Motta Coqueiro/V

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Motta Coqueiro por José do Patrocínio
Capítulo V: Um cumprimento de palavra


A moléstia de Antonica deu lugar a mais uma intimidade perigosa na sua família.

Na qualidade de mezinheira foi chamada a tia Balbina para debelar o mal que assombrosamente devastava o organismo da moça.

A feiticeira tinha para insinuar-se a maciez da dissimulação e, apesar das asperezas do seu exterior, o trato, refalsadamente humilde, era agradável como o contato do pêlo da lontra.

Esperando pacientemente a oportunidade para arriscar uma palavra, penetrando até o fundo das consciências com o seu olhar que possuía a calma perspicácia da vingança, Balbina era dotada de uma espécie de talismã fatídico que atraía para si todos os espíritos que se lhe acercavam.

Dois fatos chamaram prontamente a atenção da cabinda, que andava sempre à cata de elementos para com eles; fortalecer a teia em que buscava enredar os seus senhores: foram a tristeza de Chiquinha e um visível apatetamento que obscurecia as faculdades de Mariquinhas.

Chiquinha chegou-se um dia à Balbina e queixou-se-lhe de que passava os dias opressa por uma tristeza inextinguível ora povoada de sobressaltos, ora de visões encantadoras e carinhosas.

— Não sei o que tenho, tia Balbina, parece que estou sempre sonhando...

— Além disso, continuou Chiquinha, tudo me aborrece e tudo me preocupa; não tenho vontade de comer e se alguma força faço sobre mim calo num enjôo, que só se acaba por vômitos. Vou emagrecendo a olhos vistos.

Os sintomas dados por Chiquinha eram claros demais para a arte da feiticeira e assim podia esta falar com toda a segurança.

Mas o poder de Balbina era o mistério e a dubiedade de sentido das suas palavras, que lhe deixava sempre aberta uma saída. Preferia o labirinto à linha reta.

Segundo os seus hábitos Balbina respondeu à queixosa:

— O coração da gente bate às vezes com força; os olhos não vêem, o corpo não foge. À hora da lua o mata-pasto de flor amarela fecha, como os cativos seus olhos cansados, as folhas que são o relógio do escravo. Mas o coração não deixa de bater, não quer se trancar dentro do peito; quer voar como o vaga-lume.

De manhã, quando o sol nasce, a folha é que se abre então, e o coração é que muitas vezes fica fechado. Balbina não pode proibir que o grilo verde roa a folha que se abriu ao sol, nem que a tristeza more no coração que se abriu aos raios da lua.

— Mas quem é que lhe disse que meu coração se abriu na hora da lua? perguntou-lhe a moça admirada.

— Carolina gemia; a alma de Balbina ficou triste como o carneiro que vai morrer, e a cabinda saiu para pedir às ervas de Deus o sossego da crioula. Na baixada cresce a erva-de-são-joão com o seu cheiro bom e com a sua penugem de pombo novo. A cabinda queria trazer a erva para remédio da doente. No meio da colheita Balbina se assustou, porque viu um vulto branco como a boneca da paina...

— E quem era este vulto? interrogou a voz trêmula de Chiquinha.

— A negra não é quem pode dizer à filha dos brancos, respondeu Balbina lançando à moça um olhar, que a fez envermelhecer. A negra viu o vulto branco, mas não pôde saber quem era o outro, que tomou pelo caminho da baixada.

— Mas diga, tia Balbina, diga o que é que eu tenho; diga pelo amor de Deus.

— Balbina só pode falar dentro do ouvido de sá Chiquinha; escute.

A preta começou então a segredar, e à proporção que ela falava, Chiquinha empalidecia.

Quando Balbina terminou, as lágrimas corriam em borbotões pela face da moça, que só teve forças para exclamar.

— Oh! meu pai do céu, salvai-me por que eu estou perdida.

— O pai do céu é bom; se a filha dos brancos disfarçar, se não ficar sempre triste, pode esconder dos olhos de seu pai, até que possa aparecer com seu marido. Sá Chiquinha não há de ser infeliz como Carolina, que foi quase a morrer parar nas mãos do doutor, porque o pai desprezou o filho da crioula.

Chiquinha começou desde esta hora a esperar o dia em que devia ter uma fatal certeza, e Balbina continuou na sua tarefa gratuita de tudo observar.

Antonica tinha entrado em convalescença e já passava horas inteiras a conversar com sua mãe e irmãs.

Através do amuo inerente à enfermidade já escapavam-lhe do coração para os lábios uns fugitivos sorrisos.

Ainda uma extrema fraqueza impedia-a de levantar-se sozinha, e todavia os serviços de Balbina foram dispensados pela família do agregado.

