O Cantador de Setúbal: Esboceto Literário

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O Cantador de Setúbal: Esboceto Literário
J. Leite de Vasconcelos, Carolina Michaelis de Vasconcelos, Joaquim de Vasconcelos
Alguns versos de w:António Maria Eusébio, o Calafate, extraídos de VASCONCELLOS, J. Leite de. O Cantador de Setúbal. Esboceto litterário. w:Setúbal: Typ. de J. L. Santos & C.ª, 1902, 1 fol., 8 p.

Separata da Homenagem ao Cantador, Setúbal, 15 de dezembro de 1902.

As notas são da obra referida.



Cantigas[editar]

1.ª parte: Pergunta[editar]

Mote[editar]

Com dinheiro de contadio
Ninguem a morte comprou,
Por ser fruto precioso
Que no mundo se pagou.

Glosa[editar]

De que serve a um avarento
Tanta riqueza e cobiça,
Se uma recta justiça
'Stá sempre em seu seguimento?
E' este um fatal tormento
Para quem se acha culpado:
Ser da justiça julgado
Sem aggravo nem appello,
Nem comprar o [1] seu zelo
Com dinheiro de contado.
Oh! justiceira sentença,
Que tudo á morte condemna,
Por ser a terrível pena
Que a Parca deu á nascença!
Homem que o contrario pensa
Nunca bem ajuizou:
Se a Parca o fio cortou
Não vale [2]prata nem ouro!
Nem c'o mais rico thesouro
Ninguem a morte comprou!
A vida é feste outonada,
Nunca tem muita doçura:
Quando está quasi madura,
P'la mão da Morte é cortada.
Depois da vida acabada,
Fica o corpo desditoso,
Medonho ... e pavoroso,
Como arvore denegrida
Q'inda chora pela vida,
Por ser fruto precioso.
O fruto que esta arvore deu
No mundo se pîos em venda:
Se o comprou a Morte hiorrenda,
Foi a Parca que o vendeu.
Até'qui disputei eu,
E agora perguntar vou
(se algum sabio me escutou,
Responda p'ra seu producto!):
Qual foi o mais caro fruto
Que no mundo se pagou?

2.ª parte: Pergunta[editar]

Mote[editar]

Foi a maçã da sciencia
O fruto que Deus prohibiu;
Só se pagou com a morte:
Bem cara a todos sahiu!

Glosa[editar]

Adão foi o que se via
Rei, senhor de todo o mundo:
Não tinha rival segundo,
Tinha tudo quanto q'ria.
Até Deus lhe apparecia
Com a sua omnipotencia:
No jardim da innoencia
Toda a ventura lhe deu;
Sómente o que não foi seu
Foi a maçã da sciencia.
Sem rival foi Satanás,
P'ra acabar co'a f'licidade,
Por ser da humanidade
Um inimigo sagaz:
Com a astucia perspicaz
A nossos paes seduziu,
Mas Adão não engoliu,
Ficou-lhe o nó na garganta,
Porque era a maçã sancta
O fruto que Deus prohibiu.
P'ra o nosso pai desgraçado
Nada mais lhe foi preciso
P'ra sahir do Paraiso,
A mil males condemnado,
A' morte sentenciado,
Por esta pena tão forte!
E toda a adversa sorte
Soffre Adão com paciencia,
Porque a desobediencia
Só se pagou com a morte.
O mundo todo se encheu
De uma glória vã...[3]
Por causa de uma maçã
Que nem toda Adão comeu,
Tudo o que é vivo morreu!
A' morte ninguem fugiu!
Se o fruto que Deus prohibiu
E' ferro que a todos mata...
Sendo a maçã tão barata,
Bem cada a todos sahiu!

Notas[editar]

  1. Elle dizia sem o; ainda assim fica errado o verso. Deve lêr-se com-pe-rar, como no canto.
  2. Isto é: Não vale nada.
  3. O Cantador pronunciava guloria, segundo a phonetica popular. Admittindo-se o hiato entre as duas primeireas syllabas, o verso, que apparentemente está falho, fica certo: de-u-ma gu-ló-ria-vã.