O Bobo/XII

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O Bobo por Alexandre Herculano
Capítulo XII: A mensagem


Alguns instantes mais que o trovador se houvera demorado no jardim pênsil lhe tornariam impossível o sair de Guimarães. Abul-Hassan tinha tido a prevenção de comunicar ao mestre dos engenhos, a seu irmão, o tornadiço, como ele lhe chamava na ausência, o lugar onde o devia encontrar no caso de ocorrer algum sucesso inesperado.

O árabe-cristão ouvira a ordem do alferes-mor para se dobrarem as vigias e roldas, lançar-se uma quadrilha ao campo, e proibir-se a saída do burgo a todos, apenas se fizesse o sinal de acabar o banquete. Então o tornadiço correra ao arco escuro do jardim pênsil, e relatara tudo isto a Abul-Hassan. O silvo do árabe, que tão cedo soara para Dulce, procedera desta causa, e por isso o cavaleiro tivera de atravessar, correndo à rédea solta, o recinto do castelo e do burgo. Passando a cárcova das barreiras, ainda vira dobrar o número dos atalaias nocturnos, e sentira o tropear dos cavalos rodeando os andaimos das barbacãs. Para se não tornar suspeitoso, depois de sair junto ao cubelo da couraça, caminhara lentamente em volta da povoação e, fazendo um largo rodeio, viera outra vez meter-se no caminho que levava à margem do Avicela, onde o esperava o seu pajem.

Ainda ele galgava no valente ginete uma senda agre e tortuosa na selva contígua ao vau do Madroa, quando sentiu a pouca distância, do lado oposto do rio, um estrupido de cavalos, os quais pareciam caminhar por entre os choupos e salgueiros que povoa-

vam tanto uma como outra margem. Pelo ruído que faziam facilmente se conhecia que era uma numerosa cavalgada. Falavam em voz alta, e pareciam seguir um caminho contrário ao seu, aproximando-se do vau, enquanto o cavaleiro se afastava dele. Talvez o perseguiam. Este pensamento, que lhe ocorreu, o fez parar subitamente. Apesar de conhecer que mal poderia resistir àquele tropel de homens de armas, não receava um combate nocturno; mas era-lhe necessário evitar toda a demora em volta ao arraial do infante, a fim de poder cumprir o que prometera a Dulce. Assim, descavalgando do ginete e levando-o de rédea manso e manso, aproximou-se da ribeira junto da qual o arvoredo e mato eram mais frondosos e bastos, afastando-se da senda por onde forçosamente os almogaures haviam de passar no caso de transporem o vau.

No momento em que o trovador guerreiro chegou a uma balça, na qual era quase impossível ser descoberto, à luz cintilante das estrelas as armas dos que vinham ladeando o rio reluziram na margem fronteira. Pareciam altercar entre si e, como a corrente era estreita, Egas, que se conservava calado e quedo, pôde facilmente escutá-los.

Aquele tropel de homens de armas era uma quadrilha, ou piquete, como hoje diríamos, que Garcia Bermudes enviara para rodear exteriormente as barreiras e obstar à fuga dos que pudessem esquivar-se à vigilância dos atalaias e roldas. A disputa que o trovador ouvira tinha-se alevantado entre o coudel dos besteiros de cavalo e um cavaleiro seguido de dez lanças, o qual acaudelava toda a quadrilha.

— A la fé, dom coudel - bradava o cavaleiro -, que não deveis passar o vau. Já vo-lo disse: a ordem do alferes-mor é que rodeemos o burgo e o castelo a dois tiros de besta das barreiras. Segui-me, ende, se vos praz.

— Não praz, por Sant'Iago! - replicava o coudel. - Tenho andado em mais de vinte arrancadas, tanto em hoste como em cavalgada; tenho saído trinta vezes de castros e burgos, em apelido contra mouros e leoneses: nunca vi lançar esculcas para vigiarem sagas de mesnada ou barbacãs de castelo. Que Satanás?! O infante não vem, creio eu, de Guimarães, mas para lá se encaminha: ao menos assim no-lo dizem. E não havemos de atalaiar bosques e pacigos além Madroa?