Esta venceu por fim, deixando aquele ansiar prostrado na liça.

Interpretando como um acolhimento benévolo e digno o silêncio de Mariquinhas, Manuel João continuou ainda mais submissa e humildemente:

— O amor é assim mesmo, sá Mariquinhas; às vezes fica-se doido. Quem ama deve perdoar.

Ditas estas palavras, o feitor achegou-se vagarosamente de Mariquinhas e curvou-se para profanar-lhe mais uma vez as faces morenas.

Tudo quanto a dignidade tem de mais solene quando uma provocação iníqua vem sobrelevá-la, irrompeu da fraqueza de Mariquinhas.

Pondo-se de pé, com os punhos cerrados, os lábios trêmulos e a voz repassada de ameaçadora amargura, recuou para logo avançar corajosamente até o feitor.

— Escute bem, seu covarde; exclamou Mariquinhas; eu já lhe estimei muito, mas hoje tenho até nojo de você, seu malvado. Deixe-me passar.

E adiantou-se para passar. Foi, porém, tolhida pelo feitor, que segurara-lhe o braço, exclamando.

— Perdoe, sá Mariquinhas; eu hei de me casar com você.

— Nunca! exclamou a moça, que se pôde livrar; prefiro morrer; pode fazer o que me disse; mate-me.

Manuel João ficou de pé com o ar boçal de um larápio surpreendido enquanto Mariquinhas se afastava.

Deliberava-se talvez a segui-la, mas no mesmo instante passou por junto dele a tia Balbina, sobraçando um feixe de gravetos.

Balbina tinha ouvido quanto era bastante para compreender que um ato de violência tinha sido cometido pelo feitor contra a moça, e Manuel João por sua vez convenceu-se de que a feiticeira estava de posse do seu segredo.

Era de seus dias no sítio a descoberta dos instrumentos de feitiçaria em poder da escrava e portanto fácil lhe foi atinar com um meio que, no seu entender, frustraria toda a importância das acusações que ela, porventura, tencionasse fazer contra si.

Confiado na solução razoável que engenhou para a sua melindrosa situação, o feitor esperou a oportunidade para pô-la em obra.

A convalescença de Antonica adiantava-se com felicidade e rapidez, graças a um tratamento de pronta eficácia, a medicação da esperança.

Motta Coqueiro aliava, no fino quilate do seu caráter, duas qualidades de todo o ponto heterogêneas, mas por isso mesmo de fácil combinação, a bonomia e a austeridade.

Foi a segunda qualidade a que recebeu a declaração de Antonica, mas quando o fazendeiro viu as conseqüências da sua recusa franca e digna, o seu ânimo essencialmente benévolo increpou-o rispidamente, dando-lhe a responsabilidade da tentativa de Antonica.

O resultado foi Motta Coqueiro resolver-se a contemporizar com aquela paixão ardente e que resolvera fazer-se impor pela própria loucura, ou respeitar-se pelo remorso.

Em uma das remissões da febre delirada da filha do agregado, esta ao abrir os seus grandes olhos amortecidos encontrou o olhar com a observação comovida de Motta Coqueiro.

O quarto silenciava numa triste penumbra, só, destoada por um listrão impalpável de luz, coado pela fresta da porta semi-aberta e no qual turbilhonavam sem ruído inúmeras partículas de pó.

Neste ponto foi fixar-se o olhar da moça.

— Tive ainda agora um sonho, disse ela depois de uma demorada contemplação; como ali eu vi uma grande faixa de luz, onde em vez de poeira subiam e desciam anjinhos. Entre eles e sobre a luz boiava eu como uma folha no rio. Eu tinha os olhos abertos, via, mas nem podia mover-me nem falar. Ia à mercê de um empurrão invisível, mas de repente parei, meu corpo havia-se encostado sobre o peito de alguém. Se este sonho se realizasse eu preferia morrer.

— Isto foi um delírio, minha filha; não pense mais na morte, e não terá destes sonhos. Veja se pode acalmar-se; eu estou aqui ao seu lado.

— E há de estar sempre?

— E por que não hei de estar? Pensa que não lhe estimo muito, muito...

— Como estima a toda a gente, que precisa que se lhe faça bem.

— Mais do que isso, Antonica; é a estima que se dá a um coração, que sabemos que bate por nós. Se você morresse, eu nem sei o que seria de mim.

— Eu tinha vontade de morrer, porque sei que seu capitão ficava descansado.

— Quem sabe do futuro, Antonica! talvez eu não sobrevivesse muito.

