Moritura

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Moritura
por Luís Delfino
Publicada em Rosas Negras.


É tarde, e sopra a viração tão forte!
Vossa excelência expõe-se a algum sereno:
Além disto, está úmido o terreno,
E traz, diz o anexim, desculpa à morte.

— Obrigada, senhor; mas não se importe:
Talvez cure um veneno outro veneno.
Eu sou como o esvaído som de um treno
Que, muito antes do fim, o leva o norte.

Acabando, tomou-a a tosse rouca,
Levou ligeiramente o lenço à boca
E manchado o tirou de um sangue rubro.

Riu-se e tornou: — Não viu a boa nova?
Olhe, já ouço a enxada abrir-me a cova,
E entre as névoas da morte o sol descubro.