— Fu, fu, perro e vilão que és! - murmurou o cavaleiro. - Vedes vós - prosseguiu ele falando com os seus homens de armas - como vai ancha e crescida a ousadia dos peões? - Culpa tem quem fia deles cavalo, saio e cervilheira como a uma nobre lança. Ai, meu mano - acrescentou dirigindo-se de novo ao coudel -, digo-vos eu que não passareis o vau.

— Somos homens de rua - retrucou o coudel encolerizado -, burgueses por nossa carta de privilégio e bom foro; e a nenhum de nós pode ser dito fu, fu, perro e vilão sem vilta e afronta de vinte soldos de pena. Aqui está Pedro Amarelo, mestre armeiro; Roderico Spassandiz, mestre ferreiro; Sandamiro Eiriz, mercador, e eu, Gavino Pais, que valho por qualquer deles. Tende tento, senhor cavaleiro, com vossas falas, que podeis amanhã ouvi-las mais pesadas da boca dos alvazis.

— Estais bravo, dom coudel! - acudiu o cavaleiro, que porventura não achara inteiramente infundada a advertência do besteiro. - Foi por chança que o disse. Deus me livre de doestar tão honrados burgueses! Mas dir-vos-ei agora porque não passaremos o vau. Sabeis o que vai de novo?

A esta pergunta ninguém respondeu: mas homens de armas e besteiros pararam, apinhando-se à roda do que falava.

— Vai, que entre os ricos-homens da corte há quem pense em fazer deslealdade à nossa mui excelente rainha, e o nobre conde de Portugal e Coimbra quer talvez colhê-los às mãos.

— Mas porque credes vós isso? - interrompeu o coudel.

— Porque o alferes-mor me jurou que eu expunha a cabeça se alguém passasse por nós vindo do burgo, que não fosse logo tomado, ou se me afastasse além das barreiras um tiro de balista. Que significam semelhantes disposições, senão o intento de colher às mãos os desleais?

— Isso agora é outro falar - rosnou o coudel. - Em tal caso... é claro...

A quadrilha havia seguido de novo sua rolda, e o trovador só pôde perceber mais essas poucas palavras truncadas.

Encostado a uma árvore com a rédea do ginete no braço, o cavaleiro ficou embebido em cogitações. Um acaso lhe dera a conhecer a impossibilidade de pôr por obra os seus intentos, se ainda na seguinte noite durassem as precauções de que ouvira falar. Mas donde haviam nascido as suspeitas que despertaram a tal ponto os receios do conde de Trava? Tê-lo-iam reconhecido através do seu disfarce? Fora acaso ouvida a conversação que tivera com o Lidador? Perdia-se num mar de conjecturas, e sucessivamente imaginava e desfazia mil alvitres para salvar Dulce, para cumprir sua promessa e ver coroado seu amor; mas no meio da agitação em que o lançara a nova que escutara, baralhavam-se-lhe cada vez mais os pensamentos tumultuosos.

Lembrou-se de voltar a Guimarães, mas nem já, provavelmente, a entrada era fácil, nem ele podia deixar de se dirigir ao arraial do infante a dar conta da missão de que se encarregara. Assim, posto que vivamente inquieto, cavalgou de novo, e breve se achou fora da extensa selva que naquela época se estendia ao norte de Guimarães.

Enquanto neste famoso castelo e no seu burgo se passavam os acontecimentos cuja narração procurámos fazer ao leitor nos antecedentes capítulos, o fogo da revolta estendia-se largamente por quase todos os distritos do condado de Portugal. O campo de Afonso Henriques aumentava diariamente com as bandeiras das beetrias e concelhos, com os homens de armas dos coutos e honras dos mais ilustres ricos-homens, e com muitos alcaides de castelos do próprio infantático ou regalengo de D. Teresa. Assim, ao passo que o conde Fernando Peres chamava os cavaleiros de Galiza e das outras províncias de Espanha para se defender, a guerra ia mudando o seu carácter de luta civil em luta de independência, e fazendo que o espírito de individualidade nacional se desenvolvesse e fortificasse.