O egoísmo incandescente do amor espanejou-se triunfante no coração de Antonica; revelou-o eloqüentemente a ternura de seu olhar. Uma alegria infantil dourou a pausa que houve no diálogo, alegria de um moribundo, que voluntariamente escondia na sombra de um túmulo as mais risonhas ilusões, e que de súbito afasta a sombra ominosa e sente inundar-se dos esplendores da ventura.

— É mentira minha, é mentira, exclamou Antonica; eu estava sem tino, o que eu quero é viver, seu capitão, viver!

— Sim. você há de viver para seus pais, para mim, que tenho na sua amizade o melhor prêmio do pouco bem que tenho feito.

Este único aceno amistoso ao ideal de Antonica, róseo colorido de alvorada em céu borrascoso. reanimou-a, ou melhor ainda, ressuscitou-a.

As simples frases de benévola consolação foram o esplêndido fiat no vácuo do existir de Antonica; decompuseram-se e transformaram-se em outras tantas estrelas, asterismos tranqüilos, convergindo os raios em um único foco — a possibilidade do amor.

Efetuou-se a cura radical da loucura pela polarização da luz da esperança.

O restabelecimento caminhou desassombrado e rápido e o amor atulhou com pétalas de flores a sepultura já hiante aos pés da desventurada amante.

Os serviços de Balbina foram definitivamente dispensados e a escrava tomou para os ingratos labores do eito e para o meio da consideração supersticiosa dos seus parceiros.

O feitor era agora inexorável e exigente até a insensatez. Por maior que fosse a agilidade dos escravos achava-os sempre morosos, e não raras vezes vibrava o chicote sobre as costas nuas dos miseráveis trabalhadores.

A sua atenção voltava-se peculiarmente para a tia Balbina, a quem alcunhou-a marralheira.

— Arriba! arriba! gritou ele um dia, à medida que estalava o chicote sobre as espáduas da preta; não dormes de noite ocupada com a feitiçaria e de dia estás a cair de preguiça. Vê se ficas asseada com este espanador.

Nem um ai escapou aos grossos beiços da feiticeira, amargou calada a vingança, a ruminar a desforra.

À noite a preta foi de novo surpreendida pela cólera do feitor, que veio passar-lhe revista à senzala. Achou somente uns registros de santos, porque o mais a prevenida Balbina tinha posto em lugar seguro.

Mas nem por isso o feitor julgou-se quite com a feiticeira; na hora da revista matutina, cônscio de que Motta Coqueiro acreditá-lo-ia, Manuel João lavrou carregando as cores um libelo contra a escrava.

— Não se pode aturar, disse ele, não quer trabalhar, continua com as feitiçarias e já me contaram que ela quer que o meu amo mande-a para a casa do seu senhor; porque — diz ela — vosmecê está comendo o suor alheio com o trabalho dela.

— Então ainda não te desenganaste, negra? bradou o fazendeiro; eu vou dar-te o senhor e o feitiço. Fidélis! Peregrino! agarrem-me aquele demônio.

Balbina não articulou uma queixa, nem uma desculpa, deixou-se ficar com os braços cruzados e a cabeça baixa. Os dois escravos obedeceram e fizeram-na chegar até junto de Coqueiro.

Principiou então uma destas cenas repugnantes e iníquas; os escravos ataram os pulsos de Balbina e amarraram-na pela cintura a um dos esteios do terreiro e cada um empunhou um azorrague.

O castigo ia ter lugar com a barbaridade de que são sempre alvo os feiticeiros, entes malditos e execrados pelos homens do sertão.

Pelo braço de Mariquinhas apareceu, porém, no terreiro a agradecida Antonica. Ao ver Balbina em semelhante posição; lavando-se em lágrimas a moça pediu que perdoassem a escrava, que tão prestativa lhe fora na enfermidade.

O fazendeiro atendeu.

— É assim que se botam a perder os negros, resmungou Manuel João; mas eu hei de mostrar.

Motta Coqueiro ouviu o resmungar do feitor e resolveu examinar com os próprios olhos a causa que motivava tanto azedume contra Balbina.

O sol era ardente, o calor abrasava. Era a hora em que o canavial inclina as folhas como as penas de um cocar enorme; em que a cigarra chilra tanto quanto fala um energúmeno, sem pausa, sem termo; em que a araponga-branca, à semelhança de um soluço de espuma sobre o verde-mar do oceano, tine entre a folhagem do ipê vestido de novo os seus cantos agudos e tristonhos.

Voam as nuvens de tiés e guaxás piando, tontos de calor, e as tiribas gárrulas coçam as asas de esmeralda entre a sombra rarefeita das embaúbas.

