O Engolidor de Sabre

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O Engolidor de Sabre
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


O grande acontecimento de Niterói naquela semana, fora a estréia, no teatro municipal, de uma companhia de variedades, em que o russo Miguel Boronoff, ilusionista mundialmente consagrado, realizava o milagre de engolir, à vista do público, um sabre de dois palmos e meio. Vestido sumariamente em uma roupa de meia, para impedir qualquer idéia de truque, o artista chegava ao meio do palco, apresentava à platéia uma bandeja com uma dúzia de sabres, para que os espectadores escolhessem um, e, desembainhando-o, a boca para cima, enfiava a lâmina, goela a dentro.

Naquela noite, porém, o teatro encheu-se como nunca. Não havia uma única cadeira vazia. E em uma destas, logo na primeira fila, estava o Manoelzinho Sampaio, o "almofadinha" de vinte e um anos, empoado como uma donzela, carminado como duas e nervoso como três.

Concluído o primeiro número, em que se havia exibido uma dançarina sevilhana ressoante de castanholas, chegou a vez de Miguel Boronoff, que, saudado por uma salva de palmas, começou, logo, o seu trabalho.

— Senores, — pediu o artista, na sua meia língua de russo nascido na Argentina, apresentando a bandeja com as armas: — senores, yo voy a comer este faca, hasta el cabo. Escojan usteds la faca a engolir!

Um cavalheiro da segunda fila escolheu um sabre de Marinha, grande, de dois palmos. Tirou-o da bainha, examinou-lhe a consistência da tábua da cadeira, repinicou-o na unha, e, entregando-o ao artista, esperaram, todos, emocionados, o sucesso do número.

Na sua cadeira, trêmulo, pálido como um morto, Manoelzinho Sampaio torcia as mãos, nervoso. Parecia que ele é que ia engolir o sabre. Miguel Boronoff tomou, porém, a arma, pôs a mão esquerda na cintura, lançou o pescoço para trás, abriu a boca para cima, suspendeu o braço direito à altura de meio metro do rosto, e descia-o, lento, com a lâmina em riste, quando o Manoelzinho deu um pulo da sua cadeira.

— Senhor, — pediu, branco de emoção, os olhos cheios d'água; — pelo amor de Deus!

E, aflito, súplice, torcendo as mãos, numa agonia:

— Engula a bainha primeiro... Sim?