A pouco mais de três léguas de Guimarães, Egas encontrou os esculcas e almogaures de D. Afonso. O arraial alvejava sobre os visos de uma serra com os arrebóis da manhã e as armas polidas cintilaram em breve aos primeiros raios do sol oriental. O cavaleiro, tendo-se dado a conhecer, atravessou por entre as tendas e chegou ao pavilhão do moço príncipe, que já se achava em conselho com o arcebispo de Braga e com outros prelados e barões.

Aí deu conta do que pudera alcançar das disposições tomadas pelo conde de Trava para a defesa, do grande número de lanças estrangeiras juntas em Guimarães, e das fortificações, acrescenta das às já tão formidáveis do castelo, e alevantadas de novo em roda do burgo.

— Mas essas torres e engenhos - dizia ele - não creio tenhamos de as combater, porque se diz que Fernando Peres pretende vir connosco a lide em campo; e a avultada soma de cavaleiros que se acham em Guimarães e o pequeno número de peões e besteiros são disso evidente sinal.

— E Gonçalo Mendes da Maia? - interrompeu o velho aio Egas Moniz. - Porque se conserva um dos mais esforçados e poderosos filhos-d'algo de Portugal entre os inimigos do infante? Viste-o? Alcançaste acaso saber quais eram seus intentos?

— Os seus intentos foram o impedir a guerra entre homens da mesma fé e da mesma linhagem: hoje a sua lança será a primeira que se enriste nessas lides que Deus quis fossem inevitáveis.

Estas palavras proferia-as um cavaleiro que afastara o reposteiro da entrada da tenda e, cruzando os braços, aí ficara parado.

Era o senhor da Maia.

O sobressalto foi geral. O trovador correu para ele e, depois de o abraçar, tomando-o pela mão o fez aproximar do infante.

— Eis aqui - disse - um dos vossos mais leais ricos-homens. No momento do perigo ele não podia faltar-vos.

— Ao menos não foi por culpa do filho de Pedro Froilaz - interrompeu o Lidador sorrindo. - Se por inesperado meio a Virgem me não salvara, a estas horas a minha morada seria a masmorra do Castelo de Guimarães, e a minha esperança de liberdade a tumba que dentro em pouco me levaria o cadáver a soterrar na galilé do Mosteiro de D. Muma.

O súbito aparecimento de Gonçalo Mendes, e ainda mais as suas palavras, até certo ponto ininteligíveis, excitaram vivamente a curiosidade do infante e dos seus prelados e cavaleiros. O nobre barão satisfez essa curiosidade narrando, não só o que se passara no ajuntamento da cúria, mas tudo o que depois sucedera, e como o bobo o salvara e a Fr. Hilarião.

— O pobre Dom Bibas - concluía ele - cumpriu à risca o que prometeu. O vílico da honra e solar da Maia e os vinte cavaleiros meus acostados vieram sucessivamente ajuntar-se connosco à saída do subterrâneo. O bobo lhes deu passagem pouco a pouco, e até vi com espanto que o último me conduzia a destro o meu cavalo de batalha. Deixando os homens de armas acompanhando o virtuoso monge, adiantei-me à rédea solta em busca do arraial de meu senhor o infante, para lhe dizer: "Guimarães será vossa logo que vos aprouver!".

— Sabia que vos encaminháveis por esta parte, posto que mais longe vos supunha. Agora - acrescentou voltando-se para o arcebispo -, reverendíssimo padre, por mercê mandai um de vossos palafréns ou mulas de corpo, em que possa cavalgar o mui honrado abade do Mosteiro de D. Muma que, velho e trôpego, mal vencera até aqui, a pé, os montes e vales, algares e serranias.

— Não terá de vir tão longe - respondeu o senhor de Cresconhe -, com o favor de Deus, espero que nós todos vamos bem depressa encontrá-lo.

O bom do aio era de opinião que sem tardança se acometesse Guimarães, e a preponderância de que gozava no conselho fazia-lhe tomar muitas vezes o seu parecer singular por uma resolução comum e definitiva.

— Por essas palavras - replicou o Lidador - vejo que a vossa intenção é fazer encurvar brevemente ao redor das altas muralhas de Guimarães as bestas e arcos, e as manganelas arrojarem contra os eirados de suas torres as pedras e as setas de fogo, se, o que não creio, o lobo cerval de Galiza deixar que o cerquem no covil em que veio aninhar-se neste nosso Portugal. Mas se quiserdes ouvir-me...