Sob a copa das grandes árvores do descampado, o chão acolchoado de folhas assemelha-se a uma praia coberta de conchas de ouro, mas conchas sonoras, como pequenas marimbas cujas cordas dedilhasse o tênue sopro da aragem. E a multidão dos canários que aí se abriga da crueldade da canícula.

No meio da floresta ouvem-se todos os sons conhecidos; desde o uivo soturno da turubina em atividade, imitado pela cachoeira que ao longe se despenha na grota, até o tilintar do martelo na bigorna imitado pela araponga; desde o som do cornetim tocado ao de leve, fingido pela alegria curiosa dos galos-da-serra, até o gemido profundo, soluçado pelas juritis.

É a glorificação da sombra pelo mais harmonioso dos coros, e a mais cadenciada das orquestras, regidos pela natureza.

Os escravos de eito não se abrigavam, porém, senão sob a copa rendada das sambabaias, e as alas de cafezeiros.

Manejando as enxadas polidas, como o sacristão maneja a campainha na hora da elevação da hóstia, ofereciam aos céus, entre os cantos monótonos, o maior de todos os sacrifícios, o grande sacrifício do trabalho.

O eito subia rápido e já estava em mais de meio. Lavada em suor Balbina encostou a enxada a um cafezeiro e dirigiu-se ao feitor participando-lhe que ia beber água.

Dentro de alguns minutos a cabinda estava de volta, para não dar pretexto à explosão da raiva de Manuel João.

— Oh! tia, bradou ele, a água tinha espinhas?

— Balbina não demorou, respondeu a preta; o eito ainda não andou nem o cabo de uma enxada. A carreira de café que Balbina limpa, ficou sem adjutório, porque ela pediu aos seus parceiros. Balbina há de chegar com eles ao fim do eito.

— Vamos! continue com o seu palavreado; eu estou ouvindo.

— Vosmecê perguntou, eu respondi.

Manuel João incumbiu ao seu rebenque a contradita à lógica da escrava, mas ainda não tinha descarregado a segunda lambada, quando foi sustado por um grito.

Motta Coqueiro tinha acompanhado a distância a gente e, escondido, seguia todos os movimentos do feitor e da preta Balbina.

Certo de que uma injustiça era a motora do castigo, o homem que só se inspirava na retidão e que só por ela era severo, indignou-se e fulminou na mesma hora o culpado.

— Sr. Manuel João, está desobrigado da feitoria do meu sítio; eu quero castigos mas não vinganças.

O miserável rapaz ficou por muito tempo estatelado sem poder pronunciar uma única silaba.

— Mas, meu amo, observou ele por fim; eu não posso sair hoje daqui; não tenho para onde ir. Se meu amo não está satisfeito comigo como feitor, deixe-me ficar por enquanto como trabalhador.

Motta Coqueiro tinha-se voltado para os escravos e caminhava para eles, simulando não ter ouvido ao confuso Manuel João.

— Oh! lá, vocês ficam por ora às ordens do Fidélis; é com ele que têm de se entender.

Olhando, porém, para o ex-feitor, Motta Coqueiro fraqueou na resolução de fazê-lo sair imediatamente do sítio.

O homem, que por vezes tinha-lhe feito emboscadas, cujo rancor pelo fazendeiro era extraordinário, quedava covardemente após tão grande desfeita na mais humilde posição.

Tinha o chapéu de lebre sobre o cabo do rebenque e os braços cruzados sobre este.

O rosto exprimia simplesmente o vexame que o acabrunhava, mas nem de leve um indício de cólera; parecia resignado a cumprir a pena, que a sua imprudência havia provocado.

Completamente desarmado pela atitude inesperada do ex-feitor, Motta Coqueiro, querendo dissimular a própria falta de energia, dirigiu-se a ele, dizendo:

— Eu preciso de trabalhadores; se quer ficar, faça o que entender; mas lembro-lhe que o sítio está a cargo do Fidélis.

Era a melhor evasiva encontrada de pronto pelo explosivo, e ao mesmo tempo bondoso coração do fazendeiro.

Em rápido raciocínio convencera-se de que Manuel João não se decidiria a submeter-se à autoridade de um escravo sobre o qual ainda havia pouco tinha poderes discricionários.

A proposta, pensou Motta Coqueiro, irritá-lo-á e assim evitarei que ele continue. Mas a baixeza de caráter do ex-feitor excedia todos os limites imagináveis.

— Não importa, não, meu amo; o que eu quero é trabalhar, ao menos até arranjar outra casa.

Retiraram-se ambos, o fazendeiro quase arrependido da severidade com que punira o empregado e este com o desembaraço do homem desbrioso.

