia da Arte surge-me, alvoresce-me no espírito, diante das ondas, sideral, imaculada, como uma doce monja vestida de linho branco e virgem.

Estranhos, misteriosos, na magia dos feiticeiros caldeus, com o pensamento cristalizado na Forma, sinto que me ferem o cérebro, pesando fundo sobre ele, os nevropatas de agudez psíquica, mórbida, doentia, os psicólogos tenebrosos que como Huysmans, vibram num eletrismo histérico, numa dança macabra, satânica, num delirium tremens de sensações.

Ninfomaníacos mentais, como que sob a impressão de um sono de morfina ou de ópio, numa alucinação ou fascinação de hipnotizados, a alma deles flutua, desce sombriamente lá abaixo, ao antro negro da Terra, ou sobe lá acima, à infinita mudez do céu, como que em busca, sinistros e luminosos, revoltados Moisés de uma Bíblia nova, em busca de saber qual a doença que dá a morte...

Sentem-se-lhes isso na tortura da prosa, no funambulesco cabriolar do estilo, na acre violência das palavras, abertas umas em chagas e escorrendo sangue, outras brancas como Noivas amadas derramando lágrimas astrais...

E, dentre esse exalar de vida espiritual dolorosa, rompem coros de catedrais entoados por veladas, místicas vozes freiráticas; ouvem-se Missas negras e abrem-se, num ritual cristão, para a contemplação dos augures e dos símbolos, os medievos Hagiológios.