Noções Elementares de Archeologia/VII

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Noções Elementares de Archeologia por Joaquim Possidónio Narciso da Silva
Capitulo VII: Estylo do renascimento


Estylo do renascimento[editar]

Chama-se Renascimento, a arte que voltou a tomar as fórmas antigas da architectura, como se a arte tivesse ficado paralysada durante a era ogival ou roman.

O estylo ogival, que percorrêra os diversos periodos de aperfeiçoamento e de generação, chegava então ao seu termo, durante o segundo quartel do seculo XV. A arcada traçada por tres pontos ficava abandonada no XVI, para se reproduzir com a volta inteira, que igualmente fôra antes posta de lado pela introducção da ogiva desde o seculo XII: portanto, uma extraordinaria revolução ia pois operar-se na architectura.

As guerras dos francezes na Italia em tres successivos reinados, levaram a flôr da nobreza áquelle paiz, e ahi recebeu ella o gosto de tudo, que o renascimento italiano produzira nas artes e nas letras; o genio de innovação e reforma que tanto agitava a republica, não sómente os artistas, mas tambem os theologos, preparára os espiritos para esta grande mudança.

Porém, a architectura chamada do Renascimento não foi geralmente empregada nas construcções religiosas do XVI seculo. A fórma da ogiva tinha recebido para estes edificios uma especie de consagração, e muito tempo depois da adopção do estylo classico para as construcções civis, fôra preferida depois para os monumentos religiosos, e até do seculo XVII se encontram exemplos do emprego da ogiva. Na verdade, estava então o estylo ogival privado dos seus ornamentos, mostrando grande pobreza decorativa; apparecia apenas o esqueleto do antigo estylo; porém a ogiva era ainda usada sómente para as janellas e arcadas.

Poderiamos citar centenares de igrejas edificadas n'este estylo, quando o do Renascimento ostentava já todo o seu brilho nos palacios acastellados e nas construcções civis.

Como quer que fosse, as construcções do Renascimento foram mais civis que religiosas: isto é, construiram-se n'este estylo menos igrejas que palacios e casas.

Architectura religiosa[editar]

Plano das igrejas

O plano das igrejas do seculo XVI foi pouco mais ou menos o mesmo que no seculo antecedente.

Monumentos

As almofadas e frizos, as pilastras e os outros membros architectonicos foram cobertos de grande profusão das imitações do reino animal e vegetal. Genios representando amor, figuras diversas, muitas de phantasia, se entrelaçavam em contornos caprichosos; porém sempre em combinações graciosas que foram chamadas arabescos, denominação extravagante, porque os arabes proscreveram a natureza animada das suas obras de imitação.

A igreja de Semur offerece-nos magnificos arabescos. Os arabescos, para nos servir d'este termo improprio, que tem prevalecido, eram imitação das decorações a fresco que se acharam em muitos monumentos antigos, e que se vêem ainda hoje nas galerias e abobadas sombrias dos banhos de Tito, em Roma.

Janellas

Muitas vezes as janellas eram de volta perfeita, e sem cruzetas de pedra; as portas e arcadas igualmente tinham a fórma semicircular.

Figura 265

A janella, que representamos, foi tirada da igreja de S. Pedro de Caen, apresentando o estylo do Renascimento mais bem caracterisado, não sómente na sua fórma, mas igualmente nos seus accessorios (contrafortes, pilastras, campanariosinhos, candelabros, etc., etc.), nas figuras, nos modilhões, os quaes formam o remate; e nos entablamentos com balaustrada que corôa o edificio. Esta balaustrada com os seus graciosos entrelaçados e com as figurinhas nuas, reproduzem um dos typos d'este genero mais elegantes do XVI seculo.

Do mesmo modo que no seculo XII, uma architectura de transição se formou quando deixaram o arco ogival: apparecia outra que tornava a usar a volta inleira, resultando d'ahi um estylo mixto pelas combinações das fórmas classicas com os ornamentos do seculo XV. A volta perfeita da architectura romana, ostentava-se então coberta de vistosos enfeites do estylo ogival, e a ogiva ligava-se aos arabescos e frontões antigos.

A janella da igreja de-la-Ferté-Bernard (França) dá-nos um exemplo d'este mixto architectonico, apresentando-nos divisões no estylo do Renascimento, no meio de uma grande ogiva lavrada com molduras no estylo do seculo XV: pag. 280. [fig. 266]

Abobadas

Figura 266: Uma janella da igreja de la Ferté-Bernard

N'esta época, as abobadas conservam a fórma ogival, porém tendem a baixar a sua elevação, e por vezes são de volta perfeita; os arcos ramificam-se, vendo-se cobertos de ornatos as abobadas pendentes, como se observa nas da igreja de Saint Étienne-du-Mont (França), de que damos a gravura, e cuja construcção, principiada em 1517, não estava concluida em 1563.