Os pretos ficaram sós, mas nem por isso a atividade diminuiu nem o trabalho desacalorou-se.

Um desafogo íntimo substituiu a pressão moral que os oprimia, e agora podiam livremente medir o esforço para o obrigado labutar, sem fim na vida, como a montanha de Sísifo.

As bagas mornas de suor como que se converteram em estrofes, aladas em sons melancólicos de monotonia pungente, inspiração de poetas desconhecidos, talvez mártires de igual destino, e por isso mesmo privando a intimidade de todas as tristezas, desilusões, desalentos, queixas e suspiros da escravidão.

Um desses cantos era assim:

Nasce a flor, rebenta o fruto,
Seca o fruto, a folha cai,
Ai!

Mas a água do ribeiro
Rolando, rolando vai,
E se espedaça na grota,
Porém das bordas não sai.
Ai!

Corre a enxurrada roncando
Grita aos rios: — transbordai!
Ai!

Mas a água do ribeiro
Rolando, rolando vai.
Suspira e chora na grota,
Porém das bordas não sai.
Ai!

Some-se a lua na aurora,
No sol a estrela se esvai,
Ai!

Mas a água do ribeiro
Rolando, rolando vai;
Em vão soluça na grota,
Porque das bordas não sai.
Ai!

Triste sorte a do cativo
Seja filho, ou seja pai,
Ai!

E triste como o ribeiro
Que sempre rolando vai,
E se espedaça na grota
Porém das bordas não sai,
Ai!

A tia Balbina, mais do que nenhum outro; deixava transluzir no semblante o júbilo que lhe ia nalma. Duas vezes vitoriosa elevava-se ante o ex-feitor e isto firmava cada vez mais os seus créditos de invencível.

Às horas do jantar, contentes como bons amigos que se banqueteiam. os infelizes riam alegremente diante das cuias, e adubavam a refeição com lisonjeiras observações.

— A tia Balbina matou dois coelhos de uma só paulada.

— Tem mão certa.

— Quando ela diz uma cousa acontece por força.

A feiticeira recebia prazenteira as manifestações amistosas dos parceiros, preconizando a proteção dos céus para os inocentes, e a sua punição para os injustos.

A refeição ia já no fim, quando chegou ao lugar o novo feitor, o destemido Fidélis, tipo completo do negro de fazenda, com todas as suas virtudes e defeitos; trabalhador e intrigante, supersticioso e vingativo.

Não tinha-lhe favoneado a vaidade a inopinada distinção que mereceu ao senhor, odiava os brancos e sabia que, distinguindo ou castigando, o senhor só tem em vista tirar o maior proveito possível de seu escravo.

Recebeu a investidura de feitor pela mesma razão por que levantava-se de madrugada para a revista, e em seguida trabalhava do sol nascente ao sol posto; recebeu-a porque era escravo e para este só há uma lei — obedecer.

No mais era uma criatura da tia Balbina, que o considerava a ponto de rir-se para ele.

Por isso mesmo a sua nomeação foi recebida com entusiasmo pela gente de roça, convencida de que ia melhorar de sorte. Assim é que foram cordialmente recebidas as primeiras palavras da nova autoridade, pondo em exercício as suas funções. Mandando recomeçar o trabalho, Fidélis disse com lhanura a seus parceiros.

— Vamos, rapazes! é preciso mostrar que não é necessário chicote para se fazer o serviço; o negro não é boi, que precisa de carreiro e ferrão.

E os escravos voltaram alegremente aos seus cantos, e a manejo das suas enxadas operando verdadeiros prodígios de trabalho.

A cabinda começou então a dar o plano infalível de que resultaria a total derrota e perda de Manuel João.

Era o mais simples dos planos atacá-lo pelo coração, que suspirava ardentemente por uma palavra de esperança, por um consolo no perdão.

Carlos se incumbiria de dizer ao ex-feitor que Mariquinhas o esperava para falar-lhe, Fidélis trataria de surpreender com o maior comprometimento a entrevista.

Balbina reservou-se a parte mais difícil, a de fazer com que Mariquinhas se encontrasse com Manuel João.

Antes, porém, o feitor faria saber ao seu senhor todo o movimento da família de Chico Benedito, conhecido pela feiticeira.

O plano de Balbina mereceu inteira aprovação de Fidélis, que tratou logo de pôr Motta Coqueiro de sobreaviso. O fazendeiro não viu, porém, nas comunicações do feitor mais do que a realização das suas suspeitas acerca das intenções dos noivos, tão caros ao seu compadre, e mais um motivo para insistir com ele a apressar a construção da casa longe da em que estava agora.