— Sabemos, sabemos o que nos ides dizer - atalhou o arcebispo de Braga D. Paio, que, émulo do velho Egas Moniz de Riba de Douro, não perdia ocasião de mostrar a sua influência, e a capacidade política e militar de que era dotado. - Com cem homens de armas e no silêncio da noite abrir-nos-eis, sem combate, senão as barreiras e portas do real castelo, ao menos o caminho dele.

Aludindo à passagem subterrânea por onde o Lidador se tinha salvado, o guerreiro prelado pronunciara com ênfase particular a palavra caminho.

— Perdoai-me, reverendíssimo padre, outro era o meu pensamento. Na escala arvorada aos muros, sob a vínea ou gato rolando para eles, nas trevas nocturnas salteando de improviso pelo subterrâneo os cavaleiros do conde de Trava, ou finalmente em recontro de lide campal, estou prestes para combater a todo o transe. Mas é em nome da paz que ainda falarei uma vez...

O infante, que até então estivera calado, ouvindo os seus optimates, pôs-se em pé e, com as faces abrasadas, apertou o punho da espada e bradou:

— A paz!? Oh, isso nunca!

— A paz - insistiu o Lidador com firmeza - eu a pedi mil vezes na cúria de vossa mãe. Que o conde vos ceda a herança de meu senhor D. Henrique; que D. Teresa ceda a seu nobre filho o senhorio desta terra de cavaleiros!... Que um mensageiro vá em nome do infante e dos filhos-d'algo de Portugal propor estas condições, antes de as oferecermos nas pontas das lanças. Ainda uma vez o requeiro, em que pese aos que ousarem acusar-me de desleal, porque guardo o esforço para o momento das obras, e desprezo o que se revela em feros e ameaças antes do combater.

O rico-homem olhou em roda com ar altivo. Alguns dos barões do conselho cravaram a vista no chão.

— Mas lembrai-vos - atalhou Afonso Henriques - de que a memória de muitos anos de opróbrio só pode derriscá-la o sangue correndo abundante em campo de lide.

— E vós, senhor, não vos esqueçais de que também nessa primeira batalha o sangue que há-de correr será dos vassalos e dos peões, cujo príncipe sois: o sangue de cristãos, e não de agarenos e ismaelitas.

O infante ficou por algum tempo mudo: depois fitou os olhos no seu velho aio, que lhe fez um leve sinal de assenso.

— Seja, pois, como pretendeis - disse ele por fim - ainda que tenho por certo será uma bem inútil mensagem. Ao menos meu primo el-rei de Leão, que tão contrário se nos mostra, saberá que procurei evitar a guerra.

— E quem há-de ser o mensageiro? - perguntou o arcebispo de Braga, D. Paio, que no gesto carrancudo dava sinais de estar mais longe do espírito do Evangelho que o duro e impetuoso Gonçalo Mendes.

A narração que fizera o Lidador convertera em certeza as desconfianças que o trovador concebera de alguém o haver conhecido na corte, apesar do seu disfarce. O coração palpitava-lhe ao lembrar-se da promessa que fizera a Dulce, e de que, ainda quando lhe restasse esperança de poder voltar a Guimarães sem cair nas mãos do feroz conde de Trava, nenhuma podia ter de salvar a sua amante: a proposição do Lidador lhe reanimou, porém, as quase mortas esperanças. Adiantando-se, pois, disse:

— Se ao ilustre infante aprouver, serei eu quem vá a Guimarães com essa mensagem. Pouparei ao conde de Trava o trabalho de por mais tempo me procurar debalde.

— Bem dito, meu colaço! - bradou o infante. - É de esforçado cavaleiro ir afrontar o inimigo entre os seus homens de armas; mas não consinto que vos arrisqueis de novo à cólera dos estrangeiros. Outrem irá agora em vosso lugar.

O trovador aproximou-se então de Afonso Henriques e voltando-se para os prelados e barões:

— Depois de três anos de ausência - disse com visível agitação - voltei a Portugal para servir na paz ou defender na guerra o filho de meu senhor. Como o ceifeiro que abandonasse a seara quando as espigas se lhe ofereciam mais bastas e formosas, assim eu abandonei as pelejas da Terra Santa quando mais douradas esperanças me prometiam larga colheita de glória. Fi-lo por ser leal a meu preito e à fraternidade das armas. Dizei vós se o infante de Portugal me deve por isso algum prémio.