Figura 267: Igreja Saint-Étienne-du-Mont
Figura 268

Muitas igrejas ruraes, e até outras de maiores dimensões, tinham no seculo XVI, unicamente abobadas imitadas com madeira, e como estes forros cheios de obra de talha são importantes pela sua construcção, seria conveniente fallarmos d'elles; tinham como nos edificios civis da mesma época, collocadas as vigotas sobre a grossura das paredes, ao que chamam freixaes, e os pontaes formando a ogiva ou a volta perfeita.

Estes eram firmados sobre vigas transversaes, chamadas linhas. O pau de fileira era sustentado de distancia em distancia por peças de madeira, penduraes, erguendo-se verticalmente das linhas até ao tecto de forma abobadada.

O forro que occultava os curvos e formava o contorno apparente da abobada era coberto de pinturas, e as juntas das linhas ficavam dissimuladas por fasquias ornamentadas.

Altares

O estylo do Renascimento mudou tambem, como deve suppôr-se, o systema da ornamentação dos altares, e as fórmas antigas foram modificadas.

Existem ainda, em algumas igrejas ruraes, retabulos em madeira do seculo XVI, no genero d'aquelle de que apresentamos a gravura na pag. 284 [fig. 269], encimado com docel horisontal. Não será nunca demasiado, recommendar-se a conservação dos antigos altares, e se esse livro chegasse ás mãos dos reverendos parochos, rogar-lhes-hiamos que tivessem isto em attenção, embora, infelizmente, estejam sempre dispostos a destruir tudo o que é antigo, como aconteceu ultimamente ao bellissimo tecto da igreja matriz de Maravilla, em Santarem, para o substituir por trabalho moderno de mau gosto e sem nenhum estylo!

Alguns retabulos representam a vida de Jesus Christo, ou a do orago da igreja, figurando em uma serie de composições cujas figurinhas são modeladas com delicadeza extraordinaria e bom colorido.

Muitos retabulos de madeira com figuras do seculo XVI, ficaram desprezados e escondidos nos forros das igrejas, depois de terem sido substituidos por pessimas pinturas, e ahi ficarem até que os especuladores os descobrissem para separar as peças umas das outras, e vendel-as por bom preço inculcando-as como objectos raros.

Figura 269: Altar de madeira do seculo XVI

Pias baptismaes

Appareceram pias baptismaes, novamente collocadas, sendo cobertas de folhagem e cercaduras. Em algumas, a circumferencia é dividida em quatro almofadas encaixilhando composições religiosas executadas em baixo-relevo. Outras, como esta de que dâmos exemplo, foi ornada com medalhões. Porém, as pias baptismaes com fórma de calix hemispherico são sempre em maior numero.

Figura 270: Pia baptismal do seculo XVI

Tumulos

Dispondo-se n'essa época de bellos materiaes (marmores, alabastros, porphyros, etc.), que os artistas no renascimento podiam empregar nas construcções de limitadas dimensões, facilitando ás esculpturas a maior delicadeza na sua execução, os haviam preferido para os monumentos funebres. Os tumulos destinados aos papas, cardeaes, aos reis, principes e nobres, construidos na Italia, França, e Belgica, são n'este genero o que ha de mais sumptuoso e primoroso.

As pedras das campas tiveram igualmente mudanças nas fórmas dos desenhos gravados ao traço, como na architectura. A volta perfeita, durante o curso do seculo XVI, substitue a ogiva pela arcada que moldura a effigie do finado; estas molduras eram muito simples, comparadas com as que se faziam antes; as regras e a ornamentação das duas architecturas eram tão diversas, que não podiam deixar de produzir de outra maneira essa influencia.

Architectura civil[editar]

Os primeiros ensaios do estylo do Renascimento, no qual a multiplicidade das ordens era um dos principaes caracteres, appareceram em França em 1498, e em Portugal em 1559, sendo o principal exemplo d'este estylo no reino a capella-mór da igreja dos Jeronymos, em Belem.

Esta architectura desenvolveu-se muito em França, como se vê no augmento dos palacios de Blois e de Chambord, chegando á perfeição pelo talento do archiecto Philibert de Lorme e o esculptor Germain Pilon. Posto que continuasse a florescer com mais ou menos acceitação, até que Perrault, no reinado de Luiz XIV, seguiu o exemplo dado por Miguel Angelo, delineando a fachada do palacio do Louvre, tendo portanto abandonado a multiplicidade das ordens e as minudencias do periodo antecedente, empregando n'aquelle edificio uma unica ordem, em maior escala e em estylo mais ousado.

Figura 271: Casa no estylo do Renascimento, em Périgueux
Figura 272: Escada no estylo do Renascimento, em Périgueux
Figura 273: Janella no estylo do Renascimento, no castello de Puy-Guilhem (Bordogne)
Figura 274: Fragmento d'uma casa de madeira, em Lisieux

Na Inglaterra, o estylo da Renascença obteve voga muito depois que em França. Durante o longo reinado da rainha Isabel conservaram sempre nos seus palacios e villas, o estylo gothico, na mesma época em que já o esculptor João Goujon igualava quasi a execução do antigo nos ornamentos do pateo do palacio do Louvre. Foi sómente em 1608, que appareceram em Oxford (Inglaterra), os primeiros ensaios do estylo da Renascença no portal da sua Universidade, tendo as cinco ordens sobrepostas.