Estava quase a findar-se o trabalho do embalsamento e brevemente Motta Coqueiro devia retirar-se. Urgia, portanto, tomar todas as providências para que o sítio ficasse em paz durante a sua ausência.

— Compadre, disse um dia Motta Coqueiro a Francisco Benedito; eu vou demarcar as terras em que você há de levantar a casa.

— A falar verdade, compadre, respondeu o agregado, isto não me está cheirando bem. Parece que me quer pôr fora de sua casa, e não tem franqueza de dizer.

— É uma desconfiança para que não lhe dei causa, compadre; o que eu quero é que você cumpra o trato; no caso contrário é outra cousa.

O modo brusco pelo qual Francisco Benedito respondeu ao fazendeiro e depois o amuo com que o tratava, contrariaram no extremamente Motta Coqueiro percebeu que as suas relações estavam estremecidas e desde logo retirou-se também de familiaridades com a família do agregado.

Antonica voltou de novo a exaltação da sua insensata paixão e já agora não tratava de ocultá-la. Um dia em que o Viana veio à sua casa rompeu desabridamente com ele, pondo assim a descoberto as benfeitorias do pai, e respondeu rudemente a este, dizendo-lhe que não o temia, porque teria por si a proteção do fazendeiro.

Arrependida de ter assim procedido, a moça tentou em seguida remediar o mal causado, reatando a amizade entre a sua família e o fazendeiro e foi procurá-lo à casa grande.

A alucinação impedia que Antonica pensasse na impropriedade da hora escolhida, e Manuel João que, louco também, farejava os arredores do casarão, viu-a sair e seguiu-a.

Quando à tardinha o fazendeiro, montado no seu alazão, revistou o serviço do dia, ficou cheio de pasmo: tinha-se feito três vezes mais do que ordinariamente.

Enquanto de modo tão expressivo os escravos festejavam a saída do ex-feitor, este amargava em silêncio bem tristes decepções. Andava como que envolvido numa gargalhada geral, desdobrada pelo céu límpido, pela aragem tranqüila, pelas árvores virentes, e o que mais lhe doía, pela própria Mariquinhas.

Era, porém, uma gratuita injustiça feita ao caráter da moça, a quem a notícia da demissão do feitor, se alguma cousa causou, foi dó.

Corrido diante dos seus próprios olhos, Manuel João não tinha forças para ausentar-se do sítio; ligava-o aí o casarão, a imagem de Mariquinhas e a própria infâmia que contra ela praticou.

Acabrunhado pela infelicidade nem ao menos lembrou-se dos seus companheiros e conselheiros; não arredou pé do sítio, temendo talvez que isto lhe custasse a perda do próprio lugar de trabalhador, que lhe dava ocasião de ver a mulher que o apaixonava.

Foi justamente esse apego a causa da sua pronta expulsão.

Balbina não podia sofrê-lo nem mesmo depois de vê-lo assim decaído; a sua presença era uma ameaça ao seu bem-estar e ao dos seus parceiros, e além disso ela tinha dado palavra à Carolina de punir o seu abandono.

Resolveu, portanto, perdê-lo de uma vez aos olhos de Motta Coqueiro, cousa facílima agora que Fidélis era o feitor da casa.

Uma noite a feiticeira convidou o feitor para a sua senzala e dirigiu-lhe a palavra.

— Balbina, disse ela, queria falar ao seu parceiro que é hoje feitor.

— Eu quero escutar, tia Balbina, se bem que vosmecê deve estar zangada comigo pelo que se deu naquele dia de manhã no terreiro.

— Balbina não se zanga com o galho de maricá, cheio de espinhos, que atiraram no caminho, e espetou o pé da negra. Fidélis ia ferir Balbina como o galho de maricá.

— Bem contra a minha vontade, eu juro por Deus.

— A cobra que largou a casca, prosseguiu a feiticeira, nem por isso perde o veneno. Outras escamas novas vêm-lhe cobrir o corpo e ela continua a seguir a sua vida. O senhor não despediu o feitor para sempre e pode trocar Manuel João por outro. O mal fica do mesmo feitio.

— Qual! não é assim, não, tia Balbina; o senhor está contente com o serviço.

— Tolo! o branco muda de pensar como a mangueira muda de folhas. O demônio anda nos olhos das filhas do agregado como o canto da coruja que adivinha morte. Quem sabe se é na casa grande, quem sabe se é na senzala do cativo. Fidélis é preto e o branco terá sempre má fé com ele. E preciso ganhar a amizade e o respeito do seu senhor.

