Mulheres illustres do Brazil/Clara Camarão

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CLARA CAMARÃO


 

A historia de qualquer das antigas Provincias tem a sua physionomia especial.

A de Pernambuco, nas brancas folhas do passado, quando ainda disputavam os estrangeiros um pedacinho do seu solo, em cada linha conta um episodio notavel, sendo poucos os lugares que não fossem baptisados com o sangue dos heróes.

Não fallemos mais em Duarte Coelho Pereira, nem na sanguinolenta guerra entre os Cahetês, nem na triumphante alliança dos Tabajáras, nem da expulsão dos francezes da Ilha de Itamaracá, nem de D. Luiz das Roxas ao vir substituir a Mathias de Albuquerque, o qual, deixando a Bagnuolo nas Alagôas com as suas guerrilhas, marcou como limite do dominio hespanhol o rio S. Francisco.

Não lembremos uma por uma as brilhantes paginas da historia pernambucana, nem fallemos das noites suaves de luar que se emmolduram no quadro poetico dos rios, cruzando as verdes campinas, nem dos edificios da actualidade, nem da grande civilisação de agora... Cabe sómente alliar o simples nome de uma mulher à redempção da aquatica cidade e de quem se guarda o nome de Clara, esposa do indio Poty, que se tornou conhecido por Antonio Felippe Camarão.

Diz a tradição, que tão amiga era delle que o não deixava nem mesmo na guerra, apezar de não combater a seu lado, por lhe ser isso prohibido pelos costumes da sua tribu.

Tinha todas as virtudes da mulher honesta e todos os vicios dos seus antepassados.

Vimol-a entre as emigradas, sujeitando-se áquella terrivel situação.

Habituada como estava a dormir ao relento, a manejar o arco, a ver sacrificar o inimigo, não obstante já estar civilisada, comtudo olhava rancorosa para o hollandez, que fêl-a passar tão ruins momentos, através de climas inhospitos.

Chegára então ao Recife, com poderoso contingente, o principe João Mauricio de Nassau[1].

Depois de ardua tarefa, os hollandezes incendiaram Olinda e voltaram para Porto Calvo, onde o exercito esmorecia.

Clara então achou que devia romper com os preconceitos concedidos á mulher, e, de accordo com meia duzia de destemidas senhoras, insufladas de patriotismo, montam a cavallo e eil-as à frente dos pelotões.

O marido olhou-a surpreso; os capitães, esperançados; os soldados, com mais animo.

Junto ao seu Poty, ella dirigia-lhe palavras animadoras, quando, para vergonha, a capitulação estava prestes a consumar-se...

«Pusilanimes, gritou-lhes: segui-me e a victoria será nossa.»

Ancia enorme lia-se no semblante de Felippe Camarão, ao passo que ella, altaneira como o anjo do combate, brandia a espada com furor, ensopava-a no sangue inimigo.

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Tanto bastou para que os nossos patricios se animassem.

O leão ergueu a coma; terrivel rugido acordou os ares... os valentes manejavam briosos e intemeratos as espadas... o combate encarniçado de homem contra homem, ultrapassava as raias da bravura, emquanto com o olhar incendido de santo ardor, cabellos soltos aos ventos, incitava-os: «Avante!... avante!... bradava ella.»

Venceram...

Os inimigos debandaram, e Henrique Dias apezar de ter uma mão cortada, com a esquerda fazia prodigios.

No furor da conquista, elle não sentia dôres, emquanto Poty seguia a sua mulher, que, ao invocar o Deus dos Christãos, só se lembrava dos filhos, emquanto cahiam corpos, confundia-se o sangue, aterrorisavam-se os gestos e 0 hollandeza recuar, a recuar, ante aquelles vultos tão debeis, mas tão estoicos, que, n’aquella melindrosa situação, tornavam-se outras tantas Joannas d’Arcs brazileiras, impulsionadas pela chamma de amor da patria.

Após o triumpho, já que victoriosos estavam os seus irmãos, Clara como creatura sensivel, sem a nevrose que a impillira, recolheu-se ao silencio. Estava de novo alli a mulher, que vive pelo coração e que, sem estar nesse elemento, entre as rudezas da guerra, acha-se deslocada da sua posição na humanidade.

Por este acto de bravura, o rei de Portugal concedeu-lhe o titulo de Dom e a seu marido o habito de Christo.

Voltou para a tranquillidade do lar onde, em silencio sobre o assumpto, abrio os braços à familia que necessitava dos seus carinhos e dos seus conselhos.

En 1648, depois da celebre batalha dos Guararapes, em que os heróes de Pernambuco fincaram a flammula da sua liberdade, da sua independencia, feliz, por ter completado a obra que tão caro lhe custou, morreu o cavalheiro Anionio Felippe Camarão, sobrevivendo-lhe Clara a quem os historiadores chamam — «A Bradinarte brazileira.»



  1. O principe fez prosperar muito Pernambuco, já levantando palveiro, já pontes sobre os rios, transformando o actual Campo de S. Antonio n’um magnifico pomar.