Afonso Henriques fez sinal de silêncio estendendo a mão para o senhor de Cresconhe, que ia talvez repreender seu primo desta intempestiva preten são, e respondeu:

— Não precisais de requerer aos filhos dos bem-nascidos que julguem vossa demanda, como é foro de Espanha. Confesso o direito que tendes, e juro que a recompensa será qual vós a pedirdes.

— Ouvistes, senhores prelados e barões? - interrompeu Egas com viveza. - É um juramento de infante. O galardão que peço é que me deixeis seguir esta aventura da embaixada. Não podeis já refusar-mo.

— Seja assim pois - replicou o infante -, e a mãe de Deus e o santo apóstolo das Espanhas vos guardem do perigo, que voluntariamente buscais, meu bom cavaleiro.

Neste momento um pajem veio anunciar a chegada ao arraial de cem vilões da beetria de Britiande, oitenta frecheiros e vinte besteiros, cujos brados selvagens de guerra começavam a soar ao longe como um trovão rebombando no vale. O infante correu a vê-los enquanto os do conselho instruíam o trovador da forma em que devia propor sua mensagem. Ao perpassar, Afonso Henriques apertou com força a mão de Egas, e disse-lhe em voz baixa:

— Egas, eu não quero perder-te! lembra-te do teu irmão de armas.

Daí a pouco tempo, o cavaleiro voltava para Guimarães, montado em mula robusta, e seguido de um pequeno pajem, que cavalgava o seu ginete de batalha, e de seis acobertados trajando saios e cervilheiras, tudo segundo o costume daquela época. Qual seria o tumulto de afectos que passavam pela alma do mancebo, facilmente suporá o leitor. Todos eles se resumiam num só: o de tornar a ver Dulce. Era este o único ponto que descobria no horizonte do seu futuro, e era este unicamente que ele queria descortinar. O resto pertencia à ventura.

Entretanto nos paços de Guimarães o conde de Trava rugia de fúria e pesar. Pelo quarto de modorra fizera acometer por cem cavaleiros a pousada do Lidador e de alguns outros filhos-d'algo de Portugal, que supunha adictos ao moço Afonso Henriques. A morada, porém, do senhor da Maia estava deserta. Sabendo tal nova ele próprio correra ao Mosteiro de S. Salvador, ou de D. Muma, resolvido a arrancar com tormentos da boca do velho abade a revelação do lugar onde o rico-homem se escondera. Era impossível que Gonçalo Mendes houvesse escapado com os seus por meio dos vigias e roldas, e porventura Fr. Hilarião lhe dera acolheita. Com admiração dos monges e dobrado furor do conde a cela do reverendo abade estava deserta. Fernando Peres corria com olhos chamejantes as vielas estreitas e tortuosas do burgo. Na desesperação que o ralava, o seu primeiro ímpeto fora mandar decepar as cabeças a alguns simples cavaleiros que haviam sido presos, e muito a custo o generoso alferes-mor impedira este acto de inútil barbaridade. Burlado até na esperança de colher às mãos o audaz primo do senhor de Cresconhe, Egas, que ele supunha em Guimarães, e para achar o qual tinham sido vãs as mais severas pesquisas, a raiva do nobre conde de Portugal e Coimbra subira a indizível grau de violência.

O desfecho do drama, que se preparava havia tanto tempo, estava próximo: a tempestade acastelada no horizonte ia estourar enfim. Pela madrugada daquela mesma noite alguns espias chegaram trazendo a nova da aproximação da hoste inimiga. Segundo eles diziam a sua força era principalmente de peões: os concelhos tinham armado os homens livres e os de criação ou servos que habitavam nos povoados principais e nos alfozes ou aldeolas comarcãs. Os senhores de coutos e honras haviam na verdade trazido alguns besteiros de cavalo e de pé: mas as peoadas concelheiras formavam o grosso da mesnada, e entre ricos-homens, infanções, escudeiros, cavaleiros de soldo ou acostados, e almogaures, os homens de armas eram muito menos numerosos no arraial do infante que dentro dos muros e barreiras do castelo e burgo de Guimarães.