Ponderando que as moças não deviam afastar-se por muito tempo de Antonica para conversarem com ela e ajudá-la a mover-se, Motta Coqueiro quis que Balbina continuasse no casarão, e a preta foi incumbida da lavagem da roupa e dos trabalhos da cozinha.

Francisco Benedito e seu filho voltaram ao trabalho do embalsamento, ao qual reuniu-se mais um novo empregado, Faustino Silva.

Homem de má nota nos arredores, Faustino guardava entretanto o aprumo do respeito diante do capitão Motta Coqueiro, a quem dava mostras da maior consideração.

Filho do lugar, esteve por longos anos fora dele por ter sido condenado a 20 anos de galés, por um assassinato.

Madrugava-lhe ainda a mocidade quando cometeu esse crime, e a convivência de celerados, combinada com a própria índole, converteu-lhe o coração numa pedra lascada e arestosa, cujo contato feria, ou ao menos escoriava.

Robusto e varonil, com quarenta anos de semi-ociosidade e de vida gargalhada na ignomínia da grilheta, e depois nos requebros dos fados, Faustino era um desses produtos comuns da ignorância, que tanto abundam pelos sertões.

Lia-se-lhe no rosto trigueiro, cercado por uma grossa barba negra, nos olhos mal-encarados, a torpeza de sua alma, e todos que o conheciam terminavam as suas apreciações acerca do novo trabalhador, dizendo: aquilo sempre é homem que mata os outros por dinheiro.

Tal era Faustino, segundo dizia o povo, que muitas vezes, que o maior número das vezes, exagera os defeitos do indivíduo.

Um irmão de Faustino, o Bento Silva, contava a seu respeito uma passagem romanesca.

Uma noite, à hora da revista, em uma das fortalezas do Rio de Janeiro, tocou-se a rebate pela fuga de um dos condenados.

Pôs-se tudo em atividade para efetuar-se a sua captura imediata, mas todo o esforço malogrou-se.

Os escaleres expedidos seguiram todos na direção da terra, da parte que ficava mais próxima à fortaleza, mas o preso mais atilado seguiu em direção oposta. Nadou ao largo da baía.

Só pela madrugada conseguiu pôr pé fora das ondas, mas estava salvo. Ninguém o perseguiu, e ele pôde embarcar como marinheiro a bordo de uma escuna, que partia para Macaé.

Aí despediu-se do navio, e internou-se para Macabu, seu torrão natal, onde levava a vida de trabalhador.

Entre Faustino e Francisco Benedito manteve-se a reserva que há sempre entre indivíduos, que reciprocamente se conhecem.

Nenhum deles gozava de boa fama, porém cada um considerava-se melhor do que o outro, e tinha escrúpulos na familiaridade.

Francisco Benedito nunca, por deferência ao menos, convidou o seu companheiro para ir à sua casa, fato que, ofendendo profundamente o desalmado Faustino, fazia com que ele dissesse quando falava-se no agregado:

— Aquilo é um cachaça; um dia eu parto-lhe os ossos e mais ao magarefe do filho. Vai tudo raso; porque eu não gosto que me torçam o focinho.

Mas apesar da recíproca antipatia, os homens harmonizavam durante o trabalho, e isto bastava.

Na casa do agregado ficavam apenas as mulheres. Para espairecer da funda hipocondria que lhe ia minando a existência, Mariquinhas costumava sair à hora da sesta e ir sentar-se com a sua costura à sombra de uma árvore que ficava perto.

Ai estava guardada pelo movimento das pessoas de casa e podia dar de mão ao temor que tinha de poder ser outra vez assaltada pelo feitor.

Um dia, porém, foi surpreendida justamente pela pessoa a quem queria evitar a todo o transe.

A voz do feitor plangente e submissa, buscando rodeios namorados, veio abalar-lhe a apatia íntima em que vivia.

— Ainda não me perdoou, sá Mariquinhas.

A moça não respondeu, mas abaixou ainda mais a cabeça, e pôs-se a cantarolar entredentes.

As suas feições tinham, porém, tomado um acento solene — a gravidade do pudor ofendido, e era bem fácil compreender a causa desta mudança.

Mariquinhas amava sinceramente o feitor. Dera-lhe as primícias imaculadas dos seus sonhos dos quinze anos, bando louro de miragens a entrançar-se em coréias festivas para desfazer-se afinal nos vapores róseos de um anelo indefinível, que lhe dominava o coração enchendo-o de um sussurro longínquo de saudades sem causa, de anseios sem objeto. Fizera das faces trigueiras de Manuel João o horizonte do seu viver modesto, e imaginara-se muitas vezes na sua casinha de sapê, a estender no terreiro a roupa de trabalho ou o seu fato domingueiro ao lado da camisa de morim, que se lhe apertava contra os seios, opressa pelas barbatanas do seu vestido.

