O "Pássaro"

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O "Pássaro"
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


A informação que a viúva Barroso Viana tinha recebido de Minas era de uma nova desgraça na família: a Rosita, sua sobrinha, filha do seu irmão Rafael e órfã de pai e mãe, havia sido seduzida por um rapaz de Juiz de Fora, o qual, além de casado, era escandalosamente protegido pela política. Ao ter notícia do caso, os tios, as tias, os parentes, todos, haviam repudiado a menina, como indigna. Uns, a queriam abandonada na rua, recusando-lhe o pão e o nome. Outros, alardeando generosidade excessiva, preferiam mantê-la num asilo, encarcerando-a aí para o resto da vida. E foi quando chegou ali a carta da tia Lalá, a viúva do coronel Barroso Viana, pedindo-lhe que lhe mandassem a pequena, que ela, aqui, se responsabilizaria pelo seu destino.

Ao beijar a sobrinha, a linda viúva, condescendente como toda gente "chic" da cidade, sentiu, logo, por ela, uma grande ternura. Aqueles grandes olhos negros e confiantes, aquele sorriso bom, em que se banhavam uns dentes miudinhos e iguais, aquele rosto pálido, de criança sofredora — mostraram de pronto, à sua perspicácia feminina e apurada, que podia fazer daquela primavera florida o consolo honesto do seu outono. Nada de violências, nada de opressão. Eram mulheres, as duas, e podiam entender-se perfeitamente...

No dia seguinte ao da chegada, conversavam, já, como confidentes, e Rosita contava, ingênua, o seu infortúnio:

— Foi o Dr. Georgino, um rapaz alto, moreno; bonito rapaz, — dizia.

E descrevia o episódio:

— Eu tinha ido passar o dia na casa de minha tia Elisa, quando, na volta, ele começou a me acompanhar, falando-me quase junto da orelha... Aquilo foi me embebedando, me atordoando. De repente, quase eu tenho uma vertigem; apoiei-me no braço dele, ele chamou um carro, e levou-me para uma casa que era uma beleza, de luxo. E foi lá, então, que ele me desgraçou...

— Completamente? — indagou, interessada, a viúva, passando-lhe a mão fina, e alva, pelo cabelo negro, ondulado, luzidio.

— Completamente! — confirmou Rosita, muito vermelha, escondendo o rosto nas mãos.

Uma onda de piedade inundou o coração compassivo da formosa senhora.

— Sossega, minha filha, sossega, — tranqüilizou-a, bondosa.

E, com um sorriso brejeiro, apertando-lhe a cabeça de encontro ao seio forte:

— O que passou, passou...