O Castelo de Faria

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O Castelo de Faria
por Alexandre Herculano
Conto publicado em Lendas e Narrativas.


A breve distancia da villa do Barcellos, nas faldas do Franqueira, alveja ao longo um convento de Franciscanos. Aprazivel é o sitio, sombreado de velhas arvores. Sente-se alli o murmurar das aguas e a bafagem suave do vento, harmonia da natureza, que quebra o silencio daquella solidão, a qual, para nos servirmos de uma expressão de Fr. Bernardo de Brito, com a saudade de seus horisontes parece encaminha e chamar o espirito á contemplação das cousas celestes.

O monte que se alevanta ao pé do humilde convento, é formoso, mas aspero e severo como quasi todos os montes do Minho. Da sua corôa descobre-se ao longe o mar, semelhante a mancha azul entornada na face da terra. O espectador colloeado no cimo daquella eminencia volta-se para um e outro lado, e as povoações e os rios, e os prados e as fragas, e os soutos e os pinhaes apresentam-lhe o panorama variadissimo que se descobre de qualquer ponto elevado da província de Entre-Douro-e-Minho.

Este monte, ora ermo, silencioso e esquecido, já se viu regado de sangue: já sobre elle se ouviram gritos de combatentes, ancias de moribundos, estridor de habitações incendiadas, sibilar de setas, e estrondo de machinas de guerra. Claros signaes de que ahi viveram homens; porque é com estas balisas que elles costumam deixar assignalados os sitios que escolheram para habitar na terra.

O castello de Faria com suas torres e ameias, com sua barbacan e fosso, com seus postigos e alçapões ferrados, campeou ahi como dominador dos valles vizinhos. Castello real da meia idade, a sua origem some-se nas trevas dos tempos que já lá vão ha muito: mas a febre lenta que costuma devorar os gigantes de marmore e de granito, o tempo, coou-lhe pelos membros, e o antigo alcacer das eras dos reis de Leão desmoronou-se e cahiu. Ainda no seculo dezesete parte da sua ossada estava dispersa por aquellas encostas: no seculo seguinte já nenhuns vestigios delle restavam, segundo o testemunho de um historiador nosso. Um eremiterio fundado pelo celebre Egas Moniz era o unico eccho do passado que ahi restava. Na ermida servia de altar uma pedra trazida de Ceuta pelo primeiro duque de Bragança D. Affonso. Era esta lagea a mesa em que costumava comer Salat-ibn-Salat, ultimo senhor de Ceuta. D. Affonso, que seguíra seu pae D. João I na conquista daquella cidade, trouxe esta pedra entre os despojos que lhe pertenceram, levando-a comsigo para a villa de Barcellos, cujo conde era. De mesa de banquetes mouriscos converteu-se essa pedra em ara do christianismo. Se ainda existe, quem sabe qual será o seu futuro destino?

Serviram os fragmentos do castello de Faria para se construir o convento edificado ao sopé do monte. Assim se converteram em dormitorios as salas de armas, as ameias das torres em bordas de sepulturas, os umbraes das balhesteiras e postigos em janellas claustraes. O ruído dos combates calou no alto do monte, e nas faldas delle alevantou-se a harmonia dos psalmos e o sussurro das orações.

Este antigo castello tinha recordações de gloria. Os nossos maiores, porém, curavam mais de practicar façanhas, do que de conservar os monumentos dellas. Deixaram por isso, sem remorsos, sumir nas paredes de um claustro pedras que foram testemunhas de um dos mais heroicos feitos de corações portuguezes.

