No trem de ferro

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
No trem de ferro
por Paulo Setúbal
Poema publicado em Alma Cabocla


Manhã. Sol claro... A olhar pela vidraça,
Enquanto corre o trem, flamante e rubro,
Vou contemplando a vigiliana graça
Desta paisagem matinal de outubro.

Linda aquarela: uma rechã molhada,
Capuavas ralas, fiapos de neblina,
E a cicatriz vermelha duma estrada
Golpeando o dorso verde da colina.

Graves, manchando os ermos da planura,
Pastam, ao longe, sossegadas vacas;
Vai pelo azul, japonizando a altura,
Um revoar gralhante de baitacas.

Por tudo esplende uma alegria clara,
Um sol de festa, um ar de juventude...
E nisto, um silvo: o trem de ferro pára
Numa longínqua estaçãozinha rude.

Abrindo o carro, ali, nessa distância,
— Fundo sertão que eu toscamente pinto,
Surge um casal... É um par todo elegância
Maneiras educadas, ar distinto.

Ela, vinte anos. Loira. Um loiro terno.
Mimo e frescura. Graça e gentileza.
Com seu costume, dum xadrez moderno,
Dava-se uns ares de touriste inglesa.

E tudo nela, esvoaçante e leve,
Tinha feitiços, atrações mordentes:
Desde o recorte da boquinha breve,
Até o veneno dos seus olhos quentes.

Ele, moço e grisalho. Um tipo grave,
Severa palidez, gesto polido,
Com esse aspecto, encantador e suave,
De homem precocemente envelhecido.

E errava nele qualquer coisa, algo
De bem sereno, algo de bem disposto,
Que punha um tom mais fino e mais fidalgo,
Na romântica alvura do seu rosto.

E quando o trem partiu, numa voragem,
Por entre a poeira, e sol, e a estrada infinda
Contou-me um companheiro de viagem
A história desse par... Que história linda!

Ele, rapaz do tom, dos mais mundanos,
Herdeiro duma tia filantropa,
Deixara a Pátria, no verdor dos anos,
Pelas sonhadas tentações da Europa.

E andou, moço e feliz, numa doidice,
Catando sensações de terra em terra.
E invernos de Paris, verões de Nice,
Céus de Madri, nevoeiros de Inglaterra,

Por toda a parte, o coração em fogo,
Ele esbanjara a mocidade ardente!
E em Monte Carlo, muita vez, no jogo,
Gastando como um príncipe do Oriente,

Brilhara nesses antros rosicleres,
Cheios de esnobes, de peitinhos brancos,
Onde, com elegância, entre mulheres,
Perdia sempre alguns montões de francos.

Enfim, cansado e farto, já grisalho,
— Sombra roída pelos desenganos,
Tornou um dia à Pátria, ao verde galho
Onde se abrira a flor dos seus vinte anos.

Trazia nalma, como chaga horrenda,
Um grande mal que urgia de remédio:
E foi buscar, nos ócios da fazenda,
Um bálsamo eficaz para o seu tédio.

E os cafezais, e as espraiadas roças,
Que um sol fecundo alegremente doura;
E o céu tão nosso, e as árvores tão nossas,
E ares de campo, e cheirosos de lavoura,

— Todo esse bucolismo, ingênuo e casto,
Essa poesia dum sabor tão rude,
Tonificou-lhe o espírito já gasto,
Fez-lhe brotar as rosas da saúde!

Ora, naqueles sítios, entre o viço
Daquela terra nova e estonteadora,
Havia, nesses tempos, um feitiço,
Que enfeitiçava tudo: a professora!

Com sua blusa de cambraia e renda,
Mimo e frescura, graça e gentileza,
Era o mais lindo enfeite da fazenda,
A flor mais fresca dessa redondeza.

E ele... Não digo mais! Pois, certamente,
O epílogo da história dá na vista:
Ficara o moço, como toda a gente,
Louco e perdido pela normalista!

E um dia... Céus! Que dia alviçareiro:
— Girândolas, foguetes, mastro erguido,
Baile na tulha, festa no terreiro,
E o velho casarão todo florido!

E em meio aos vivas, ao folgar bulhento
Daquela gente humilde e campesina,
— Um pároco abençoava o casamento
Do fazendeiro e da professorinha...

Assim, naquela rústica paisagem,
Enquanto o trem pela campina voa.
Contou-me um companheiro de viagem
A história desse par... Acharam boa?