Figura 275: Fragmento d'uma casa de madeira, em Caen

Uma casa que se conserva em Périgueux (França), d'este estylo [fig. 272], em que se notam as janellas das trapeiras, que se destacam sobre o telhado, são de uma notável elegância.

Figura 276: Chaminé do seculo XVI

Outro exemplo, na mesma localidade, em que se vê o corrimão de cantaria e as abobadas pendentes, ornadas de figuras em baixo-relevo, patenteiam a importancia que se dava no seculo XVI a esta parte dos edificios, grav. da pag. 288 [fig. 272]; assim como o desenho d'uma vistosa janella do palacio de Puy-Guilhem (França), grav. da pag. 289 [fig. 273].

As casas construidas de madeira são algumas vezes mais cheias de ornamentações que as outras edificadas de cantaria; e os entalhadores d'aquella época desenvolveram superior talento na execução de lavores dos madeiros que molduravam as janellas, as trapeiras e os prumos dos cunhaes.

Ahi está a fachada de uma casa de Lisieux [fig. 274], cidade que possue ainda bellos exemplos em architectura do seculo XVI; assim como outro fragmento, representado pela gravura de pag. 291 [fig. 275], da decoração de uma casa de Caen. Estes dois exemplos, tomados ao acaso entre mil, bastarão para demonstrar como o estylo do Renascimento ficou assignalado sobre a madeira nas construcções civis do seculo XVI.

Muitas vezes os grandes aposentos se distinguem por decorações especiaes e por magnificas chaminés. Finalmente, as cristas, as espigas construidas em chumbo ou barro cozido que coroavam os telhados, apresentam no seculo XVI extraordinaria elegancia e excessiva altura.

Figura 277: Castello de Chevillon

Architectura militar[editar]

Os castellos do Renascimento, posto que cercados de fossos cheios d'agua e muitas vezes guarnecidos de torres, todavia já não são praças fortes na verdadeira accepção da palavra, mas elegantes habitações, nas quaes tinham em vista sómente conservar as apparencias feudaes. É o que facilmente se comprehenderá examinando a perspectiva do castello de Chevillon (França), pag. 293 [fig. 277], cujas torres, que se reflectem na agua, não mostram absolutamente nada de fortaleza que podesse resistir aos ataques da infanteria e muito menos da artilheria.

A architectura dos castellos, além das muralhas que os cingiam e os seus fossos cheios de agua, confunde-se muito com a architectura civil; as salas, as escadas, as galerias não são menos ornadas do que os palacios e as casas das camaras; os arabescos e as molduras são até, ás vezes, prodigalisadas com excesso, como indica a grav. da pag. 295 [fig. 278].

Grande numero de castellos compõe-se simplesmente de um pateo quadrado, rodeado de construcções ruraes, no fundo do qual está collocada a habitação senhorial; as janellas d'estas casas quasi sempre foram depois mudadas ou alteradas, mas conservando quasi intacta a torre com os angulos cortados que encerra a escada, e que occupa o meio do edificio: estas fidalguias, como eram designadas ás vezes, são bastante communs nos campos.

A França possue ainda centenares de notáveis castellos do seculo XVI, mui conhecidos dos touristes. Lembram os typos mais grandiosos e magestosos das construcções d'esta ordem. Limitar-nos-hemos a apresentar dois lindos monumentos do Renascimento: taes como, o castello de Azay-le-Rideau, distincto pela sua rica ornamentação, e o de Bernesq, pag. 296 [fig. 279] e 297 [fig. 280].

Em seguida apresentamos um especimen dos modestos solares de que ha grande numero edificados no paiz.

Figura 278: Ornamentação do castello do Chantelou (França)

Os castellos, construidos de madeira, continuaram a ser notaveis no seculo XVI, nas localidades onde esse material de construcção estava mais em uso; com torres nos angulos, defendidos por fossos cheios d'agua, e lendo cantaria só na base. Até o pombal senhorial, que fazia parte do recinto, era tambem de madeira.

Figura 279: Vista geral do castello d'Azay-Rideau (Indre-et-Loire)
Figura 280

Para entrar no pateo d'estes solares rodeados de agua, era preciso geralmente atravessar um torreão desligado das outras habitações, tal como aquelle que existe ainda em Beuvillers, do qual em seguida damos a gravura.

Figura 281: Vista geral do castello de Bellou (Calvados)

Estando os castellos menos expostos que as casas urbanas ás mudanças e reconstrucções, teem por este motivo conservado melhor os madeiramentos elevados, e os espigões de chumbo ou de barro cosido.

Figura 282: Entrada do castello de Beuvillers

Para vermos qual a importancia d'este ornato, copiamos aqui o especimen de um espigão do Renascimento da antiga fabrica de Prédauge, pag. 300 [fig. 283], proximo de Lisieux: ha ainda muitas outras n'esta localidade, não obstante o subido preço que os adelos offerecem para os obter, mas o atilado juizo dos seus possuidores não sacrifica de certo os objectos d'arte ao vil interesse.

Figura 283: Fabrica de Prédauge (França)