Reinava entre nós D. Fernando. Este principe, que tanto degenerára de seus antepassados em valor e prudencia, fôra obrigado a fazer paz com os castelhanos depois de uma guerra infeliz, intentada sem justificados motivos, e em que esgotou inteiramente os thesouros do estado. A condição principal, com que se poz termo a esta lucta desastrosa, foi que D. Fernando casasse com a filha d’elrei de Castella: mas brevemente a guerra se accendeu de novo; porque D. Fernando, namorado de D. Leonor Telles, sem lhe importar o contracto de que dependia o repouso dos seus vassallos, a recebeu por mulher, com affronta da princesa castelhana. Resolveu-se o pae a tomar vingança da injuria, ao que o aconselhavam ainda outros motivos. Entrou em Portugal com um exercito, e recusando D. Fernando acceitar-lhe batalha, veiu sobre Lisboa e cercou-a. Não sendo o nosso proposito narrar os successos deste sitio, volveremos o fio do discurso para o que succedeu no Minho.

O Adiantado de Galliza, Pedro Rodriguez Sarmento, entrou pela provincia de Entre-Douro-e-Minho com um grosso corpo de gente de pé e de cavallo, emquanto a maior parte do exercito portuguez trabalhava ou por defender ou por descercar Lishoa. Prendendo, matando e saqueando, veiu o Adiantado até as immediações de Barcellos sem achar quem lhe atalhasse o passo; aqui, porém, saíu-lhe ao encontro D. Henrique Manuel, conde de Cêa, e tio d’elrei D. Fernando, com a gente que pôde ajunctar. Foi terrivel o conflicto; mas por fim foram desbaratados os portuguezes, cahindo alguns nas mãos dos castelhanos.

Entre os prisioneiros contava-se o alcaide-mór do castello de Faria, Nuno Gonçalves. Saíra este com alguns soldados para soccorrer o conde de Cêa, vindo assim a ser companheiro na commum desgraça. Captivo, o valoroso alcaide pensava em como salvaria o castello d’elrei seu senhor das mãos dos inimigos. Governava-o em sua ausencia um seu filho; e era de crer que, vendo o pae em ferros, de bom grado désse a fortaleza para o libertar, muito mais quando os meios de defensão escaceavam. Estas considerações suggeriram um ardil a Nuno Gonçalves. Pediu ao Adiantado que o mandasse conduzir ao pé dos muros do castello; porque elle com suas exhortações faria com que seu filho o entregasse sem derramamento de sangue.

Um troço de bésteiros e de homens d’armas subia a encosta do monte da Franqueira, levando no meio de si o bom alcaide Nuno Gonçalves. O Adiantado de Galliza seguia atraz com o grosso da hoste, e a costaneira ou ala direita, capitaneada por João Rodriguez de Viedma, se estendia rodeando o castello pelo outro lado. O exercito victorioso ía tomar posse do castello de Faria, que lhe promettêra dar nas mãos o seu captivo alcaide.

De roda da barbacan alvejavam as casinhas da pequena povoação de Faria: mas silenciosas e ermas. Os seus habitantes, apenas enxergaram ao longe as bandeiras castelhanas, que esvoaçavam soltas ao vento, e viram o refulgir scintillante das armas inimigas, abandonando os seus lares, foram-se acolher no terreiro que se estendia entre os muros negros do castello e a cerca exterior ou barbacan.

Nas torres os atalaias vigiavam attentamente a campanha, e os almocadens corriam com a rolda [1] pelas quadrellas do muro, e subiam aos cubellos collocados nos angulos das muralhas. O terreiro aonde se haviam acolhido os habitantes da povoação, estava cuberlo de choupanas colmadas, nas quaes se abrigava a turba dos velhos, das mulheres, e das creanças, que alli se julgavam seguros da violencia de inimigos desapiedados.

Quando o troço dos homens d’armas, que levavam preso Nuno Gonçalves, vinha já a pouca distancia da barbacan, os bésteiros que coroavam as ameias encurvaram as béstas, os homens dos engenhos prepararam-se para arrojar sobre os contrarios os seus quadrellos e virotões, em quanto o clamor e o chôro se alevantava no terreiro, onde o povo inerme estava apinhado.

Um arauto saíu do meio da gente da vanguarda inimiga e caminhou para a barbacan: todas as béstas se inclinaram para o chão, e o ranger das machinas converteu-se n’um silencio profundo.

