No Lumiar

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No Lumiar
por Almeida Garrett
Poema publicado em Fôlhas Caídas . Escrito antes de 1853, publicado em 1859.


Era um dia de Abril; a primavera
Mostrava apenas seu virgineo seio
Entre a folhagem tenra; não vencêra,
De todo, o sol o misterioso inleio
Da névoa rara e fina que extendêra
A manhan sobre as flores; o gorgeio
Das aves inda timido e infantil ...
    Era um dia de Abril.
E nós iamos lentos passeando
De vergel em vergel, no descuidado
Socêgo d'alma que se está lembrando
    Das lutas do passado,
Das vagas incertezas do porvir.
E eu não cansava de admirar, de ouvir,
Porque era grande, um grande homem devéras
Aquelle duque - alli maior ainda,
Alli no seu Lumiar, entre as sinceras
Bellezas desse parque, entre essas flôres,
A qual mais bella e de mais longa vinda
    Esmaltar de mil côres
Bosque, Jardim, e as relvas tan mimosas,
Tan suaves ao pó - muito ja cançado
De pisar alcatifas ambiciosas,
De tropeçar no perigoso estrado
    Das vaidades da Terra.
E o velho duque, o velho homem d'Estado,
    Ao fallar dessa guerra
Distante - e das paixões da humanidade,
    Sorria malicioso
Daquelle sorrir fino sem maldade,
Que tan seu era, que, entre desdenhoso
E benevolo, a quanto lhe sahia
Dos labios dava um cunho de nobreza,
    De razão superior.
E então como elle a amava e lhe queria
A esta pobre terra portuguesa!
Velha tinha a razão, velha a experiência,
    Jovem só esse amor.
Tam jovem, que inda cria, inda esperava,
Inda tinha a fé viva da inocencia! ...
    Eu, na força da vida,
Tristemente de mim me invergonhava.
- Passeavamos assim, e em reflectida
Meditação tranquila descuidados
Iamos sós, já sem falLar, descendo
Por entre os velhos olmos tam copados,
Quando sentimos para nós crescendo
Rumor de vozes finas que zumbia
Como enxame de abelhas entre as flôres,
E vimos, qual Diana entre os menores
Astros do céu, a forma que se erguia,
Sobre todas gentil, d'essa extrangeira
Que se esperava alli, Perfeita, inteira
No velho amável renasceu a vida
E a graça fácil. Cuidei ver o antigo
O nobre Portugal que ressurgia
    No venerando amigo;
E na famosa dama que sorria,
    O génio da subida,
Rara e fina elegância que a nobreza,
O gôsto, o amor do Bello, o instinto da Arte
Reune e faz irmãos em toda a parte;
    Que affere a grandeza
Pela medida só dos pensamentos,
Do stylo de viver, dos sentimentos,
Tudo o mais como futil desprezando.
Pensei que a saudar o velho illustre
    Em seus últimos dias
E a despedir-se, até Deus sabe quando,
De nossas praias tristes e sombrias,
Vinha esse génio... Tristes e sombrias,
Que o sol lhe foge, lhe escorece o lustre,
E onde tudo que é alto vai baixando ...
O triste, o que não tem sol que o aqueça
Sou eu talvez - que, à míngua de fé, sinto
O cerebro gelar-me na cabeça
Porque no coração o fogo é extinto.
    Ele não era assim,
Ou, sabia fingir melhor do que eu!

Como o nobre corcel que envelheceu
Nas guerras, ao sentir o aureo telim
E as armas sóbre o dorso descarnado,
Remoça o garbo, em juvenil meneio
    Franja de espuma o freio,
E honra os brazões da casa em que foi nado.

Nunca me hade esquecer aquele dia!
Nem os olhos, as fallas, e a sincera
Admiração da bella dama inglesa
    Por tudo quanto via;
O fruto, a flor, o aroma, o sol que os gera,
E esta vivaz, vehemente natureza,
    Toda de fogo e luz,
Que ama incessante, que de amar não cança,
    E continua produz
Nos frutos o prazer, na flor a esperança.

Alli as nações todas se juntaram,
Alli as varias línguas se falaram;
    A Europa convidada
Veio ao festim - não ao festim, ao preito.
Vassalagem rendida foi prestada
    Ao Tallento, à belleza,
A quanto n'alma infunde amor, respeito,
Porque é deveras grande; - que a grandeza
    Os homens não a dão;
    Põe-na por sua mão
    N'aquelles que são seus,
    Nos que escolhem - só Deus.
Oh! minha pobre terra, que saudades
D'aquelle dia! Como se me aperta
O coração no peito co'as vaidades,
Co'as miserias que ahi vejo andar álerta,
Á sôlta apregoando-se! Na intriga,
Na traição, na calúnia é forte a liga,
É fraca em tudo o mais...
    Tu, socegado
Descansa no sepulcro; e cerra, cerra
Bem os olhos, amigo venerado,
Não vejas o que vai por nossa Terra.
Eu fecho os meus, para trazer mais viva
    Na memória a tua imagem
E a d'essa bella Inglesa que se esquiva
    De nós entre a folhagem
Dos bosques de Parthenope. Cançado,
    Fito nesta miragem
Os olhos d'alma, em quanto que arrastado,
    Vai o tardio pé
    Por este que inda é,
Que cedo não será, bem cedo - em mal!
    O velho Portugal.