No mes de janeyro

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No mes de janeyro
por Fernão da Silveira, coudel-mor
Poema publicado em 1516 no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.


Do coudel-mor a anrryque d'almeida, que lhe mandou pedyr novas das cortes que el Rey dom joam fez em monte moor o novo, sendo prynçype, o ano de setenta e sete sendo el Rey seu pay em frrança.

No mes de janeyro,
e ano de ssete,
na era que mete
dez setes primeyro,
em moor monte novo,
os povos s'ajuntam,
rrespondem, preguntam
myl cousas de provo.

Se o que se qua passa
quereys la sabe-llo
nam seja escassa
a maão eescreve-lo.
Mas poys o letreyro
ponto nam herra,
contara primeyro
o estado da terra.

A dous o vermelho
nom val mais o branco,
a dez o coelho,
perdiz faz derranco.
A vinte a gualinha,
de graça mil furtos,
doze turdos curtos
aquela chynfrynha.

A treze a çevada,
farelos a sete,
mas sua o topete
sobyndo a calçada.
Com paão de rreal
punhada ao gato,
tres oytos o pato
e dous o açaqual.

Tambem taverneyro
da a quatro vynagre,
mas he moor mylagre
quem qua tem dinheiro,
Ca conta que leo
de peros rroyns
me dam sete e meo,
por boons tres quatryns.

A duzea e mea
se calça um pee,
o quarto d'um mee
val seys para a çea.
O qu'ee testemunha
da ora passada
faz huum som de cunha
de cabo d'enxada.

A dez a ferragem,
mas cravos nam tem,
nam sofre estalajem
caber hy nynguem.
Pousadas defende
quem deos nam mantenha,
de huum asno a lenha
por nove se vende.

Val rredea d'uvas
a çynco na praça,
mas nam ha hy luvas
nem quem vo-las faça.
O gentill do çydram
a tres brancos se frisa,
rreall de sabam
nam lava camisa.

Mas estas deyxemos
quedar de seu cabo,
e sem dar mays cabo
das cortes contemos.
Ouvy o que dyguo,
preponde notar,
que novas contar
vos cuydo d'amyguo.

Lyxboa que sonha
no cardealado,
moordomo noronha
tambem deputado;
Hy he portymam,
alvyto, penela,
beryngell com ela
que faz o sermam.

Aquestes despacham
o muyto e o pouco,
latam ficou rrouco
mal pelo que acham,
Que o trato de qua
e o modo da fala,
se ss'ele entam cala
fala-lo-ha laa.

Com barba de mouro,
toucar rrecoveyro,
hum zum zum de besouro
em som lastimeyro.
Quem macho alcança
se ha por bençam,
mil falas de frança
por este vyram.

Raynha, fernando
que dizem que vem
com fama lançando
d'ocres que ja tem.
E vem muy per vista
em calça sevylha,
nom he maravylha
querermos dar vysta.

Pois la namorados
nam compre dormyr,
faze-me rrelyr
cantar em dytados;
e poys la vem damas,
por amor das vossas,
convem ferir chamas
nas azes mays grossas.

Leyxar pyastram
fundar em loudel,
e seja cossel
valente rryncham.
Qu'emgeyte carreyra
quere-o vos tall
levand'a camall
que cubra calveyra.

E poys vosso olho
todo ysto ve bem,
as vossas convem
lançar em rremolho;
Mas fyca a fadygua
com quem a tever
e horaçam dygua
melhor quem souber.

C'os proves pedidos
dous deram soomente,
vassalos metydos
la vaam de maa mente.
Dynheiro de praça
lhe daa crelezya
e quer fydalguya
que lanças rrefaça.

E com isto querem
favores comuuns,
peroo huuns e huuns
partyr-se ja querem.
Porque se lh'alargua
o seu desembarguo,
o gasto lh'amargua,
a mays nam m'alarguo.

Fym.

Se pagar quereys
o que vos escrevo
por mym beijareis
as mãos a quem devo.
O mays nam vos tarde
as damas de zelo
nem tudo al orde-lo,
ca vos hy vos arde.