“Moço alcaide, moco alcaide!—­bradou o arauto—­teu pae captivo do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento, Adiantado de Galliza pelo muito excellente e temido D. Henrique de Castella, deseja falar comtigo de fóra de teu castello.”

Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou então o terreiro, e chegando à barbacan, disse ao arauto:—­“A Virgem proteja meu pae: dizei-lhe que eu o espero.”

O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonçalves, e depois de breve demora o tropel aproximou-se da barbacan. Chegados ao pé della, o velho guerreiro saíu d’entre os seus guardadores e falou com o filho:

“Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é esse castello, que, segundo o regimento de guerra, entreguei á tua guarda quando vim em soccorro e ajuda do esforçado conde de Cêa?”

“É—­respondeu Gonçalo Nunes—­de nosso rei e senhor D. Fernando de Portugal, a quem por elle fizeste preito e menagem.”

“Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um leal alcaide é de nunca entregar, por nenhum caso, o seu castello a inimigos, embora fique enterrado debaixo das ruinas delle?”

“Sei, oh meu pae!—­proseguiu Gonçalo Nunes em voz mais baixa, para não ser ouvido dos castelhanos, que começavam a murmurar.—­Mas não vês que a tua morte é certa, se os inimigos percebem que me aconselhaste a resistencia?”

Nuno Gonçalves, como se não tivera ouvido as reflexões do filho, clamou então:—­Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do castello de Faria! Maldicto por mim, sepultado sejas tu no inferno, como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem nesse castello, sem tropeçarem no teu cadaver.”

“Morra!—­gritou o almocadem castelhano—­morra o que nos atraiçoou.”—­E Nuno Gonçalves cahiu no chão atravessado de muitas espadas e lanças.

“Defende-te, alcaide!”—­foram as ultimas palavras que elle murmurou.

Gonçalo Nunes corria como louco ao redor da barbacan, clamando vingança. Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros: grande porção dos assassinos de Nuno Gonçalves misturaram o próprio sangue com o sangue do homem leal ao seu juramento.

Os castelhanos accommetteram o castello: no primeiro dia de combate o terreiro da barbacan ficou alastrado de cadaveres tisnados, e de colmos e ramos reduzidos a cinzas. Um soldado de Pedro Rodriguez Sarmento tinha sacudido com a ponta da sua longa chuça um colmeiro incendiado para dentro da cerca: o vento suão soprava nesse dia com violencia; e dentro em pouco os habitantes da povoação, que haviam buscado o amparo do castello, pereceram junctamente com as suas frageis moradas.

Mas Gonçalo Nunes lembrava-se da maldicção de seu pae: lembrava-se de que o vira moribundo no meio dos seus matadores, e ouvia a todos os momentos o ultimo grito do bom Nuno Gonçalves:—­“Defende-te, alcaide!”

O orgulhoso Sarmento viu a sua soberba abatida diante dos torvos muros do castello de Faria. O moço alcaide defendia-se como um leão, e o exercito castelhano foi constrangido a levantar o cerco.

Gonçalo Nunes, acabada a guerra, era altamente louvado pelo seu brioso procedimento, e pelas façanhas que obrára na defensão da fortaleza, cuja guarda lhe fôra encommendada por seu pae no ultimo trance da vida. Mas a lembrança do horrivel successo estava sempre presente no espirito do moço alcaide; e, pedindo a elrei o desonerasse do cargo, que tão bem desempenhára, foi depôr ao pé dos altares a cervilheira e o saio de cavalleiro, para se cubrir com as vestes pacificas do sacerdocio. Ministro do sanctuario, era com lagrymas e preces que elle podia pagar a seu pae o ter cuberto de perpetua gloria o nome dos alcaides de Faria.

Mas esta gloria, não ha hoje ahi uma unica pedra que a atteste. As relações dos historiadores foram mais duradouras que o marmore.


  1. Roldas e sobreroldas eram os soldados e officiaes encarragados de rondarem os postos e atalaias.