À tardinha iria esperá-lo à porta, ou a meio caminho para acabar num beijo um sustozinho que se lhe ia alevantando com a aproximação da noite.

Custar-lhe-ia tanta felicidade, talvez, o desafeto de seus pais, porque o seu amante era homem de cor, e pobre; mas tudo isso compensar-lhe-ia o seu amor.

Um coração feminil vive de tanta quimera aos quinze anos!

Esse feixe facetado e iriante de ilusões desatou-o brutalmente o feitor na noite em que, acicatado pela lubricidade, três vezes covarde, atirou-se como fera esfaimada sobre a candura, o amor e a fraqueza de Mariquinhas.

Ao acordar do pesadelo atroz daquela noite, em vez dos sonhos inocentes em que se balouçava, Mariquinhas só pôde desde então ver dentro em sua alma um pugilato medonho entre o amor e a dignidade.

Tanto bastou para que os ciúmes veementes do ex-feitor se reacendessem num incêndio devastador. Então passou-lhe pela razão desvairada um argumento criminoso, que lhe explicava o afastamento e o ódio de Mariquinhas.

Antonica tinha tratado núpcias com o vendeiro; tinha-a visto dar ao seu companheiro as mais claras provas de afeto na sempre lembrada noite de Santo Antônio, tão cheia de doçuras para ele; e não obstante o ex-feitor via a noiva do seu amigo acobertar-se com a noite para entrar sozinha na casa grande.

Quem poderia desconvencê-lo de que igual cena não era representada pela preferida de sua alma, causa de todos os dissabores que lhe entristeciam agora a existência?

Esporeado pelo desejo de vingar-se de Motta Coqueiro, o ex-feitor correu até o casarão, mas em vez de bater à porta quedou estatelado.

Neste homem tão malvado quanto apreensivo, a covardia excedia a todos os defeitos morais, que o convertiam em um ente execrando.

Ponderou talvez quão tremenda era a odiosidade que o seu passo ia provocar e recuou diante dele, sem lembrar que, atenta à idéia que fazia da visita da moça à casa grande, era um perjúrio o seu silêncio.

Não foi só para o ex-feitor que a visita de Antonica teve uma interpretação pouco lisonjeira; o próprio Motta Coqueiro deu-lhe uma explicação injusta.

Recordando-se das informações que acerca da família de Francisco Benedito lhe foram ministradas por Fidélis, o fazendeiro viu apenas no ato de Antonica um ardil vergonhoso para que o agregado pudesse continuar a residir no casarão.

Naturalmente atencioso para com todos, Motta Coqueiro foi entretanto desabrido para com Antonica, e sem dar crédito aos protestos da moça, que se desfazia em prantos e desculpas, concluiu por dizer-lhe:

O seu pai faz muito mal em pô-la a serviço de seu pouco juízo; eu não sou o homem que ele pensa. Pode dizer-lhe que se serviu de maus recursos. Estes são para o Viana, o Sebastião e o Manuel João. Arrependido estou eu de ter consentido que ele viesse para as minhas terras; bem razão teve o Dr. Manhães. Isto já passa de escândalo e eu vou acabar de uma vez.

A visita foi pouco demorada e só alguns minutos haviam decorrido depois que Manuel João assistiu a entrada de Antonica, quando viu-a sair soluçando.

O zeloso amante retirou-se então para casa, e, sem poder explicar o que vira, perguntava a si mesmo se não desvairava num pesadelo. Um recado, que muito cedo lhe foi transmitido pelo moleque Carlos, veio tirá-lo da ansiedade em que se achava.

Mariquinhas convidava-o a ir imediatamente encontrá-la, enquanto não havia quem os visse. Ela esperava-o por detrás das casinholas dos fundos da senzala.

O ex-feitor correu prontamente e com efeito aí encontrou Mariquinhas, graças à tática da tia Balbina; o que, porém, não pôde gozar foi a efusão de afetos com que o desgraçado contava.

A cólera irrompeu-lhe erriçada e brutal, e Mariquinhas seria por ele estrangulada, se um socorro inesperado não o impedisse.

Fidélis apareceu de súbito no momento em que espumando, como um cão hidrófobo, Manuel João puxando pelas tranças de Mariquinhas, fê-la tombar em terra.

O preto não disse uma palavra, mas, vibrando vigorosamente o cabo do rebenque sobre os punhos do agressor, conteve-o na sanha feroz.

O cobarde deitou a fugir pelo campo do sítio.