Mundo da Lua/68
As garças.
ABRO a janella. Que paizagem! Céu, serra e valle. Céu — gaze de purissimo azul translucido. Serra — a Mantiqueira, rude muralha de saphira. Valle — o do Parahyba, tapete sem ondulações que lhe enruguem o plaino.
Ao longo do valle singra uma pinta branca, vôo lento de giz sobre a imprimadura de anil.
Garça! Reconheço-a logo pela amplidão do vôo. Que maravilha o vôo da garça por manhã assim! Neve sobre azul...
Subito...
— O bando!
Vinham em bando alongado, ora a erguer-se uma, ora a baixar-se outra, estas ganhando a deanteira, aquellas atrazando-se. Passam a kilometro da minha janella, tão nitidas que lhes percebo o afflar das asas. Mas...
— Outro bando! E outro, atrás!
E outro bem ao longe!...
Jamais vi tantas, e em tão formoso quadro. Montavam o rio. Emigravam. Passavam. Passaram... E deixaram-me com a alma tonta de belleza, a sonhar mil coisas, a rever o lindo vôo de cegonhas que Machado de Assis evoca — as cegonhas que das margens do Illyssus partiam para as ribas africanas...
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