Fora sobre este resultado da revolta que Garcia Bermudes e Fernando Peres tinham alevantado desde o princípio a máquina das suas traças guerreiras. Longe de esperarem o ser acometido atrás de muros e barbacãs, onde se lhes tornava inútil a superioridade da cavalaria, convinha-lhes acometer os contrários em campo aberto. Aí a vitória parecia segura. Naquele tempo os peões, ou infantaria, chusma indómita - rude e mal armada -, era tida em nenhuma conta, e nos arrolamentos dos exércitos quase que não se contava senão com o número das lanças.

A certeza obtida enfim daquelas circunstâncias, que podiam produzir para o infante a desonra e a morte no momento em que chegava às cercanias de Guimarães no meio de sonhos de ambição e de esperanças de glória, mitigou algum tanto o furor do conde de Trava. Posto que ainda carrancudo, passeando na sala de armas rodeado dos seus cavaleiros, ele dispunha tudo para sair a campo. Pelas escadas dos paços viam-se descer e subir os pajens levando peças de armaduras lisas e polidas, outros arrastando os pesados saios e cervilheiras de camalho, tecidos de grossa malha de ferro, para se distribuírem pelos homens de armas de soldo e pelos cavaleiros peões. A signa real da bela infanta se plantara diante das barreiras; os balções variegados dos cavaleiros de solar e linhagem enfileiravam-se já após essa bandeira para um e para outro lado; e os atambores ou timbales mouriscos, adoptados entre os cristãos, começavam a soar pelo burgo convocando a gente de guerra em volta de seus pendões. Os rostos dos duros homens de armas de Galiza, Aragão e Castela, ferozmente alegres, sorriam com a esperança da festa de sangue que nesse mesmo dia porventura os aguardava.

No meio, porém, do nitrir dos cavalos, do redemoinhar do pó, do lampejar dos capelos ou elmos brunidos, do vozear dos cabos das quadrilhas, um som agudo e prolongado de buzina sobrelevou por cima de todo esse ruído. Vinha da orla do bosque vizinho do vau do

Madroa, e tirava-o um cavaleiro, seguido de um pajem e seis lanças, o qual se dirigia evidentemente a Guimarães, e com aquelas toadas parecia anunciar intenções de paz. Dois almogaures saíram a reconhecê-lo; e, depois de falarem com ele poucos instantes, voltaram dizendo ser o recém-vindo um filho-d'algo que da parte do infante trazia mensagem à mui excelente rainha e ao nobre conde de Trava.

Era Egas. Atravessando rápido a distância que medeava entre o castelo e o arraial, ele chegara, muito antes que o Sol subisse ao zénite, ao termo da sua viagem. O coração batia-lhe com força. Ainda talvez visse Dulce! Eis o pensamento a que se limitavam já suas esperanças, porque a missão de que se encarregara era terrivelmente arriscada. Durante o caminho fora que ele medira a extensão dos perigos a que se expusera; mas a imagem de Dulce varria-lhe da alma o temor. Jurara a seus pés voltar nesse dia: e, para não ser perjuro, que lhe importava afrontar a cólera do senhor de Trava e o ódio profundo que devia devorar o coração de Garcia Bermudes? E todavia a mensagem que trazia, mais de guerra que de paz, forçosamente havia de despertar aquela cólera, e a sua presença este ódio, a ponto que não era fácil prever qual seria o modo por que sairia do passo estreito em que se aventurara.

Ainda estas cogitações o agitavam, quando ao lugar onde esperava, fora das barreiras, a licença para se apresentar perante a rainha e o conde, chegou o pajem Tructesindo, que o leitor já conhece, e falou com os homens de armas que rodeavam a cavalgada dos recém-vindos. A entrada do burgo e castelo lhes era franqueada, e Fernando Peres esperava o trovador para ouvir sua embaixada. O cavaleiro atravessou então, seguido dos seus, a ponte levadiça da cárcova e, passando além da grossa cinta dos muros e torres do castelo, encaminhou-se para a sala de armas dos paços da bela infanta de Portugal.